1.1 La R´eionisation une ´etape cl´e de l’histoire de l’Univers
2.1.2 Simulations
2.1.2.2 Les codes de transfert du rayonnement
“As tradições estruturam o ser social pela prova do corpo”.
(D. Le Breton, citado por Alain Corbin, in: História do Corpo)
O uso da voz profética conferia autoridade aos narradores das diversas poesias de Alfred Tennyson. A manipulação de uma variedade de discursos criou mundos e costumes ilusórios e contribuiu para cultivar os valores do vitorianismo, constituindo e gerando parte importante daquela cultura. Os poemas remetiam ao que o poeta considerava tradição e esse fator legitimava as palavras proferidas por Tennyson.
Era importante que os narradores criados por Alfred Tennyson possuíssem autoridade ao proferir suas palavras. Nesse sentido, a personagem Merlin ganhou força no decorrer da sua produção. A voz do mago foi uma das mais utilizadas pelo poeta. O personagem já estava vinculado ao imaginário da população inglesa como o responsável direto pela transmissão da Legenda e, consequentemente, como o grande narrador, bardo e profeta. Além disso, o vínculo de Merlin com o rei Arthur era conhecido, o que favorecia o posicionamento do poeta como quem exaltava a realeza britânica.
Merlin não foi escolhido aleatoriamente, pois a escolha tinha em si um propósito. No imaginário popular, o mago estava relacionado com histórias da tradição britânica. Apesar das diferenças entre as inúmeras versões da Legenda Arturiana, a imagem do mágico ligava-se principalmente a dois fatores: a construção de Camelot e o uso de poderosas palavras.
A força da palavra é a maior das características de Merlin, assim como a dos poetas da era vitoriana. A voz pode ser pensada como a primeira e, talvez a principal, evidencia da presença de Merlin na obra de Tennyson. Muitos posicionamentos políticos e sociais do poeta foram ditos por meio das profecias ou da voz (sábia) de Merlin. Voz que revela a consciência histórica do autor, no sentido que em seus idílios estão entrelaçadas as questões espirituais, sociais e políticas. Na primeira aparição de Merlin, em The Coming of Arthur, Tennyson utilizou a fala de um conselheiro do rei Leodegran e apresentou o mago como o mais sábio dos homens.
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“Then spake the hoary chamberlain and said,
"Sir King, there be but two old men that know: And each is twice as old as I; and one
Is Merlin, the wise man that ever served King Uther through his magic art; and one Is Merlin's master (so they call him) Bleys, Who taught him magic; but the scholar ran Before the master, and so far, that Bleys Laid magic by, and sat him down, and wrote All things and whatsoever Merlin did
In one great annal-book, where after-years Will learn the secret of our Arthur's birth."48
O rei Leodegran buscava a verdade sobre a legitimidade de Arthur. Tennyson aproveitou-se para evidenciar que Merlin era o homem mais sábio que já serviu o rei Uther com sua mágica – “Is Merlin, the wise man that ever
served / King Uther through his magic art”. Essa apresentação nos faz pensar
que o poeta precisava ratificar para seu público, quem efetivamente era Merlin. A ideia do serviço, tão comum na Idade Média, estava além da sabedoria, revelava caráter, estava vinculada com a fidelidade de Merlin à realeza, ao mesmo tempo, que Tennyson deixava clara sua posição de fidelidade em relação à realeza britânica.
Não podemos nos esquecer que nesse período os termos medievais estavam em pleno vigor, devido ao medievalismo vitoriano, o poeta, então, utilizou a expressão servir49 posicionando-se politicamente: o “mais sábio”,
aquele que superou seu próprio mestre, serviu ao rei! E não a qualquer rei, mas o do reino inglês.
48 TENNYSON. 1954, Op. cit. pp. 290.
49 A expressão servir vem de servos, que pode significar: conservado, aquele que guarda, escravos. O conceito moderno de servidão remete às relações sociais e à relação com a terra, onde o que definia o estatuto do trabalhador rural era a submissão â um senhor ou dominus. Essa relação era de sujeição e, ao mesmo tempo, de dependência e reciprocidade, ainda que fosse uma reciprocidade desigual ou vertical. Além disso, o serviço poderia remeter também a uma relação entre senhores, no sentido em que um serve ao outro, o trabalho de um permite e dá condições para o trabalho do outro.
