C.4 Résolution du système
1.24 Combinaison d’un miroir parabolique avec un miroir sphérique
O espaço representado pelo casamento, dentro do Projeto, por si só, demonstra a presença de uma dimensão espiritual na perspectiva do PEPASF. Porém, apesar de ter essa dimensão espiritual, não segue uma orientação de determinada religião. Tanto assim que ateus e participantes de religiões muito distintas não se mostraram incomodados em participar. Mas, a valorização da dimensão espiritual cria espaço para que os estudantes se sintam à vontade para trazer reflexões, símbolos e orações de suas diversas religiões. A perspectiva da religiosidade, como expressividade espiritual ligada a uma religião específica (BOFF, 1999) e dimensão muito significativa para vários integrantes do PEPASF, é acolhida pelos participantes do Projeto como parte integrante dos valores e das crenças de seus membros. Não percebemos um direcionamento para alguma denominação religiosa específica por parte do coletivo do Projeto durante o período observado. Relacionado ao que se pôde acompanhar mais detidamente, vale destacar algumas orações, músicas e textos de conotação cristã, durante algumas reuniões e encontros, como elementos para a reflexão coletiva em dinâmicas de interiorização do grupo. Porém, essas iniciativas eram particulares e espontâneas dos próprios estudantes, e não, como encaminhamento pré-definido para as reuniões. Essa expressividade religiosa era considerada uma característica pessoal de cada um e respeitada por todos.
Mesmo sem esse direcionamento religioso, percebemos a expressão de religiosidade de alguns estudantes, como é o caso de uma jovem do Curso de Enfermagem que relata, em seu depoimento, o quanto se sentiu afetada em participar do grupo de apoio às gestantes e ás puérperas do Projeto Educação Popular em Saúde na Atenção às Gestantes e às Puérperas (Proenf), pois, segundo ela, era uma oportunidade de poder presenciar a força da maternidade das mulheres acompanhadas e que ela compreendia essa força de ser mãe, como um presente
dado por Deus às mulheres. Mais adiante, em seu relato, faz uma reflexão sobre sua vivência de acompanhamento e identificação por uma adolescente gestante, ao superar uma doença grave. Essa experiência foi profundamente significativa para a educanda. Ao perceber a profundidade subjetiva dos momentos vividos com a gestante e sua família, falou: “Diante de Deus somos igualmente tolos e igualmente sábios” (GUIMARÃES, 2011, p. 148). Para ela, essas palavras refletiram sua intenção de ter uma postura horizontalizada na relação com uma moradora, como dois seres humanos sujeitos a alegrias e a dores, com possibilidades de compartilhar, acolher e compreender os sentimentos uns dos outros. E ela compreende essa igualdade diante de uma força divina superior, que iguala todos os seres, independentemente de sua situação no mundo. Esse é um traço de reverência diante da grandiosidade do que é divino, no reconhecimento de nossas limitações como seres humanos, mas também com o reconhecimento de nossa responsabilidade para a ação, com um papel ativo e engajado diante da vida. Reverencia como um ato de posicionar-se ativamente e participativamente, assumindo sua responsabilidade perante a existência, mesmo com nossas limitações. Essa atitude reverente é um traço da espiritualidade presente em nós, seres humanos (SOLOMON, 2003).
A valorização da espiritualidade no Projeto deixava muitos estudantes à vontade para trazer suas perspectivas religiosas sobre o trabalho social, diferenciando muito do que é usual em outras práticas universitárias que deslegitimam a consideração de valores e reflexões vindas da vida religiosa. Mas, a maior parte dos profissionais de Saúde busca, na vida espiritual, a motivação e o sentido para seu agir profissional. Essa interdição de discussão de dimensões tão presentes na vida dos profissionais tem empobrecido muito os processos formativos ligados à vida dos trabalhadores das políticas sociais (VASCONCELOS, 2006).
Além dessa demonstração de religiosidade, foi possível verificar outras declarações de estudantes, mencionando suas crenças e ligação com alguma perspectiva religiosa. Em uma das reuniões do Projeto, uma estudante de Enfermagem afirmou que acreditava ter sido a força de Deus que a havia encaminhado para trabalhar com Saúde Pública, e ela queria poder ajudar as pessoas por isso. Outro exemplo dessa crença foi a menção feita por outra estudante de Enfermagem sobre o motivo da sua entrada no Projeto. Em seu depoimento, ela afirma: “O Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família — Pepasf — não apareceu em minha história por acaso, acredito que há uma força maior que guia os meus passos e me conduz para os lugares corretos” (LEITE, 2011, p. 186). Essa mesma estudante, ao começar a visitar um casal da comunidade, sentiu-se estimulada, diante da crença dos dois, a fazer contato com sua própria religiosidade. Ela relata que, durante as visitas, ouvia o marido ler a Bíblia para
sua esposa, e ela ficou animada para que ele lesse também em sua presença. “Apesar de não ser muito religiosa, gostava de ouvir as pessoas falando sobre Deus. As palavras pronunciadas por ele tinham grande emoção e sabedoria. Fechava os meus olhos e procurava absorver o máximo que ele tinha para me dizer” (LEITE, 2011, pp. 188-189). A postura interessada diante da religiosidade popular estimula sua própria relação com aspectos voltados para sua religiosidade.
