Para alcançar o objetivo desta pesquisa, valemo-nos de minuciosa análise de informações disponíveis em processos de inventários post mortem, totalizando 257 documentos pesquisados para o termo de Monte Alto, entre o período de 1810 e 1888. A opção pela análise dessa fonte permitiu uma construção de perfil variado de grupos sociais, da vida cotidiana e dos elementos de riqueza que compunham a estrutura econômica da região.
Inventários post mortem de Monte Alto mencionam, até 1831, escravos oriundos de várias localidades da África, como Congo, Angola, Mina, Nagô, juntamente com os nascidos no Brasil. Essas procedências, ainda que não correspondessem aos lugares de origem na África, mostraram o quanto senhores da região estavam na rota do comércio atlântico. Entre 1831 e 1850, nos inventários, as denominações do local de origem foram substituídas com frequência pelo termo africano e, à proporção que os períodos se estendiam ao longo do século XIX, o termo africano praticamente desapareceu da documentação. A exceção ocorria para aqueles escravos em idade avançada, sugerindo que os senhores se utilizavam da estratégia de disfarce contra o iminente flagrante da lei que proibia o comércio ilegal de africanos. Os registros nos documentos do Judiciário evidenciam, ainda, a complacência da lei em acobertar tais informações sem nenhum constrangimento legal ou de suspeição.
Para Zélia Maria Cardoso de Mello (1990), o inventário post mortem como fonte de pesquisa:
[...] permite captar um aspecto da realidade econômico-social, quais os elementos constitutivos da riqueza, além de proporcionar informações para a história dos costumes e das mentalidades. Pode dar conta, imperfeitamente, é verdade, de outros aspectos, como, por exemplo, da rentabilidade das atividades e do movimento mais geral da economia, para o qual necessitamos de notícias complementares (MELLO, 1990, p. 28).
Devido ao fato de os inventários de Monte Alto estarem desorganizados, foi necessário catalogá-los e empacotá-los em papel de embrulho, dividindo as séries por ano. Após a catalogação, os dados foram listados de forma nominativa, formando, assim, um banco de dados sobre a vida social e cultural dos indivíduos. Para se estabelecer um padrão da composição de riqueza no termo, as informações coletadas foram organizadas em tabelas do Excel e classificadas por décadas, dividindo-as por faixas de riqueza: grande, médio e pequeno proprietário.17 O mesmo foi feito para se compreender o perfil da sociedade escrava. Imprescindível para a metodologia desta pesquisa foi a obra “Nomes e Números; alternativas metodológicas para a história econômica e social”, coordenada por Carla Maria Carvalho de Almeida e Mônica Ribeiro de Oliveira (2006), possibilitando melhor compreensão de como trabalhar com as conjunturas históricas das populações, por meio do cruzamento de fontes, em especial, no que se refere aos arranjos familiares, articulando-os aos aspectos sociais e econômicos da região, como afirmam Almeida e Oliveira. Assim, os livros de casamento, batismo e fontes do Judiciário serviram como balizas para o entendimento das vivências cotidianas dos escravos, senhores e livres, bem como das estratégias, solidariedades, alianças, dos conflitos e tensões em que aqueles indivíduos estavam inseridos.
Sob o olhar da micro-história, inventários do termo de Monte Alto permitiram reconstituir fragmentos da vida em sociedade. Uma vez que esse tipo de documento visa prestar contas do falecido, cujas informações do patrimônio são ali estabelecidas para análise e partilha dos bens entre os herdeiros, o conjunto de dados massivos e seriais, quando inquiridos e contextualizados, conduz a uma análise mais ampla do caráter econômico, social, cultural e religioso de parte de uma dada sociedade, confirma Carla B. Pinski (2008).
No Arquivo Público da Bahia, foi consultada uma documentação inédita referente às correspondências da Câmara e do Judiciário, assim como algumas ações de liberdade e processos-crime envolvendo escravos. Essas fontes trazem referências sobre os problemas que afligiam as populações do termo de Monte Alto, como as más condições das estradas e a falta de acesso aos meios de comunicação, dentre outras queixas, assim como dados das flutuações econômicas da região, as fazendas de gado, plantação de algodão e gêneros agrícolas diversos.
