LAU RENT
76 CHORIOI D PLEXUS AND DRAIN DE V ELOPMEN T
O excesso de leituras e a transcrição das folhas anotadas para o segundo capítulo estavam quase terminando (comigo), eu pensava – derivando por narrativas que ainda mais obstruíam o conceito da teoria periférica proposta e me condicionavam no acento regional. A atividade da reescritura imprimindo a formulação menos exata do problema sobre o qual queria tratar. Da tradição popular, que vem do sertão para a cidade, que sempre vem, migrante, marginal, renovando formas de estar
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VASCONCELLOS, 2008, p. cit., p. 236. 415 VASCONCELLOS, 2008, p. 262.
presente, à disposição das demandas razoáveis desta arqueologia da cultura, o contrato com a descompactação dos arquivos artesanais expresso através e por intermédio dos coletivos humanos, o que é, de fato, tudo quanto permanece e nos faz menos mortais. O registro da diversidade do mundo e a invenção da história no cerne da palavra, no risco do gesto, na voz ativa.
E eu ia ver a guerra sertaneja enquanto literatura repetindo-se nos ensaios e pesquisas da academia, presentes nas listas temáticas das revistas, encontráveis nas estantes a um toque. Selecionei o que me pareceu adequado em abrangência, os títulos aqui presentes. Se no momento ágil dos cursos a participação dos colegas dinamiza a bibliografia de referências, e depois a convivência se esgarça no tempo individual do trato com o texto, deu tempo de, estando em trânsito, antes de voltar ao Ceará e entre Florianópolis e Tapes, à distância de uma noite de ônibus, acrescentar mais um item ao material de trabalho. Foi numa tarde de defesa que me deram de presente a sugestão. Um nome que nunca lera antes escrito com tinta azul no pedacinho de papel,
Burabas.
Adolfo Boos Júnior (1931, Florianópolis), o autor, não facilita a leitura. Excetuando-se a explicação do título do livro, em verbete de dicionário, logo em seguida às dedicatórias. “Burara”, brasileirismo de origem baiana, feminino, singular, significando árvore caída ou galhos no meio da mata. Buraba é uma variante e, no caso, o esconderijo no oco das imbuias onde os caboclos faziam a principal linha defensiva dos redutos. O que o sumário simplifica, o relato disfarça, camufla, brinca de nos esquivar, à medida que engendra uma compreensão. A novela está organizada em quatro partes que descrevem, cronologicamente, os movimentos da Guerra do Contestado, a partir da localização e desbarato das cidades santas. Temos então “Vésperas” (destacando-se Irani, Taquaruçu e Caraguatá); “Apogeu” (com Canoinhas, São João dos Pobres e Curitibanos); “O Cerco” (do Vale de Santa Maria) e “O Fim” (a queda de Santa Maria). Teríamos aí o aposto da precisão documental, cada denominação determinando um lugar de confronto, uma data específica e uma hora exatamente marcada, a hora H, mas toda a ordem dos fatos não passa de um esvaziamento. O que vale neste texto é o modo como o narrador impessoal empreende sua jornada noite adentro, na imprecisão da lembrança onde pelejam quatro cavaleiros desencontrados.
Eis o caso dos dois sujeitos de tocaia em uma noite que demora. Quem é quem, confundidos homens e destinos, a não ser por uma cortesia, distinguindo na noite longa a precária fala dos parceiros embuçados. Monólogos e mínimas memórias que esfiapam no deserto quando o silêncio da voz. O que um diz e já o outro está pendente daquela fala, metido dentro daquela vida. Um esboço de singularidades, a particular história extraída a pouco e pouco da noite escura, à falta de tudo ali e naquele buraco. E nem as palavras sobram, são rastejantes e desesperançadas. Mais separam que identificam os desconhecidos que se ouvem no breu, sob a apreensão medonha do ataque final, quando nascer o novo dia. Em texto que difere pelo itálico, outra dupla masculina se enfrenta, sem jamais cruzar caminhos, feras que se suspeitam, apartadas. E, tal os outros, nunca se olharão face a face. Estes homens em sombra, seres de bruma e pesar. Sem nomes, somente indícios e alusões que, mesmo para quem esteja a par dos dados ponderados nas informações conflitantes que o papel registrou, problematizam a identificação, permitindo que os antagonistas implacáveis se embaralhem na leitura menos atenta.
Na trincheira de árvore, a buraba do título, palavra, aliás, jamais utilizada nos textos consultados até aqui, tratando das coisas de cima da serra. E muito menos, que eu saiba, de uso na região linguística da caatinga. O título, por causa dele, não atinaria como se tratando de tema relativo ao Contestado. Pois, escondidos na buraba, mirando o reduto em frente, a taipa da igreja de São Sebastião que os soldados já tomaram, os caboclos Pedro e Simão vigiam, durante as longas horas que vão do entardecer do dia três de abril de 1915 até a manhã seguinte (mas, isto, o leitor só saberá no último capítulo. O primeiro traz o dia e a hora do confronto em 1912, no Irani. O Contestado está todo neste intervalo, e também não está aqui. Descolado do romance histórico, da necessidade de justificar as personagens em dicotomias racionalistas, o autor desentranha sua novela da tensão entre a leveza passageira do tempo e o peso de sua densidade confusa, quando escasseiam engenho e arte).
