4.4 Autour de la torsion dans la cohomologie
4.4.5 Quelques cas particuliers
Para orientarmos a leitura e a interpretação que possamos fazer dos tratados de casamentos abordados neste capítulo, urge conhecer a proveniência e as condutas dos embaixadores portugueses.
Na negociação de 1376/77, os representantes da Coroa portuguesa são dois protegidos do Rei D. Fernando: D. Pedro Tenorio, bispo de Coimbra e Aires Gomes da Silva. D. Pedro Tenório468 participara, já, nas negociações anteriores ao Tratado de Santarém, ao lado do cardeal Guido de Bolonha, e ultimara os preparativos para o enlace de Beatriz com o duque de Benavente, nas Cortes de Leiria. Em 1377, é transferido para Toledo, distanciando-se da diplomacia luso-castelhana, embora se tenha mantido fiel ao partido dos reis de Castela, em 1385. A sua irmã Urraca foi aia de Beatriz e casou, em Portugal, com Aires Gomes da Silva, que fora aio do Rei D. Fernando. Urraca será fiel a Beatriz até à morte e, em 1388, receberá privilégios da Coroa castelhana, quando fica viúva e vive no exílio.
Aires Gomes da Silva469, filho de Fernando Gomes da Silva, foi vassalo do rei D. Pedro I e aio de D. Fernando, como já mencionámos. De acordo com o modelo de educação que era dado aos infantes, o aio substituía, muitas vezes, o afecto dos pais, com quem as crianças mantinham uma relação distante, incentivadora da obediência470. A familiaridade que Aires teve com o jovem Fernando ajudará a explicar a fidelidade que lhe prestou, ao longo de toda a sua vida. Ocupou posições importantes nos contingentes militares e tornou-se alferes-mor e conselheiro do monarca, que o presenteou com várias doações. Casou, em primeiras núpcias, com Mor Pires Varela, de quem teve um filho, Gonçalo Gomes da Silva. Do segundo casamento com Urraca, teve Afonso Tenório, que foi notário-mor do reino de Toledo e conselheiro dos reis Enrique III e Juan II de Castela. O avô deste e pai de Aires foi um protegido de D. Fernando e, em 1383-1385, lutou a favor de Beatriz e Juan I.
Os curadores de Beatriz são frei Álvaro Gonçalves Pereira e Henrique Manuel de Vilhena. O primeiro era Prior da Ordem do Hospital, desde os dezoito anos de
468 César Olivera Serrano, Beatriz de Portugal, la pugna dinástica Avís-trastámara, Dissertação de Doutoramento, Santiago de Compostela: Consejo Superior de Investigaciones científicas Xunta de Galicia / Instituto de Estúdios Gallegos “Padre Sarmiento”, 2005, pp. 279-281.
469 César Olivera Serrano, ob. cit., pp. 279, 281-282. 470 Rita Costa Gomes, D. Fernando, pp. 46-47.
idade471, e fazia parte do trio de confiança dos reis D. Pedro I e D. Fernando, de Portugal, que era constituído, para além dele, pelo tio da Rainha D. Leonor Teles, João Afonso Telo, e por Álvaro Peres de Castro, irmão de Inês de Castro472. Os Hospitalários vão ter uma importância grande no reinado de D. Fernando, se tivermos em conta as diversas campanhas militares que percorreram a governação do rei. O casamento de D. Fernando e D. Leonor Teles, no Mosteiro de Leça de Bailio, propriedade da dita ordem473, ficou a dever-se ao conselho do seu Prior, Álvaro Gonçalves474. As mercês que a ordem e ele próprio recebem do monarca provam o reconhecimento real pelos serviços prestados475. Na verdade, a fama das suas acções militares e políticas estendia- se, para lá das fronteiras nacionais, destacando-se a sua participação na batalha do Salado, ao lado do rei D. Afonso IV, e a mediação que protagonizou nas tréguas Castela-Aragão, em 1352. Morre, por volta de 1379-1380, sendo substituído pelo seu filho Pedro, na direcção da Ordem do Hospital.476Álvaro Gonçalves Pereira foi pai de uma numerosa descendência: Nuno Álvares Pereira (escolhido, aos treze anos, pela própria Rainha D. Leonor para ser seu escudeiro), Diogo Álvares, Pedro Álvares, entre outros. Álvaro Gonçalves Pereira e os seus filhos participaram nas guerras fernandinas. Depois da morte de D. Fernando, os filhos separam-se: Nuno477 segue o partido de
