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cognitives : des interactions étroites

Dans le document N 74/75 A.N.A.E. (Page 48-53)

É em Sociedade refletida que Landowski (1992) solidifica o primeiro passo para se pensarem as práticas vividas. À gramática narrativa de Greimas, que prevê nos enunciados as estruturas actancial, modal e temporal assumidas pelo sujeito da enunciação (enunciador-enunciatário), Landowski acrescenta o estudo das modalidades de regimes de visibilidade dos sujeitos. Antes, porém, detalharemos um pouco mais os elementos e funções da sintaxe actancial e modal da semiótica.

Segundo Bertrand (2003, p. 353), ―os enunciados elementares (enunciados de estado e enunciados de fazer) podem funcionar como enunciados modais, desnudando assim a estrutura interna do esquema narrativo‖. Sobre as quatro fases do nível narrativo, o autor explica que a manipulação é ―[...] o fazer de um sujeito que modaliza o crer, o querer, o saber... e finalmente o fazer de um outro sujeito (factividade)‖. Já a competência ―[...] é o ser modalizando a possibilidade de fazer‖. Na performance, ―é o fazer que modaliza o ser (‗fazer ser‘ define o ato). Na fase da sanção, ―é o ser que modaliza o ser ou o parecer (o julgamento de veridicção)‖ (BERTRAND, 2003, p. 353). O actante do enunciando, então, é ―[...] modalizado pelos verbos modais (querer, dever, crer, saber, poder), mas também por formantes figurativos (um

automóvel, por exemplo, pode modalizar seu proprietário pelo /poder/)‖ (BERTRAND, 2003, p. 353).

―O modo de existência define o estatuto variável das formas de presença sob as quais os objetos semióticos se manifestam no discurso (actantes, modalidade, temporalidade)‖ (BERTRAND, 2003, p. 353). A tradição saussuriana distinguia a existência virtual (o sistema da língua), encarada pela semiótica como sistema ou eixo paradigmático, e a existência atual (sua realização na fala), encarada como processo ou eixo sintagmático (BERTRAND, 2003; GREIMAS; COURTÉS, 2008). ―Ampliando seu campo de aplicação, a semiótica adicionou à virtualização e à atualização um terceiro modo de existência, a realização‖. Sendo assim, ―o contrato ou a manipulação virtualizam o sujeito, a competência o atualiza, a ação e o reconhecimento o realizam: as modalidades do crer, do querer ou do dever engendram um sujeito virtual, o saber e o poder um sujeito atualizado, o fazer um sujeito realizado‖ (BERTRAND, 2003, p. 353). O Quadro 3 organiza a proposição desse esquema.

Quadro 3 – Sintaxe modal.

Modalidades Virtualizantes atualizantes realizantes

exotáticas1 Dever poder fazer

endotáxicas Querer saber ser

Fonte: Greimas e Courtés (2008, p. 315).

Com a publicação de Sociedade refletida, no capítulo intitulado ―Jogos ópticos: situações e posições de comunicação‖, Landowski propõe: ―[...] por uma espécie de um salto qualitativo, isto é, metodológico, tentar encontrar, para além da diversidade do léxico, as estruturas elementares, sintáxicas, sobre as quais repousam o sentido e o valor das ‗palavras‘‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 88).

Assim, é em torno da sintaxe do ver que Landowski vai estudar as estruturas elementares e suas combinatórias, processo chamado por ele de ―dimensão escópica das relações intersubjetivas‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 88).

1 Exotáticas são as modalidades capazes de ligar enunciados que têm sujeitos distintos; endotáxicas são as modalidades que ligam sujeitos idênticos ou em sincretismo (GREIMAS; COURTÉS, 2008, p. 315).

Explica o autor que, numa relação de comunicação, o estatuto do verbo ―ver‖ requer a existência de pelo menos dois sujeitos numa relação de pressuposição recíproca: ―[...] um que vê, o outro que é visto – e entre os quais circula o próprio objeto da comunicação, no caso a imagem que um dos sujeitos proporciona de si mesmo àquele que se encontra em posição de recebê-la‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 89).

Sendo assim, continua o autor, caberá ao ―[...] observador estabelecer as condições de uma ‗boa visibilidade‘; [...] ao contrário, será o sujeito virtualmente observável que, procurando ele próprio, de certa forma, ‗fazer-se ver‘, organizará o dispositivo requerido para a captação do olhar de um observador potencial‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 89).

Essas noções iniciais dos regimes de visibilidade entre sujeitos, seja no plano do enunciado fechado seja no plano das interações e enunciações em ato, serão retomadas por nós no Capítulo 8 – As interações da cultura midiática na escola.

Relacionada a sintaxe do ver de Landowski com as modalidades da gramática narrativa tradicional da semiótica, Landowski chega à conclusão de que a ―relação mínima do ver, admite, em níveis mais superficiais, diferentes especificações modais: querer, dever, saber, poder ‗ver‘)‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 90). Mas acrescenta o autor que ―[...] poder ver e/ou poder ser visto‖ implica também a mediação volitiva do ―querer‖, ou seja, ―[...] querer ser visto x não querer ser visto‖, por exemplo.

Na apresentação das diversas combinações das posições escópicas entre os sujeitos, Landowski chega a um inventário de possibilidades de estados, entre os quais, a título de síntese, podemos citar: situações de vida privada, vida pública, ostentação, modéstia, constrangimento, pudor, interesse mútuo, timidez, voyeurismo, atrevimento, indiscrição, exibicionismo, recato, entre outras.

Analisar os regimes de visibilidade dos parceiros da comunicação para se depreenderem os efeitos de sentido que eles apresentam faz com que, em alguns casos, constatemos situações em que ―ser no mundo é irremediavelmente ser visto (nem que seja, no caso extremo, por si mesmo;) [...] ou, inversamente, em não poder escapar – no espaço fechado do mundo que o engloba – do espetáculo do outro‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 98).

