No que diz respeito aos fatores de risco / antecedentes pessoais constata-se, através do gráfico 1, uma paridade entre os sujeitos que têm como antecedentes pessoais hipertensão arterial e obesidade com 58,1% cada. A insuficiência venosa periférica surge em 56,5% na população estudada, a história prévia de ferida em 21,0% e 19,4% apresentam dislipidémia. O alcoolismo e DM tipo II são identificados em 14,5% dos sujeitos. Os antecedentes pessoais de anemia e tabagismo surgem, cada um, em 9,7% dos sujeitos. Dos sujeitos que foram submetidos a cirurgia vascular e têm insuficiência cardíaca englobam 8,1% dos indivíduos da amostra. As neoplasias e gravidez múltiplas representam 4,8% da população. Os antecedentes pessoais como Acidente Vascular Cerebral (AVC), fraturas anteriores, traumatismos e outros têm um valor de 3,2%. Os enfermeiros descrevem na opção “outros” o linfoedema e a osteoartrose. Por fim, 1,6% dos sujeitos estudados possuem DM tipo I.
Barros, César, Carandina, e Torres (2006) relatam a interligação entre o envelhecimento da população e a predominância das doenças crónicas. A hipertensão e a DM são referidas como as doenças crónicas mais comuns com o aumento da idade e poderá surgir em 70% dos indivíduos acima dos 70 anos de idade. No presente estudo apesar da média de idade ser de 62,34 anos, 21,0% da população encontra-se inserida no intervalo de idade de 71 a 80 anos e 3,2% entre 81 e mais anos.
Para além dos fatores de risco mencionados anteriormente, o estado nutricional deficitário, a imunodeficiência e a infeção, são condições que podem contribuir negativamente para o processo de cicatrização (American Society of Plastic Surgeons, s.d.; Dealey, 2006; Tazima, Vicente, & Moriya, 2008).
Tendo em conta os resultados apresentados neste estudo verifica-se que os indivíduos com úlcera de perna apresentam pelo menos um fator de risco. Como tal, é crucial ressaltar a importância do enfermeiro, como membro ativo de uma equipa multidisciplinar, de estar atento à identificação dos diversos fatores que poderão interferir na cicatrização da ferida, bem como na prevenção de recidivas.
Gráfico 1 - Fatores de risco dos utentes com úlcera de perna (n=62)
Através da leitura da tabela 11 é possível constatar, por ordem decrescente de prevalência, que 94,3% dos doentes com úlcera de etiologia venosa têm insuficiência venosa periférica. Seguindo-se a hipertensão arterial (88,9%) e a obesidade (86,1%).
Na pesquisa pela presença de fatores de risco nos dois utentes com úlcera arterial constata-se que, os mesmos têm como antecedentes pessoais DM tipo I (100,0%) e tipo II (11,1%), dislipidémias (8,3%), obesidade (2,8%) e hipertensão arterial (2,7%).
No que concerne à úlcera mista, esta apresenta combinações de causas venosas e arteriais. Os antecedentes pessoais apontados pela equipa de enfermagem, são: gravidez múltiplas (33,3%), insuficiência cardíaca (20,0%), dislipidémias (16,7%), obesidade
1 (1,6%) 2 (3,2%) 2 (3,2%) 2 (3,2%) 2 (3,2%) 3 (4,8%) 3 (4,8%) 5 (8,1%) 5 (8,1%) 6 (9,7%) 6 (9,7%) 9 (14,5%) 9 (14,5%) 12 (19,4%) 13 (21,0%) 35 (56,5%) 36 (58,1%) 36 (58,1%) 0 5 10 15 20 25 30 35 40 DM tipo I Outros Traumatismos Fraturas anteriores AVC Gravidez múltiplas Neoplasia Insuf. Cardíaca Cirurgia Vascular Tabagismo Anemia DM tipo II Alcoolismo Dislipidemias História prévia de ferida Insuf. Venosa Periférica Obesidade Hipertensão Arterial
Fatores de risco por número de utentes
(11,1%), DM tipo II (11,1%), insuficiência venosa periférica (5,7%) e hipertensão arterial (5,6%). Por último, na úlcera de outras etiologias, é possível verificar fatores de risco como as fraturas anteriores (50,0%), o tabagismo (16,7%), o alcoolismo (11,1%) e a hipertensão (2,8%).