471 Rita Costa Gomes, D. Fernando, p. 24.
472 “Importa à nossa reflexão sobre o casamento de D. Fernando fazer notar que as posições mais influentes junto do jovem rei estavam nas mãos de homens da geração de seu pai e ainda directamente implicados nos assuntos do país vizinho, em especial no caso de Álvaro Peres de Castro”. Rita Costa Gomes, D. Fernando, p. 29.
473 Fernão Lopes, D. Fernando, cap, LXII, p. 215.
474 Antero de Figueiredo, Leonor Teles “flor de Altura”, pp. 110-111.
475 Consultar o “Apêndice” deste estudo:“Tabela de Pessoas e Instituições”. Como exemplo, citamos as mercês de 20.02.1375, a Álvaro Gonçalves (IANTT, Chancelaria de D. Fernando, Liv.1, fs. 164-164vº) e a de 11.05.1380, à ordem do Hospital, a pedido do seu Prior (IANTT, Chancelaria de D. Fernando, Liv. 2, fs. 61-61vº).
476 Rita Costa Gomes, D. Fernando, p. 24.
477
Com efeito, Nuno Álvares Pereira será largamente agraciado pelo Mestre de Avis. Depois das Cortes de Coimbra de 1385, o Mestre, já na qualidade de rei D. João I, dá ao, então, Condestável do reino, Nuno Álvares Pereira, várias terras pertencentes à Rainha D. Leonor Teles e ao falecido Juan Fernández de Andeiro, entre outras: “|…| temos por bem, e damoslhe, e doamos, e fazemos pura e livre doação, entre vivos, de juro, e herdade para sempre estas villas, e lugares com seus Castellos, que se seguem: primeiramente Vila viçosa, e Borba, Estremoz, Évora monte, Portel, Monte mór o novo, Almada, Sacavém com seus reguengos; e Freelas, Unhos Camarate, e Colares com seus termos, e reguengos: o serviço Real dos judeus da Cidade de Lisboa, e seu termo, e reguengos; e o Condado de Ourém, com todallas terras, Villas, e lugares, que João Fernandes Andeiro havia ao tempo de sua morte por qualquer guisa que fosse; e porto de mós, e o Rabaçal, e Bouças, e Alvayazer, e terra de Pena, e terra de Basto, com arco de Beilli, e terra de Barroso”. Esta doação compreende as jurisdições cível e crime, mero e misto império, nas pessoas e nos bens, senhorio alto e baixo, com todas as rendas, pertenças e direito reais, corporais e não corporais. Só a apelação e a correição é que ficam reservados ao rei. (IANTT,
Chancelaria de D. João I, Liv. 1, f. 82, Santarém, 20/08/1385, cit. por Frei Manuel dos Santos,
Monarchia Lusitana, parte VIII, Livro XXIII, cap. XLIV p. 780). |…| “Outro si lhe damos emprestemo todalas rendas, e direitos, que Nós havemos, e de direito havemos de haver, em a Cidade de Silves, e em
Avis; Diogo e Pedro optarão por seguir Leonor Teles e morrerão na batalha de Aljubarrota.478
Henrique Manuel de Vilhena é filho bastardo479 de D. João Manuel,
importante fidalgo de Castela e irmão da mãe de D. Fernando, D. Constança Manuel. Este tio do rei receberá o título de Conde de Seia, os castelos de Sintra, de Chaves, a vila de Cascais e o reguengo de Oeiras480, entre outras doações481. Na crise política de 1383/85, militou, temporariamente, ao lado do Mestre de Avis, acabando, depois, por seguir Juan I. A partir de 1386, passa a viver em Castela, recebendo o senhorio de Montealegre e Meneses, na terra de Campos. Pertenceu aos conselhos reais de Juan I e ao da regência de Juan II e, sabendo atravessar fronteiras geográficas e políticas, tornou- se mordomo-mor da Rainha de Aragão. Casou com a Condessa Beatriz de Sousa. Da sua descendência, destacaram-se os filhos Pedro Manuel e Fernando Manuel de Vilhena que encabeçaram a sucessão da rama portuguesa dos Manuel, no exílio castelhano482.
