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CHIMBOTE

Ainda que nosso foco principal seja olhar a cidade de Chimbote, não nos parece possível ignorar que diários foram entremeados aos relatos literários, formando-se, assim, uma rede de possibilidades de leituras, de camadas superpostas de significações. Sendo assim, nos possibilita lançar um novo enfoque sobre os diários, ainda que de maneira fortuita, ligeira, breve. No ano do centenário de nascimento de Arguedas, propomos uma pausa para pensar a questão da autobiografia, relacionada à sua obra póstuma publicada em 1971.

Sobre o autor de Agua (1935), Yawar Fiesta (1941) e Los ríos profundos (1958), afirma Hernández,

Las circunstancias de su muerte y lo peculiar de su novela hicieron que la crítica se interesara en ella más como un testimonio de la vida del autor y de las circunstancias que le tocó vivir en un país convulsionado por la violencia, la pobreza, el olvido de las clases pobres y, sobre todo, de los indígenas que tanto preocuparon a Arguedas. (HERNÁNDEZ, 1971, p.68)

Los Zorros é um romance que apresenta ao leitor inúmeras dúvidas e angústias difíceis de solucionar. A obra em questão é ordenanda, na verdade, em parte, pela viúva do autor, Sybila, o poeta Emilio Adolfo Westphalen e o editor argentino Gonzalo Losada. Christian Hernández afirma que tal ordenamento modifica completamente o significado total da obra.

Afinal, a obra sem tal organização seria lida da mesma forma? O leitor teria o mesmo impacto da escritura? Afirma que é inevitável não relacionar o suicídio de Arguedas, tentado em outras oportunidades, à obra em questão, inclusive porque este tema compõe grande parte da obra. Ou seja: o narrador, de forma recorrente, aponta para sua morte. Acredita Hernández que o maior desafio seria recordar as orientações deixadas por Arguedas, no tocante à organização da obra Los Zorros, as quais, acredito, não foram seguidas, e aclarar se os diários pertencem ao gênero autobiográfico.

José María Arguedas é identificado com alguém pertencente ao mundo de “arriba” (serra). Nasceu dentro da cultura espanhola, do branco, buscou os indígenas, vivenciando sua língua, forma de ver o mundo e, ao retornar ao seu mundo primeiro, aos oito anos, não era mais o de outrora. Carregava irremediavelmente em suas veias o Inca, e sua dimensão mítica (o mundo quéchua). Seu interesse por geografia e pela etnologia advêm de seu mergulho cultura indígena.

Se em um primeiro momento, o narrador coloca-se com um enfoque de estranhamento diante da miséria, da linguagem agressiva, no decorrer da narrativa demonstra simpatia, quase carinho, por cada ser errante, por suas misérias e dores. Arguedas, a partir de uma investigação antropológica para entender o fenômeno social que estava ocorrendo no Peru, em meados dos anos 60, passou a freqüentar a cidade de Chimbote, grande posto pesqueiro, epicentro deste fenômeno.

A obra El zorro de arriba y el zorro de abajo é uma composição de diários do autor com narrativas sobre Chimbote, um enlaçamento de suas memórias, de discurso confessional, de posicionamentos críticos sobre intelectuais contemporâneos. Martin Oyata 51 afirma que havia quatro décadas ninguém falava de cultura andina.Afirma que não há literatura indígena. O experimentalismo arguediano dá espaço aos índios, através da valoração social da cultura

51 Congresso Internacional em conmemoración del centenario del nacimiento del escritor (Arguedas: La

indígena/andina, propiciando, desta forma, uma expansão social. A questão cubana referente ao surgimento do Homem Novo, que na narrativa Los Zorros, estaria representado pela figura de Don Diego, no capítulo III; de alguma forma, diz Oyata, há que representá-lo. Olha-se esta obra como um movimento do fazer literário a uma cultura oral. Termina sua fala propondo uma reflexão: A Literatura tem que ser escrita? Se a resposta for afirmativa, conclui que então não temos literatura quéchua; depende da perspectiva. Há um projeto: um capital simbólico para a língua quechua.

