PARTIE 6 : Bilan et perspectives actuelles de la personne de confiance en
6.1. CHAPITRE 1 : Bilan
As questões que abordam esse tópico direcionam para a pergunta: qual o papel do falante/ouvinte no processo de variação linguística ou em fenômenos de natureza sociolinguística? Parece que tanto essa pergunta quanto as possíveis respostas constituem questões centrais para a teoria sociolinguística.
As respostas possíveis para essa indagação são distintas e várias, dependendo do posicionamento teórico-metodológico assumido pelo investigador. Na presente investigação, um princípio subjacente à toda análise é o de que falantes e ouvintes desempenham papéis de agentes, ou seja, de sujeitos no processo de comunicação. Sendo assim, assume-se que as propostas formuladas por Labov (1963; 2008 [1972]), Campbell-Kibler (2006), Fraga (2009), e Hora (2011) evidenciam o papel central que têm os informantes em relação à habilidade de avaliar os usos linguísticos e seus usuários, como também a de exibir atitudes linguísticas.
Como se ressaltou na seção anterior, WLH (2006 [1968]), ao discutirem a fundamentação empírica para uma teoria da mudança linguística, já destacaram o problema da agentividade do falante, sobretudo, ao postularem os 5 (cinco) princípios empíricos, especificamente, o da avaliação, que põe em xeque o caráter de passividade dos falantes,
anteriormente proposto para Linguística Estruturalista, e ressaltam que “correlatos subjetivos” e “nível de consciência social” constituem partes centrais do processo de avaliação sociolinguística por parte de quem o produz e/ou de quem o avalia.
Nessa esteira de concordâncias teóricas, no que diz respeito à pergunta inicialmente levantada, Campbell-Kibler (2006, p. 167) estabelece: “one central answer to this problem lies in the reactions of listeners, which provide a brake on speaker agency, limiting speakers to performance that other can interpret16.”
Porém, essa não é a realidade consensual no interior da Linguística. Há autores que se opõem à possibilidade de se analisarem processos de natureza avaliativa e/ou atitudinal de aspectos linguísticos. E, assim, descartam ou não reconhecem o papel preponderante do falante/ouvinte. Para esses autores, o problema reside na própria variação do contexto de fala espontânea que é também variável. Os sistemáticos estudos sociolinguísticos já realizados têm amenizado essas questões.
Assim, refletir sobre o papel do falante/ouvinte nos processos sociolinguísticos, leva- se a perguntar qual é a fonte e/ou o apoio para a realização desses fenômenos? Desse modo, segundo Campbell-Kibler (2006, p. 169): “the structured feedback from listeners helps shape the process of construction and this feedback is informed by the listeners’ previous experiences, language ideologies, linguistic knowledge and emotional outlook.”17
Por sua vez, Hoenigswald (1966, apud GARRETT, COUPLAND & WILLIAMS, 2003, p. 45) afirma que o foco investigativo dos aspectos envolvendo a díade falante/ouvinte não deve cair sobre o que “vai acontecer na língua”, ou “no que se passa em línguas”, mas, sobretudo, sobre como as pessoas, no caso presente, falantes/ouvintes, reagem ao que se passa (são persuadidas ou não) ou até mesmo sobre como conversam.
Neste sentido, assume-se, neste trabalho, que o falante produz reações subjetivas acerca do que ouve ou sobre aquilo que ele mesmo produz linguisticamente. Assim, desse modo, pode ser considerado sujeito desse processo. E essas reações, que constituem comportamentos, desencadeiam uma série de atitudes linguísticas favoráveis ou desfavoráveis do ponto de vista de quem avaliou e esboçou avaliações sociolinguísticas diferentes. Um exemplo dessa realidade pôde ser vislumbrado na pesquisa de Labov (1963) em Martha’s Vineyard em relação à centralização dos ditongos /ay/ e /ow/, na qual os informantes exibiram
16 "Uma resposta central para este problema está nas reações dos ouvintes, que fornecem um freio a órgão falante,
limitando os falantes ao desempenho que outro pode entender."