Em 1380, a escolha recai sobre os tios da Rainha D. Leonor Teles, João Afonso
Telo e Gonçalo Vasques de Azevedo, que depois são substituídos pelo tio do rei,
Henrique Manuel de Villena, que já referenciámos. João Afonso Telo “nascera cerca de 1310 e fora a principal figura da Corte do rei D. Pedro de Portugal.” 483 Durante duas décadas, ocupa o cargo mais importante do reino que é o de mordomo-mor. Após a morte, sem descendência, de D. Pedro, Conde de Barcelos e autor do “Livro de Linhagens”, João Afonso Telo recebe do monarca D. Pedro I o título nobiliárquico do Loulé, e em seus termos, e que as haja livremente sem outra contenda em quanto nossa mercê for.” (IANTT, Chancelaria de D. João I, Liv. 1, f. 82, Santarém, 20/08/1385, cit. por Frei Manuel dos Santos,
ob. cit., Livro XXIII, cap. XLIV p. 781). A 23 de Agosto de 1385, o Condestável recebeu, enquanto fosse mercê do rei, as rendas de Guimarães, Ponte de Lima, Valença, Vila Real, Chaves, Bragança, Atouguia. (IANTT, Chancelaria de D. João I, Liv. 1, f. 82, cit. por Frei Manuel dos Santos, ob. cit., Livro XXIII, cap. XLIV p. 783) Em Outubro do mesmo ano, Nuno Álvares Pereira recebeu, ainda, de D. João I, o Condado de Barcelos, que pertencera ao tio da Rainha, D. João Afonso Telo. “|…| da nossa liure von- | tade e certa sciencia e poder absoluto ho fa- | zemos conde de barcellos e seu termo com | todos seus dereitos e jurdiçom mero e misto | império |…| e que ele | ou outro seu representante| tome e possa tomar a posse e senhorio da dicta uilla de barcellos e de seu termo |…|”. IANTT, Chancelaria de D. João I, Liv. 1, f. 76, Porto, 08/10/1385. De todas estas doações e mercês, concluímos que o Condestável do reino recebeu um vasto património, onde uma grande parte dessas vilas e lugares provinham das terras outorgadas a Leonor Teles, na carta de “arras”, de 1372. Saliente-se, porém, a ressalva que fez D. João I de garantir para a Coroa o direito de exercer nas terras do Condestável, a apelação e a correição, situação esta que D. Fernando não exigiu na dita carta de “arras” da Rainha.
478 Crónica do Condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira, caps. II, XVI, XVIII, pp. 6-7, 51-52. Frei Manoel dos Santos, ob. cit., Livro XXIII, cap. XI, PP. 765-766.
479 César Olivera Serrano, ob. cit., p. 256, nota 78.
480 Esta doação foi feita, conjuntamente, por Fernando e Leonor, em Valada, a 07.06.1373 (IANTT,
Chancelaria de D. Fernando, Liv. 1, fs. 124-124vº). Ver “Apêndice”: “Tabela de Pessoas e Instituições”. 481 Ver “Apêndice”: “Tabela de Pessoas e Instituições”.