Os livros de notas (compra e venda de cativos) e as cartas de alforrias complementaram as informações sobre a região. Essas fontes permitiram construir listas
17Para classificá-los por faixa de riqueza foi levado em consideração a quantia do monte-mor arrolado nos
inventários post mortem, bem como as características dos investimentos feitos pelos inventariados, similar a estudos realizados por Maria José Rapassi Mascarenhas (1998), Mônica Duarte Dantas (2007) e Maria de Fátima Novaes Pires (2009).
nominativas de cativos, essenciais no cruzamento e comparações com outras fontes, sobretudo inventários, e vice-versa. Nas procurações, escrituras de compra e venda e cartas de alforria, ficaram evidentes as estratégias dos escravos na busca pela liberdade, em contraponto aos proprietários que, muitas vezes, resistiam à concessão de direitos.
No Arquivo Público da Bahia, alguns processos-crime e correspondências da polícia da época contribuíram para perceber as vivências escravas, seus anseios e o modo de enfrentamento das agruras do cativeiro em terras sertanejas. As esparsas fontes disponíveis nesse Arquivo abriram possibilidades para conhecer indícios do cotidiano escravo no termo de Monte Alto, suas trajetórias de vida, a luta pelo alcance da liberdade e constituição de famílias. No acervo da Paróquia de Guanambi, foram consultados livros de assento de batismo e de casamento, imprescindíveis para compreensão das redes de relações entre senhores, escravos e libertos, no âmbito da família, do compadrio e do acesso à alforria. Essas fontes forneceram, ainda, indícios preciosos da filiação de escravos, da reprodução natural, dos laços de parentesco, de pertencimento étnico e das lutas de sobrevivência.
Certamente, indícios da vida de muitos cativos foram perdidos ao longo do tempo ou encontram-se espalhados por cartórios e arquivos de várias cidades do sertão baiano. Entretanto, os que foram localizados deixaram rastros de como se constituíam as trajetórias e as relações sociais de cativos com seus senhores, livres e libertos, possibilitando identificar um universo complexo de convivências nos diferentes espaços que ocupavam.
Importante lembrar que fontes documentais são fragmentos que requerem articulações nas diferentes temporalidades históricas, uma vez que as pesquisas da micro-história se articulam a um contexto mais amplo, pois não são fragmentos isolados. Nos dizeres de Carlo Ginzburg (2007, p. 277), “toda configuração social é o resultado da interação de incontáveis estratégias individuais: um emaranhado que somente a observação próxima possibilita reconstituir”. Conclui o autor que o princípio organizador da narrativa histórica perpassa pela dimensão microscópica e pela dimensão contextual mais ampla18.
18Para saber mais sobre a micro-história, ver: GINZBURG, Carlo, “O queijo e os vermes, o cotidiano e as
ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição”, São Paulo: Companhia das Letras, 1987; e “A micro-
história e outros ensaios”, Rio de Janeiro: Bertrand, 1989; PESAVENTO, Sandra Jatahy, “História e história
cultural”, Belo Horizonte: Autêntica, 2006; CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.),
“Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia”. Rio de Janeiro: Elsevier (1997); VAINFAS, Ronaldo, “Os protagonistas anônimos da história, micro-história”, Rio de Janeiro: Campus, 2002. REVEL, Jacques, “Microanálise e construção do social”, In: REVEL, Jacques (Org.), “Jogos de escala: as experiências da microanálise”, Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1898, pp. 17-38; e “Micro-história, macro- história: o que as variações de escala ajudam a pensar em um mundo globalizado”, Revista Brasileira de
As fontes aqui mencionadas são recorrentes em pesquisas da história social, principalmente pelo uso do cruzamento de tais documentos, sendo estes imprescindíveis para o estudo de trajetórias de escravizados, libertos e livres, e suas possíveis relações com senhores na tentativa de assegurar o que consideravam justo para si.
No contexto das mediações sociais, o cotidiano como processo de mudança permitiu ao historiador perseguir, por meio do diálogo constante com as fontes, indícios das experiências vividas nas diferentes sociedades e culturas. Permitiu, ainda, repensar conceitos, estabelecer crítica com as novas interpretações da história social.19 É nessa linha de interpretação que, a seguir, se delineiam experiências de cativos, livres e libertos do termo de Monte Alto, no Alto Sertão da Bahia.
