Costa e Silva participou durante seus cinqüenta e sete anos de vida militar de cinco movimentos para tomada do poder por parte das forças armadas. Ou seja, se considerarmos como média aproximada, um movimento a cada dez anos. Mas na realidade sua grande movimentação foi ainda na juventude, nos anos de 1922, 1924, 1930 e 1932, ficando a última para 1964.
O Brasil buscava nos anos 1920 e 1930 o amadurecimento da República e ainda aprendia a conviver com a democracia. Analisando a história mais a fundo, foram necessários dois períodos de exceção – a Era Vargas e o Regime Militar de 1964 - que totalizaram mais de trinta anos, para que as instituições ganhassem certa estabilidade. Porém, o quadro da primeira metade do século XX era outro. Os militares não acreditavam nos políticos, vendo estes como usurpadores do poder e entendiam ser sua obrigação intervir na vida política da nação.
Revoltada, a mocidade militar assistia ao sacrifício dos princípios republicanos. Sentia-se ofendida em seus brios. As armas que a Nação lhe entregara, para defender a soberania e as instituições nacionais, eram desviadas para outra finalidade: a de sustentar a situação dominante (DIMAS FILHO, 1966, p. 24).
Este é o enredo que leva o país ao movimento de 1922. Os militares se levantaram contra a eleição para a presidência de Arthur Bernardes e ações do então presidente Epitácio Pessoa, como a prisão do Marechal Hermes da Fonseca.
A participação de Costa e Silva no movimento de 1922 terminou antes mesmo de começar. O então tenente Arthur era o responsável, com um grupo de sete companheiros, pela tomada da Vila Militar. Entretanto a informação vazou e todos foram presos e enviados para o navio-presídio Alfenas, onde Costa e Silva passou seis meses. Este foi o primeiro de uma série de movimentos dos anos 1920, que ficaram conhecidas como as Revoltas Tenentistas.
Passado o tempo de prisão, Arthur foi enviado para Santa Maria, no Rio Grande do Sul, já como primeiro tenente, onde serviu no 7º Regimento de Infantaria. Um mês depois foi chamado ao Rio de Janeiro para responder por sua participação no levante da Vila Militar. Durante o inquérito ficou afastado de suas funções no exército e dividia um quarto de pensão com o também tenente Juarez Távora, que posteriormente teria grande relevância no cenário político brasileiro. Os amigos passaram por momentos difíceis, uma vez que o pagamento do soldo de ambos havia sido suspenso. Costa e Silva recusava-se a pedir ajuda à família, pois julgava que o pai já fizera o suficiente por ele e agora tinha que cuidar dos irmãos mais novos. Por intermédio do amigo Edmundo de Macedo Soares conseguiu uma posição como colaborador no jornal O Imparcial, onde recebia cinqüenta mil réis por cada artigo publicado, além de manter uma coluna no jornal de sua cidade, O Taquariense. Entretanto, não assinava em seu nome, mas sim com o pseudônimo de Raul D’Alva.
Outra fonte de renda eram as aulas particulares de matemática que dava aos alunos da Escola Militar. Desta forma conseguia o suficiente para seu sustento e assim ficou até a Justiça Militar retirar as acusações e poder retomar suas atividades na tropa.
Mas o período de tranqüilidade não duraria muito e logo Costa e Silva voltaria a envolver-se em uma revolta.
Em julho de 1924 tinha início sua participação na segunda tentativa de tomada de poder. Liderados pelo General Isidoro Dias Lopes o grupo tenentista de São Paulo iniciou uma rebelião, contando com o apoio de tenentes do Rio Grande do Sul, entre eles Arthur. Na companhia do Tenente Osvaldo Cordeiro de Farias tentou dissuadir a tropa do 8º Regimento de Infantaria a seguir para São Paulo na luta legalista. Narra a ação Nelson Dimas Filho (1966, p. 29):
Estava anunciada a passagem, por Santa Maria, de um comboio ferroviário, conduzindo o 8º Regimento de Infantaria, de Cruz Alta, para reforçar os contingentes legalistas, no cerco aos revolucionários da cidade de São Paulo. Os Tenentes Costa e Silva e Cordeiro de Farias tentam um golpe-de-mão, confiados apenas na própria audácia.
Na gare, quando o comboio se preparava para seguir destino, improvisaram um comício de protesto. Arthur subiu para uma janela e concitou os soldados à rebelião. O coronel-comandante do regimento apressou a partida. Os dois tenentes foram dominados, desarmados e presos.
