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Ruskin foi reconhecidamente um dos críticos mais ferozes à Exposição Internacional de Londres de 1851. Dizia que faltava arte aos produtos

industriais. No entanto, a sua concepção de estética nunca se restringiu a melhoria da qualidade do desenho como parece ter sido a tônica da opinião pública da época143. Como já visto, a concepção de estética ruskiniana deriva de sua concepção de ética natural, o belo é resultado de uma relação obtida por uma política de ajuda mútua, ou mais precisamente, de sua concepção de

composição natural. Assim, o belo é a derivação de uma ética do trabalho com

base na cooperação entre os indivíduos, dissolvendo a separação entre quem pensa e quem faz.

Ruskin possuía uma visão idealizada da Idade Média, pois achava que a ética da ajuda mútua era então praticada, coisa que hoje criticamos.

A crítica ruskiniana à Exposição Londrina teve como retaguarda teórica a sua concepção de estética. Ele criticou a organização de trabalho fabril porque dividia a produção em etapas especializadas, tornando o trabalho um procedimento repetitivo e mecânico. Para Ruskin, esta foi a tônica do que chamou de produto sem estética.

143 Em re la ç ã o à s c o nse q üê nc ia s d a Exp o siç ã o Lo nd rina d e 1851, Rui Ba rb o sa d iz: “ O p a ís inte iro

e stre me c e u; ma s o p a ís e sta va sa lvo , c o mo to d o s o s p a íse s o nd e a c a p a c id a d e g o ve rna ; p o rq ue o s ho me ns d e e sta d o ing le se s tive ra m a fo rtuna d e p e rc e b e r a c a usa , sutil, o b sc ura , so la p a d a , ma s d e c isiva , d e sse d e sa stre . Sa b e is o q ue , na o p iniã o d o s ing le se s e d o mund o , d e rro ta ria a Ing la te rra ? Um na d a (a q ui, d e ste a lc a ntil d a no ssa sup e rio rid a d e , a q ui e ntre nó s o p o d e mo s d ize r) uma c a usa e stra va g a nte , frívo la , p ue ril, a o s o lho s d a g e nte p rá tic a e sá b ia c o mo nó s: o d e sle ixo d o e nsino d o d e se nho . O g o ve rno viu-o ; o g o ve rno c re u-o ; o g o ve rno p ro c la mo u-o ; o g o ve rno e sta b e le c e u q ue , p a ra a re a b ilita ç ã o d a p o te sta d e fe rid a d e Alb io n, só ha via um me io : uma re fo rma ra d ic a l d o e nsino d o d e se nho e m to d a s a s e sc o la s. E a li o s g o ve rno s nã o p ro me te m: a nunc ia m e e xe c uta m; a li nã o se a d ia a sa tisfa ç ã o d a s ne c e ssid a d e s p úb lic a s; nã o se la d e ia m a s q ue stõ e s; e nc a ra m-se , e stud a m-se , re so lve m-se virilme nte . É um p o vo ; nã o uma a rme ntio d e a lma s. Já no s fins d e 1851 se a p o nta va m a s me d id a s. No a no se g uinte la nç a ra m-se a s p rime ira s p e d ra s d o ime nso mo nume nto , d e q ue a e sc o la d e So uth Ke nsing to n, c o m o se u muse u, é o c e ntro , e q ue c o nso me à Ing la te rra so ma s e sp a nto sa s. Numa p a la vra , e sse e nsino , q ue a té 1852 nã o e xistia na q ue le p a ís, e m 1880 se ministra va , no s c urso s sup e rio re s d e sse instituto , a 824 a luno s, e m 151 e sc o la s d e d e se nho a 30.239 p e sso a s, e m 632 c la sse s e sp e c ia is a 26.646 d isc íp ulo s e , e m 4.758 e sc o la s p rimá ria s, a 768.661 c ria nç a s.” (Ba rb o sa , R. O d e se nho e a Arte Ind ustria l. Rio d e Ja ne iro : Ro d rig ue s & C ia . 1949, p .15, 16)

Por isso, a opinião ruskiniana não se resumiu a exigir um desenho bem feito, queria um outro tipo de relacionamento no trabalho. Para Ruskin não é a função do desenho agregar qualidade ao produto, essa função é atribuída à maneira como o produto é produzido. A sua concepção de estética foi mais bem detalhada em As Pedras de Veneza , obra que aprofundou a sua teoria da arquitetura, com base na supressão da diferença entre as artes liberais das mecânicas. Por isso, a estética ruskiniana fala de uma união do pensar com o fazer e foi assim que o movimento Arts and Crafts viabilizou a sua proposta de fábrica. Para eles, a produção deveria ser o resultado da própria atividade do ensino, isto é, ela pensa e repensa continuamente o desenho e os materiais utilizados na produção, entendendo a atividade do ensino como uma pesquisa interna ao sistema produtivo144.

A escola/fábrica seria uma cooperativa na qual os proprietários eram ao mesmo tempo os seus administradores, funcionários e estudantes. Portanto, os lucros e os prejuízos deveriam ser socializados entre os membros. Pretendia- se eliminar o que chamavam de sistema fantasma, no qual um obtém os créditos pelo trabalho do outro, e queriam eliminar também, qualquer tipo de intermediação entre a produção e o consumo, a venda seria feita ao

consumidor pela própria fábrica.

O Arts and Crafts, contrário ao entendimento da historiografia da arquitetura moderna, não era contra o uso da máquina, mas sim a

escravização do homem por esta. As máquinas teriam que ser adaptadas aos desejos de tempos e modificações do operador e não o contrário.

Por fim, o Arts and Crafts queria evitar o mal que assolava a sociedade industrial na época: o pavor de um levante socialista, como por exemplo, o ocorrido com a Comuna de Paris:

144 “ As a tivid a d e s d e p ro d uç ã o ta mb é m e ra m e d uc a c io na is, no s a no s d e 1888 e 1894. A

p rime ira sé rie d e p ro d uto s o c o rre u no só tã o d e um g a lp ã o na rua d o C o mé rc io e m Lo nd re s e a s p rime ira s a ula s o u c la sse s d e e stud o d o d e se nho o c o rre ra m junta me nte c o m o s e stud o s d a s o b ra s d e Ruskin. (...) A ind ustria vista so b o p o nto d e vista d e sua c o nc e p ç ã o o rig ina l e ra p a uta d a p e la uniã o d a p ro d uç ã o c o m o e nsino .” (Ashb e e , C . An e nd e a vo ur to wa rd s the te a c hing o f Jo hn Ruskin a nd Willia m Mo rris. Lo nd re s: E. Arno ld , 1972, p .1)

“Nos encontramos em uma encruzilhada tendo em uma das direções a revolução ou o

socialismo destrutivo e outra uma proposta construtiva de arte industrial britânica.”145

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Arts a nd C ra fts, Ashb e e

145 Ashb e e , C . R. An e nd e a vo ur to wa rd s the te a c hing o f Jo hn Ruskin a nd Willia m Mo rris. Lo nd re s: