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Os egípcios chamavam o que hoje conhecemos como Livro dos Mortos de Capítulos16 para Sair à luz do Dia, , cuja transliteração é peret em heru [prt m hru] (cf. CANHÃO, 2010, p. 399). Karl Richard Lepsius (1810-1884), egiptólogo nascido na Saxônia, renomeou o conjunto de encantamentos presente no papiro que estudou para Das Todtenbuch der Ägypter, ou seja, Livro dos Mortos dos Egípcios. Acredita-se que essa renomeação é advinda da tradução do árabe para o alemão da expressão que os egípcios modernos usavam para se referir ao papiro:
, lê-se kitab al-mayitūn, que literalmente significa “livro do defunto”.
Karl Richard Lepsius, em 1842, “[introduziu] o termo Totenbuch (Livro dos Mortos) e [numerou] os capítulos; [algo] que permanece em uso até os nossos dias” (Hornung, 1999, p. 15). Essa tradução de Richard Lepsius para o alemão foi possível em decorrência de seu contato com um papiro do Período Ptolomaico, localizado no “Museu Egípcio de Turim”. Interessa destacar que Lepsius sempre demonstrou bastante afinidade na sua relação com a Itália, tornando-se, na década de 1860, o diretor do Deutsches Archäologisches Institut (Instituto Arqueológico Alemão) em Roma.
Outro nome de destaque relativo às traduções do Livro dos Mortos é o do francês Théodule Devéria, que em 1872 “publicou o papiro de Nebqed, em Paris, de uma tradução de Paul Pierret, depois que Samuel Birch já havia publicado a primeira tradução para a língua inglesa, com base no papiro [localizado] em Turim, em 1867” (HORNUNG, 1999, p. 15). Contudo, uma das mais importantes traduções – cintilada pelo seu caráter inovador – foi concluída somente em 1886, pelo egiptólogo suíço Henri Edouard Naville (1844 - 1926), discípulo de Richard Lepsius.
No II Congresso Internacional de Orientalistas de Londres (1874), Lepsius propôs a ideia de uma edição completa de todos os exemplares do Novo Império (em seguida chamada de recensão «tebana»); assim, apareceu a edição em três volumes de seu discípulo E. Naville (Das aegyptische Totenbuch der XVIII. bis XX. Dinastie, 1886), insubstituível até a atualidade. Para sua edição, Naville se serviu de setenta e um exemplares, incrementando
16 Erik Hornung (2000, p. 77) sugere a utilização da palavra “sentenças” para se referir a divisão do Livro
o número de sentenças conhecidas de 165 (Lepsius) para 184; atualmente se conhece mais de 190 sentenças e numerosos exemplares mais (HORNUNG, 2000, p. 77).
O monumental trabalho de Naville “leva em consideração um total de 71 exemplares, [incluindo], além de papiros, também mortalhas e paredes tumulares” (HORNUNG, 2004, p. 10). Essa publicação é conhecida pela egiptologia como “Recensão Tebana”, em outras palavras, trata-se da junção de todos os capítulos utilizados durante o Novo Império. Brancaglion (2011) elucida-nos de que o material recolhido por Naville era proveniente tanto de coleções europeias quanto do “Museu do Cairo”.
Willen Pleyte contribuiu para o aumento das traduções a partir de uma publicação de encantamentos no ano de 1881, pautando-se em um manuscrito do Período Tardio (HORNUNG, 1999); Pleyte “publica os ‘Capítulos Suplementares’ utilizando como ponto de partida a numeração de Lepsius, apresentando os capítulos 166 a 174 datados da Baixa Época” (BRANCAGLION, 2011).
Allan W. Shorter iniciou uma tradução dos encantamentos presentes no acervo do “Museu Britânico”, mas não a concluiu; Paul Pierret voltou a publicar em 1882 – o que de acordo com Erik Hornung (1999) é resultado da influência de Naville. Outra importante contribuição foi oferecida por Peter Le Page Renouf, sucessor de Samuel Birch, e antecessor de Wallis Budge no cargo de chefe do “Departamento de Antiguidades Orientais do Museu Britânico” (cf. USICK, 2004, p. 13). A importância de seu trabalho, realizado em conjunto com Edouard Naville, centra-se no fato de ser “a primeira tradução comentada de todo o Livro dos Mortos”, publicada em 1904, conforme aponta Erik Hornung (2000, p. 78).
A propósito, sua amizade com Naville e a péssima imagem que cultuava de Wallis Budge, a quem acusava de “nunca estar acima do nível da mediocridade” (USICK, 2004, p. 15), fez com que indicasse o primeiro para ser o seu sucessor no cargo de chefe do “Departamento de Antiguidades Orientais”, dado que se afastaria em decorrência da aposentadoria compulsória (65 anos). Interessa destacar que o Museu tinha a opção de manter Renouf, pois a aprovação da aposentadoria compulsória era
algo recente, mas os demais funcionários queixaram-se das constantes ausências do então chefe. Edward Maunde-Thompson tentou manter Renouf no quadro de funcionários, desde que em uma função menor, mas a diferença entre os salários aliada à intolerância que tinha em relação a Budge o fizeram negar a proposta; Maunde- Thompson apoiou Wallis Budge, que assumiu o cargo (USICK, 2004).
