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Dans le document AVANT-PROJET PRELIMINARY DRAFT (Page 85-108)

Conforme dito no tópico anterior, na evolução da história da Bahia, municípios do Alto Sertão, a exemplo de Caetité, Rio de Contas e Monte Alto, dentre outros lugares, foram bastante representativos na produção econômica referente à pecuária, ao algodão e outras atividades rentáveis. Soma-se a essas atividades lucrativas o comércio de cativos, seja via tráfico atlântico ou tráfico interno, que muito contribuiu para o enriquecimento de alguns senhores durante o século XIX. No final do século XVII, quando Portugal empreendeu a busca por jazidas de ouro nas Minas Gerais e nos sertões, a região integrou-se à dinâmica do capital mercantil, promovendo, dessa forma, o deslocamento de pessoas de todos os cantos do mundo em busca de riquezas e prestígio social. O Alto Sertão integrava a sesmaria dos Guedes de Brito, destinada à criação de gado nos tão conhecidos currais do São Francisco35.

No século XVIII, essas regiões se enquadravam entre as áreas de colonização dos sertões pela coroa portuguesa, com abertura de estradas, caminhos e rotas fluviais pelo Rio

35 Acerca do povoamento nos sertões, no início da colonização portuguesa, ver: TAVARES, Luís Henrique Dias.

História da Bahia. Editoras: Unesp e Edufba. ed. 11, 2008. p. 157-158; ALENCASTRO, Luís Felipe de. O

Trato dos Viventes: A Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 340-

São Francisco36. Paralelamente à expansão das atividades econômicas, veio o crescimento da população escrava, somente em Monte Alto, cerca de 10% da população era escrava no ano de 187237. Do total de 11.866 pessoas, a população escrava correspondia a 1.105 pessoas, sendo 645 homens e 460 mulheres. Desse montante, 5.627 eram, de acordo com o censo, gente parda, e 1.296 eram declarados pretos, sendo que, possivelmente, parte destes era oriunda do tráfico de escravizados que se tornaram livres ou libertos, destinados a diversas atividades das fazendas38.

No percurso da Serra Geral, mais especificamente entre as regiões de Rio de Contas, na Bahia, e Minas Gerais, localizava-se a serra de Monte Alto, com jazidas de salitre39. A descoberta do salitre, no século XVIII, despertou cobiça da coroa portuguesa, que enviou contratadores para explorar o minério, a exemplo do mestre de campo, Pedro Leolino Mariz, visando à instalação de uma fábrica40. Investiu, ainda, em abertura de estradas e logística para o escoamento do produto. A exploração do salitre, somada à pecuária, contribuiu para o desenvolvimento de núcleos urbanos e rurais e de povos de diferentes nações e culturas, entre eles, indígenas e africanos escravizados41.

O esgotamento das atividades auríferas em fins do século XVIII impactou a economia do império português, sendo necessária a busca de alternativas capazes de garantir a manutenção da estrutura administrativa. Nesse contexto, reorientou-se a exploração de terras destinadas às atividades agrícolas e pecuaristas, sendo que Monte Alto, juntamente com Caetité e todo o Alto Sertão da Bahia, ganhou impulsos nos setores produtivos da pecuária e do algodão, entre outras atividades. Na tentativa de prolongar o projeto colonizador, o

36Ver: IVO, Isnara Pereira. Homens de Caminho: trânsitos culturais, comércio e cores nos sertões da América

portuguesa. Século XVIII. Vitória da Conquista: edições UESB, 2012; SANTOS, Márcio Roberto Alves dos.

Fronteiras do sertão baiano: 1640- 1750. Tese de Doutorado. São Paulo: USP. 2010.

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Durante o século XVIII, Monte Alto correspondia a uma área pouco povoada e relativamente voltada à exploração do salitre e à economia de subsistência, contudo, dada a falta de registros nos documentos, não se sabe exatamente a dimensão do conjunto populacional no século XVIII. No entanto, há indícios de que o trabalho escravo se fez presente desde o processo de colonização na região. Cite-se como exemplo o testamento de Francisco Pereira de Barros, que deixou registrados 16 cativos em 1735, em sua Fazenda Boa Vista.

38 IBGE. Recenseamento do Brasil - Província da Bahia, Monte Alto, 1872.

39Sobre o salitre na serra de Monte Alto, ver: IVO, Isnara Pereira. Homens de Caminho: trânsitos culturais,

comércio e cores nos sertões da América portuguesa. Século XVIII. Vitória da Conquista: edições UESB, 2012.