Através do teste de independência do Qui-quadrado, verifica-se significância estatística da relação entre o fator de risco fraturas anteriores [X2 (3) = 30,549; p = 0,035 (p <0,05)] e a classificação da úlcera de perna. Tal associação possibilita afirmar que, de acordo com a tabela seguinte, as fraturas anteriores apresentam-se com maior valor percentual nas úlceras de outras etiologias quando comparado com as etiologias de úlcera de perna venosa, arterial e mista, por esta razão é que se verifica que as fraturas anteriores influenciaram a classificação da úlcera de perna.
Noutros fatores de risco apresentados neste estudo, e utilizando o mesmo teste, não se verifica relação estatística entre os mesmos (p> 0,05). Tal facto pode dever-se à divergência entre o número absoluto de indivíduos com úlcera venosa e o número de indivíduos com úlcera arterial, mista e/ou outras etiologias, comprometendo, para efeitos de Qui-quadrado, a sua variabilidade.
De acordo com Dealey (2006) o processo de cicatrização de uma ferida está dependente de um conjunto de fatores como a patologia subjacente e o estado global de saúde do indivíduo. Um tratamento não adaptado à doença de base pode atrasar a cicatrização ou até mesmo provocar danos graves ao utente (Trott, 2009).
Na investigação em epígrafe, identificou-se que nos doentes com úlcera venosa a insuficiência venosa periférica e hipertensão arterial têm uma prevalência similar ao encontrado na literatura, no qual menciona que a insuficiência venosa periférica acomete 100% das pessoas com úlcera venosa (Torres et al., 2009) e a hipertensão ocorre em 23% a 62,5% dos pesquisados (Bergonse & Rivitti, 2006; Frade et al., 2005; Heinen et al., 2007; Malaquias et al., 2012; Moffatt et al., 2004; Torres et al., 2009).
No estudo de Bergonse e Rivitti (2006) foram encontrados fatores de risco da DAP em doentes com úlcera venosa. Particularmente, a hipertensão arterial (62,5%), a angina de peito (15%), o tabagismo (12,5%), a DM (10%) e as dislipidemias. Nesta investigação verificou-se, também, fatores de risco associados à DAP em que 88,9% correspondeu à hipertensão arterial, 75% às dislipidemias, 83,3% ao tabagismo e 77,8% à DM tipo II.
No que concerne à úlcera arterial, a causa mais comum é a aterosclerose. Os fatores de risco para o desenvolvimento da aterosclerose incluem a idade, o tabagismo, a DM, a hipertensão arterial, as dislipidémias, a obesidade e a vida sedentária (Hess, 2008). Tal como supracitado, verificou-se na população em estudo a maioria dos fatores de risco para a evolução da aterosclerose, sendo eles a hipertensão arterial, a obesidade, as dislipidémias, a DM, e por fim, a média de idade nesta amostra é de 72,00 anos.
Tabela 11 - Relação entre os fatores de risco e a classificação da úlcera de perna (n=62) Classificação da úlcera de perna
Úlcera venosa Úlcera arterial Úlcera mista Outras etiologias Total Fatores de risco N % N % N % N % N % Hipertensão Arterial 32 88,9 1 2,7 2 5,6 1 2,8 36 100,0 Obesidade 31 86,1 1 2,8 4 11,1 0 0,0 36 100,0
Insuf. Venosa periférica 33 94,3 0 0,0 2 5,7 0 0,0 35 100,0
Hist. Prévia de ferida 13 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 13 100,0
Dislipidémias 9 75,0 1 8,3 2 16,7 0 0,0 12 100,0 Alcoolismo 8 88,9 0 0,0 0 0,0 1 11,1 9 100,0 DM tipo II 7 77,8 1 11,1 1 11,1 0 0,0 9 100,0 Anemia 6 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 6 100,0 Tabagismo 5 83,3 0 0,0 0 0,0 1 16,7 6 100,0 Cirurgia Vascular 5 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 5 100,0 Insuficiência cardíaca 4 80,0 0 0,0 1 20,0 0 0,0 5 100,0 Neoplasia 3 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 3 100,0 Gravidez múltiplas 2 66,7 0 0,0 1 33,3 0 0,0 3 100,0 AVC 2 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 2 100,0 Fraturas anteriores 1 50,0 0 0,0 0 0,0 1 50,0 2 100,0 Traumatismo 2 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 2 100,0 Outros 2 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 2 100,0 DM tipo I 0 0,0 1 100,0 0 0,0 0 0,0 1 100,0
1.4. MÉTODOS DE DIAGNÓSTICO UTILIZADOS PARA A DEFINIÇÃO DA