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Interpretada por diversos historiadores como uma obra extemporânea à sua trajetória intelectual3, o livro de Hugo Grotius sobre a origem dos índios foi publicado já

em seus últimos anos de vida, em 15424. Nele, o intelectual, embaixador e jurista holandês

parte do princípio de que as características dos povos do Novo Mundo (como suas línguas, seus comportamentos e suas formas de governo) fornecem os indícios necessários para identificar seus ancestrais com as representações de povos do Velho Mundo presentes em clássicos gregos e romanos. Partindo desta premissa, Grotius afirma que os povos do Novo Mundo não apresentam uma origem comum. Pelo contrário, segundo ele, teria havido uma série de migrações realizadas por diversos povos em diferentes épocas.

2 O cosmógrafo e escritor flamengo Joannes de Laet chegou a enviar uma cópia da Historia Natural y Moral

de las Indias a Grotius, recomendando sua leitura para que este pudesse corrigir e ampliar sua análise sobre o tema antes de publicá-lo.

3 “There is little in what is known of Grotius's other writings or his concerns at that time that easily explains

why he was interested in that question, or why he would elaborate his argument the way he did" (Rubiés, 1991: 221). Entretanto, não partilhamos da afirmação feita por Rubiés. Como o próprio historiador apontou, uma das principais questões analisadas por Grotius ao longo de sua vida foi a da unificação da cristandade, elemento que, como pretendemos apontar adiante, foi fundamental para a elaboração de suas teorias sobre a origem dos indígenas.

4 Para informações biográficas e referentes à formação intelectual de Grotius. Cf. Gesteira, 2006 e Rubiés,

O primeiro caso analisado pelo autor é o dos indígenas que habitavam a porção do continente ao norte do istmo do Panamá. Segundo ele, todos os povos desta região seriam descendentes dos noruegueses. Para defender esta hipótese, Grotius tenta comprovar que, na realidade, a chegada à América seria apenas o fim de um longo processo de migração através da Europa setentrional que teria sido iniciado pelas tribos germanas descritas por Tácito. Processo este que seria visível por meio das inúmeras semelhanças existentes entre os costumes dos índios e dos germanos, como o culto ao mesmo deus, a existência de inúmeras palavras semelhantes e a insistência de alguns grupos indígenas em afirmar que seus ancestrais vieram do norte:“all these you will learn from Tacitus and the German writers, were customs of Germany” (Grotius, 1884: 12).

No entanto, Grotius considera que a refutação de outras hipóteses sobre a origem dos índios é tão importante quanto apontar novas respostas. Este procedimento ocorre em dois momentos de sua obra. No primeiro deles, o escritor holandês combate as teorias que apontam para uma colonização cita no Novo Mundo. Tendo como base a descrição feita por Heródoto, Grotius afirma que a migração deste povo para o Novo Mundo seria impossível devido à inexistência de cavalos no continente antes da chegada dos europeus (Grotius, 1884: 9). Processo inverso ocorre ao longo da análise dos grupos indígenas da região de Iucatã que, segundo alguns relatos, praticavam a circuncisão. Apesar de possuírem um costume idêntico ao dos judeus, Grotius afirma que isto não comprovaria uma conexão entre os povos. Segundo o autor, esta prática teria duas origens possíveis: seria algo criado pelos próprios americanos ou seria fruto de um contato com cristãos etíopes.

Por fim, Grotius analisa os habitantes da região sul do novo continente, onde destaca a presença dos peruanos, grupo tão superior aos seus vizinhos que possuiria uma origem diferente, atrelada aos chineses. Essa ligação seria comprovada por fatores como: a existência de uma forma de governo considerada por Grotius mais avançada que as praticadas pelos outros povos da região, a adoração ao Sol, as semelhanças linguísticas entre os dois povos e a descoberta de vestígios de embarcações chinesas no litoral americano.