482 César Olivera Serrano, ob. cit., pp. 256-259. 483 Rita Costa Gomes, D. Fernando, p. 29.
defunto, que era o mais prestigiado do reino484. Fez parte do conselho deste rei, assim como fará parte do do seu filho, D. Fernando. Este dar-lhe-á o título de Conde de Ourém e dezanove doações485, sendo tido como um dos seus principais conselheiros. Por outro lado, João Afonso Telo é tio paterno da mulher de D. Fernando, a Rainha D. Leonor Teles. Casou com Guiomar Lopes Pacheco e teve descendência, que foi protegida pelo casal real, Fernando e Leonor, com casamentos e mercês486. Os seus sobrinhos, Leonor Teles e irmãos, foram educados na sua casa, depois da morte do seu pai, Martim Afonso Telo, em Toro, no ano de 1356487. Foi embaixador de D. Fernando, no tratado que faz com Aragão contra Castela, e o responsável – conforme Fernão Lopes e o Livro da Noa dão a entender – de não se ter concretizado o enlace com a Infanta de Aragão, como previa o dito tratado, por querer, antes, casar o rei com a sua sobrinha, Leonor Teles488. Participou, igualmente, nas negociações que prepararam o Tratado de Alcoutim, entre Portugal e Castela, no ano de 1371.489
Gonçalo Vasques de Azevedo é segundo co-irmão da Rainha, pois a mãe desta,
Aldonça de Vasconcelos era prima co-irmã de Teresa Vasques de Gonçalo Vasques de Azevedo, filha de Vasco Gomes de Azevedo, irmão de Gonçalo Gomes de Azevedo, alferes do rei D. Afonso. Segundo Fernão Lopes, ele é senhor da Lourinhã e foi nomeado marechal por D. Fernando, em 1382490. Para dissipar a fama de ter sido a
Rainha a causadora das prisões de Gonçalo Vasques de Azevedo e do Mestre de Avis e desfazer os boatos sobre a pretensa relação dela com Juan Fernández de Andeiro, Leonor Teles fará casar uma filha deste, Sancha Andeiro, com um filho de Gonçalo Vasques de Azevedo, Álvaro Gonçalves.491 Outra filha de Gonçalo Vasques de Azevedo será casada, “pela Rainha”, com Gonçalo Vasques Coutinho.492 Da
484 Rita Costa Gomes, D. Fernando, p. 29; D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa
Real Portuguesa, Provas, Tomo I, Livro II, Coimbra: Atlântida – Livraria Editora, MCMXLVI, p. 401. 485 Contámos 19 doações na Chancelaria deste rei. Curiosamente, a maior parte foi dada antes do casamento real, em Maio de 1372. Consultar, por favor, o “Apêndice”, “Tabela de Pessoas e Instituições”. 486 Segundo Fernão Lopes, Leonor Teles fez Condes de Barcelos e de Viana, os seus primos, Afonso Telo e João Afonso Telo, respectivamente. Este último recebeu, pelo menos 4 doações do rei D. Fernando e casou com uma filha de João Rodrigues Portocarrero. A irmã destes Condes, Leonor de Meneses, casou com Pedro de Castro, filho de Álvaro Peres de Castro. (Fernão Lopes, D. Fernando, cap. LXV, p. 228; cap. LVII, p. 197; “Apêndice”: “Tabela de Pessoas e Instituições” e Tabelas Genealógicas dos Teles de Meneses e dos Castos).
487 Manuel Marques Duarte, Leonor Teles, Ensaio Biográfico, 1ª ed., Porto: Campo das Letras Editores, Porto: 2002.
488 Fernão Lopes, D. Fernando, cap. XLVII. Livro da Noa, Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, fs. 25vº- 26, ementa CXXXVII.
489 Peter Russel, A Intervenção Inglesa na Península Ibérica…, p. 190.
490 Fernão Lopes, D. Fernando, caps.: CXXXIX, p. 489; CXII, p. 405; CL, p. 524 491 Fernão Lopes, D. Fernando, cap. CL, p. 523.
