O segundo momento de consonância das notícias ocorre quando o ministro da Saúde visita o Polo de Camaçari. Trata-se de um reconhecimento oficial do problema que deixa, nesse momento, de ser visto como um alarde infundado do setor trabalhista, para ocupar a atenção e preocupar o governo federal. Esse fato acelera a progressão da curva de notícias, a partir de 01/11/90, quando os quatro jornais o noticiam, revelando os ecos na
mídia da repercussão dos acontecimentos locais no âmbito do governo federal. Nessa ocasião, o ministro expõe ao público, através da TB, o despreparo dos órgãos públicos para enfrentar o problema, destacando como pontos críticos a imprecisão dos exames, a defasagem da legislação e a falta de recursos desses órgãos públicos (TB, 01/11/90). Durante a visita, o Ministro da Saúde, acompanhado do Secretário do Meio Ambiente e do Secretário da Ciência e Tecnologia, inspeciona as instalações do Polo e reúne, na DRT, a direção da empresa
Nitrocarbono, o Centro de Recursos Ambientais - CRA e o Serviço de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde do Estado (SVS/SESAB) (AT, TB, JB, 01/11/90).
Nessa oportunidade, enquanto é divulgada a notificação expedida pela DRT, determinando que o
tratamento dos 22 trabalhadores corra às custas da empresa, o Sindiquímica denuncia que o descaso com a vida dos trabalhadores no Polo é um fato corriqueiro na empresa em pauta. A exemplo, cita que um empregado, fora obrigado a entrar em um tanque contaminado pelo benzeno para lavá-lo, mesmo nesse contexto em que se difundia no Polo a informação acerca dos riscos desse tipo de atividade. A DRT dá então um prazo de 10 dias para que a empresa apresente os exames dos demais empregados e da avaliação ambiental, quando definiria sua posição e decide que inspecionaria o total de seis empresas, que integram o ciclo do benzeno (JB, 01/11/90).
O Ministro da Saúde define, na mesma reunião, as medidas de controle para o caso, tais como o controle laboratorial de todos os trabalhadores do COPEC, inclusive das empreiteiras; a instalação imediata de monitoramento eficaz; a cobrança de multas pesadas para a empresa que transgredisse as normas de controle ambiental; e a mudança na legislação que rege o meio ambiente e a saúde de operários. Algumas dessas medidas já constavam do plano emergencial de saneamento ambiental do complexo, ainda não vigorando, enquanto outras são gestadas na própria reunião. Esta, fechada ao acesso da imprensa, alcança um consenso com a intervenção do Ministro da Saúde (TB, 01/11/90).
Desse modo, os jornais constróem, em conjunto, a imagem de um governo federal capaz e regular os conflitos entre trabalhadores e empregadores e apontar soluções concretas e negociadas para o problema, apoiando o governo estadual. Destacadas as deficiências dos serviços de saúde do estado da Bahia para enfrentar a epidemia de benzenismo, o Governo Federal promete, na notícia “Governo buscará o
monitoramento” (02/11/90), enviar verbas à SESAB para implantar o monitoramento ambiental, não
Vale lembrar que no âmbito do governo federal dominam, na ocasião, as forças do neo-liberalismo emergente, enquanto que no nível estadual aglutinara-se um governo de perfil mais progressista, que alinhava forças de centro esquerda. Uma aliança que se orienta também para a mudança da legislação em vigor, esta criticada pelo Ministro da Saúde na matéria “Nova legislação vai ser decisiva”, constatando que sua alteração seria um processo demorado, mas que havia empenho das duas esferas do governo para livrar os empregados do Polo do risco de vida (TB, 01/11/90).