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Merlin serviu ao rei utilizando sua mágica. Tennyson revelou que o mago não era um conselheiro comum, mas aquele que superou seu próprio mestre em encantamentos. É uma remissão aos druidas celtas: personificações de mágicos, poetas, místicos, profetas e, também, juízes supremos – na esfera pública e privada – da sociedade a qual estavam inseridos.
Por isso, também, Merlin é o personagem mais próximo das versões medievais e um dos personagens mais alegóricos de Tennyson. Caracteriza uma espécie de druida cristianizado, assim como em alguns autores da Idade Média, dentre eles, podemos citar Geoffrey of Monmouth e Robert de Boron. Essas características do personagem, entendidas, pelo poeta, como medievais foram uma das maneiras que Tennyson encontrou para garantir a legitimidade de suas próprias posições sociais e políticas, as falas de Merlin, não são falas, são profecias, assim como as do poeta.
Se, na sociedade vitoriana, a voz do poeta era a do profeta (e os poderes culturais dos trabalhos literários dependiam das argumentações contidas em suas práticas discursivas), Tennyson encontrou embasamento naquilo que considerava essencial: a tradição inglesa. A escolha é, em si, reveladora, pois Merlin não é apenas parte de um conjunto de histórias mitológicas, mas ele próprio constitui um mito, sua origem está em outra temporalidade e ele carrega as marcas desses tempos múltiplos pelos quais passou.
Esses tempos existentes em Merlin estão além do medieval e do próprio século XIX, pois Tennyson vinculou o personagem à magia. Merlin transita entre o sobrenatural e o temporal, em suas falas, traz colocações complexas e que não se apresentam de modo objetivo, por isso pode ser considerado uma das principais alegorias usadas pelo poeta.
Em versões medievais, como a de Robert de Boron, Merlin sofre metamorfoses, nestas, ele representa tipos sociais com funções especificas na sociedade. Nesse sentido, a alegoria se apresenta de forma direta, sabemos de quem o autor está tratando, suas criticas e questionamentos são expostos para o leitor. O Merlin de Tennyson sempre deixa algum tipo de mistério a ser decifrado. Por exemplo, o mistério do nascimento de Arthur. O autor lembra, que foi Bleys, em seus anais, quem contou e registrou tudo que Merlin havia
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feito. Nesse livro, estava dito que após muitos anos, seria revelado para o leitor o segredo do nascimento rei – que não foi revelado por Merlin de forma direta.
“...And wrote / All things and whatsoever Merlin did / In one great annal- book, where after-years / Will learn the secret of our Arthur's birth", estava posto o mistério: a dúvida sobre o nascimento de Arthur. O poeta anunciou que nem ele e nem o mago revelariam a “verdade” sobre a legitimidade do rei no decorrer dos idílios. É como se o que importasse para Tennyson, não fossem os fatos em si, mas seus processos.
O poeta parecia mais preocupado com a trajetória das viagens vivenciadas em cada idílio50. A disposição em que o autor colocou seus
poemas na última versão da obra Idylls of the King (1889), fez com que os
idílios parecessem tecidos uns nos outros, de maneira entrelaçada,
constituindo homens e mulheres, condutas e culturas, evidenciando o período áureo e a decadência da sociedade Arturiana. Assim como todas as sociedades, Camelot teve seu auge, mas seu fim foi constituído pelo poeta durante o decorrer dos idílios, por meio das ações de todas as personagens. Nessa trama, Merlin é – além do próprio Arthur – figura central que, desde o início, sabe que aquela sociedade entraria em decadência.
