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2.4 Contraintes sur le modèle

2.4.1 Collisionneurs

Nesse período, notadamente o da existência do Império, muitos aspectos compunham o quadro sombrio da miséria alemã. Dentre os que remontavam ao período anterior, fundamental era a permanência do “estado bonapartista”, autocrático e permeado de particularismo, mas sim, em última análise, seu triunfo maior, numa forma diferente e modernizada” (STACKELBERG, 2002, p. 51).

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70 privilégios nobiliárquicos numa sociedade em que o modo de produção capitalista – e, portanto, na esfera econômica, a classe burguesa – já era dominante. Quanto aos novos aspectos, dois ocupavam posições de destaque: no âmbito interno, a luta de classes, que, com o assombroso crescimento numérico do proletariado industrial e a sólida e proeminente expansão de suas organizações sindicais e políticas – malgrado a forte influência ideológica das idéias lassallianas e de um marxismo acentuadamente positivista (cujo principal expoente teórico era Karl Kautsky) –, ampliou sua abrangência, renovou suas expectativas e, assim, fez crescer a sombra do comunismo sobre a burguesia alemã119. Se a revolução de 1848 lançou a burguesia nos braços políticos da aristocracia (com esta tendo que, em compensação, fazer inequívocas concessões econômicas àquela), os interesses de ambas as classes e sua convergência na luta contra a ameaça proletária foram consolidados no contexto da unificação nacional e da repressão à Comuna de Paris. Assim, no último quartel do século XIX, a composição de interesses das classes dominantes e a ameaça proletária apenas sedimentaram a infertilidade das idéias e dos posicionamentos liberais na Alemanha. No âmbito externo, a necessidade de expansão imperialista, que opôs definitivamente, no plano econômico, os interesses alemães aos interesses das outras potências coloniais europeias – em particular, aos da França e aos da Inglaterra, países que possuíam as maiores possessões coloniais ultramarinas e elevadas capacidades industriais e bélicas120.

Não obstante o reconhecimento da atuação de forças sociopolíticas e culturais diversas, ambos os aspectos assinalados encontravam-se intimamente vinculados ao intenso – ainda que tardio – surto industrializante da Alemanha. As empresas alemãs, nos anos que seguiram à unificação nacional, ao incorporar as conquistas técnicas e científicas das empresas dos países capitalistas pioneiros, desenvolver novas máquinas e produtos e

119 Exemplo maior da organização política do proletariado mundial até o advento da Revolução Russa, o Partido Socialdemocrata da Alemanha (em alemão Sozialdemokratische Partei Deutschland – SPD) foi fundado em 1875. 120

Nesse momento, a expressão filosófica mais adequada – mas ainda não dominante, fato que, apesar de sua crescente influência, só ocorrerá, por meio da obra de seus epígonos, com o advento da I Guerra Mundial – das novas circunstâncias sócio-históricas da Alemanha é, segundo Lukács, a obra de Nietzsche, o filósofo “fundador do irracionalismo do período imperialista” (LUKÁCS, 1959, pp. 249-323). Com Nietzsche, a filosofia burguesa volta-se diretamente contra o “socialismo” e o “materialismo histórico e dialético”, e não mais contra as tendências materialistas e dialéticas da razão burguesa. Agora, a “apologia indireta do capitalismo”, manifesta já na obra de Schopenhauer, não mais se expressa como desvalorização de toda ação, mas por meio de um chamado “à luta ativa em prol da reação e do imperialismo” (ibid., p. 258). As idéias de Nietzsche influenciaram a “filosofia da vida” – que é “a ideologia predominante no período imperialista”, ou seja, “é uma tendência geral que se infiltra em quase todas as escolas [filosóficas] ou que, pelo menos, as influencia” (ibid., p. 324) – e foram muito valorizadas pelos existencialistas, fenomenólogos etc. Hannah Arendt, inclusive, tinha bastante apreço por Nietzsche, reconhecendo, sem atentar para os fundamentos sócio-históricos disto, o ativismo denunciado por Lukács. Segundo ela, numa reflexão de cunho idealista sobre a liberdade do homem (esfera subjetiva) num mundo objetivo marcado pela lei natural da causalidade, “Não é casual que, desde Nietzsche, o gesto heroico tenha se tornado a pose típica da filosofia, pois de fato é preciso um grande heroísmo para viver no mundo que Kant nos legou” (ARENDT, 2008a, p. 200).