O tema da fragilidade dos serviços de saúde, ao tempo em que cercara o problema, deslocara a atenção das questões ambientais ao interior da empresa. Assim, o movimento sindical avalia e critica não só as empresas do Polo, como também a fragilidade institucional dos órgãos governamentais orientados para o controle da segurança e saúde, passando estes também a ser alvos da crítica desse setor. A cobertura jornalística prossegue então em torno da questão diagnóstica e da fragilidade institucional para enfrentar a caracterização do problema. A TB afirma na matéria (01/11/90), em box, que o “Exame de intoxicação é
impreciso na Bahia”, onde não há know-how para realizá-los de modos "precisos na busca de indivíduos
afetados pela potencial exposição a agentes tóxicos no Pólo". Essa conclusão fundamenta-se na afirmativa de um hematologista que, cautelosamente, segundo o jornal, diz que há evidências hematológicas da existência de problema ambiental no COPEC, respaldadas pelo acompanhamento de casos de trabalhadores suspeitos da Nitrocarbono. Destaca, contudo, a complexidade da constatação da contaminação do ar, já que os métodos são desenvolvidos para diagnosticar substâncias isoladas e não o coquetel de gases existente no ar do Polo. De tal modo ambígua, a avaliação do médico hematologista, de fato, pouco contribui para se chegar a uma conclusão esperada pelo público leitor.
Nesse aspecto, a reunião com o ministro da Saúde é mais decisiva e a posição que este adota repercute na mídia, de modo que três dos jornais cobrem o assunto, nesse mesmo dia. O JB diz que o ministro da Saúde declara guerra ao Polo e revela o programa de combate à poluição (JB, 02/11/90). Mas, o maior destaque para esse tema é dado pelo jornal AT que publica em página inteira no caderno Geral, com fotos, uma matéria composta por seis textos que revelam a existência de conflitos, o crescimento dos casos e as dificuldades para tratar do tema (AT, 02/11/90; JB, 02/11/90). Essas matérias afirmam que o problema vai além da Nitrocarbono, que há outros casos de morte de operários por acidentes e doenças do trabalho e que, na reunião, foram aprovadas medidas em consenso, com atribuições definidas para a empresa e as várias instituições participantes. O CB também passa a dar destaque à vinda do ministro, ressaltando o rigor das investigações propostas pelo mesmo (CB, 02/11/90). Contudo, enfatiza também a visão
da empresa, em uma matéria em subtítulo, no mesmo dia, em que esta nega a contaminação e a relação causal entre os casos de leucopenia e o benzeno. Nesse momento, o jornal parece se alinhar à perspectiva das empresas, na medida em que passa a silenciar acerca das denúncias de novos casos de leucopenia que são descobertos no COPEC.
Nos dias seguintes, somente o jornal AT fala sobre o assunto, destacando a possibilidade de intervenção da Nitrocarbono. Publica então duas matérias. Em uma delas informa da decisão do delegado em levar o caso ao Ministro do Trabalho e ao INSS, sugerindo a decisão conjunta entre o Ministério do Trabalho e o Ministério da Saúde. Segundo a matéria, a DRT propõe que a empresa faça uma parada técnica para avaliar os equipamentos da unidade de produção. Porém, esta não aceita, alegando ser esta medida desnecessária, uma vez que trabalha com absoluta segurança. Contudo, a DRT insiste, uma vez que os exames dos trabalhadores sugerem a contaminação ambiental, devido ao grau de contaminação dos operários, obtendo como resposta, a manifestação de dúvida pela empresa, quanto à capacidade técnica do laboratório que realizara os exames. Nesse momento, já se revela nesse jornal a tendência a sustentar a posição da empresa (AT, 03/11/90).
De fato, numa segunda matéria nesse mesmo dia, o jornal AT se posiciona claramente, publicando “Guerra contra o Pólo”, em que comenta a rapidez com que o governo federal agiu na apuração das mortes "supostamente" decorrentes da intoxicação pelo benzeno no Polo. Na opinião do jornal, por trás da acusação contra a Nitrocarbono, que nega que os casos sejam decorrentes de intoxicação, estão interesses de grupos concorrentes do sul do país, contrários à industrialização do Nordeste e da Bahia, grupos estes, ressalta o jornal, que fizeram de Cubatão o centro industrial mais poluído do mundo.