Ao analisarmos os argumentos apresentados por Grotius, seja para defender suas teorias de migração seja para refutar outras hipóteses, observamos que o autor identifica o novo continente como um local onde as características trazidas pelos colonizadores do

Velho Mundo teriam se degenerado. Seguindo esse princípio, a língua dos germanos teria permanecido intacta ao longo de todo o processo de expansão pela região norte da Europa; no entanto, na América, ela teria se corrompido a ponto de restar apenas alguns resquícios de sua forma original. Esse processo pode ser observado também quando o autor tenta explicar a realização de sacrifícios humanos entre os índios, que seria, segundo ele, uma herança dos germanos. Contudo, entre os índios, este costume teria se tornado ainda mais bárbaro, por passar a incluir rituais antropofágicos5.

Segundo o autor, esse processo de degeneração seria fruto de uma série de fatores, como a inexistência de um governo centralizado6, a mistura de descendentes de

diferentes regiões e a negligência dos indígenas em relação à manutenção de sua língua e tradições. Entretanto, todos esses fatores seriam desdobramentos de uma questão maior: o isolamento dos indígenas em relação ao cristianismo e a consequente ausência de religiosos no Novo Mundo7. Dessa forma, podemos observar que, independentemente

dos interesses que teriam levado Grotius a escrever sua obra8, fica evidente a presença de

uma defesa da cristianização dos indígenas (ainda que não aponte como este processo deveria ser conduzido), uma vez que, enquanto estiveram isolados, os nativos não foram capazes de produzir nada de relevante dentro de suas sociedades, apenas degenerar o que seus ancestrais haviam trazido.

5 Para uma análise mais detalhada dos argumentos de Grotius sobre as origens dos indígenas Cf. Kalil, 2011. 6 A única exceção seria o governo peruano. Contudo, o autor afirma que se tratava de uma versão inferior do

governo chinês.

7

A representação de alguns grupos indígenas como cristãos degenerados foi fortemente criticada por Joannes de Laet, para quem as características dos povos descritos pelos relatos de viajantes impossibilitariam a presença de cristãos no Novo Mundo antes da chegada de Colombo: “I cannot make myself believe that this happened after the reception of the Faith of Christ, because not even the slightest vestiges of Christianity have been found anywhere in these places. Now, no example can be found, I think, of any nation or people, after accepting properly the Christian mysteries, having thereafter obliterated them to such an extent that no vestige remains” (Apud Wright, 1917: 269-271).

8 Joan-Pau Rubiés aponta três possíveis motivações que teriam levado Grotius a escrever sua obra sobre a

origem dos índios: defesa de interesses coloniais (sejam eles holandeses ou suecos), do monogenismo (em contraposição aos argumentos defendidos por La Peyrère) ou devido a diferenças religiosas com calvinistas ortodoxos, como Joannes de Laet (Rubiés, 1991: 234-242).

Praeadamitae

Um dos principais interlocutores da obra de Grotius sobre a origem dos indígenas foi Isaac de la Peyrère, defensor da teoria de que haveria seres humanos no mundo anteriores a Adão. A partir de trechos da Epístola de Paulo aos romanos9, La Peyrère

constrói a tese de que Adão era o ancestral apenas do povo hebreu. Assim, os indígenas, bem como praticamente todos os outros grupos humanos, teriam uma origem anterior ao casal original, sendo, por isso, denominados como “pré-adamitas”10.

Ainda que sua obra não aborde diretamente a origem dos indígenas (seu objetivo central envolve a conversão dos judeus ao cristianismo e a instauração de uma era messiânica capitaneada pelo rei da França), esta questão é fundamental para o desenvolvimento de suas ideias, o que fica evidente através da análise das correspondências trocadas por ele com o escritor dinamarquês Ole Worm, cujo teor “shows that a major concern of La Peyrère’s was how to account for the origins of the American Indians” (Popkin, 1987: 11)11. Com isso, torna-se compreensível a atenção dada

por La Peyrère às teorias de Grotius, a quem dedicou um capítulo de sua obra. Nele, o autor afirma que o escritor holandês criou suas teorias a partir da busca forçada por similitudes entre as características dos indígenas e as de alguns povos do Velho Mundo, em especial os germanos12 e os chineses:

9 “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado neste mundo, e pelo pecado a morte, e assim

passou a morte a todos os homens, no qual todos pecaram. Porque até à lei o pecado estava no mundo; porém, o pecado não era imputado, não havendo lei. Todavia a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram por uma transgressão semelhante à de Adão, o qual é a figura do que havia de vir” (Rom: 5, 12-14).

