3. Une centralisation qui est également administrative
3.3. Centralisation par la mise aux normes et la standardisation
Ao observar a história do hipertexto, vemos que Vannevar Bush, um matemático, em seu artigo As we may think (1945), criticava a artificialidade dos sistemas de indexação e organização de informações em uso na comunidade científica. Segundo ele, cada item era classificado somente de uma forma em uma ordenação puramente hierárquica. Baseando-se no fato de que a mente humana funciona por meio de associações e não de forma hierárquica, imagina um dispositivo, o memex, para mecanizar a classificação e a seleção por associação paralelamente ao princípio de indexação clássica. Sobre isso, comenta Lévy (1993, p. 29):
Bush retrata o usuário de seu dispositivo imaginário traçando trilhas transversais e pessoais no imenso e emaranhado continente do saber. Estas conexões, que ainda não se chamavam hipertextuais, materializam no Memex, espécie de memória auxiliar do cientista, uma parte fundamental do próprio processo de pesquisa e elaboração de novos conhecimentos.
O termo hipertexto foi mencionado, pela primeira vez, em 1965, por Theodore Nelson em seu projeto Xanadu para exprimir a idéia da escrita e da leitura não lineares em um sistema de informática. Ted Nelson elaborou um sistema, através do computador, que armazenava documentos de forma conectada, possibilitando consultas aleatórias, de forma não linear pelos usuários, que poderiam, também, alterar os dados armazenados no sistema. No site que abriga o projeto (www.xanadu.com) observamos a seguinte advertência: “A World Wide Web (outra imitação do papel) trivializa nosso modelo original de hipertexto com links de mão única, sempre interrompidos sem possibilidades de gestão de versões ou conteúdos”
Nelson critica a unidirecionalidade dos links atuais, visto que, para ele, a concepção de hipertexto é diretamente ligada à idéia de links bidirecionais, onde mesmo os documentos passando por alterações, se mantivessem conectados entre si e fossem elaborados de forma coletiva por todos os usuários do documento.
Essa crítica é feita em razão da atrofia do hipertexto, diante da criação das páginas da web por Tim Berners-Lee, em 1989, nas quais somente o programador da página pode modificar o conteúdo do hipertexto e incluir e/ou excluir sites. A World Wide Web (WWW) configura o suporte principal do hipertexto na internet, mas também é responsável pelo retrocesso em seu caráter coletivo.
Para Lévy (1993), o hipertexto constitui um mundo de significações com suporte no qual os sujeitos do processo comunicativo formulam e remodelam universos de sentido. Nesse sentido, anota:
Tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüência sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira. (LEVY, 1993, p. 33)
Com efeito, o autor aprofunda o conceito de hipertexto por meio de seis princípios que o orientam: metamorfose, heterogeneidade, multiplicidade e encaixe de escalas, exterioridade, topologia e mobilidade.
Pelo princípio da metamorfose, a rede hipertextual está sendo continuamente formada e negociada. Sua composição, extensão e formatos estão com suas possibilidades de mudança sempre em aberto.
A heterogeneidade dos nós e conexões caracteriza o segundo princípio proposto por Lévy (1993). São compostos de imagens, sons e palavras, e são variadas suas formas de conexão: multimídias, multimodais, analógicas, digitais.
O princípio da multiplicidade e do encaixe de escalas demonstra, por sua vez, que o hipertexto está organizado de forma fractal, isto é, cada nó ou conexão, mesmo tomado em separado, pode se revelar como composto por uma nova rede e assim por diante, ao longo da escala dos graus de precisão.
A exterioridade se revela, por sua vez, na medida em que o hipertexto não possui unidade orgânica isolada, ou seja, seu crescimento ou diminuição, sua composição ou recomposição dependem de uma vinculação permanente com o exterior: adição de elementos, conexões com outras redes etc.
Pelo princípio da topologia, todos os deslocamentos se dão na própria rede e tudo funciona por proximidade e vizinhança. Não há espaço fora do hipertexto: segundo Lévy (1993, p. 26) “a rede não está no espaço, ela é o espaço”.
O princípio da mobilidade dos centros indica que não há um centro, mas centros que se deslocam entre os nós, conforme o contexto, a necessidade e o interesse, dando forma a diversas paisagens de sentido.
Lévy (1993), ao tratar acerca do hipertexto, destaca que essa dinâmica não exclui a dimensão audiovisual, pois, à medida em que se encontram em um espaço interativo e reticular de manipulação, a imagem e o som adquirem um estatuto de quase-textos. Nesse caso, podemos falar em hipermídia.
A hipermídia, como estrutura ligada às mídias digitais, possibilitam ao usuário a criação, manipulação e análise da rede composta por nós relacionados entre si desde a hipervinculação. Pode ser vista, portanto, como a interseção dos conceitos de multimídia e hipertexto, permitindo que a rede de nós que caracteriza o hipertexto, seja representada por múltiplos meios. Segundo Manovich (2006, p. 87),
Devido a que nas novas mídias, os elementos individuais (imagens, páginas de texto etc) conservam sempre sua identidade individual (pelo princípio da modularidade), podem ser conectados entre si em mais de um objeto. A hipervinculação é uma maneira em particular de estabelecer dita conexão. Um hipervínculo cria um conexão entre dois elementos; por exemplo, entre duas palavras em duas páginas diferentes, ou entre uma frase em uma página e uma imagem em outra, ou entre dois lugares dentro da mesma página. Os elementos que se conectam por meio de hipervínculos podem existir em um mesmo computador ou entre diferentes computadores conectados em rede, como no caso da World Wide Web.
Aliado às peculiaridades das mídias digitais, o hipertexto possibilita inúmeras utilizações no âmbito da educação. Por suas características, descarta uma abordagem linear dos conteúdos e permite que um conceito possa ser apresentado por meio de textos e de outros meios que contribuam para a aprendizagem.
Sobre a utilização da hipermídia na aprendizagem, Rezende & Barros (2005) comentam:
Nessa organização diferenciada da informação, os sistemas hipermídia de aprendizagem permitem ainda que esta se faça em diferentes níveis de detalhes, que são livremente acessados pelos usuários, conforme as experiências e habilidades frente a um novo conceito. (P. 64)
E complementam:
A utilização dos sistemas hipermídia na educação pode ser eficaz também para evitar a simplificação de assuntos complexos, pois facilitam sua abordagem como um todo e aumentam a possibilidade do aluno conseguir atingir uma compreensão mais profunda e interdisciplinar. (64)
Além do caráter de autonomia, aprofundamento e criatividade que essas vinculações permitem, observamos aqui a emergência de uma nova dinâmica em torno dos papéis de autor e leitor, emissor e receptor. Essa configuração de uma rede composta de nós que se vinculam em infinitas possibilidades demanda, por sua natureza, uma efetiva colaboração em sua organização. Ao mesmo tempo, esse potencial de conexões facilita a comunicação e o desenvolvimento da ação colaborativa.