Nesse editorial, o jornal apoia as medidas do governo, considerando sonhadores infantis os ecologistas baianos que ficam contra o progresso, e admite que a poluição pode ser controlada. Destaca ainda que a 'guerra' que se pretende contra a empresa de Camaçari tem aspecto social negativo, pois trata-se de fechar a indústria, gerando o desemprego. Considera ponderada a solicitação do Ministro da Saúde para que a imprensa não acuse um único responsável pelos possíveis casos de contaminação, "ainda carentes de
fato, decorrentes da exposição ao benzeno, devido à falta de equipamentos na Bahia para confirmar tais suspeitas. Conclui, afirmando que não se acaba com a poluição fechando fábricas, mas melhorando as condições de trabalho.
Desse modo, o jornal indiretamente alinha o Sindiquímica a interesses capitalistas de fora do estado da Bahia, contrários aos próprios interesses dos trabalhadores, posto que sua luta por saúde abre a possibilidade do desemprego.
Dois dias depois, o jornal AT publica a repercussão dessa posição sobre o Sindiquímica que responde afirmando querer um Polo cada vez mais vigoroso e produtivo, reconhecendo sua importância para a economia baiana, porém, ressalta que o respeito à vida é mais importante que os interesses econômicos do Polo. Destaca que a luta do sindicato por um controle ambiental eficiente já dura dez anos e o número de mortes, mutilações e acidentes, que são evitáveis, poderia crescer muito. Ressalta ainda que não bastam promessas e RIMA (Relatórios e Impacto Ambiental), "mas é preciso solução" (AT, 04/11/90).
Nessa linha de pensamento, o jornal AT publica uma matéria na qual afirma que os trabalhadores se sentem tensos e amedrontados devido à dupla ameaça, da doença e do desemprego. Uma verdade incontestável para quem vivencia a ameaça à saúde e à vida no cotidiano dos trabalhadores do COPEC (AT, 04/11/90).
Mantendo o assunto nas suas páginas, os jornais AT e TB fazem uma retrospectiva dos acontecimentos em 05/11/90 e, nos dias seguintes (06 e 07/11/90), todos os jornais noticiam, em consonância, o parecer da DRT, favorável à interdição da empresa, uma vez concluído o estudo da DRT na Nitrocarbono.
Nesses dias, o jornal TB focaliza a ação da DRT, enquanto o jornal AT destaca a ação do CESAT/SESAB. O primeiro fala da possibilidade de interdição da empresa, informando que o Sindiquímica se opõe, temendo que essa medida “abafe” os casos dos trabalhadores prejudicados pela exposição ao benzeno e que dificulte a comprovação da contaminação. O referido sindicato propõe, então, a agilização das medidas anunciadas, mantendo-se disposto a responsabilizar as empresas, civil e criminalmente, pelos casos de acidentes, doenças, atrofia e morte.
O jornal AT, por sua vez, dá cobertura ao início dos exames clínicos e epidemiológicos, através do CESAT (AT, 06/11/90). Nessa matéria, informa também da intenção do Sindiquímica de mover ação contra as empresas. Além disso, destaca que a DRT mantém o intuito de intervir na Nitrocarbono, o que ganha destaque também nas páginas de outros jornais, em 07/11/90.
Abre-se, nesse momento, um diálogo entre os atores acerca dessa decisão, quando os jornais CB, AT e TB se manifestam. O primeiro, especialmente, dá grande destaque ao fato, com matéria de centro de página (CB, 07/11/90), em que destaca que, pela primeira vez na Bahia, uma empresa de grande porte está ameaçada de interdição, uma vez que o parecer final da Divisão de Segurança e Medicina do Trabalho da DRT prevê a desativação imediata da unidade operadora de benzeno da Nitrocarbono, no relatório apresentado ao INSS do Ministério do Trabalho. As fotos dão conta, no referido relatório, do “estado lastimável dos equipamentos – principal fator gerador do vazamento que
causou a morte de dois funcionários da empresa” (Idem). As negociações com a empresa
prosseguem, cogitando-se uma parada espontânea para manutenção, a qual é recusada pelos empresários que só se dispõem a desativar a unidade de benzeno em janeiro. O diretor do Sindiquímica comenta a postura da empresa, que contesta os resultados dos exames, dizendo que ”eles duvidam da credibilidade do laboratório que escolheram e
pagaram” (Idem).
