PARTIE II – PRESENTATION GENERALE DE SOFAC
II. Capital social
Convém lembrar aqui também que para melhor compreensão divide-se o poema em três partes: a primeira consta da introdução, apresentando o tema e as teses sobre as quais a narrativa vai discorrer. A segunda é o desenvolvimento da história em si. A terceira é apreensão de sentidos e seus desdobramentos, feita à medida que é percorrido o enredo. Isso para dizer que forma de análise aqui não é linear. Procura-se, no entanto, interligar a totalidade da obra, acompanhando a sequência da narrativa.
A composição A menina e a cajazeira trata essencialmente do mesmo tema assinalado em Filosofia de um trovador sertanejo: o pecado original e suas consequências.293 Porém a forma narrativa é mais autêntica, isto é, o narrador toma a ideia geral do mito como “pano de fundo” e transforma em outra história, construindo seu próprio quadro sem a necessidade de a todo instante fazer intertextualidade explícita da narrativa bíblica. Em linhas gerais o poema faz uma leitura mais existencial, com tons intimistas a respeito da vida. Há como que, a busca de um elo originário perdido. Haveria um destino trágico traçado para a humanidade e a natureza em geral. Toda a tragicidade de existir, portanto, se explicaria no evento primordial do pecado de Adão e Eva. A narrativa transmite certa sensação de angústia e tragicidade: ninguém escaparia da sentença de dor herdada do primeiro casal:
Dêrne do primêro dia Que a Adão mais Eva pecou, A rosa criou espinho, Tudo se desmantelou.
293 Interessante frisar que tanto no poema Filosofia de um trovador sertanejo como no A menina e a cajazeira há
o desejo expresso de reintegração do Paraíso. Numa leitura na perspectiva de Eliade, isso se traduziria no arquétipo da “reintegração do Paraíso”. Trata-se do paradoxo da História Sagrada situada num tempo histórico. A esse respeito o autor sustenta: “Tanto entre os primitivos como entre os cristãos, é sempre um retorno paradoxal in illud tempus, num ‘salto para trás’ abolindo o tempo e a história, que constitui a reintegração mística do Paraíso.” (ELIADE, Imagens e Símbolos, p. 168).
E Deus, vendo que a desgraça De Adão, o chefe da raça, Percisava sê comum, Depressa sentenciou, E uma parcela de dô Reservou pra cada um. Inté mesmo as arve do campo, Que não ofende a ninguém, Herdou daquela miséra, Tem suas máguas tombém. (...)
Tudo quanto a terra cria Tem de passá sofrimento, Tem seus momento de gôzo E seus ano de tromento. (...)
O poeta começa em tom solene e com frases de efeito, chamando a atenção do interlocutor para o problema do sofrimento humano: a raiz de tudo está no mito do pecado. Para provar sua tese, ele conta “a triste e penosa histora da menina e a cajazêra”. Na visão do poeta, a menina e a árvore sertaneja, a cajazeira, são representativas da existência humana e da totalidade da criação: ambas são fadadas a um destino doloroso. Mas nem tudo é dor, como ele mesmo ressalta, há também momentos de gozo. E é justamente sobre isso a descrição da primeira parte do poema:
Num sito munto distante, Na bêra de uma lagoa, Morava um casá fié Uma gente munto boa. Tinha uma linda criança, Risonha cumo a esperança, Era linda e prazentêra. E brincava todo dia Na sombra fresca e sadia De uma bela cajazêra.
Como quem narra um conto de fadas antigo, em que se começa sempre com um clássico “era uma vez”, o poeta faz o mesmo, dizendo “num sito munto distante”. Desse modo, ele marca o ponto de partida da história e convida o ouvinte a ficar atento ao que vai narrar. A cena de abertura apresenta o ambiente originário da menina e da cajazeira, evidenciando ser um espaço fértil. Uma possível interpretação pode ser assim descrita: a lagoa remete à água, e água é vida; o casal fiel é garantia de cuidado e de amor recíprocos, a sombra fresca e sadia da cajazeira é indício de que ali há plena harmonia entre homem e natureza. É nessa perspectiva de harmonia que o relato prossegue:
Bem de juntinho da casa A cajazêra nasceu, Linhêra, iguá uma frecha, No rumo do céu creceu.