71 amparar-se em barreiras alfandegárias para proteger seu mercado interno, não apenas alcançaram rapidamente suas congêneres francesas, inglesas e americanas como, sob certos aspectos, as ultrapassaram. Nesse salto, em razão de sua expansão tardia, a indústria alemã não pode e/ou não necessitou percorrer as mesmas fases de desenvolvimento daquelas (manufatura, pequenas e médias empresas num contexto de ampla concorrência e, por fim, monopólios). Em inúmeros ramos, a fase intermediária foi brevíssima ou inexistente, com as empresas assumindo, em pouco tempo, uma feição monopolista121.

Para o entendimento adequado dessa especificidade da industrialização alemã no contexto mais amplo das economias capitalistas, é necessário lembrar que a monopolização não constituiu um fenômeno alemão, mas de todos os países industrializados. Num resumo da história da monopolização industrial, logo após expor a presença episódica de monopólios anteriores à década de 1860 e realçar a importância dos movimentos de crise e ascensão econômica para a concentração de capitais, Lênin delineou assim suas fases principais:

1) Décadas de 1860 e 1870, o grau superior, culminante, de desenvolvimento da livre concorrência. Os monopólios não constituem mais do que germes quase imperceptíveis. 2) Depois da crise de 1873, longo período de desenvolvimento dos cartéis, os quais constituem apenas uma exceção, não são ainda sólidos, representando ainda um fenômeno passageiro. 3) Ascenso de fins do século XIX e crise de 1900 a 1903: os cartéis passam a ser uma das bases de toda a vida econômica. O capitalismo transformou-se em imperialismo (LENIN, 1986, p. 591). Note-se, porém, que a fase mais importante da industrialização alemã – ou seja, após a unificação nacional (1870) – coincidiu com os momentos iniciais da ascensão dos monopólios nas economias capitalistas industrializadas, os quais atingiram suas formas mais avançadas na Alemanha e nos Estados Unidos, que, não por acaso, são as principais referências de Lenin em sua clássica análise do imperialismo (LENIN, 1986). Também por isso, em sua abordagem da situação naquele país, o revolucionário russo nos forneceu dados extremamente elucidativos acerca desse período. Segundo ele,

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Sobre essa característica da industrialização tardia, Ernst Mandel assevera que esses países e suas respectivas empresas “não copiam toda a estrutura industrial das nações que os precederam. Só imitam a parte mais moderna, quer dizer, as empresas em que a composição orgânica do capital é maior e o grau de concentração mais pronunciado. O predomínio das empresas gigantes, com relação às empresas médias e pequenas, será desde o primeiro momento muito mais marcado na indústria pesada russa e japonesa que nas indústrias análogas de países mais avançados”. Sendo que “A mesma lei de desenvolvimento desigual determina que o progresso da concentração do capital seja mais rápido na Alemanha e nos Estados Unidos (que são os países cujo desenvolvimento industrial se propaga no último quarto do século XIX) do que em países que conheceram este desenvolvimento durante a metade anterior do século: Grã-Bretanha, Bélgica e França” (MANDEL, 1986(II), p. 174). Análise similar encontra-se também em Dobb (1983, p. 221): “Na indústria mais nova da Alemanha e dos Estados Unidos, tal centralização iria surgir mais cedo do que na Grã-Bretanha, onde a estrutura dos negócios, com alicerces firmemente lançados na primeira parte do século, se desenvolvera consoante uma configuração mais individualista, e a tradição ligada a essa estrutura se mostrava mais teimosa em sobreviver. Na estrutura dos organismos econômicos, como nos humanos, os ossos envelhecidos tendem a se tornar rígidos”.

72 Na Alemanha, por exemplo, em cada 1000 empresas industriais, em 1882, 3 eram grandes empresas, quer dizer, empregavam mais de 50 operários assalariados; em 1895 eram 6, e 9 em 1907. De cada 100 operários correspondiam-lhes, respectivamente, 22, 30 e 37. /.../ Se considerarmos aquilo a que na Alemanha se chama indústria no sentido lato desta palavra, quer dizer, incluindo o comércio, as vias de comunicação etc., obteremos o seguinte quadro: grandes empresas, 30.588 num total de 3.265.623, isto é, apenas 0,9%. Nelas estão empregados 5.700.000 operários, num total de 14.400.00, isto é, 39,4%; cavalos-vapor, 6.600.000 para um total de 8.800.000, ou sejam 75,3%; energia elétrica, 1.200.000 kilowatts para um total de 1.500.000, ou seja, 77,2%.

Menos da centésima parte das empresas tem mais de ¾ da quantidade total da força-motriz a vapor e elétrica! Aos 2.970.000 pequenos estabelecimentos (até 5 operários assalariados), que constituem 91% de todas as empresas, correspondem unicamente 7% da energia elétrica e a vapor! Algumas dezenas de milhares de grandes empresas são tudo, os milhões de pequenas empresas não são nada.

Em 1907 havia, na Alemanha, 586 estabelecimentos com 1000 ou mais operários. Esses estabelecimentos empregavam quase a décima parte (1.380.000) do número total de operários e quase um terço do total de energia elétrica e a vapor (LENIN, 1986, p. 587).

Some-se a isso que, com as sociedades anônimas, a composição de diversas formas de propriedade (holdings, trusts) e a financeirização da riqueza122 (surgimento do capital financeiro), devido à crescente participação dos bancos na economia capitalista, o controle das empresas – já naquela época! – era exercido efetivamente por um número bastante reduzido de empresas – e, portanto, de famílias/indivíduos123. Um dos muitos exemplos citados por Lenin é o da empresa alemã AEG (Sociedade Geral de Eletricidade): “Em 1912, calculava-se que esta sociedade participava noutras 175 a 200, dominando-as, é claro, e controlando um total de cerca de 1.500 milhões de marcos” (Lênin, 1986, p. 613 – itálicos no original). Enfim, tanto em seu O imperialismo, fase superior do capitalismo, quanto nos coetâneos livros de Hobson, Hilferding, Bukhárin e Rosa Luxemburg, muitos e muitos dados podem ser encontrados que confirmam essa tendência à monopolização e à financeirização. Na verdade, desde aquela época até agora, são muito numerosos os livros escritos sobre o assunto, e os exemplos fornecidos aqui servem apenas para salientar que, comparativamente aos outros países industrializados da época, a

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Cabe, aqui, uma breve observação de Lukács sobre as bases sociais sobre as quais se ergueram alguns influentes filósofos burgueses no período imperialista – isto é, do período de decadência da filosofia burguesa: “Schopenhauer é, na Alemanha, o primeiro caso notável de escritor rentista, tipo que desde há muito tempo havia adquirido importante relevo na literatura burguesa dos países capitalistas desenvolvidos. (E não deixa de ser significativo o fato de que também Kierkegaard e Nietzsche gozaram, em muitos aspectos, de uma independência de rentistas semelhantes à de Schopenhauer)” (LUKÁCS, 1959, p. 163). Segundo Arendt, nesse momento imperialista, com o desenvolvimento do capital financeiro, “os lucros do investimento em países estrangeiros aumentavam muito mais rapidamente que os lucros do comércio, de sorte que os comerciantes e mercadores cederam sua primazia ao financista”, cuja principal característica reside no fato de que “ele não recebe o seu lucro nem da produção, nem da exploração, nem da troca de mercadorias nem da operação bancária comum, mas apenas da comissão” (ARENDT, 1990a, p. 231). Assim, deve-se considerar que a camada de rentistas – e, muito provavelmente, de intelectuais rentistas – deve ter tido um aumento considerável em todos os países capitalistas imperialistas.