17 "O retorno estruturado dos ouvintes ajuda a moldar o processo de construção e esse retorno é informado por
experiências anteriores dos ouvintes, ideologias linguísticas, conhecimentos linguísticos e perspectivas emocionais."
atitudes sociolinguísticas conforme fossem a avaliação e a reação aos usos variáveis desses ditongos e, ainda, de acordo com o sentimento de pertencimento àquela comunidade de fala.
Sendo assim, o uso de uma variante linguística em detrimento de outra(s) carrega informação predominantemente sociolinguística acerca do falante. A preferência pelo uso de uma forma linguística em relação à outra já constitui, no entender deste trabalho, uma atitude sociolinguística que teve sua origem em processos outros de avaliação e/ou de emissão de reações subjetivas. Os diversos estudos variacionistas têm demonstrado a existência da dimensão ativa dos falantes nas avaliações sociolinguísticas.
A capacidade de reconhecimento de variedades dialetais para Garrett, Coupland & Williams (2003), já atestada por diferentes tradições de pesquisas (Dialetologia, Sociolinguística, Psicologia Social, etc.), está vinculada à competência sociolinguística do falante. Desse modo, eles afirmam que “recognizing a dialect is inseparable from that same cluster of affective and evaluative processes” (GARRETT, COUPLAND & WILLIAMS, 2003, p. 90)18.
Essas questões permitem discutir a noção de percepção linguística. Todavia, reconhece-se que a literatura linguística referente a essa temática é ampla e diversificada (CLOPPER & PISONE, 2005; por exemplo). Neste trabalho, assume-se que a percepção linguística está relacionada à capacidade cognitiva que os falantes têm em reconhecer diferenças linguísticas produzidas por eles mesmos e/ou por outros informantes em diferentes contextos das diversas esferas comunicativas. Assim, atribuem-se valores diferenciados ao que foi percebido (variante linguística com prestígio x variante linguística com desprestígio social, por exemplo). E essas práticas levam necessariamente os falantes a exibir atitudes sociolinguísticas, formando uma atividade circular, conforme é ilustrado na figura 1, ou seja, eles percebessem diferenças dialetais, avaliam essas diferenças emitindo reações subjetivas e, em seguida, exibem atitudes.
Figura 1: Círculo Permanente de Práticas Variacionistas
(Fonte: Própria do autor).
Neste sentido, há uma estreita relação entre a variação linguística e a percepção, uma vez que sobre processos variáveis, desencadeiam-se estereótipos, preconceitos, avaliação, atitudes, dentre outros. Desse modo: “dialect variation is clearly one of the indexical properties that is perceived and encoded in everyday Language situations and its impact on speech perception deserves further investigation”19 (CLOPPER & PISONE, 2005, p. 332).
Por isso, admite-se que, sobre qualquer uso linguístico, há imposições e expectativas de padrões de atitudes esperados pela sociedade. E as investigações de percepção linguística podem evidenciar aspectos da realidade das comunidades de fala pesquisadas.
Ainda pensando nas questões dos papéis desenvolvidos por falante/ouvinte, pode-se verificar que os julgamentos sociais estão associados com às experiências vividas por eles em suas comunidades de fala e permitem elicitar algumas atitudes linguísticas lá exibidas. Pensando assim, assegura-se que ambos, falante e ouvinte, são sensíveis à variação linguística e que diversos fatores podem demonstrar essa realidade. Por exemplo, a realização da adjetivação descritora (presente em uma escala de diferença semântica e/ou em um instrumento de avaliação) pode constituir um recurso utilizado por informantes para evidenciar que são capazes de descrever padrões sociolinguísticos gerais da natureza de práticas variacionistas em comunidades de fala e/ou em contextos comunicativos diferentes.
A adjetivação descritora consiste em um recurso utilizado pelo pesquisador ao verificar que atitudes, percepção e/ou avaliação linguísticas são exibidas por uma determinada comunidade ou por um grupo amostral, acerca de sua própria variedade linguística e/ou a outrem. Para tanto, com o auxílio de uma escala de diferenças semânticas e com valores previamente articulados, o pesquisador enumera uma sequência de adjetivos (adjetivos qualificativos, como bonito, feio, amigável, familiar, dentre outros), oriundos de outras
19 “Variação dialetal é claramente uma das propriedades indexical que são percebidas e codificadas em situações
cotidianas da língua e seu impacto sobre a percepção de fala merece investigação adicional”.