Assim, o primeiro corpo de Merlin, é o corpo portador da sabedoria51. No
século XIX as ciências tinham ocupado seu lugar na sociedade inglesa. O corpo tornava-se objeto da ciência. Para autores como Tennyson52, elas representavam a mecanização, vinculada à indústria que ganhava mais força a cada dia. Os corpos Eram manuseados através da anatomia, da Biologia e da fisiologia como algo mecânico, não como lugar do prazer, da dor, do amor, das paixões, enfim, não como lugar de sensações e percepções.
Quando Tennyson apresentou Merlin como personagem que porta a sabedoria, referia-se ao orgânico. A ideia de sabedoria estava relacionada com a antiguidade greco-romana e com o período medieval, não com o cientificismo
50 Idílio é um gênero literário alexandrino e remete a um tipo de poetização que apresenta um desejo de fuga do mundo urbano para uma sociedade idealizada, normalmente com características bucólicas, que se encontra no passado.
51 É importante lembrarmos que nos poemas de Tennyson, o uso de metáforas e alegorias é freqüente, nesse sentido, Merlin representa a alegoria da sabedoria. Sabedoria também expressa nos poemas por meio dos vestígios do corpo do mago: voz, ausência etc.
52 Cabe a observação de que Tennyson não se posicionava contra os avanços científicos, mas contra as utilizações meramente “mecanizadas” desse “progresso das técnicas” e das ciências.
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do século XIX. O sábio, não é o cientista que olha para o corpo como se ele fosse apenas um complexo mecânico que precisasse ter seus mecanismos decifrados, para que, como as indústrias, alcançassem o progresso.
Para o poeta, o corpo portador da sabedoria “enxergava” mais do que qualquer outro, pois sabia que a existência passava não apenas pelos mecanismos de funcionamento dos órgãos, mas por sensações, não por algo mecânico, mas humano. O ser humano estava envolvido numa complexa teia onde indivíduo e mundo (externo) constituíam-se, confundiam-se e completavam-se.
As ações humanas estavam diretamente relacionadas com os caminhos que suas sociedades tomavam. Por isso, para o poeta, era tão importante conduzir, de alguma maneira, as ações das pessoas na sociedade vitoriana. Tennyson entendia que as ações desses homens e mulheres poderiam levar a Inglaterra ao progresso, ou, à decadência.
“(...) Nessa nova perspectiva culturalista, o corpo aparece como resultado de uma construção, de um equilíbrio estabelecido entre o dentro e o fora, entre a carne e o mundo. Um conjunto de regras, uma trabalho cotidiano das aparências, de complexos rituais de interação, a liberdade de que cada um dispõe para lidar com o estilo comum, com as posturas, as atitudes determinadas, os modos usuais de olhar, de portar-se, de mover-se compõem a fábrica social do corpo. (...) Até a própria transgressão manifesta a força do contexto social e ideológico”53.
Resulta que, para Tennyson, era preciso construir uma cultura permeada por valores ligados à moral. Seus poemas foram a maneira encontrada para divulgar e, quem sabe, cultivar valores que pareciam se perder em meio à sociedade liberal e industrial. Esses valores ligavam-se a uma história que o poeta considerava tradicional e que passava por outros períodos temporais, não importando se ela era mítica ou não, o objetivo era o cultivo de ideais civilizatórios na sociedade em que vivia, era o sentido do medievalismo vitoriano.
Assim, foi a personagem de Merlin que costurou a teia dos acontecimentos para a formação de Camelot, a civilização idealizada. O mago
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separou Arthur de uma sociedade corrompida em seus costumes e o entregou para ser criado por Sir. Anton, velho cavaleiro e amigo do rei Uther.
“... all before his time
Was Arthur born, and all as soon as Born Deliver’d at a secret postern-gate
To Merlin, to be holden far apart,
Until his hour should come; because the lords Of that fierce Day were as the lords of this, Wild beasts, and surely would have torn the child Piecemeal among them, had they known; for each But sought to rule for his own self and hand (...)”54.