(...)
Entonce a linda criança, Aquela boa menina, Era o prazê e era a paz Da cajazêra franzina. (...)
Aquela copa vistosa Pra inocente criança Era um céu, um paraíso Verde, da cô da esperança. As ave fazia festa,
Tinha graça a doce orquesta Daqueles musgo de pena, Com seus requebrado canto, Levando o riso e o encanto Daquela santa pequena.
A descrição dá sinal de um clima de harmonia, de alegria e de proximidade entre a menina e a cajazeira; são laços de verdadeira amizade. O poeta personifica a árvore, de modo que ela é apresentada como quem tem sentimentos humanos e experimenta da mesma harmonia que reina no ambiente. A árvore em seu pleno viço pode representar a força da vida: ela acolhe os pássaros em sua copa, dá abrigo a eles e em sua sombra a criança brinca feliz. A orquestra regida pela passarada manifesta a dimensão festiva vivida naquele lugar, em que tudo era riso, encanto, verdadeiro paraíso:
Se o vento vinha de longe, Todo amoroso, brincá, Encrespando na lagoa, As águas co de cristá, Na cajazêra chegando Era tão macio e brando Cumo quem faz a escôia De um amo e de um carinho, Soprando devagarinho Mode não derrubá fôia. Tudo quanto era bondade Paz, inocença e beleza, Vinha ali fazê morada E de toda essa riqueza A menina era a rainha, Dava a entendê que Deus tinha Pra o nosso mundo de increu, Em favo daquele sito, Mandado lá do infinito Um pedacinho do céu. Se em cima, na verde copa, A passarada cantava, Em baxo, na fresca sombra, A criancinha brincava. Aquela arve tão amiga, Caridosa, sem fadiga, De tudo era a potreção. Sua copa arredondada Vevia sempre enfoiada,
Que fosse inverno ou verão.
Toda a natureza experimenta a plena paz. A leveza do vento que encrespa nas águas limpas da lagoa e que bate nas folhas da cajazeira dá a sensação de que a vida ali é regida pelo respeito, pelo amor verdadeiro, sem fingimento ou maldade. Interessante notar que, em meio a toda essa beleza e ausência de qualquer conflito, a menina é a rainha. É como se tudo naquele sítio girasse em torno dela e para ela. A menina é como o elo entre a terra e o céu. A cajazeira, por sua vez, é também um ponto de ligação entre o terrestre e o celeste. Se na copa, lá em cima, acolhe e abriga os pássaros, na sombra, lá embaixo, cuida e protege a inocência e a pureza da menina. A árvore sempre verde é a manifestação da grandeza e do valor da vida, não importa a estação, ela está sempre viçosa. Mas, de repente, o paradoxo. Aquilo que parecia eterno tem um fim. Termina, portanto, a segunda parte da narrativa, desembocando na tragicidade:
Mas a nossa curta vida, Quando começa a sê bela, O vento da negra sorte Dá um sopro e desmantela. Se o sito era um paraíso De sossego, paz e riso, Se aquela doce união Foi grande felicidade, Maió foi a crueldade, E a dô da separação. A amiga da cajazêra, Tão nova, tão pequenina, Perdeu ali um tesoro, Pois a mão da triste sina Robou-lhe a felicidade E uma água de orfandade Dos óio dela caiu. Quem era tão prazentêra, Da querida cajazêra Chorando se despediu. Foi se embora saluçando Aquela criança boa, Dêxando luto e tristeza La na bêra da lagoa. E a cajazêra copada Vendo a sua camarada Da sombra se retirá Levando o pranto no rosto, De tanto sofrê desgosto Nunca mais botou cajá.