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Criticando aqueles que consideram a principal forma dos monopólios alemães, os cartéis, menos danosa do que os trusts norte-americanos, Lenin ironizava: “Na Alemanha não há trusts, há ‘apenas’ cartéis, mas o país é dirigido quando muito por 300 magnatas do capital, e o seu número diminui incessantemente” (LENIN, 1986, p. 602 – itálicos no original).

73 Alemanha sofreu transformações mais rápidas e profundas124. Seu crescimento foi tão intenso e significativo que, tendo iniciado sua industrialização quase um século após ingleses e franceses, do total da “produção industrial e mineral (incluindo a construção)” das quatro grandes potências econômicas, “em 1913, os EUA forneceram 46% deste total, a Alemanha 23,5%, a Grã-Bretanha 19,5% e a França 11%” (HOBSBAWM, 2008, p. 80).

Na execução dessa façanha econômica (a industrialização tardia, acentuada e com elevado índice de monopolização), os capitalistas alemães não contaram apenas com a invisible hand smithiana, mas praticamente iniciaram uma tendência do desenvolvimento capitalista que, com variações de abrangência, profundidade e tonalidade, marcou a posteridade do capital, especialmente durante as duas guerras mundiais e, nesse ínterim, com as políticas econômicas do nazifascismo e do New deal rooseveltiano125. Isto é, eles contaram “com a ajuda ativa e o estímulo do governo, que se envolveu diretamente em numerosos setores da economia e proporcionou apoio político para a típica forma alemã de organização dos negócios, o cartel” (STACKELBERG, 2002, p. 56). Nesse auxílio, as práticas governamentais foram bastante influenciadas pelas idéias do economista Friedrich List126 – que, contrário às idéias de Adam Smith e dos livre-cambistas, advogava a proteção alfandegária como instrumento para impedir os efeitos negativos da concorrência dos países mais desenvolvidos sobre a indústria nacional. Segundo o próprio List (1986, p. 5),

O sistema por mim proposto oferece a possibilidade de harmonizar a teoria com a prática /.../ Diria que a característica básica deste meu sistema reside na NACIONALIDADE. Toda a minha estrutura está baseada na natureza da nacionalidade, a qual é o interesse intermediário entre o individualismo e a humanidade.

124 Novamente recorrendo a Lenin – que, sobre isso, nos fornece dados esclarecedores sobre dois dos mais importantes ramos da indústria da época –, ficamos sabendo que “o desenvolvimento das forças produtivas da Alemanha neste mesmo período [1892 a 1912], e, sobretudo, o desenvolvimento da produção hulheira e siderúrgica, foi incomparavelmente mais rápido do que na Inglaterra, sem falar já na França e na Rússia. Em 1892, a Alemanha produziu 4,9 milhões de toneladas de gusa, contra 6,8 da Inglaterra, enquanto em 1912 produzia já 17,6 contra 9,0, isto é, uma superioridade gigantesca sobre a Inglaterra” (LENIN, 1986, p. 649). 125 Sem contar, nesse momento, os efeitos ideológicos derivados do planejamento da economia na URSS, país que atravessou a crise de 1929 em franca ascensão econômica.

126 Este, por sua vez, sofreu influência do filósofo Johann Gottlieb Fichte, cujas idéias tiveram certa importância na construção da ideologia nazista. Um aspecto interessante das influências que as idéias sofrem no curso de seu desenvolvimento pode ser observado na relação das idéias de Friedrich List com aquelas dos teóricos da CEPAL. Em sua apresentação à edição brasileira da obra Sistema Nacional de Economia Política, de List, Cristovam Buarque considera que “grande parte do pensamento de List está impregnado em todas as formulações desenvolvimentalistas” (BUARQUE in LIST, 1986, p. XXVI), cujos principais representantes são os teóricos da CEPAL (Prebisch, Furtado entre outros), fato que, no que se refere à realidade socioeconômica, apenas indica algumas similaridades entre o percurso alemão de desenvolvimento do capitalismo industrial (via prussiana) e aquele de alguns países de industrialização hipertardia, tais como Brasil, Argentina e México. Sobre o tema, ver, dentre outros, Coutinho (1979) e Chasin (1977).