A ideia de que Arthur não poderia crescer entre os lordes, pode ser entendida como uma critica a elite inglesa da contemporaneidade do autor. As expressões Wild beasts e torn the child tem um sentido alegórico. Ao utilizá-las o poeta realizava uma crítica política e social. Para Tennyson, a elite que dominava a Inglaterra era um corpo corrompido, selvagem, que governava segundo suas próprias vontades55. Colocar o futuro rei nesse meio significava
corrompê-lo, despedaçar os valores e bons costumes dos quais Arthur era portador.
É importante lembrarmos que Tennyson posicionava-se contra as medidas liberais que predominavam na sociedade inglesa daquele período; Além disso, entendia algumas medidas, como as reformas parlamentares inglesas, como possibilidade de atraso, afinal, para o poeta, a nação deveria assumir o controle social e não ampliar a participação política da população.
Tennyson não concordava com essas mudanças, ele era favorável a melhoria de vida da população, mas sempre de forma gradual e sem alterações bruscas da ordem política, por isso, também apoiava a realeza. A ideia de uma
54 TENNYSON. 1954, Op. cit. pp. 290 – 291.
55 Essa ideia de uma elite corrupta remete, ao mesmo tempo, aos lordes do reino de Uther e à Inglaterra do século XIX. Além disso, a expressão Wild beasts, não está relacionada aqui com a multidão (como evidenciamos no primeiro capítulo), o que nos faz entender que a ideia de “bestas”, para Tennyson, associa-se muito mais a uma postura não-civilizada, não importando se essa postura aparece entre trabalhadores, multidões, lordes ou liberais.
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realeza forte, em teoria, implicava a diminuição da participação da população. Aos olhos do poeta, o corpo social civilizado poderia contribuir com a nação, mas não ocupar o lugar da soberania, que cabia ao Estado.
Portanto, para Tennyson, as mudanças políticas, de características democráticas, ocorridas na Inglaterra eram evidências de instabilidade. Provavelmente, as percepções do poeta, sobre seu próprio tempo, contribuíram para uma busca de tradições que estavam vinculadas com o passado, ainda que forjado. Se partirmos da afirmação de Hobsbawm: de que as tradições “são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória”56, podemos situar Tennyson num movimento que, por meio de suas obras, contribuía para a formação da tradição inglesa. Não foi coincidência, que na década seguinte, os cerimoniais da realeza passaram a ser encenados com uma nova aura. Era parte da invenção das tradições57.
Nesse contexto, foi Merlin que teceu tempos e sentidos no poema. O mago, que havia servido ao rei Uther, sabia da legitimidade de Arthur, separou a criança para que fosse educada por um cavaleiro fiel – Sir. Anton –, e foi quem apresentou Arthur para ser coroado rei. Ao realizar tais façanhas transitou entre os tempos: o personagem que esteve, em outros tempos, servindo a Uther, também serviu a Arthur, mas principalmente, serviu a um ideal de civilização representado por Camelot.
A construção dessa sociedade só foi possível pela ação do personagem que ligou os tempos de Uther ao de Arthur: Merlin, que, nesse momento, pode ser pensado como representação do próprio poeta – no sentido que Tennyson resgatou e difundiu o que entendia por tradição britânica, para tanto, transitou entre a Idade Média e o século XIX.
Merlin cumpriu no poema função similar a dos poetas na sociedade vitoriana. Além de transitar entre os tempos, desvendou o encoberto, zelou pela existência de uma sociedade ideal. Se, por um lado, Tennyson buscou o passado medieval para forjar uma tradição a altura das grandezas dos valores britânicos; por outro lado, utilizou Merlin como aquele que contribuiu para a
56 HOBSBAWM, Eric & RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008. pp. 10.
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constituição dessa sociedade idealizada. Para isso, o mago interferiu no passado através de Uther.
“... Wherefore Merlin took the child, And gave him to Sir Anton, an old Knight And ancient friend to Uther; and his wife
Nursed the Young prince, and reared him with her own; And no man knew. And ever since the lords
Have foughten like wild beasts among themselves, So that the realm has gone to wreck (...)”58.