E então, rastreando as pistas, desemaranhando as frases da conversa, se é uma conversa este monólogo partilhado a viva voz. Aos poucos, no vem e vai da leitura, a primeira referência de identificação dos dois metidos no buraco se dá a partir da fórmula de tratamento que lhes seja usual. Pedrinho Mecê, o tropeiro, o apelido por conta do trato
respeitoso de seu costume, mantendo-se à distância do seu interlocutor, e Simão, o sem terra, o do rancho incendiado, o marido de Ana, que se comunica com o outro na intimidade mais fraterna do “vancê”. Na noite que parece a mesma, na mesma guerra que não se acaba, a trincheira insinua-se labirinto da memória e seus fantasmas.
Ana, a mulher que não olha para trás. Deixou Simão e seguiu na companhia das Virgens, a coragem necessária para enfrentar a justa causa. Ele, filho de Maria Leontina e Timóteo, conhecia a força do “inabalável fanatismo feminino” 416
, porque sua mãe abandonou casa e marido para seguir os passos do Monge. Assim os dois na buraba e que se desconhecem, reconhecidos por memórias compartilhadas pela voz na escuridão. Pedro entrou na irmandade porque foi preso em Curitibanos, e na fuga encontrou-se na estrada com “um bando de doidos seguindo uma bandeira esquisita e um tambor esbodegado”. 417
E Simão, expulso da terra que alegaram não ser sua de direito, seguiu o caminho que o Monge apresentava. Em meio ao fogo da inquietação. Simão tem 25 anos, Pedrinho, mulato sorocabano, está com 34. O tropeiro nasceu em São Paulo porque era uma das pontas do caminho do gado, desde os pastos de Vacaria até a famosa feira de sua cidade natal. A fala correspondente a Pedro também pode ser rastreada pelo uso de gauchismos, como “bagual”, “cusco”, “pilas” ou “china”. De si, falam o necessário. E nesta palavra intermitente imprimem algumas cenas, somente identificáveis por quem disponha de mais repertório – aqui, é só o que saberemos daquela audácia devida a Venuto Baiano: “Foi muita coragem daqueles caboclos se vestir de mulher, fingindo que catavam pinhão”. Entre recordações de outros episódios, a dupla enumera amigos, inimigos, traidores, lideranças, um rol dispensável. Mas quero imprimir mais um diapositivo ao mesmo retrato de Maria Rosa, surgindo de novo em louros cabelos crespos, porta bandeira da procissão, na retirada de Caraguatá, ela em seu cavalo branco, os arreios de franjas e fitas, a sela aveludada, duas mil pessoas, 600 reses e “o advento da fartura, da vitória e da imortalidade”. 418
“Chica Pelega, mecê chegou a conhecer?”, “bonita, meio índia, cara larga, franca, de olhar os homens nos olhos, sem medo”. Poucas personagens são invocadas por intervenção do narrador, somente
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BOOS JÚNIOR, Adolfo. Burabas. 2005, p. 62. 417
BOOS JÚNIOR, 2005, p. 92. 418 BOOS JÚNIOR, 2005, p. 105 e 114.
quando está em questão o ponto de vista sobre os militares. Matos Costa queria ser o pacificador do sertão. E Pedrinho: “Diziam que acreditava em nós, diziam, porque, para mim, soldado está no mundo para bater nos pobres”, e nesta fala vem à lembrança o Soldado Amarelo de Graciliano, o Cabo Setenta do teatro de mamulengos, o fuzileiro americano dos filmes de ação. Simão e Pedro retornam do silêncio. “Sentem-se como repentistas sem muito traquejo e, à procura de inspiração, citam os lugarejos por onde passaram. Salseiro, Iracema, Moema, Corisco, Três Barras” 419
. Pedro recorda que esteve no episódio de São João, no qual morreu Matos Costa, e Simão, no incêndio em Calmon.
Simão comenta a morte de Chiquinho Alonso: “A colonada queimou ele e mais onze numa baita duma fogueira. Depois reclamam da gente, eles é que começaram”. Pedro recorda a grande fome que se seguiu. O cardápio, Simão enumera, “qualquer coisa feita de couro e que, fervida, desse um gosto à água”. Concluem juntos sobre a investida vitoriosa dos militares, após três anos de tentativas vãs, “os vaqueanos ensinaram eles”. E, para fazer uma guerra, pensam que “injustiça também é razão boa” 420
. Na confissão intermitente a que se dão, celebram a coragem de lutar por aquilo que lhes parecia ser o justo e o direito, “nem que fosse preciso mudar o mundo” 421. Estavam prontos para encarar o sol, e enxergar os santos.
Os inominados do começo, as identidades reveladas. O diferencial do itálico, que preservava o anonimato, “quando ainda não era Adeodato Manoel Ramos, Deodato Manoel Ramos e nem Joaquim José de Ramos, mas simplesmente o filho do velho Teleme”, desaparece quando o tropeiro é escolhido para liderar a irmandade. Em sua defesa, os dois da buraba concordam, “falem o que quiserem, mas nunca negou os estribos, desde o dia em que entrou no Colosso até hoje”. Seu oposto, a sombra que o perseguia durante o sono sobre o pelego e a noite estrelada, aquele que também tremeu ao sentir a sua força de opositor, a sua voz de mandar em gente e gado, descrito o “queixo de rafeiro”, “o rosto quadrado, feroz e arrogante”, “o anticristo”, “o capitão deles”; “um capitão com nome de índio” 422
, que foi corneteiro no batalhão do
419 BOOS JÚNIOR, 2005, p. 165; 201; 118; 158. 420 BOOS JÚNIOR, 2005, p. 160; 176; 188; 224. 421 BOOS JÚNIOR, 2005, p. 223. 422 BOOS JÚNIOR, 2005, p. 167; 199; 193; 243.
Marechal Deodoro e teve o braço arrancado em batalha, na I Guerra. A decepção que sentiu Potiguara, por não ter conseguido acabar com seu rival.