O jornal CB articula a essas notícias a fala do diretor da Divisão de Segurança e Medicina do Trabalho - DSMT/DRT, segundo o qual a contaminação já era esperada, transcorridos dez anos de existência do Polo, pois já havia acontecido em todos os países industrializados do mundo, sem que houvesse preocupação prévia com isso. Esperava-se, segundo o mesmo, que somente em 1992, com a duplicação do Polo de Camaçari, fosse instalado um equipamento de monitoramento ambiental contínuo, que registraria a quantidade de substâncias tóxicas no ar, em tempo integral. Desse modo, esse jornal, embora não conteste ele mesmo a situação de contaminação ambiental, oferece ao público uma demonstração de força da empresa que contesta os resultados dos exames e recusa a parada da empresa para manutenção, subordinando a solução do problema aos seus planos de ampliação.
Frente à posição governamental de interdição, o Sindiquímica, segundo o CB (07/11/90), manifesta-se favorável, desde que fosse garantido o pagamento do pessoal nos dias de desativação. O CB publica cópia do parecer da DRT (CB, 07/11/90), com carta assinada pelo médico diretor do DSMT/DRT, recomendando ao Delegado Regional do Trabalho a interdição da empresa. Nesse mesmo dia, o CB divulga a reação do
Sindiquímica que apoia a interdição. Na mesma página, uma outra matéria fala da greve dos trabalhadores dessa empresa, revelando um contexto carregado de conflitos no Polo Petroquímico de Camaçari, em que os operários reivindicam a reposição salarial e a garantia de emprego. Esse assunto é oferecido ao leitor visualmente associado ao problema da epidemia de benzenismo, na coluna lateral esquerda, ao lado de uma foto do diretor do DSMT/DRT, que ocupa o centro da página.
O jornal AT, por sua vez, aborda o tema da interdição, mostrando a "recomendação" da DRT de interditar a unidade de benzeno da empresa fundamentada em dispositivos legais e no documento de 101 páginas, que relata todas as ações da DRT sobre o caso, "com
embasamentos científicos" (AT, 07/11/90). Em uma nota diz que, de 261 trabalhadores
atendidos no Sindiquímica, 83 estão com doença ocupacional confirmada e 170 tinham sido demitidos. O Sindiquímica tinha conhecimento de 10 óbitos, sendo 8 em trabalhadores das empreiteiras e 2 funcionários da Nitrocarbono (Idem).
Ainda nesse mesmo dia, a TB ressalta que o parecer havia sido enviado da delegacia ao ministro do Trabalho, pois a posição do delegado era de não tomar atitudes isoladas,
"evitando sensacionalismo e arbitrariedade" (07/11/90). O fechamento da empresa é,
para o Sindiquímica e o CESAT, motivo de temor de que houvessem demissões.
As preocupações do CESAT tornaram-se notícia no jornal TB que, na matéria de 07/11/90, explicita as limitações dos órgãos públicos para realizar os exames de 40 mil empregados do Polo. Ao mesmo tempo, um médico desse órgão contraria a afirmação da própria SESAB de que esses exames seriam feitos, afirmando não se dispor de pessoal nem de equipamentos suficientes para isso, o que obrigaria o recurso ao uso de técnicas de amostragem para constatar o grau de contaminação dos trabalhadores.
No dia seguinte, a possibilidade de intervenção da DRT na Nitrocarbono continua repercutindo na mídia, quando o JB afirma que a intenção do ministro é de acatar o parecer da DRT (JB, 08/11/90).
Da observação do relato desses acontecimentos, revela-se a ambigüidade com que as forças sociais envolvidas trataram o problema da epidemia de benzenismo no COPEC. Uma ambigüidade que advém dos conflitos de interesses dos diferentes agentes, com distintos níveis de responsabilidade social sobre o problema, movidos para a preservação
de sua imagem pública diante de um fato que está a revelar a debilidade de suas ações frente à saúde e a vida dos trabalhadores.