Aqui é o ponto desestabilizador da narrativa. Essa parte constitui o que se poderia chamar de divisor de águas do poema. Até então natureza e humanidade, representadas pela árvore e pela menina, conviviam em perfeita sintonia de sentimentos. O sítio, símbolo do
paraíso, torna-se um lugar de luto. As cores que antes realçavam a esperança, agora revelam o luto. A árvore viçosa e produtiva passa a ser estéril. Tudo isso resultado de uma separação, de uma quebra de laços construídos na base da confiança e do amor recíprocos. O porquê de tal separação e da despedida não está explícito na narrativa. Fica a lacuna para o interlocutor imaginar e tirar suas conclusões. É de notar que quem se despede é a menina. É ela quem perde um tesouro, é vítima da “triste sorte”. Que tesouro seria? Quem lhe roubou a felicidade? Que elo foi quebrado? Tudo parece convergir para o mito bíblico do pecado e, por consequência, a perda do paraíso. Na sequência do poema, o poeta expõe os efeitos da ausência da menina na vida da árvore:
Sentindo a sombra vazia, Aquela pobre infeliz Foi ficando deferente, Acabrunhando as raiz, E com a macha dos ano E o choque dos desengano Que o mau destino lhe deu, A cajazêra franzina, Com sodade da menina Muchou a copa e morreu. Quem tinha lhe conhecido Na doce felicidade,
Vendo o seu grande abandono Chorava de piedade,
Pois aquela cajazêra, Bonita, alegre e linhêra, Tava um pau véio, cacundo, De gaio tingido e preto Parecendo um esqueleto Chorando as dô deste mundo. No gáio, onde os passarinho Gorgeava de menhã, Ficou cantando somente A feia e triste coã. E de noite o vento afoito, Roncando e lhe dando açoito, Formava uma entoação De causá medonho espanto, Acompanhada do canto Do agorento corujão. (...)
A figura da árvore seria a personificação da existência humana? É uma interpretação possível. Antes da despedida, isto é, antes do pecado, não havia qualquer indício de dor, de desengano, de saudade, de morte. Agora, sim, a morte é uma realidade. E por causa dela, o sítio acaba tomando ares de medo, de violência, de dependência. O paralelo entre o antes e o depois é evidente: antes da separação a árvore era bonita, alegre, linheira. Depois, torna-se um pau velho, corcunda, preto, esquelético, triste. Além disso, se antes os pássaros faziam festa
em sua bela copa, agora só há a presença de aves que anunciam maus presságios e espalham ameaça e susto. O vento não é mais delicado, é afoito, seus roncos causam espanto. Ou seja, tudo em volta contribui para o fracasso e o definhamento da vida. Ao que o poeta conclui:
Tudo sofre, tudo pena, A vida é pesada cruz, Ninguém se julgue feliz, Que aquilo que agora é luz Mais tarde pode sê treva. A curpa de Adão mais Eva Se espaiou na terra intêra. Tudo ali tornou-se em ruína, Com a farta da menina E a morte da cajazêra. (...)
O desfecho é trágico. O “tudo sofre” parece expressar justamente que a criação em sua totalidade está fadada a carregar “pesada cruz”. Assim, o eu-poético apresenta a existência, tanto a humana quanto da natureza em geral, em meio a uma tensão entre luzes e trevas. Quanto a esta tensão, na sequência do poema, e concluindo a narrativa, o poeta diz que a vida “tem seus momentos de gozo e anos de agonia”. Veja-se que há mais ênfase no tempo de agonia. A palavra “momentos”, que se refere ao gozo, diz respeito a algo que ocorre de maneira rápida, momentânea. Já em “anos de agonia” está explícita a ideia de tempo prolongado, que se estende quase infinitamente. Com isso o poeta parece querer concluir que, de fato, por causa da falta da menina e da morte da cajazeira, a vida está envolta no sofrimento. O poema termina sem nenhuma indicação de um futuro feliz, seja nesta vida, seja em outra. No último verso apenas sinaliza para a fugacidade da vida: “tudo nesse mundo passa”. E essa fugacidade parece ser mais negativa do que um sinal de esperança. A conclusão é de que há um mistério existencial que ultrapassa a capacidade humana de compreender.