As palavras old Knight e ancient friend, remetem à outra temporalidade, ao passado, tempo em que as “bestas” disputaram o poder até levar aquela civilização à destruição. Já, o tempo de Arthur, em The Coming of Arthur, referia-se ao presente, diz Tennyson no mesmo poema: “(...) but now, / This
year, when Merlin (for his hour had come) / Brought Arthur forth, and set him in the hall, / Proclaiming, ‘Here is Uther’s heir, your king”59. Foi assim que o poeta
mostrou Merlin como o sábio que transitou e interferiu no passado e no presente e revelou, mais uma vez, sua concepção de história.
As sociedades tem seu início, alcançam seu apogeu e se perdem, até atingirem a destruição. Assim foi com a sociedade governada por Uther, assim seria com Camelot e quiçá com a própria Inglaterra de Tennyson, caso sua população não fosse educada através de modelos de comportamento civilizatórios. Merlin, concomitantemente, contribuiu para a fundação de Camelot e para levar condutas que Tennyson considerava ideais, ainda assim, a decadência das sociedades, seja a de Uther ou a de Arthur, ocorreu devido à conduta humana.
As ações dos indivíduos determinavam, juntamente com a história, o curso dos acontecimentos. Para o poeta, a história era cíclica e as sociedades estavam fadadas à decadência, mas essa decadência ocorria por meio das ações de homens e mulheres. No caso da sociedade que Uther governou,
58 TENNYSON. 1954, Op. cit. pp. 291. 59 TENNYSON. 1954, Op. cit. pp. 291.
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Tennyson foi claro: os lordes lutaram entre si como bestas selvagens, o que levou o reino à destruição. A disputa pelo poder, a vontade de cada lorde de realizar os próprios desejos, o pensar apenas em si, provocou o fim daquela sociedade. Era a forma como o poeta criticava as ações individualistas da Inglaterra do século XIX, era a evidência do medo de que as ações consideradas, pelo poeta, bárbaras, não civilizadas, pudessem levar ao fracasso a nação inglesa.
Por isso, Tennyson valorizou uma conduta “civilizatória”, o ato de servir. Merlin, corpo portador da sabedoria, entregou Arthur para que fosse criado por Sir Anton e por sua esposa. Anton foi colocado por Merlin na posição de vassalo leal, foi aquele que serviu Uther como cavaleiro e como amigo. Ao descrever essas características de Anton, o poeta destacou parte do que entendia como modelos civilizados de comportamento: amizade e lealdade. Aqui, entendemos também, um dos motivos pelos quais Tennyson buscou a representação do ideal de civilização na Idade Média. Foi nesse período da história que a ideia de fidelidade e do servir se fez presente. O medievalismo vitoriano serviu de base para que o poeta cultivasse, por meio das personagens lendárias, os comportamentos ideais.
O corpo era entendido como receptáculo das ameaças que poderiam pesar sobre a sociedade, lugar de todo desregramento e, portanto, da eventual decadência. Era preciso controlá-lo. Para isso, foram utilizadas várias formas: as vozes educadoras dos poetas e o seu foco em modelos ideais de comportamento, as descobertas do funcionamento dos órgãos do corpo e, até mesmo, as teorias que foram incorporadas às ciências sociais naquele período, como o darwinismo.
A representação do corpo no século XIX vinculava-se, concomitantemente, ao corpo como um organismo animado pelas leis da física e da química e com o corpo entendido como organismo social. Ainda que o corpo estivesse inserido em uma genealogia familiar, ele não estava isolado, o que significava que suas vivências poderiam modificar seu comportamento, sua moral. Suas ações estavam sujeitas às influências da sociedade, fator evidenciado por Tennyson ao narrar como o rei Arthur foi retirado do meio em que seus pais viviam. Talvez, possamos até dizer que, para o poeta, o Homem
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não nascia bom, precisava ser educado, mas, a sociedade poderia corrompê-lo ainda mais.
Para Tennyson, as ações individuais deveriam ser pensadas como parte do social, com o objetivo de colaborar com o bom e harmônico funcionamento de um corpo maior – o corpo social60. Por esse motivo, cada um dos indivíduos