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Appartenance de SOFAC à un Groupe

PARTIE III – ACTIVITE DE SOFAC

II. Appartenance de SOFAC à un Groupe

A composição O caçador junto à presença do mito, especialmente a figura da caipora, apresenta uma crítica social incisiva ao que se refere à questão do latifúndio. Problema esse escravizador do sertanejo. Mas, além disso, interessa observar um artefato sobrenatural que sai da boca do caçador e culmina com seu posicionamento crítico e consciente a respeito do sistema que o oprime: o caçador teme e respeita os sinais sobrenaturais, guiado por eles até evita fazer suas caçadas. Porém o problema da terra mal repartida se explica pelas artimanhas do homem.

A trama começa com a visita de um agente sanitário à casa de um caçador nos rincões do sertão. O objetivo da visita é conferir se a água consumida pela família está em condições de uso. Todo o poema é uma conversa curiosa: como em Filosofia de um trovador

sertanejo aqui também é o narrador-personagem que fala do começo ao fim, ficando

subentendidas as expressões do interlocutor. Entre uma expressão e outra é possível imaginar, e até notar certas reações do interlocutor. No entanto, a voz predominante é a do caçador.

A história pode ser dividida em três partes: na primeira é a acolhida do agente sanitário na humilde casa do caçador; na segunda, o narrador fala para o visitador de certa áurea sobrenatural que envolve a vida de caçador, com especial menção ao poder misterioso da caipora; na terceira aborda o motivo pelo qual o fez viver da caça, manifestando o problema do latifúndio. As estrofes e fragmentos seguintes procuram acompanhar a sequência narrativa.

Entre, mas tenha coidado, Que os meus cachorro é danado, Pode mordê meu patrão. Lá vem um se arrupiando, O bicho tá lhe estranhando: – Vai te aquietá, Tubarão!

É o Tubarão e o Gigante, Morreu o véio Elefante, Que inté de pena chorei (...)

Meu Elefante, coitado! Me deu munto ressurtado Na vida de caçado

(...)

São dois companhêro exato, (...)

O agente sanitário vem da parte oficial, é o Estado que o autoriza fazer as visitas e verificar se a água realmente é potável, se há o cuidado necessário para o seu consumo. É o “outro” que vem da cidade. O caçador, por sua vez, vive num mundo a parte, isolado. Mas a presença do fiscal demonstra que de algum modo ele está vinculado a essa outra instância da sociedade, o governo. Ainda que seja tão-somente para fiscalizar. Chegando à morada, o funcionário é convidado a entrar. Os dois cachorros que o estranham é a evidência de que ele é desconhecido, não tem laço nenhum com a família. O arrepio dos cães não deixa dúvida de que há a presença de inimigos, há estranhos invadindo o território. E ali, naquele território, eles obedecem apenas a uma voz: a voz de seu dono: “vai te aquetá Tubarão!”. Os versos sugerem imaginar uma habitação pobre, porém bem protegida. Os nomes dos cães, que são os seus guardiões, expressam isso: Tubarão, Gigante, Elefante. É provável que sejam vira-latas, mas seus nomes o revestem de imponência. Eles representam a proteção, a companhia e o meio pelo qual o caçador encontra o suporte para sustentar a família. Além disso, e principalmente, são amigos fiéis. O caçador inclusive expressa sentimentos humanos pela perda de um deles: chorou quando da morte do Elefante.

(...)

Com meus cachorros fié; Com eles nada me embaraça, Só não mato munta caça Quando a Caipora não qué.

Na companhia de seus cães o caçador enfrenta qualquer perigo, todavia, há uma entidade na mata que é mais poderosa que os cachorros: a caipora. Sem a sua permissão caçador algum tem sucesso. A presença do mito aqui insere um aspecto interessante da narrativa. Diz respeito à visão do mundo do caçador: por meio da figura fantástica da caipora ele fala ao homem da cidade não como quem conta um conto, mas trata do assunto de uma forma real, situando a existência desse ente e sua influência no seu modo de vida.

A Caipora é quem é dona Das caças, e nunca abandona, Pois as caças é sua rês. Sem ela querer, por certo O caçadô mais esperto Nunca resurtado fez.

O caçador agora se concentra em falar da caipora, o segundo assunto predominante da história. Ela não é somente defensora da natureza, é a proprietária de todas as caças do sertão. Como quem fala a um iniciante na matéria, ele exemplifica dizendo ao fiscal que a

caipora é como um fazendeiro e todas as caças da mata são suas reses. Portanto, para o caçador obter sucesso em suas caçadas depende exclusivamente da “vontade” da caipora. Ainda que o caçador tenha bons cachorros, isso não é garantia de êxito: ela é quem permite ou não o resultado satisfatório. Se ela não consentir, nem adianta ao homem enfrentá-la: sua força é indomável.