Chancelaria de D. Fernando, recolhemos oito mercês e uma confirmação de doação, feitas pelo rei, pela Rainha ou, em conjunto, pelos dois, a este vassalo.493 Seguirá a Rainha na regência e morrerá (tal como o seu filho, Álvaro Gonçalves), em Aljubarrota, lutando do lado de Castela.494
No terceiro tratado, o representante de Portugal é Juan Fernández Andeiro. Este sendo galego de nascimento, torna-se partidário do Rei de Castela, Pedro I e exila- se em Inglaterra, depois do assassinato do monarca, pelo seu irmão bastardo, Enrique de Trastámara, futuro Enrique II. Em 1369, quando D. Fernando invade a Galiza, Juan Fernández de Andeiro procura-o, “dizendo alta voz antre os outros todos: «Hu vem aqui meu senhor el-rrei dom Fernando?»” 495 Foi a partir deste momento que se iniciou a relação do galego com o monarca português. Exilado na Corte do duque de Lancaster, em Inglaterra, Juan Fernández de Andeiro496 será o embaixador inglês e português nas alianças militares contra Castela, que se estabelecerão, entre os dois reinos, no período de 1371-1382. Em 1380, Juan Fernández de Andeiro negoceia o casamento da Infanta D. Beatriz, filha dos reis de Portugal, com Edward, filho do Conde de Cambridge e neto do rei inglês, Edward III, ao abrigo do acordo firmado por ele e por D. Fernando, secretamente, em Estremoz497, a 15 de Julho desse ano. No ano seguinte, Juan Fernández de Andeiro comanda uma parte da armada do Conde de Cambridge que chega a Portugal, a dezanove de Julho de 1381. Peter Russel refere que ele não voltará para Inglaterra com o Conde de Cambridge, tendo terminado, nesse ano, a relação que tinha com Inglaterra.498 Provavelmente, por ter recebido, por parte dos reis de Portugal, honras e mercês, como a do título de Conde de Ourém, que recebeu, “per aazo da rainha”, depois da morte do tio dela, João Afonso Telo, ocorrida em Dezembro de 1381499. Sabemos, também que Juan Fernández de Andeiro era casado com D. Mayor, “molher de proll e de boom corpo”, de quem teve quatro filhas e um filho. Segundo Fernão Lopes, a Rainha mandou-a vir para Portugal e cumulou-a de jóias e outras
493 Consultar, por favor, o “Apêndice”, “Tabela de Pessoas e Instituições”. 494 Frei Manoel dos Santos, ob. cit., Livro XXIII, cap. XI, pp. 765-766. 495 Fernão Lopes, D. Fernando, cap. XXX, p. 103.
496 Peter Russel, “João Fernandes Andeiro, at the Court of John of Lancaster, 1371-1381”, Separata da
Revista da Universidade de Coimbra, Vol. XIV, Coimbra: Imprensa Académica, 1938. 497 Fernão Lopes, D. Fernando, cap. CXV, p. 418.
498 Peter Russel, “João Fernandes Andeiro, at the Court of John of Lancaster, 1371-1381”, p. 15.
499 Fernão Lopes, D. Fernando, cap. CXXXIV, p. 471. “Confortavelmente instalado como amante da Rainha e gozando em Portugal de títulos e bens de monta e de considerável influência, João Fernandes Andeiro deixara de ter qualquer interesse tanto na causa do legitimismo castelhano quanto na continuação da guerra contra Castela.” Peter Russel, A Intervenção Inglesa na Península ibérica…, p. 354.
riquezas, para que cessassem os rumores sobre a relação adúltera dela com Juan Fernández de Andeiro.500
Em face do exposto, podemos constatar que:
- todos os embaixadores portugueses eram pessoas próximas e protegidas dos reis de Portugal, Fernando e Leonor;
- todos os citados seguiram a Regente e o partido de Castela, na crise política de 1383/85. Alguns dos seus descendentes vivem, depois no exílio de Castela, recebendo mercês dos respectivos reis e ficando próximo de Beatriz de Portugal, Rainha de Castela;
- todos os citados têm experiência diplomática e estreitos laços a Castela, quer de sangue (Henrique Manuel de Vilhena, Juan Fernández de Andeiro), quer de parentela (Gonçalo Vasques de Azevedo), quer de profissão (Pedro Tenório e descendente de Aires Gomes da Silva);
Se no primeiro tratado, a escolha recai sobre homens da confiança directa do rei – o bispo Pedro Tenório; o seu antigo aio, Aires Gomes da Silva; o Prior do Hospital e um dos seus principais conselheiros, frei Álvaro Gonçalves Pereira; o seu tio materno, Henrique Manuel de Vilhena –, no segundo e no terceiro acordos, a opção é feita sobre os familiares e protegidos da Rainha: os tios dela João Afonso Telo e Gonçalo Vasques de Azevedo (1380) e o valido, Juan Fernández de Andeiro (1382 e 1383). A doença prolongada de D. Fernando é provável que tenha inquietado a Rainha, relativamente ao seu futuro como governante; o protagonismo político de Leonor, na diplomacia externa, terá, porventura, crescido, nos últimos anos de vida do marido, certamente devido à debilidade acentuada do monarca, situação que pode justificar que as escolhas dos procuradores portugueses, em 1380 e 1382/83, tenham tido a sua chancela.
