Para a realização desta análise, servimo-nos da teoria da Metáfora Conceptual proposta por Lakoff e Johnson (1980/2002), da metodologia da Análise Crítica da Metáfora (ACM) proposta por Charteris-Black (2005) e da abordagem denominada Metáforas em uso ou Metáfora Sistemática ou, ainda, abordagem discursiva da metáfora de Lynne Cameron (2006).
Guiada por essas metodologias foram observados três papéis que a metáfora pode exercer num discurso político: o primeiro a metáfora como fenômeno cognitivo; o segundo, como instrumento de construção de ideologia; e por último, como estratégia de polidez. A escolha destes três se deu por uma questão de foco da pesquisa e não por serem os únicos papéis.
Para a interpretação das metáforas como fenômeno cognitivo, servimo- nos da teoria da Metáfora Conceptual de Lakoff e Johnson (1980/2002) e para o mesmo fim, mas analisando-a em uso real, sobretudo, no seu sentido pragmático, nos apoiamos na abordagem da Metáfora em Uso (ou Sistemática) de Lynne Cameron (2006). Para apontá-las como instrumento ideológico foi considerada a teoria da ACM, de Charteris-Black (2005). E, por último, continuando com a linha do sentido pragmático, associamo-nos ao conceito de face de Goffman (1967), ponto de partida para a teoria de polidez de Brown e Levinson (1996), focalizamos a metáfora, também, como estratégia de polidez5.
Como objeto de estudo desta dissertação foi escolhido o Discurso Inaugural do líder sul-africano Nelson Mandela, proferido na ocasião de sua posse como presidente da África do Sul, no dia 10 de maio de 1994, em
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O posicionamento de Goffman (1967: 5) não se refere especificamente à metáfora, e sim ao conceito de face, tema central nos estudos da Teoria de Polidez, e o termo face é entendido pelo mesmo autor como atributos sociais positivos que uma pessoa reivindica para si mesma, baseando-se naquilo que é considerado socialmente aprovado.
Johannesburgo. Nelson Mandela é uma figura expressiva na luta pacífica contra todo tipo de discriminação e é um marco contra esse mal para os demais povos.
As metáforas interpretadas foram extraídas da tradução do discurso ao português. Este esclarecimento faz-se necessário porque algumas delas podem ser diferentes devido à tradução6. O texto original irá aparecer no rodapé, acompanhando as partes que estão sendo interpretadas.
O discurso em questão foi dividido em 9 recortes. Tais divisões obedeceram à ênfase dada aos diferentes assuntos abordados dentro do discurso, que serão explicados no primeiro parágrafo de cada recorte da análise, e seguirá a seqüência original do mesmo.
Para o procedimento da análise, em primeiro lugar, foram identificadas algumas das expressões metafóricas lingüísticas existentes em cada recorte, as que nos pareciam mostrar mais claramente a ideologia de Mandela e as que serviam como expressão de polidez. Para a identificação das metáforas consideramos as características apontadas por Berber Sardinha (2007:22), isto é, quando se verifica a presença de dois domínios, ou seja, duas áreas de conhecimento e a transferência de sentido de uma para a outra. Um outro elemento que consideramos para a identificação das mesmas é a incongruência existente entre o veículo e o contexto discursivo que o circunda (Cameron, 2003:59).
Num segundo momento, identificamos, seguindo a ordem original do discurso, a inferência da metáfora conceptual, apontando a presença de dois domínios e distinguindo o domínio alvo – parte mais abstrata e literal – do domínio fonte – parte real e metafórica. Assim foi possível apontar a
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Observação feita pelo Prof. Dr. Tony Berber Sardinha (PUCSP), durante o exame de qualificação realizado em 05 de junho de 2008.
compreensão de uma coisa em termos de outra (Lakoff & Johnson, 1980/2002:48).
E, por último, servindo-nos da Teoria da Análise Crítica da Metáfora e da Abordagem da Metáfora em Uso interpretamos as diferentes metáforas, buscando o seu sentido semântico, em seguida, seu sentido pragmático e, também, apontamos a incongruência entre o veículo e o contexto discursivo. Nesta parte foi de suma importância o posicionamento de Charteris-Black (2004:25), explicado no Capítulo I, página 40 desta dissertação, pois, durante a nossa interpretação tentamos apontar as intenções encobertas (e possivelmente inconscientes) de Mandela ao proferir o seu discurso inaugural. E, seguindo os objetivos desta dissertação, assinalamos os momentos em que o autor do discurso serviu-se da metáfora para expressar a sua ideologia e, também, para criticar os seus antecessores no poder de forma polida, salvaguardando as faces de seus antecessores e, consequentemente a própria face.
Durante a análise foram empregados alguns termos específicos dos estudos metafóricos e, nesta parte, queremos esclarecer o sentido dado, nesta
dissertação, a cada um deles.
Expressão metafórica: expressão lingüística que é uma manifestação de uma metáfora conceptual. Geralmente composta de duas partes (abstrata e concreta ou metafórica e literal) (Berber Sardinha, 2007:31).
Domínio: área de conhecimento ou experiência humana (Berber Sardinha, 2007:31).
Domínio Fonte: é aquele a partir do qual conceitualizamos alguma coisa metaforicamente. Geralmente é algo concreto e advêm da experiência (Berber Sardinha, 2007:31).
Domínio Alvo: é aquele que será conceituado por meio da metáfora, é a parte abstrata da expressão (Berber Sardinha, 2007:31).
Veículo: parte da expressão que contém palavras usadas metaforicamente (Berber Sardinha, 2007:42).
Tópico: parte da expressão que contém que contém palavras a que ser referem os veículos (Berber Sardinha, 2007:42).
Incongruência semântica: quando numa expressão não há correspondência entre o veículo e o contexto discursivo e é uma condição necessária para identificar as metáforas lingüísticas (Cameron, 2003:59).
A análise inicia-se identificando uma série de metáforas lingüísticas, que oferecem ligações semânticas comuns para referir-se a um fato, neste caso ascensão de Mandela ao poder e uma outra série, com as mesmas características do grupo anterior, para criticar seus antecessores no poder. Para posteriormente, seguir a ordem seqüencial dos recortes, identificando, analisando e interpretando os diferentes tipos de metáforas presentes no discurso em questão.