Landowski reforça ainda que as relações do ver e do ser visto entre os sujeitos não estão isentas de intencionalidade como fazer emissivo ou fazer receptivo. Ao contrário, são assumidas ou recusadas pelos sujeitos, provocando fazeres persuasivos e/ou interpretativos. Para o autor, é de crucial importância considerar que ―o espaço pragmático, ‗objetivo‘, em que se inscrevem as relações de visibilidade, quando assim refletido pela ‗consciência‘ que dele tomam reciprocamente os sujeitos, transforma-se, então, em campo de manobras cognitivas (fazer saber/fazer crer)‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 100).

As tipologias teorizadas e aplicadas por Landowski nos mostram, mais uma vez, o caminho metodológico de análise da semiótica, que prevê, primeiro, a análise do texto (seja ele um enunciado fechado ou uma prática social dinâmica em ato). Isso demonstra um compromisso ético e estético do pesquisador que se apoia, primeiro, nos dados, e não em valores, por que não dizer, em achismos. Conforme pontua Landowski, as ―invariantes estão, aparentemente, menos do lado dos sistemas de valores do que do lado dos dispositivos que regem os processos de sua manipulação‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 101).

Assim, ―a teoria geral da linguagem de que uma sociossemiótica necessita para se constituir não pode senão abarcar o conjunto dos sistemas de significação, lingüísticos ou não, a partir dos quais a ‗vida social‘ se constitui como processo significante‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 11). Nesse sentido,

[...] se o texto é, em si mesmo, desde há muito, um material familiar aos sociólogos e cientistas sociais, o recente aparecimento do discurso, como objeto de conhecimento que tem seu lugar numa problemática das relações e das estratégias de poder, atesta uma nova sensibilidade e abre perspectivas inovadoras (LANDOWSKI, 1992, p. 9).

Trata-se, antes de tudo, de analisar o discurso do ponto de vista da sua capacidade de ―agir‖ e ―fazer agir‖, moldando e modificando as relações intersubjetivas entre os sujeitos envolvidos no processo de enunciação.

Analisar os discursos nessa perspectiva significa entender que ele ―realiza certos tipos de atos sociais transformadores das relações intersubjetivas, [...] estabelece sujeitos ‗autorizados‘ com direito à palavra, instala ‗deveres‘, cria ‗expectativas‘, instaura a ‗confiança‘, e assim por diante‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 10).

A sociossemiótica não encara a linguagem ―[...] como o simples suporte de mensagens que circulam entre emissores e receptores‖. Ao contrário, seu intuito é ―[...] captar as interações efetuadas, com a ajuda do discurso, entre os ‗sujeitos‘ individuais ou coletivos que nele se inscrevem e que, de certo modo, nele se reconhecem‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 10).

Para Landowski, o mundo social está repleto de semióticas significantes, tais como discursos políticos, publicitários, jornalísticos, e de diversas práticas decorrentes da interação cotidiana.

Conforme já pontuamos anteriormente, ―esse espaço social de significação não ‗reflete‘, por natureza, algum dado societal preexistente. Ele representa, ao contrário, o ponto de origem a partir do qual o social, como sistema de relações entre sujeitos, se constitui pensando-se‖ (LANDOWSKI, 1992, p. 14).

Não se trata aqui de analisar um mundo ―real‖ fora do mundo da linguagem. Ao contrário, o mundo no qual estamos inseridos é composto por semióticas diferentes. Logo, ele só pode ser apreendido como linguagem, como um simulacro do real e através do procedimento da enunciação. Esta, por sua vez, é o momento em que um sujeito se transporta discursivamente para um enunciado qualquer e assume ou não as investidas de um enunciador. Este também se transporta, discursivamente, com suas estratégias enunciativas, para dentro do enunciado, na tentativa de fazer com que o outro parceiro da relação de comunicação adote o seu ponto de vista. Entretanto, o procedimento que permite que ambos interajam e atualizem as propostas do contrato de veridicção (fazer-crer) do enunciado manifestado é o procedimento discursivo em ato, atualizado na medida mesma em que a ação da enunciação, partilhada intersubjetivamente pelos parceiros da comunicação, faz o sentido emergir.

Para entender o processo de enunciação, basta substituir

[...] o verbo ―fazer‖ pelo verbo ―enunciar‖. Em virtude dessa decisão, a ―enunciação‖ não será, pois, nada mais, porém nada menos tampouco, que o ato pelo qual o sujeito faz o sentido ser; correlativamente, o ―enunciado‖ realizado e manifestado aparecerá, na mesma perspectiva, como o objeto cujo sentido faz o sujeito ser (LANDOWSKI, 1992, p. 167).

[...] para que a enunciação tenha sentido, é preciso que seja enunciada. E o papel da colocação em discurso é precisamente transformar as posições virtuais que o componente narrativo oferece aos actantes da comunicação em posições ―reais‖, reconhecidas e assumidas por eles. Então, enquanto os simulacros encontram quem os adote, nascem os ―sujeitos‖ que os assumem (LANDOWSKI, 1992, p. 172).

Conforme pontuamos, os regimes de visibilidade foram um avanço na gramática narrativa. No próximo subcapítulo, com Presenças do outro (2002), acrescentaremos mais um salto teórico rumo à construção de uma semiótica da experiência, que oferece as bases de análise das condições de emergência do sentido em situação e em ato. Nas relações intersubjetivas de sujeitos escópicos (ver e ser visto), há o encontro, sobretudo de sujeitos em presença, cujas interações constroem suas identidades/alteridades.

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