Contudo, convirá salientar que os tios da Rainha serão substituídos por Henrique Manuel de Vilhena, a dezasseis de Junho de 1380, por razões que se prendem com outros afazeres, que os dois têm em mãos. Não cremos que esta alteração tenha uma leitura que ofereça alguma desconfiança face aos procuradores que foram substituídos, pois não houve modificações acrescidas ao que já estava combinado, na medida em que o respectivo tratado fora assinado no mês anterior. Henrique Manuel de Vilhena é, sobretudo, nomeado para receber as juras e menagens de Castela e tratar da
remissão de penas provenientes do desquite de Beatriz com o duque de Benavente.501 Notamos, sim, que a nomeação de Henrique Manuel confirma a confiança e o controlo que D. Fernando tem nele e na negociação que se está a operar.
Por fim, ao contrário dos tratados anteriores que conheceram, sempre, mais do que um embaixador, o acordo de 1383, apenas, apresenta um: Juan Fernández
Andeiro. Trata-se de um diplomata experiente e apoiante do rei Pedro I de Castela e
depois de D. Fernando de Portugal; é escolhido, por este último, para mediar os acordos que faz com os filhos do rei de Inglaterra, o duque de Lancaster e o seu irmão, o Conde de Cambridge, contra os Trastámaras. Em 1380, quando vem, secretamente, a Portugal, à vila de Estremoz, Fernão Lopes menciona que se inicia entre ele e a Rainha de Portugal um romance.502 Não sabemos se é verdade o que o cronista afirma, dado ser o único escritor, de então, a fazê-lo.503 Consideramos, no entanto, que Juan Fernández de Andeiro agradava tanto a Fernando como a Leonor. Ao primeiro, porque confiou nele para estabelecer as diversas alianças com os ingleses. À segunda, porque, quando se torna Regente do reino, Leonor vai mantê-lo perto dela, ao lado de outros seus protegidos como o seu irmão, João Afonso Telo, e Álvaro Peres de Castro (Conde de Arraiolos, pai de Pedro de Castro casado com a prima da Rainha, Leonor de Meneses).504 Sublinhamos, no entanto, que nos tratados de Pinto e de Salvaterra, Juan
Fernández de Andeiro é o único representante da Coroa de Portugal. A primeira procuração que lhe foi passada conta com a presença de algumas testemunhas próximas do rei, como o chanceler da puridade, João Gonçalves Teixeira. A segunda não refere nenhuma testemunha, como já anotámos. O poder e a liberdade de actuação conferidos parecem ser absolutos, na medida em que não há o contraditório de outro embaixador. Pensamos, pois, que a escolha de Juan Fernández de Andeiro foi consensual entre Fernando e Leonor. Se é verdade que o monarca sofria de uma maleita que o consumia
501 “Trauto de casamento |…|com o Ifamte dom amrrique |…|E a Ifante dona briatiz |…|”, in Salvador Dias Arnaut, A Crise Nacional…, pp. 320-323.
502 Fernão Lopes, D. Fernando, cap. CXV, pp. 418-419.
503 Nem as crónicas de Pero Lopez de Ayala, nem a Crónica do Condestável referem o que quer que seja