Em outras ocasiões, presenciamos outra atitude desse tipo na mesma estudante, durante um encontro recreativo na casa de um dos professores do Projeto - um jantar em comemoração ao aniversário de um dos integrantes do grupo. Depois da refeição, uma parte do grupo foi para a beira de uma praia próxima para continuar a festividade. Ao chegarmos à praia, todos resolveram ir até à beira da água para contemplar o mar. Nesse momento, a referida estudante e mais duas colegas afastaram-se um pouco mais do grupo e se deram as mãos, em posição de oração, fechando os olhos como que a reverenciar o mar. Elas permaneceram assim por algum tempo, como se estivessem num processo de interiorização ou numa espécie de ritual; depois se abraçaram e saíram sorrindo em direção ao restante do grupo. Naquele momento, foi possível perceber a união e a cumplicidade das três estudantes, como também suas posturas voltadas para aspectos relacionados à sua interioridade.
Entretanto, o exemplo de expressão de espiritualidade, ligada à religiosidade mais claro que foi possível presenciar, foi a declaração, em uma reunião ordinária do Projeto, de uma estudante do Curso Técnico de Enfermagem, acompanhante de uma idosa com deficiência visual. Como dito, seu vínculo e sua identificação com a mulher eram bem significativos. Para ajudá-la, foi à cidade de Juazeiro do Norte e rezou aos pés da imagem do Padre Cícero, em nome da moradora, pedindo pela saúde dela. Também trouxe uma pequena imagem do padre, compreendido por muitos fiéis como milagroso, para presenteá-la como um amuleto de fé, juntamente com um recipiente contendo uma água considerada benta, para passar nos olhos dela. A estudante afirmou, sua crença em Padre Cícero e como queria ajudar à idosa. Sua postura tornou clara a presença da religiosidade e da fé cristã, intermediando o trabalho em saúde dos estudantes, com suas crenças particulares e conhecimentos espirituais sendo utilizados, como tentativa de melhorar a qualidade de vida das pessoas acompanhadas. Em uma das visitas que fizemos à casa da referida senhora, vimos a imagem ao lado de sua cama e, ao ser questionada se havia gostado do presente, ela respondeu ter gostado muito de recebê-lo da estudante, e afirmou sentir-se mais abençoada com a presença da imagem em sua casa.
Todas essas manifestações da religiosidade dos estudantes nos levam a acreditar que, para eles, além dos conhecimentos acadêmicos, técnicos e populares, existem dinâmicas espirituais muito presentes em suas próprias vidas, acionadas como crenças para o apoio de si mesmo e dos moradores acompanhados por eles. Vasconcelos (2006b, p. 69) aponta a importância da valorização da religiosidade e da espiritualidade como instrumentos para a humanização do trabalho em saúde. Ele reflete que, muitas vezes, a vida humana, manifestada de maneira frágil e desarranjada na figura da pessoa doente, pode ser percebia como algo sagrado. “Pela fé na transcendência presente na vida, sabe-se que daquela situação de precariedade e dor pode emergir beleza e criatividade”. Menciona que é possível apoiar as pessoas acompanhadas com a utilização da linguagem compreensível para o seu próprio código religioso, partindo dos seus valores, como foi o caso da estudante e da idosa citadas.
Dessa forma, as vivências dos estudantes podem revelar a relevância das dimensões de sentido que tenham uma forte conotação religiosa e espiritual. Essa religiosidade expressada anuncia a presença de uma crença e reverência ao divino e ao transcendente, influenciando em diversas ocasiões – como percebido pelos exemplos citados - as decisões dos estudantes sobre o caminho de cuidado desenvolvido com as famílias acompanhadas. Essa crença pode levar a influenciar, decisivamente, quais os rumos que esses estudantes irão tomar em suas vidas futuramente e quais as formas de atuação e cuidado que desenvolverão como futuros profissionais, ao lado de suas decisões de ordem racional e emocional. Mesmo sendo um aspecto percebido com reservas, em diversos debates acadêmicos, é imprescindível perceber a presença dessa força interior na existência das pessoas, como forma de torná-la, cada vez mais, visível e atuante como aspecto fortalecedor dos sujeitos para suas buscas por transformações e tomadas de decisões pessoais existencialmente importantes. “Com essa espiritualidade inconsciente do homem, que qualificamos como inteiramente pertencente ao eu, descobrimos aquela profundeza inconsciente, onde são tomadas as grandes decisões existencialmente autênticas” (FRANKL, 1992, p. 47).
Diante de tantos espaços de experiências e aprendizados, os estudantes prosseguem sua caminhada de transformação espiritual dentro do PEPASF, seguindo por outros caminhos, para além do vínculo afetivo com as famílias e com os companheiros do Projeto. Com isso, novas descobertas e despertamentos continuam acontecendo, interiormente, quando o estudante decide ampliar sua ação para espaços de atuação mais políticos e conflitivos, exercitando seu protagonismo e engajamento na causa social da população pobre. Nesses espaços, acontece mais um movimento espiritual na vida do estudante: sua conversão à causa dos pobres, oprimidos e marginalizados. Esse é o tema que será tratado no item a seguir.
4.5 O DESPERTAR PARA O ENGAJAMENTO POLÍTICO: A CONVERSÃO AOS