Pode crê, é certo e exato, Tou véio de vê nos mato Essas feia arrumação; Mas nunca fui assombrado, Inté já tenho caçado Na Chapada do Espigão. (...)

Mas esses espaiafato Que aparece por os matos Nunca, nunca me assustou; Pra isso eu sou munto forte, E só dêxo com a morte A vida de caçadô.

O caçador percebendo da parte do interlocutor qualquer expressão de descrédito, para provar a veracidade de seu tema recorre à própria experiência de vida, afirmando que já viu muito “dessas coisas”, e menciona um “ponto fixo”, um lugar concreto onde a manifestação da caipora e de outras assombrações se deu. Assim, a “chapada do espigão” representa a região misteriosa e assombrosa. E sendo ele um caçador de coragem, até mesmo lá fez suas caçadas, demonstrando que, embora considere e ateste o poder da caipora e de outras “arrumações”, isso não é motivo para deixar de caçar. Somente a morte o impedirá de seu ofício.

Mode sustentá a famia Caço de noite e de dia Sou obrigado a caçá Do sertão inté a serra É bem poça a minha terra, Não tenho onde trabaiá.

Aqui tem início a terceira parte da narrativa: ele revela o porquê de sua valentia e disposição para a caça. Na é por hobby ou por coisa parecida. É por necessidade e precisão. A luta pela sobrevivência exige uma lida pesada, é uma luta de noite e de dia, ou seja, é permanente. E esse fardo não foi imposição da caipora ou de outra entidade misteriosa: seu padecer teve origem na conduta de uma pessoa deste mundo, de carne, osso e ambição.

Eu perdi mais da metade Da curta propriedade Que herdei do meu avô: O coroné Macelino, Com seu istinto ferino

Sem quê nem pra quê, tomou (..)

Levei a minha escritura, Porém ninguém se importou, Pois onde fala o dinhêro, O resto fica no acêro, Carimbo não tem valô. (...)

Eu não fiquei satisfeito E fui, com munto respeito, Conversá com o coroné; Mas ele ficou zangado, Ficou me oiando de lado Com os óio de cascavé.

(...)

Eu não quis fazer desgraça, Vou vivendo só de caça, Não vou brigá com ninguém. Me conformo com a sina: Esta vida pequenina De quarqué forma tá bem.

É possível aqui perceber um paralelo entre dois poderes: antes o caçador falou da caipora como a dona das caças e sua força misteriosa, mas aquela força não era ofensiva. A senhora das caças não tomava nada de ninguém. Se, às vezes, revoltava-se, não era por outra coisa senão em defesa de suas criaturas. Agora o poder do coronel Marcelino é cruel. Ele toma, invade, sem necessidade, a sua já minúscula propriedade. Nem mesmo a escritura da terra que herdara do avô lhe garantiu a posse da terra: é o velho drama da justiça e da corrupção. Nesse caso o dinheiro teria pesado mais num dos pratos da balança da justiça. O coronel saiu vitorioso.

O caçador, no entanto, prossegue sua vã empreitada. Resolve enfrentar o coronel. Vai com muito respeito tentar resolver no diálogo um problema que para si é muito claro: a terra é sua. Só restava ao coronel admitir isso e deixá-lo em paz. Mas a reação do latifundiário foi de causar medo: o olhar de lado, como cobra cascavel pareceu muito mais assombroso para o caçador do que a manifestação da caipora em suas caçadas. Aquele olhar venenoso o caçador percebeu que poderia ser a origem de uma desgraça muito grande. Por isso, dando-se conta de sua impotência ante o poder do opressor, desiste. Não desiste por covardia, mas para evitar o pior. E num gesto de total desengano entrega sua condição ao destino, ou ao que ele chamou sina.

Quero tá mêrmo afastado Deste mundo desgraçado Cheio de guerra e questão; Eu aqui gozo bastante, De um lado vendo o Gigante, De ôto lado, o Tubarão.

O caçador conclui afirmando que é preferível viver afastado a se defrontar com um mundo incapaz de conviver pacificamente, respeitando a igualdade de direito de cada um. Para ele, estar ao lado de seus dois cachorros é mais agradável do que viver num mundo de desgraça e guerra, onde os grandes exploram os pequenos. Seus dois cachorros têm muito mais valor do que os homens que se digladiam entre si. Os homens que fazem do mundo uma arena pelo simples prazer de concentrar riqueza, nesse caso representada pela acumulação de terra. De modo que, ele prefere se submeter aos riscos em suas caçadas e aos mistérios da caipora à vida num mundo hostil e sem equidade. O latifúndio é violento. A caipora apenas protege e cuida de sua propriedade, mas não o impede de adquirir o sustento para a família.