Para tal, a análise sobre os aspectos históricos, geográficos e econômicos da região tornou-se indispensável neste estudo, pois influenciaram significativamente a forma como escravos e senhores estabeleceram suas relações. Desse modo, o primeiro Capítulo discute aspectos fundamentais da geografia e economia do termo de Monte Alto, importante entreposto no comércio de cativos entre o Atlântico, Recôncavo, sertão, Minas Gerais e Goiás, promovendo, ao lado da produção algodoeira e desenvolvimento de demais atividades produtivas, alta concentração da mão de obra escrava nas fazendas. Mobilizando tais atividades, médios e grandes proprietários constituíam-se por elevada concentração de riqueza, havendo manutenção e ampliação das fortunas, ao longo do século XIX, intrinsecamente vinculadas à posse e ao comércio de cativos.
Embora os cativos tenham convivido com a iminente possibilidade de venda, nas diversas experiências e condições, sobretudo das grandes propriedades, importantes negociações se fizeram presentes por meio de arranjos familiares, conciliação de interesses e grau de relações estabelecidas com seus senhores, para a consecução da alforria. Por isso, o segundo Capítulo procura analisar as redes de negócios que permearam os espaços das grandes fazendas e suas implicações na luta pela liberdade, considerando a constante ameaça de venda para outras partes do Império. Assim, os meandros que permearam a conquista pela
19 Para melhor compreender a operacionalização dos conceitos pensados neste texto, valemo-nos das leituras de
Jacques Revel, em especial, a apreensão do método de escalas de análise, tão difundido na micro-história. Para o autor, esse método é relacional e possibilita maior exploração do objeto de estudo a partir da experiência da realidade social. Assim, o particular, o indivíduo, o local e o concreto passaram a ser pensados a partir de uma rede de relações em diferentes dimensões da vida social. Os conceitos não são determinantes nem soberanos, mas concretos, com “incertezas e racionalização limitada”. “As grandes transformações que alteram profundamente a face da Terra não existem em nenhuma parte a não ser pela ação de atores que, na lógica dos contextos peculiares da sua experiência social, se esforçam em garantir para si um lugar, isoladamente e/ou com outros” (REVEL, 2010, p 444).
alforria, a manutenção de laços familiares e a importância das redes de compadrio e sociabilidades serão abordados nesse capítulo.
No terceiro Capítulo, evidenciam-se as redes de relações construídas entre cativos, senhores e libertos em médias e pequenas propriedades, levando em conta as secas, crises financeiras e o impacto do tráfico interno. Escravos de pequenas propriedades tinham vida mais instável, valendo-se de esforços redobrados para o alcance da alforria e para a constituição de famílias, pois, quando seus senhores passavam por dificuldades, recorriam à venda de cativos para sanar os problemas, diminuindo as chances de livrá-los do cativeiro ou de vida mais estável perante a família e companheiros de senzalas.
No quarto Capítulo, pretende-se discorrer sobre o cotidiano escravo e as tensões de resistência entre pequenas, médias e grandes propriedades. Enfatizam-se, ainda nesse capítulo, as ações mais enérgicas de escravos e forros nos embates com seus senhores para assegurar direitos, quando os interesses de ambas as partes não mais podiam ser solucionados no campo do favor, a exemplo das ações de liberdade e processos-crime. A ênfase recai nos sujeitos sociais e seus arranjos de sobrevivência, de dependência e confrontos nas complexas relações tecidas entre livres, escravos e senhores.
Por fim, ressalte-se que as fontes abordadas aqui foram parcialmente catalogadas para a finalidade da escrita desta pesquisa e consultadas pela primeira vez. Entretanto, recentemente, a documentação que se encontra no Fórum da cidade de Palmas de Monte Alto está sendo recatalogada e será removida para o Arquivo Público de Caetité, por meio do convênio entre a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Grupo de Pesquisa, Cultura, Sociedade e Linguagem (GPCSL) (Caetité) e o Judiciário do Estado da Bahia.
Fazer história social eivada de experiências de diversos indivíduos, principalmente de escravos e libertos, no termo de Monte Alto, Alto Sertão da Bahia, constituiu o desafio desta pesquisa, postas as experiências vivenciadas por esses sujeitos, em face de uma sociedade marcada pelo domínio senhorial e das vendas compulsórias do tráfico interno.
2 SENHORES E ESCRAVOS NA FORMAÇÃO DE UMA SOCIEDADE