AVALIAÇÃO
ATITUDE PERCEPÇÃO
investigações ou de sua própria intuição de pesquisador, que possam ser atribuídos à língua que será alvo de investigação. Em seguida, aplica-se um cálculo para verificar seus efeitos, tal como no modelo proposto por Fasold (1996). Essa questão será retomada na metodologia ao se propor a figura 4 e o Apêndice I deste trabalho.
Assim como constituem membros de comunidades sociolinguísticas diferentes, falante/ouvinte estão inseridos em um processo que apresenta significado social, sobretudo, ao reconhecerem, com certa precisão, aspectos dialetais na sua própria variedade linguística e/ou em outras variedades. Por isso que Garrett, Coupland & Williams (2003) afirmam que os informantes utilizam diferentes formas para expressar sua avaliação a partir daquilo que há em seus repertórios lexicais: gírias, itens tabus, palavrões, vocábulos específicos de um determinado campo de pesquisa, dentre outros, que, aliados a outros componentes, indicam que falante/ouvinte exibem um saliente conhecimento acerca de variedades linguísticas.
Já, a partir dos trabalhos de Clopper (2010), percebe-se que essa capacidade avaliativa, seja de informação linguística ou não linguística, que está armazenada na memória dos falantes/ouvintes, está ligada aos estereótipos e representações que histórica e culturalmente são compartilhados na comunidade de fala.
Segundo Clopper & Pisoni (2005, p. 333-334): “diverse studies reveal that naive listeners are aware of linguistic variation to the extent that they can imitate it, use it to identify where people are from and to make judgments about social characteristic of the talkers.”20 Neste
sentido, e, em consonância com a citação anterior, percebe-se que a percepção de falante/ouvinte é tão precisa que chega, segundo Labov (2010), a se apoiar em qualidades fonéticas para realizar a identificação da origem de um dado informante ou para reconhecer e distinguir os traços linguísticos que fornecem pistas para realizar a classificação dialetal. Por exemplo, para Clopper & Pisoni (2005), o falante nativo é capaz de, explicitamente, identificar categorias sociais e linguísticas em dados de fala, separando o dialeto familiar do dialeto não familiar.
Assim, entende-se, também, que o informante é capaz de atribuir prestígio ou não a essa variedade linguística avaliada. Em outras palavras, ele pode atribuir diferente valor social ao uso das variedades linguísticas averiguadas, o que para os variacionistas constitui uma assunção da realidade das línguas.
20 “Diversos estudos revelam que os ouvintes ingênuos estão cientes de variação linguística na medida em que eles
podem imitá-lo, usá-lo para identificar onde as pessoas são e para fazer julgamentos sobre a característica social dos locutores."
Neste sentido, por exemplo, com relação ao segmento /λ/, se estabelece que a variante [l] pode gozar de mais prestígio do que as variantes [j, Ø], o que gera uma escala gradacional de aceitação, conforme se reproduz na figura 2. Contudo, entende-se que essa percepção ainda precisa ser averiguada com maior rigor.
Figura 2: Escala Gradacional de Aceitação
(Fonte: Própria do autor).
Sendo assim, entende-se que, sobretudo o segmento /l/, por compartilhar maior semelhança fonológica com o segmento /λ/ do que com as variantes [j, Ø] e associado a essa constatação, também se pode vincular questões de avaliação, estigma e preconceito aos modos como essas variantes são reproduzidas. Parece que, na fala rápida e cotidiana dos falantes, o uso de [l] no lugar de [λ] está se tornando mais frequente e até mais aceito, realidade que não se verifica com as outras duas variantes. Todavia, se admite que só os dados permitirão esboçar as devidas generalizações e estipular as especificações de cada variante e de cada fator da idade do informante, verificando se há relações diretas ou indiretas entre eles.
Uma vez apontada a capacidade ativa de falante/ouvinte, pode-se verificar que há uma série de processos (cognitivos, sociais, afetivos, linguísticos, psicológicos, culturais, etc.) que estão vinculados a essa capacidade. Desse modo, a parte seguinte deste capítulo está destinada à descrição de aspectos relacionados à atitude linguística.