Mais uma vez Costa e Silva foi afastado de suas atividades militares, mas não deixou de manter contato com Cordeiro de Farias. Em suas conversas o plano principal era a incorporação na tropa liderada por Luís Carlos Prestes, no que ficou conhecido como a Coluna Prestes. Entretanto uma apendicite impediu que Arthur seguisse adiante com seus planos, tendo inclusive que sofrer uma cirurgia em abril de 1925.
Em setembro do mesmo ano, Arthur se casa com Iolanda em Juiz de Fora, Minas Gerais. Em julho de 1926 nasce o único filho do casal, Alcio Barbosa da Costa e Silva.
Os anos seguintes foram de aparente tranqüilidade, com Costa e Silva servindo em diferentes setores do exército, até que em 1929 serviu na 1ª Circunscrição de Recrutamento, no Rio de Janeiro, onde ficou até abril de 1930 quando iniciou o curso da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais – EsAO – tendo concluído em 1º de outubro do mesmo ano, como melhor aluno da turma. Como prêmio ganhou o direito de concluir seus estudos na França, mas não pode aproveitar a oportunidade, pois mais uma vez envolveu-se em uma revolta militar.
Dois dias após a sua formatura teve inicio o movimento deflagrado pela Aliança Liberal do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. O objetivo era o mesmo das revoltas anteriores, derrubar o governo constituído, representado no caso por Washington Luís.
Na noite do dia 2 de outubro, Costa e Silva entrou em contato com o 3º Regimento de Infantaria, sediado na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro e foi informado que a maioria da oficialidade estava integrada ao movimento. No dia 24 de outubro a tropa do regimento tomou o Palácio da Guanabara, sede do Governo Federal, e fez o Presidente Washington Luís prisioneiro. Coroando sua primeira vitória em um movimento militar, Costa e Silva seguiu à frente da tropa carregando a Bandeira Nacional.
Mas esta participação não foi tranqüila como a história faz parecer. Na noite do dia 2 de outubro, quando ficou sabendo do movimento, Arthur demorou mais do que o normal para chegar à sua casa, onde a esposa, Iolanda, preparava uma recepção para o dia seguinte, onde a
família e amigos comemorariam o aniversário de 28 anos do tenente. Quando chegou avisou à esposa que precisariam sair da Vila Militar, pois uma revolta estava à iminência de começar e precisavam de um lugar seguro para ela. Foram para Niterói, casa do General Severo Barbosa, pai de Iolanda.
Com a esposa em segurança, Costa e Silva viu-se, em companhia de Napoleão de Alencastro Guimarães, com um problema inesperado: as barcas que faziam a travessia Niterói - Rio de Janeiro não estavam funcionando.
Nelson Dimas Filho (1966, p. 33) narra o que se seguiu:
Quando as velas se enfunaram ao vento da Guanabara, o dono do barco se viu diante de dois canos de revólver, apontados na sua direção.
- Nós não vamos para Jurujuba, mas sim para a Praia Vermelha! O sanguíneo rosto germânico tornou-se lívido.
- Santo Deus! É uma loucura! O barco não agüenta.
- Se não agüentar com você não agüentará com nós dois. Tenha fé. Tudo vai sair bem.
Houve momentos em que tudo parecia indicar que a causa revolucionária não contaria com a participação dos dois voluntários audaciosos. Conseguiram chegar, enfim, à Praia Vermelha.
Descontado o tom romântico da aventura narrada pelo autor, fica o ímpeto revolucionário do tenente de 28 anos, que já havia deixado de participar da Coluna Prestes por causa de uma doença, agora não perderia a oportunidade por nada.
Vitorioso, Costa e Silva foi convidado por Osvaldo Aranha para assumir, como interventor, o governo do estado do Maranhão, convite não aceito.
Mas não foi apenas esta a proposta que o Tenente ouviu vinda de políticos e aqui temos uma primeira explicação da baixa confiança que o militar depositava nestes após o movimento de 1964.
Nelson Dimas Filho narra que um importante político chegou a propor a Costa e Silva que em troca de apoio para que assumisse o governo de seu estado, ofereceria ao militar a chefia de polícia, o que na verdade seria carta branca para governar em seu lugar. Segundo Dimas (1966, p. 37), esse primeiro contato com a política profissional causou náuseas no militar e motivou a seguinte resposta: “Mas o senhor não está vendo que não devo aceitar sua proposta? Se eu posso ser ca