74 Em List, não por acaso, há um apelo romântico à nacionalidade e, assim, à sua natureza e às suas particularidades127, em clara oposição à universalidade das idéias econômicas de Adam Smith – as quais possuíam explícita inspiração na física newtoniana e, portanto, constituíam parte do movimento iluminista. Como constatou Franz Mehring (s/d.),

Talvez nada expresse melhor o atraso econômico das condições alemãs do que o fato de Friedrich List, o único economista alemão original em sua própria área, ter atacado as teorias de Adam Smith, não de frente, como fizeram na Inglaterra e na França, mas por trás; não do ponto de vista do socialismo, mas daquele do mercantilismo.

Assim, prática e teoricamente, a via prussiana de desenvolvimento capitalista significou o entrelaçamento mais e mais estreito entre os interesses da burguesia alemã com os dirigentes de seu estado imperial. Seu corolário, a repressão ao movimento operário e às minguantes forças burguesas democráticas, afastou de modo quase completo o fantasma do liberalismo político e suas possíveis implicações democráticas. Doravante, com a honrosa exceção do proletariado sob influência socialdemocrata128 e de alguns intelectuais burgueses129, impôs-se de modo avassalador a ideologia romântica, irracional, antiliberal e antidemocrática dos nacionalistas conservadores sobre a população alemã – que só fez aumentar com o acirramento das práticas imperialistas. Com estas, aprofundou-se a exaltação do caminho alemão de desenvolvimento e do autocratismo aristocrático-feudal de seu estado como sendo adequados à “alma”, à “pureza” e à “excepcionalidade” da nação alemã. Por conseguinte, também fomentados pela ascensão do capital financeiro e das empresas monopolistas (multinacionais, transnacionais), que minaram o solo socioeconômico do nacionalismo da fase revolucionária da burguesia, os precários vínculos que existiam entre o nacionalismo, o liberalismo e a democracia na Alemanha – manifestos na Revolução de 1848 – foram definitivamente sepultados, tendo o liberalismo se desvinculado da democracia (com a tarefa burguesa da democratização sendo assumida, no contexto – e como parte – da luta pelo socialismo, pelo proletariado revolucionário) e o nacionalismo, por meio da influência das

127 Franz Neumann chega até mesmo a afirmar que List foi “o primeiro nacional-socialista franco /.../ [e] defendeu o estabelecimento de um capitalismo de estado” (NEUMANN, 2005, p. 130).

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Num comentário sobre um acontecimento de décadas posteriores, a influência da ideologia do nazismo sobre a socialdemocracia, Franz Neumann fez a seguinte observação: “Tão profundo é o abismo entre o nacional- socialismo e o velho espírito socialdemocrata, que somente um punhado de líderes operários socialdemocratas passou ao nacional-socialismo. /.../ Essa atitude é o mérito verdadeiramente duradouro da educação socialdemocrata. /.../ Em comparação com os sindicatos franceses e o partido socialista francês, o movimento alemão teve uma morte heroica” (NEUMANN, 2005, p. 247 – itálicos nossos).

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Sendo o sociólogo Max Weber, apesar de seu pessimismo/desencanto com a sociedade burguesa e sua democracia, a figura mais proeminente dessa tendência.

75 forças aristocrático-reacionárias, adquirido uma conotação racial crescente e se consolidado como “veículo da política conservadora”130 (STACKELBERG, 2002, p. 51).