40Ainda sobre o salitre na serra de Monte Alto, ver também: PERES, Damião. Um capítulo de história

econômica bahiana e sua integração na vida política luso-brasileira de setecentos: A exploração de salitre no Monte Alto. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, n. 77, 1952, p.207 – 216.

41 Pedro Leolino Mariz, romano, homem de confiança do governo português, foi encarregado de administrar as

riquezas nos sertões da Bahia. Responsável pela descoberta de minas de salitre na serra de Montes Altos. Além dele, João da Silva Guimarães e João Gonçalves da Costa foram responsáveis por organizar estradas, partindo de Minas Novas do Araçaí e Norte de Minas Gerais, rumo aos sertões da Bahia. Coube a Pedro Leolino Mariz a incumbência de se firmar “como um homem de fronteira”, abrindo estradas, expulsando bandeirantes paulistas e preservando as minas de salitre em Montes Altos. (IVO, 2012). A expressão “homens de caminho” foi retirada do livro: IVO, Isnara Pereira. Homens de Caminho: trânsitos culturais, comércio e cores nos sertões da América portuguesa. Século XVIII. Vitória da Conquista: edições UESB, 2012.

governo do Marquês de Pombal criou a Mesa de Inspeção de Agricultura da Bahia, em 1750, no intuito de retomar o desenvolvimento agrícola no Brasil-colônia. O novo projeto, gradativamente, suspendeu a Lei do Morgado, e as terras dos Guedes de Brito foram repassadas a contratadores, concedidas mediante acordos, vendidas ou arrendadas para posseiros (NEVES, 2005). Mesmo assim, grandes latifúndios escravistas permaneceram ao longo do século XIX no Alto Sertão da Bahia.

Alguns “homens de caminho” dirigiram-se para as serras de Montes Altos, a exemplo do Francisco Pereira de Barros (Pereirinha), que, em 1742, comprou a Fazenda Riacho da Boa Vista, de Isabel Guedes de Brito, fixando morada naquelas terras. Pereirinha, conhecido pelos montealtenses como um dos responsáveis pelo povoamento, requereu, em 1735, da Santa Sé da Bahia, autorização para a construção da capela em louvor a Nossa Senhora Mãe de Deus e dos Homens, deixando claras no testamento suas intenções para a edificação do monumento.

[...] he este Riacho assim confrontado do meu próprio por eu haver comprado a Dona Isabel Maria Guedes de Brito, como consta de uma escritura que está nos autos da cidade da Bahia feita pelo tabelião Francisco Alves Tavares, e sendo a nota da dita escritura em meu poder e consta a dita comprado o dito Riacho da Boa Vista com todas as suas vertentes e juntamente da Serra da Boa Vista com todas as suas águas nativas e correntes, e tudo está muito bem declarado na dita escritura das quais terras faço de ação a virgem Maria Mae de Deos para de seu rendimento delas se pagar cada um ano seis mil e duzentos e cinquenta reis para começar huma Capella que invento edificar e com effeito a edifico de licença de sua Reverendíssima com a sua invocação da Virgem Mae de Deos e Homem. Com condição de que edificada que seja a tal Capella nos limites da tal fazenda [...]42

Acreditava aquele rico senhor que a edificação da instituição religiosa promoveria um espaço de obtenção dos sacramentos, como o direito de sepultamento dele, de seus familiares e demais fiéis, além do fato de poder beneficiar-se da doação, fazendo da instituição religiosa um lugar de concessões de mercês, conforme declarou na petição feita à Santa Sé43.

Para Fernanda Olival (1999, p.21), servir à coroa na iminência de recompensas era prática recorrente por diferentes indivíduos do reino português. Até mesmo as camadas sociais mais baixas naquela época encontravam meios de servir e realizar préstimos, com o

42 Fórum Dr. Alcebíades Dias Laranjeira - Palmas de Monte Alto/BA. Autos do Encapelado, v.1, 1846.

43 De acordo com Nuno Monteiro, o sistema de concessão das mercês, criado em 1671, foi esclarecido pelo

Decreto de 15 de Agosto de 1706, que regulamentava o Regimento das Mercês. As mercês “repousavam no princípio da remuneração de serviços prestados à coroa”. Conseguir uma mercê dependia de todo um processo burocrático e difícil de adquirir. O indivíduo pleiteante teria que mostrar um grande feito para merecer a recompensa. Para saber mais sobre as Mercês, ver: MONTEIRO, Nuno Gonçalo Freitas. O Crepúsculo dos

