A hipótese é uma proposição que se faz na tentativa de responder ao problema. Foram identificados alguns elementos que deverão permear o referencial teórico do estudo. Entre esses se fará abordagem do processo de ocupação e urbanização da Ilha de Santa Catarina, o crescimento da atividade turística na Ilha e o turismo sustentável.
- A atividade turística na Ilha de Santa Catarina vem se desenvolvendo a partir de modelos de turismo de massa, causando muitos impactos negativos que, na maioria das situações, apresentam discordância nas práticas do turismo sustentável.
- O turismo de massa não é compatível com turismo sustentável sendo o maior responsável pela degradação ambiental e conseqüente declínio dos sítios turísticos na Ilha de Santa Catarina.
- O processo de ocupação e urbanização na Ilha de Santa Catarina (especialmente os balneários), é influenciado pela atividade turística e não leva em conta a necessidade das práticas de turismo sustentável.
-A maior parte dos sítios turísticos, na Ilha, sofrem o impacto do turismo de massa.
A partir do século XVIII, inicia-se o processo de ocupação e urbanização na Ilha de Santa Catarina, com uma rápida degradação de seus ecossistemas em conseqüência das práticas agrícolas que levaram ao desmatamento quase integral da Ilha. A cobertura vegetal original da Ilha foi desmatada em cerca de 76%, considerando áreas de restingas, manguezais e florestas.(CECCA, 1997a). Posteriormente, com o declínio
32
desse ciclo agrícola no nosso século, começou um processo de recuperação espontânea da vegetação original, embora sem a riqueza da biodiversidade que foi comprometida nesses cerca de 250 anos de ocupação e exploração dos ambientes.
Com o crescimento urbano, na metade do nosso século, acelerado por políticas sociais, econômicas e urbanas equivocadas que apostavam na criação de uma metrópole catarinense, concentrando na Ilha empresas e serviços públicos que deveriam estar distribuídos pelo estado, os ecossistemas naturais passaram a sofrer novos impactos provocados pela ocupação desordenada do espaço natural. Estes impactos advinham tanto de projetos públicos e loteamentos privados, como de ocupações de população de baixa renda, particularmente em áreas de encostas e manguezais.
Com o novo ciclo econômico, a partir dos anos 80, caracterizado pela indústria do turismo associada à construção civil, o processo de urbanização, ampliado pela especulação imobiliária, estendeu-se aos balneários, sujeitos a uma rápida ocupação verticalizada e adensada, que não foi sequer acompanhada pela criação de uma infra- estrutura viária e de saneamento, permitindo ocupação de dunas, áreas de marinha e o deságüe de esgotos nas praias. (CECCA, 1997a).
Este tipo de ocupação desencadeado nas últimas décadas é muito mais danoso que o promovido no ciclo econômico anterior, pois a urbanização, ao contrário das atividades agrícolas, não permite nenhum tipo de regeneração das condições originais, constituindo dessa forma um comprometimento definitivo dos ambientes naturais.
A atividade turística na Ilha de Santa Catarina não ocorreu de forma acidental. Durante a década de 70, no auge da industrialização nos países subdesenvolvidos, a Ilha com poucas vocações para as atividades industriais, principalmente por suas características geomorfológicas, segue a tendência do crescimento econômico voltado para o setor terciário, destacando-se a atividade turística como uma das principais atividades.
Durante a década de 80, ocorre a consolidação do turismo incentivada pela pressão dos empresários da atividade sobre os recursos públicos, a ponto de transformar o turismo em alternativa principal e preferencial de desenvolvimento econômico para a região.
O atrativo turístico natural é o fator determinante para os deslocamentos das demandas turísticas que ocorrem na localidade, principalmente durante a temporada de verão. Este fator vem contribuindo de forma significativa para a construção dos espaços existentes na cidade.
33
Na década de 90 verifica-se um enorme crescimento da área urbana dos balneários da Ilha de Santa Catarina. Durante muitos anos essas localidades somente possuíam movimento durante a temporada de verão e, durante o restante do ano eram verdadeiras cidades fantasma , característica da sazonalidade existente no local. A partir do final da década de 90, ocorre o aumento do número de pessoas que passaram a residir nos balneários, motivado principalmente pela melhoria dos acessos e baixo custo de moradia nessas localidades. Outro fator que contribuiu para a ocupação dessas localidades é a chegada de novos moradores na cidade, motivados principalmente pelas propagandas sobre a cidade veiculada na mídia nacional, e as ofertas de cursos universitários também instalados na cidade. A sazonalidade é uma das características do turismo na Ilha. Também possui ligação com o setor informal da economia, como no aumento do número de ambulantes e a concentração de mão-de-obra temporária durante o verão. Observa-se ainda, uma grande concentração de pessoas, que provoca em muitos locais a saturação da capacidade de suporte; empiricamente, é sentida e verificada, sobretudo pelo aumento da produção de resíduos e adensamento do sistema viário nas vias de acesso aos balneários.
Sob a ótica do ambiente natural, para os ecossistemas o sazonalidade trás contribuições positivas: a diminuição na produção dos resíduos, entre esses os efluentes líquidos, o que possibilita a recuperação da qualidade das águas costeiras.
A problemática ambiental traz à tona novas formas de abordagens sobre as práticas da atividade turística.
Não se pode deslocar a análise da atividade turística lhe atribuindo potencial de sustentabilidade sem levar em conta o fato de que se trata de uma atividade econômica, que produz e consome, mesmo que seu pressuposto seja consumir paisagens e territórios, em ambientes considerados restauradores ou de descanso para os indivíduos ou mesmo pequenos grupos. É preciso considerá-la em articulação com os elementos gerais da produção e do consumo.
Na bibliografia relacionada ao turismo, há dois enfoques principais: um que trata da produção e outro que analisa o consumo da paisagem, do território, do espaço. A produção e os produtores e o consumo e os consumidores da paisagem produzida e/ou apropriada pela atividade turística não podem, na realidade, ser desvinculados. Mas, embora não seja possível separar a produção do consumo, o que se observa nos trabalhos acadêmicos ou não é que ora se enfoca a produção, ora se analisa o consumo . Isto sem abordar a forma como a mercadoria natureza é vendida, em
34
termos de imagens e símbolos apresentados pelas empresas de turismo, que lhe atribuem novos signos e símbolos.
Tendo em conta que a problemática ambiental coloca em destaque a questão do espaço, do território, da paisagem, a atividade turística aparece como aquela que apenas consome a paisagem /espaço /território, sem aparentemente destruir esses lugares, o que justifica colocá-la como sustentável. Mas a atividade turística produz territórios, da mesma forma como todas as demais atividades do modo de produção industrial de produzir mercadorias, e em sua essência é insustentável, pois temos que levar em conta que toda produção é ao mesmo tempo destruição, transformação. (LUCHIARI, 2001). O futuro das atividades das destinações turísticas, na Ilha de Santa Catarina, está associado aos atrativos naturais e esses aos conflitos ambientais. Nesse contexto que a nós se apresenta, o planejamento de turismo sustentável poderá se traduzir em práticas que tentarão reverter os danos já estabelecidos e evitar que novos danos ambientais aconteçam.