Por ora, convém recordar que essa industrialização acentuada – portanto, pautada numa intensa exploração da força de trabalho131 – também intensificou a “miséria alemã”, pois requereu um sistemático e simultâneo aumento da repressão às únicas organizações capazes de encampar a luta pela – e, neste momento, quase as únicas, interessadas na – democratização da Alemanha, as organizações proletárias. Ou seja, com a industrialização e a urbanização por ela promovida, o proletariado assumiu uma posição central no cenário sociopolítico alemão. Para exasperação da burguesia, no entanto, os proletários não apenas haviam incorporado há tempos um “inaceitável conteúdo social” às suas reivindicações políticas, democráticas, como, heresia maior, uma parcela significativa deles havia abraçado a própria causa socialista. Um das motivações para essa guinada à esquerda é que, na dura realidade das condições de vida do proletariado do final do século XIX, o liberalismo, com sua ênfase no esforço e no mérito individual, encontrava pouco eco entre os trabalhadores, e “a maioria [dos trabalhadores] achava que tinha mais chance de melhorar sua vida na solidariedade de classe do que na tentativa de subir sozinho para se integrar na classe média” (STACKELBERG, 2002, p. 57). Nesse contexto, o socialismo demonstrava-se cada vez mais atrativo em suas possibilidades de resolução das misérias individuais e coletivas, ainda mais que “a industrialização na Alemanha coincidiu com a maturidade da doutrina marxista” (STACKELBERG, 2002, p. 57), a qual, mesmo prejudicada pelas fortes marcas do reducionismo e do positivismo que carregava, fundamentava uma visão de mundo com grande profundidade e, assim, constituía uma arma ideológica muito mais eficiente do que o ideário do socialismo utópico. Essas circunstâncias contribuíram, então, “para que o movimento trabalhista alemão se tornasse um inimigo mais assustador e formidável do que ocorrera num estágio paralelo de industrialização na Inglaterra” (STACKELBERG, 2002, p. 57) e, também por esse motivo, para que a composição de forças com a burguesia em prol de objetivos políticos democratizantes se tornasse totalmente inviável. Por isso, durante o governo de Bismarck, mais especificamente em 1878, a lei antissocialista foi aprovada pelo Reichstag. Proibindo a organização dos socialistas e a divulgação de suas idéias, o governo tentou estancar a progressiva influência da socialdemocracia sobre o movimento operário. Seu alvo

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Nesse contexto, “o liberalismo se transform(ou) em um ‘liberalismo nacional’ de caráter conservador” (LUKÁCS, 1979c, p. 33).

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O que não significa declínio absoluto dos salários ou das condições de vida do proletariado. Com a introdução e/ou modernização da maquinaria nas indústrias – e, claro, da pressão das lutas sindicais e políticas do proletariado –, as jornadas de trabalho foram até mesmo reduzidas (de 12 horas, em 1870, para 10 horas, em 1914) e os salários reais elevados em 1/3 do valor entre 1860 e 1900 (ALMEIDA, 1990, p. 10).

76 principal, obviamente, foi o Partido Social-democrata, que, em 1877, já havia obtido 9% dos votos para o parlamento (Cf. ABENDROTH, 1977, p. 45). Mas, “embora pudesse proibir o Partido, não conseguiu destruí-lo. Após uma crise de reorganização bem curta, seu prestígio continuou crescendo de uma eleição a outra” (ABENDROTH, 1977, p. 45), ainda mais que sua atividade parlamentar pôde continuar existindo. Nem mesmo as concessões sociopolíticas efetuadas pelo governo, a partir de 1881, tais como seguro-invalidez, seguro-acidentes e seguro-doença, foram suficientes para atenuar esse prestígio (Cf. ABENDROTH, 1977, p. 46). Tanto que, em 1881, quase três anos após a promulgação da referida lei, os socialdemocratas tiveram 311.000 votos para o Reichstag; em 1887, 763.000; em, 1890, sem a renovação da lei de exceção, 1.427.000; em 1903, 3.010.000; e, em 1912, 4.250.000132 (Cf. CARONE, 1993, p. 19). Crescimento similar, ainda que mais tardio, ocorreu também entre os sindicatos, sobretudo