A partir de então, Wallis Budge passou a ter o principal cargo no Departamento de Antiguidades Orientais, e contava com a dominação britânica (1882 - 1952) no Egito para abastecer o Museu com elevadas quantidades de peças arqueológicas, que permanecem na Inglaterra até a atualidade, após o Egito se tornar independente. Não iremos discutir neste trabalho sobre as polêmicas que envolvem a controversa figura de Budge, que muitas vezes são diametralmente colocadas; por um lado defende-se um egiptólogo que usou os métodos possíveis para preencher o Museu Britânico não somente com antiguidades egípcias, mas também com aquelas da Mesopotâmia e do Sudão; por outro lado, coloca-se a imagem de um “ladrão”. Certo é que todas essas posições precisam ser contextualizadas, tanto considerando os “métodos arqueológicos” da época quanto a desorganização do “Museu do Cairo” frente a um sem número de comerciantes de antiguidades.
Budge foi o primeiro a traduzir o Papiro de Ani; Faulkner publicou uma nova tradução em 1972, cuja diferença em relação às publicações anteriores centra-se no fato de que este britânico não ensejou documentar “o todo”, como o fez Wallis Budge e, sobretudo, Edouard Naville, que dispôs sua obra em três volumes. Faulkner traduziu um papiro, e não a totalidade das sentenças do Livro dos Mortos. Enquanto Budge se reportou a mais de dez versões do texto funerário para fazer sua tradução, visando oferecer ao leitor um livro que detivesse, em sua visão, todas as sentenças do Livro dos Mortos, Faulkner utilizou apenas o exemplar de Ani – tais fórmulas, embora individuais, fazem parte de um contexto situado na dimensão coletiva; em outras palavras, as escolhas de Ani seguem determinada tradição, conhecida por “tradição ramessida”.
A tradução de Raymond Faulkner é uma das mais famosas já realizadas (KEMP, 2007). Do ponto de vista comercial e qualitativo, trata-se, sem dúvida, de uma das melhores traduções dessa composição funerária. Raymond Faulkner era “um grande
tradutor; ele tinha o dom de transformar difíceis textos egípcios em inglês claro, incluindo as mais problemáticas matérias religiosas” (GOELET, 2008, p. 16). Faulkner se debruçou sobre os estudos da língua egípcia e produziu obras fundamentais, além de ter contribuído à tradução dos Textos das Pirâmides e dos Textos dos Caixões. Faulkner foi um dos grandes contribuintes à literatura egípcia (GOELET, 2008). “Infortunadamente, Faulkner morreu antes de poder completar seu trabalho no Livro dos Mortos, que por isso aparecia sem alguns comentários” (GOELET, 2008, p. 16). Ogden Goelet fez tais comentários, aos quais nos reportamos no presente momento, Carol Andrews escreveu a introdução da obra de Faulkner, que contou ainda com as contribuições de Eva von Dassow17, na edição, e de James Wasserman18, na produção.
A importância da tradução de Faulkner tem ainda outros antecedentes; as imagens presentes na obra, que impressionam pela qualidade e imponência, foram retiradas do fac-similar produzido no final do século XIX, em 1890, sob supervisão de Wallis Budge e Le Page Renouf. O formato do Livro dificulta a exposição das imagens nele presentes, procedimento fundamental à esta dissertação, especialmente, no quinto capítulo. Por este motivo recorremos ao fac-similar de 1890, o mesmo utilizado por Faulkner, mas em formato digital, quando da necessidade de demonstração das lâminas – como são chamadas – do Livro dos Mortos, aliando a tradução do texto a uma boa apresentação das vinhetas que o formam.
Opiniões acadêmicas têm mudado em alguns pontos de menor importância, e eu alterei a tradução de Faulkner em conformidade com elas. É uma prova do toque hábil de Faulkner que tão poucas mudanças tenham sido necessárias vinte anos depois que sua tradução fora realizada (GOELET, 2008, p. 16).
Ironicamente, a qualidade da tradução de Faulkner não reflete a qualidade da escrita do texto em egípcio. Em outras palavras, comparando-o a manuscritos a ele contemporâneos, o Papiro de Ani é inferior na qualidade da escrita, motivo pelo qual Faulkner recorreu a outros manuscritos, visando atingir o “texto ideal” (GOELET, 2008). As contribuições de Ogden Goelet também se apresentam neste contexto, pois procurou recorrer ao texto do Papiro de Ani visando substituir as traduções de Faulkner
17 Professora associada do Departamento de Estudos Clássicos e do Oriente Próximo, da Universidade de
Minnesota.
a partir de outros manuscritos (GOELET, 2008, p. 16). Mudanças e atualizações, portanto, são fundamentais às boas obras, o que obviamente não indica uma decadência na qualidade da tradução.