O Anticristo científico: A Natureza
Filme: Príncipe das Trevas (Prince of Darkness, John Carpenter, 1987)
Assim como a Noite e o Mar, a natureza sempre habitou entre os medos da humanidade por não a compreender totalmente e não ser capaz de controlá-la (DELUMEAU, 1978). Nada mais natural então que o cinema de horror tenha se apropriado de animais, plantas e ecossistemas para explorar tais temores.
O horror natural (ou eco-horror, Animal horror, nature run amok, etc) é um subgênero que cinema de horror, definido da seguinte forma por Katarina Gregersdotter:
Basicamente contam a estória de como um determinado animal ou uma espécie de animal comete uma transgressão contra a humanidade e então narra a punição que o animal deve sofrer como conseqüência. Dessa forma, o horror que a maioria desses filmes evoca é oriundo do ataque de animais a seres humanos. Esse é o caso inclusive em filmes em que os humanos são culpados pelo ataque por violarem o território do animal, ou por tentar controlá-lo.
(GREGERSDOTTER, 2015, págs.3-4).
Para uma compreensão integral do que o subgênero representa, substituiria a palavra ‘animal’ por ‘natureza’, afinal “eco-horror também inclui filmes em que a relação entre humanos e animais desempenha papel marginal na trama e que o ecossistema em si – suas plantas, montanhass, florestas, mares, e estações – é o vilão” (GREGERSDOTTER, 2015, p.4). Ainda que animais realmente sejam mais frequentemente os monstros nesses filmes, é na imprevisibilidade da natureza e a incapacidade de dominar sua existência, bem como a relação quase nunca equilibrada do homem com o meio ambiente que reside a força do subgênero.
O horror natural foi demasiadamente popular em períodos de preocupação ambiental ou em épocas marcadas por grandes desastres naturais. Provavelmente, a década mais importante para o subgênero foram os anos 70, em que vários de seus clássicos foram lançados, entre eles A Invasão das Rãs (Frogs, George McCowan, 1972), No Mundo de 2020 (Soylent Green, Richard Fleischer, 1973), Tubarão (Jaws, Steven Spielberg, 1975), Orca - A Baleia Assassina (Orca, Michael Anderson, 1977), Animais em Fúria (Day of the Animals, William Girdler, 1977), Piranha (Joe Dante, 1978) e Semente do Diabo (Prophecy, John Frankenheimer, 1979). Frequentemente, esses filmes retratam a natureza se vingando dos homems através da união entre animais (Animais em Fúria, A Invasão das Rãs) ou da arbitrária intervenção do ecossistema (como ocorrem em Fim dos Tempos [The Happening, M. Night Shyamalan, 2008], em que plantas ao repentinamente passam a secretar neurotoxinas que induzem ao
120 suicídio). Ou seja, a natureza é capaz de algo que a humanidade, nesses filmes (e na vida real), não consegue fazer, como visto na longa tradição de filmes de desastre, apocalipse zumbi ou horror natural, promover a união de diferentes espécies em prol da evolução:
As regras básicas para participantes (incluindo o homem) são também aquelas que governam a comédia literária: organismos devem se adaptar às suas circunstâncias de todas as formas possíveis, devem evitar a todo custo escolhas de vida ou morte, devem preferir qualquer alternativa à morte, devem aceitar e encorajar a diversidade ao máximo, devem se acomodar às limitações acidentais de nascença e do ambiente, e precisam sempre optar pelo amor ao invés da guerra — ainda que batalhas sejam inevitáveis, devem visar ensinar a humildade aos inimigos sem necessariamente destruí-los.
(MEEKER, 1997, p.166).
No horror natural, o humano aparece integrado à natureza em filmes de canibal; aqui, o homem civilizado, ocidental, cumpre com o papel que normalmente lhe cabe, de intruso agressivo que comete alguma infração que necessita ser punida. A natureza então se manifesta através do canibal, o homem primitivo ainda unido ao planeta por seus costumes e crenças, que por meio de sua violência amoral (ainda que repugnante e, em outras circuntâncias, condenável), coloca a civilização em seu devido lugar.
O Príncipe das Trevas (1987), abreviado para OPDT de agora em diante, não é um filme de horror natural comum; de fato, poderia ser um típico filme de horror ocultista, tendo como mote o vindouro apocalipse causado pelo despertar do anticristo do título. Porém, influenciado pela franquia britânica Quatermass, Carpenter representa a besta através de um uma substância guardada dentro de imenso relicário, escondido por séculos no porão de uma igreja. O anticristo não é criatura sobrenatural; trata-se de uma forma de vida alienígena caída dos céus (ou expulsa por Deus do paraíso). O líquido senciente (“Pois o demônio nesse caso (...) não é uma criatura humanóide com cascos fendidos e uma cabeça com chifres, mas um vaso de líquido prebiótico evoluindo para vida inteligente a partir do caos” 63), assim como a figura de Lúcifer, representa o elo com o passado da humanidade, o que foi esquecido pela civilização: “o Mal engarrafado, cuja eventual libertação significa o retorno da consciência humana primitiva há muito reprimida, sobre a qual está fundada a frágil ficção de vida civilizada” (CUMBOW, 2000, p.149). O Príncipe das Trevas, tal qual a natureza, é o primitivo incontrolável; sua lógica pode ser alienígena e amoral, mas está muito acima do mal como o concebemos.