10 Para uma análise dos argumentos defendidos por La Peyrère e da reação da Igreja Católica, que o levou a

renegar suas teorias. Cf. Popkin, 1987.

11

Um dos raros autores a articular as teorias de La Peyrère e Grotius, Huddleston também afirma que há uma estreita conexão entre as controvérsias sobre a origem dos índios e as teses poligenistas (Huddleston, 1967: 140). Postura semelhante é adotada por Richard Popkin, para quem as teorias sobre a existência de múltiplas criações dos seres humanos (abordadas esporadicamente desde a Antiguidade) só teriam ganhado relevância após o contato dos europeus com os indígenas. Ainda segundo o historiador, a relação entre a origem dos índios e o poligenismo pode ser observada a partir das críticas aos argumentos de La Peyrère publicadas no período: “First they contend that his theory is a menace to religion. Then they try to offer monogenetic explanations, especially of the recently discovered peoples of the New World” (Popkin, 1987: 26-31; 80).

12 La Peyrère afirma que a teoria da migração germana é infundada. Para ele, documentos comprovariam

que, quando os noruegueses chegaram à Groenlândia, esta terra já era habitada: “The Norwegians were the strangers, not the founders of the Greenlanders, much else of the Americans” (La Peyrère, 1656: 279).

[…] and either from some ancient record, or some old tradition, or the similitude of some old and obsolete name, or from any their conjecture: Some they imagine that landed at such or such a place, to have been the authors or fathers of such a Nation. [...] Must needs Peru be thought to have had their Original from the Chinesians, because a piece of a broken boat, like those of the Chinesians, was found on the banks of Peru? (La Peyrère, 1656: 277).

Através de seus argumentos, La Peyrère não apenas tentava invalidar as migrações propostas por Grotius, mas a própria teoria de que os indígenas seriam descendentes de povos do Velho Mundo. Ao tomar conhecimento dos argumentos de La Peyrère13, Grotius,

ainda que sem citá-lo diretamente, criticou duramente a proposição de que haveria homens anteriores a Adão.

The consequence of which is that humankind is believed either to have existed eternally, as Aristotle believes, or to have arisen from the land, as the legend about the Sparti says, or from the ocean, as Homer wanted it; or that some men had been created before Adam, as recently someone dreamt in France. If these things are to be believed, I see a great danger for Religion; if what I have said is believed, clearly there is none (Apud Rubiés, 1991: 239-240).

Como apontamos anteriormente, a acusação feita por Grotius de que as ideias pré- adamitas eram um perigo à religião foi uma das mais constantes críticas feitas à obra de La Peyrère, o que o levou a elaborar uma resposta. Para ele, a “ameaça” identificada por Grotius seria a de que a existência de seres humanos anteriores a Adão faria com que essa parcela da humanidade não compartilhasse do pecado original e, por conseguinte, ficasse apartada da graça divina, o que é negado veementemente pelo autor (La Peyrère, 1656: 281).

A partir dos argumentos apresentados por La Peyrère, podemos observar que, para ele, a existência dos indígenas, ainda que de forma indireta, está presente nos relatos bíblicos (vale lembrar que todo o seu argumento sobre os pré-adamitas é baseado em

13 La Peyrère afirma que Grotius teve acesso a uma versão preliminar de seu livro sobre os pré-adamitas (La

interpretações de passagens da Bíblia). Como consequência dessa interpretação, o autor defende que a salvação destes homens estaria garantida, pois, quando os judeus passassem a fazer parte do cristianismo, “the Gentiles would also become Christians. The whole human race would be joined together. Jesus would return, and He and the King of France and the Jewish Christians in Palestine would rule the world in the wonderful Messianic Age” (Popkin, 1987: 70).

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