Grandes, a casa e o patrimônio da aristocracia em Portugal. (1750-1832), 2. ed. revista. Imprensa Nacional

Casa da Moeda. Lisboa, 2003. Ver ainda: RICUPERO, Rodrigo. A formação da elite colonial. Brasil c. 1530 – c. 1630. São Paulo: Alameda, 2009. O autor dedica um capítulo específico às honras e mercês.

objetivo de converter em benesses. Essa prática de servir ao poder do reino criava expectativa de receber algo em troca e, de certo modo, algum amparo para a vida toda. O ato de dar, receber, pedir, disposição para presteza, assim como agradecer constituíam “verdadeiro círculo vicioso” (OLIVAL, 1999, p. 18) de boa parte da sociedade do antigo reino. Em alguns casos, os prêmios esperados pela prestação dos serviços nem sempre correspondiam aos desejos do pedinte, o que poderia ser considerado “injusto”. Nesse sentido, Pereirinha, possivelmente, ao doar o terreno para a construção da capela, contava com recompensas e reconhecimento do feito. A petição foi atendida pelo arcebispado da Bahia, contudo, Pereirinha faleceu antes que a construção da capela ficasse pronta e, por razões diversas, não gozou das recompensas esperadas, exceto o sepultamento na redondeza da capela.44

Figura 4 – Igreja Matriz construída em 1735 no sopé da Serra de Monte Alto

Fonte: Biblioteca do IBGE. Série: Acervo dos municípios brasileiros, 1957. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=431437> Acesso em: 26 jan. 2017.

No século XIX, mais especificamente em 1856, a Câmara de Monte Alto informou ao presidente da província da Bahia os limites territoriais da vila, sendo com Caetité a 15 léguas (90 km), Macaúbas a 34 léguas (204 km), Carinhanha a 16 léguas (100 km) e, para o lado do

44 Sobre Francisco Pereira de Barros e Monte Alto, ver: ARAÚJO, Jonas Cardoso. Algumas considerações

acerca do município de Palmas de Monte Alto. In: SILVA, Joaquim Perfeito da. Territórios e ambientes da

Sul, com a província de Minas. O documento informava os limites dos colégios eleitorais na região, conforme representação a seguir45.

Figura 5 – Limites do termo de Monte Alto em 1856

Fonte: Mapa elaborado em parceria com Junívio Pimentel a partir de informações contidas em correspondências recebidas da Câmara de Monte Alto. APEB. Arquivos Colonial e Provincial. Correspondências Recebidas da Câmara de Monte Alto. Processo 1361, 1856.

Assim, o termo constituía-se pelos principais distritos: Riacho de Santana, Boqueirão das Palmeiras (Sebastião Laranjeiras) e Beija-Flor (Guanambi). Em 1856, a Câmara informou que a produção algodoeira, uma das principais atividades econômicas da região, passava por dificuldades devido ao despreparo dos terrenos, apesar de estarem ali as melhores criações de animais. O insucesso na cotonicultura levou alguns proprietários a migrarem para as Lavras Diamantinas, na Bahia, a partir da descoberta do diamante, o que, certamente, desencadeou migrações do interior do sertão para a exploração do minério, promovendo impactos no cotidiano local.

Malgrado os problemas das secas, a região era produtora de uma variedade de gêneros agrícolas, como arroz, feijão, milho, cana-de-açúcar e mamona, além de investirem na pecuária. Nos períodos chuvosos, ocorria reanimação dos proprietários, os quais não mediam esforços para a retomada de suas atividades. No entanto, enfrentavam problemas relativos ao escoamento da produção. Em 1856, a Câmara remeteu outro relatório ao presidente da

45APEB. Governo da província - Câmara de Monte Alto, 1840 a 1856. Seção de arquivo colonial e provincial, n.

província da Bahia, reclamando das péssimas condições das estradas, as quais precisavam de pontes, sobretudo as do Rio de Contas, principal via de acesso entre o Alto Sertão e o Recôncavo baiano:

Todas estas estradas estam em más estado e precisam de pontes, sobre tudo do Rio de Contas, ellas passam por terrenos, que em sua maior extensão, seja susceptíveis de culturas, e sem boas passagens, noutras porém há falta de água. Serve-se de cavalos de carga que custam 80 reis, de bestas por 150 reis, carregam e caminham 3 a 4 léguas, o frete é variável46.