63
121 Figura 21: O Príncipe das Trevas
Esse caráter primitivo da entidade se reflete nos arautos que atendem ao seu chamado para auxiliar na vinda do Anti-Deus, o pai do Príncipe das Trevas: mendigos, os humanos incivilizados, remanescentes de uma tradição coletivista, e os insetos e vermes, que desde o início do filme sinalizam que algo está para acontecer: “Insetos desempenham um papel importante, tanto no conceito de telepatia quanto na função de mensageiros da tragédia. Assim como o Príncipe das Trevas, habitam a Terra há muito mais tempo que a humanidade; são seus irmãos” (LE BLANC, 2011, p.81).
O horror corporal dialoga bastante com esses filmes, na medida em que doenças causadas por bactérias e vírus também estão incluídas como objetos formais do subgênero, caso do filme Cujo (Lewis Teague, 1983), em que um outrora simpático São Bernardo infectado pelo vírus da raiva ameaça uma mãe e seu filho; o monstro não é exatamente o cachorro, e sim sua versão transformada pela interação com o microorganismo transmissor da raiva. Como num filme típico do body o horror, a entidade controla pessoas através de seu próprio conteúdo: “Quando o líquido ataca é como numa perversão do sacramento – um jato projetado na boca de sua vítima. Uma vez passado de boca em boca é transmitido como uma doença venéreo- afrodisíaca, assim como no filme Calafrios (1975), de David Cronenberg” (LE BLANC, 2011, p.81). Os infectados arregimentam mais indivíduos para o lado da entidade através de seus fluídos corporais (MUIR, 2005), até que contaminam Kelly, que se torna a personificação do Anticristo e a quem cabe libertar o Anti-Deus, que habita a dimensão da antimatéria (ou a realidade através do espelho64).
64“O espelho é como a imagem do ‘Eu’ distorcido, na qual uma presença desconhecida espreita ‘por detrás do
espelho’, dentro do insconsciente humano: observndo — e alcançando — dentrodo espelho o confronto com o lado sombrio do ‘Eu’” (CUMBOW, 2000, p.152).
122 Figura 22: Os insetos
Em OPDT, podemos notar outro cânone do subgênero, a falta de compreensão de como funciona o mundo natural, aqui representada pela total estupefação dos cientistas reunidos para estudar a substância encontrada na igreja, que simplesmente não conseguem interpretar ou assimilar as informações obtidas a partir da análise da composição da entidade. O choque leva à indignação de alguns membros da equipe, culminando na morte de Wyndham, morto por tesouradas e consumido por insetos; “essa falha em entender a natureza leva a um sentido totalmente diferente dentro do contexto da narrativa dos filmes, pois os personagens humanos pisam em territórios cujas regras eles simplesmente não conseguem compreender” (FUCHS, 2015, p.49). É por isso que em Tubarão (1975), o prefeito de Amity se recusa a interditar a praia. Ele não consegue compreender que a existência do Tubarão possa intervir nos interesses financeiros de sua administração; no entanto, o animal não pode simplemente ser expulso da comunidade ou convencido de interromper suas atividades, afinal o mar é seu territótio. Em Terrores da Noite (Nightwing, Arthur Haller, 1979), Walker invade o habitat dos morcegos (assim como os imigrantes europeus invadiram as nações indígenas) e provoca uma mudança no comportanto dos morcegos, que atacam o gado e posteriormente os habitantes da região. Essa teimosia é fruto da arrogante percepção de que o homem domina o mundo sem resistência, de que “existimos para consumir a carne, não para sermos consumidos” (TIFFIN, 2007, p.247).
O padre interpretado por Donald Pleasence discute com Professor Birack sobre a omissão da Igreja Católica, que escondeu do mundo a existência de tal criatura: “Aparentemente, uma decisão foi tomada... para caracterizar o Mal puro como uma força espiritual, a escuridão que habita o coração dos homens. Era mais conveniente. Dessa forma, o homem permaneceria no centro de tudo. Uma mentira estúpida. Nos éramos vendedores, apenas isso.
123 Nós vendemos nosso produto...para aqueles que não o possuíam. A nova vida. Nos recompensamos, punimos nossos inimigos. Então poderíamos viver sem a verdade. Uma substância...Malevolência. Essa era a verdade. Adormecida...Até agora”.
Figura 23: Contaminação
A omissão da Igreja sumariza o posicionamento antiético entre homem e a natureza essencial ao horror natural. Animais não são malignos; eles agem de acordo com seus intintos. O homem, que recusou seu lado primal, opera sob uma lógica objetiva, racional. Quando o homem opta por agir em desacordo com a natureza, ocorre um confronto. Toda a premissa do subgênero é contruída a partir dessa dicotomia de ação e reação: “(...) humanos tem uma responsabilidade ética para com os animais. A falha dos humanos a esse respeito normalmente leva a uma rápida punição” (GREGERSDOTTER, 2015, p.7). É bem verdade que em OPDT essa punição demora quase 2000 anos para se concretizar, e ainda assim ela é evitada temporariamente... Afinal, o Mal, assim como a natureza, não pode ser simplesmente destruído, e inexoravelmente ele retornará para efetivar o apocalipse, um “retorno à normalidade” da natureza infestada por humanos (MURRAY, 2009).
Outros subgêneros que evocam o Horror Natural:
Horror Corporal: Seres Rastejantes (Slither, James Gunn, 2006) Natural Horror: A Invasão das Rãs (Frogs, George McCowan, 1972)
Filmes de canibal: O Último Mundo dos Canibais (Ultimo Mondo Canibale, Ruggero Deodato, 1977)
124
VI – SUBJETIVIDADE E ILUSÃO