O estado precário das estradas, comprometendo a comunicação eficiente, era uma das maiores queixas da Câmara de Monte Alto, pois dificultava as transações de mercadorias de exportação e importação. Exportava-se por São Félix e Cachoeira, passando por Caetité e Rio de Contas. Importava-se diretamente da capital, via Cachoeira e Santa Isabel. Passava-se pelas estradas do Paraguaçu e Rio de Contas, subindo aos portos de Cachoeira, à distância de 120 léguas, que correspondem a 720 km. O mapa a seguir demonstra o percurso de ida e volta dos caminhos percorridos por tropeiros com mercadorias do sertão para o Recôncavo da Bahia, à capital da província e vice-versa47. Os relatórios enviados ao presidente da província, em 1856, reclamavam das dificuldades de produção econômica, das vias de transportes e questões de ordem social, podendo-se, assim, conjecturar que esses problemas eram ainda piores nas primeiras décadas do século XIX.

46 APEB. Correspondências recebidas da Câmara de Monte Alto, n. 1361. Seção de arquivos colonial e

provincial, 1856.

Figura 6 – Trajeto percorrido pelos tropeiros do Alto Sertão com destino ao Recôncavo da Bahia e Salvador

Fonte: Mapa elaborado em parceria com Junívio Pimentel a partir de informações contidas na documentação consultada. APEB. Seção de Arquivo Colonial e Provincial. Governo da Província Monte Alto. Mç: 1360, 1840- 1856.

Nesse contexto, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas, a análise dos inventários post mortem sinalizou em Monte Alto, ao longo do século XIX, a existência de ricas fazendas com vista para o desenvolvimento da pecuária e cultivo do algodão, produtos destinados aos mercados interno e externo, como Salvador, Recôncavo da Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, assim como o desenvolvimento da policultura48. As pequenas fazendas e sítios também integravam a dinâmica do comércio interno e subsidiavam o abastecimento da região. No âmbito da historiografia clássica, pesquisadores como Prado Júnior (2004) destacaram a relevância da interiorização na dinâmica do capital mercantil, como os aspectos da existência de atividades subsidiárias após a crise das zonas auríferas, dentre elas, a agricultura e a pecuária.

Parte do abastecimento de carnes para as regiões de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro tinha como fonte fornecedora as localidades que se estendiam do Rio de Contas, na Bahia, às margens do São Francisco, além do Rio Pardo e Rio Verde de Minas. As regiões contavam com climas favoráveis e topografias planas, a exemplo da beira do Rio São Francisco, que possuía salinidade no solo, os conhecidos “lambedouros”, com um mineral

48Para saber mais sobre os trânsitos econômicos do Alto Sertão em fins do século XIX, ver: SANTOS, Paulo

Henrique Duque. Légua tirana: sociedade e economia no alto sertão da Bahia, Caetité, 1890-1930. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2014.

necessário à criação de gado. Ainda, ressaltou-se a existência do comércio interno desse minério entre “a zona que margeia o São Francisco e seu afluente, o Salitre e a vila do Urubu” (PRADO JÚNIOR, 2004, p. 62).

Para além da pecuária, na caatinga do Alto Sertão da Bahia, assim como em outras regiões do Nordeste, como Maranhão e Ceará, o plantio do algodão se expandiu no início do século XIX e encontrou, nessas regiões de clima seco, condições favoráveis ao seu desenvolvimento. Em Monte Alto, a atividade do algodão também foi ressaltada por Prado Júnior (2004), ao afirmar que, ao lado da pecuária, o algodão constitui uma das principais fontes de riqueza e desenvolvimento econômico da região. Assim, evidencia:

O interior mais remoto também se aproveita da preferência do algodão por climas mais secos. Nos altos sertões limítrofes da Bahia e Minas gerais, forma-se uma região algodoeira de certa importância. Ela abrange, no sul da primeira, a área que se estende a leste do Rio São Francisco, compreendendo a serra de Monte Alto, Rio de Contas, Gavião e Conquista, com centro principal em Caetité (PRADO JÚNIOR, 2004, p. 151).

Mesmo com dificuldades de transportes e distâncias dos grandes centros, o algodão proporcionou o alargamento das atividades agrícolas para regiões do interior da colônia, motivando, também, a dinâmica interna de comércio, expansão e perspectivas de maior integração econômica, como afirmou José de Sá Bittencourt, em 1798:

A 14 léguas da villa de Camamú, fazendo caminho de Oest-Sudueste até encontrar as margens do Rio de Contas, onde confinão as matas grossas, com Catingas altas (1), e vão confinar a 12 léguas com Catingas baixas (2), já a regularidade do clima se conforma com a fertilidade do terreno, muito próprio para todas as plantações, particularmerte, para a lavoura do Algodão, onde se acha silvestre no meio das ditas Catingas (BITTENCOURT, 1798). Ângelo Alves Carraro (2008) evidenciou, ao estudar a história dos preços a partir de séries documentais em Ouro Preto, Minas Gerais, produtos que circulavam na capitania provenientes de vários lugares do Brasil. Da Bahia, especificamente nas regiões do Recôncavo e sertão, incluíam-se produtos das fazendas do São Francisco: “sal das salinas sanfranciscanas, sabão, sebo, carne-seca, sola, cera e couros de boi, de veado e de lontra e, finalmente, os peixes salgados” (CARRARO, 2008, p. 188). E acrescenta em outro momento que, no final do século XVIII, encontrou, nos registros de Rio Pardo, maior concentração de comércio “entre o Norte de Minas e a Bahia e Minas Novas”, sobretudo no que diz à importação de escravos e produção de algodão (CARRARO, 2006, p. 141).

A economia de abastecimento interno e a “mercantilização da economia de subsistência” construíram espaço próprio, autônomo e dinamizador e, respeitando as

singularidades regionais e temporalidades históricas, conectaram direta ou indiretamente a dinâmica do mercado externo. As atividades internas foram além das práticas de escambo e autoconsumo, pois representaram e adaptaram as regras do capitalismo internacional. Mesmo com todas as dificuldades de comunicação, transportes e distância dos grandes centros, havia fluxos constantes de pessoas e mercadorias que transitavam de um lugar para outro, favorecendo a integração territorial e econômica do interior (LAPA, 1982, p. 44/45).

Caracterizar a região e o comércio interno é imprescindível para entender as especificidades da economia da região ao longo do século XIX, com a expansão das atividades agropastoris, acompanhada pela mão de obra cativa. No dinamismo regional, desenvolveu-se uma elite local, considerada dentro dos limites de produção econômica da região, homens afortunados, verdadeiros potentados, proprietários de fazendas e capitalistas que se valiam do trabalho cativo para tocar seus negócios e, consequentemente, acumular riquezas.

Quanto à infraestrutura da pequena vila de Monte Alto, nos relatórios remetidos ao presidente da província da Bahia, no século XIX, havia inúmeras queixas, que pareciam ser ignoradas pelas autoridades: falta de calçamentos na maioria das ruas e o conserto das estradas dependia da boa vontade de outros municípios, a exemplo da construção da ponte do Rio de Contas e a do Rio Carnaíba de Dentro, do mesmo termo, e da ponte do Pajeú, que dava acesso à Carinhanha. No conserto da ponte do Rio Carnaíba, que ficaria a uma extensão de sete léguas (42 km) de distância da vila, o orçamento chegaria a Rs. 500$000.

Antes de 1856, a igreja matriz carecia de reformas e não havia na vila cemitérios nem casa da Câmara ou cadeia. Os presos ficavam em lugares improvisados e mal acomodados. Mesmo assim, o termo possuía 40 engenhos, sendo oito principais, localizados em fazendas de grandes proprietários, como Faustino Moreira de Castro, José Francisco Barbosa, Belchior Pereira Guedes e José Antônio da Silva Castro. A agricultura e a pecuária ficavam a cargo das técnicas rudimentares, à base do trabalho escravo, e sem perspectivas de melhoramentos49. Noutro relatório, de 1861, passados cinco anos, a Câmara novamente enfatizava as reais necessidades da vila, ressaltando a situação da pobreza diante da escassez de gêneros alimentícios, as péssimas estradas e a falta de pontes nos rios. Assim consta no relatório:

Ex_ᵐᵒ Senr.ᵒ, Monte Alto – 1861

A Câmara municipal da Villa de Monte Alto de novo expõe as necessidades das mais urgentes do município pedindo melhorias a ellas. Primeiramente – não há casa de Câmara, nem cadeia para cujo edifício abriu-se uma

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