Os diários que compõem a obra Los Zorros vão de maio de 1968 a 27 de novembro de 1969, num total de 18 meses: o primeiro Diário, Capítulo I,52 Capítulo II, Segundo Diário. Decididamente os diários referem-se ao próprio Arguedas. Refere-se a seu último romance que escreveu, Todas las sangres (vide Mesa-Redonda 1965). Deter-nos-emos brevemente, por inviabilidade de tempo e espaço, na questão dos diários, que é um gênero privado, mas, evidentemente, a partir de diversos trechos escritos por Arguedas, demonstra-se a expectativa de num futuro sejam publicados, podendo compartilhar então seus delírios com um leitor.

A partir de um texto de sua última esposa53, veremos a presença de Chimbote em epístolas de Arguedas (e sua importância, mesmo antes de sua vital essência em Los Zorros). Chimbote nasceu em seu peito desde 1966, sendo que outro porto, menor que Chimbote, Puerto de Supe, nas décadas de 40 e 50, quando veraneava com sua primeira esposa e sua cunhada.

O primeiro diário data de 1968. Lembra-se o narrador de uma tentativa de suicídio ocorrida dois anos antes. Centraliza sua intenção de suicídio na impossibilidade de escrever, devido a uma crise, enfermidade psíquica, contraída na infância. O fato de não conseguir ler também o feria. Arguedas afirma não querer ficar inerte diante de acontecimentos, sendo tão só uma testemunha como ele diz ser; sente a escrita como algo que resulta um ato difícil

52 Arguedas define este capítulo como estrambótico, extravagante, estranho. 53 Sybila Arredondo, já que Alicia Bustamante foi sua primeira esposa.

(¡cuánto me cuesta encontrar los términos necesarios! (ZZ, p.8).54O ano de 1944 foi marcante para ele, já que foi o início de sua derrocada, de sua trajetória rumo à morte, de sua impossibilidade diante da escrita e da leitura. Arguedas demonstra não conseguir aceitar o fato de não poder escrever: “No podré seguir escribiendo más?”. Luta conta a enfermidade, a morte, escrevendo, inclusive por recomendações médicas. Vida e morte se confundem como o beija-flor e a mosca Hauyronqo, em tamanho, brilho, ações, mas também nos informa sobre a crença de campesinos quéchuas sobre o inseto. Para ele, há relevância em sua crença “como un ánima que goza en el fondo de la bolsita afelpada que es flor de los cadáveres ” (ZZ, p.19).

Não lhe importa onde está, nem o momento atual, nem ao menos pessoas ligadas ao seu presente, com exceção de alguns escritores a quem se refere insistentemente. Fica seu desespero por sentir-se inapto para realizar sua vocação: escrever e ler. Explica que tem medo de sentir dor. Assusta-se como encontrará a morte, recusando assim veneno que lhe possa provocar dor, como também armas de fogo: “porque quien está como yo, mejor es que muera” (ZZ, p.8). Explica o motivo de estar escrevendo tais páginas: a esperança de recuperar a sanidade. Reconhece que está planejando seu suicídio, a fim de que tudo seja bem sucedido. “Es maravillosamente inquietante esta preocupación mía, y de muchos, por arreglar el suicidio de modo que ocurra de la mejor forma posible” (ZZ.p.8). Acredita que a vida é quem comanda seu ato de organização suicida, ainda que esteja revestida com uma capa de generosidade e piedade. Afirma que irá mesclar tal tema com o de um romance que será batizado pelo nome de sua última obra El zorro de arriba y el zorro de abajo.

Nesse momento refere-se a um leitor. Ou seja: aquilo que é de âmbito privado, de foro íntimo, o diário, será transportado a terreno público: um romance; haverá o enlace de dois gêneros. O autor expõe seus sentimentos e suas percepções, mas sabe que tudo pode vir a ser lido. Pode haver um leitor num futuro próximo. Arguedas afirma ainda que mais um elemento

será somado a tal composição: histórias sobre o povo peruano e sobre seu país. Concluímos que a obra Los Zorros é uma soma de forças: histórias sofridas relacionadas à impotência diante da vida, ficção envolvendo um mito incaico e sua gente. Textos orais e escritos envolvendo seu país e sua gente. Arguedas praticamente não enfoca humanos em sua trajetória à morte. Pelo menos não no diário. Parece buscar companhia, nesses momentos derradeiros, em chanchos e cachorros, na antureza, evocando cascatas e montanhas. Cada elemento o encaminha para reflexões sobre a cultura, ou melhor dizendo, questões culturais, já que não se encerra apenas em um prisma.

Em seus diários, cita apenas uma vez sua esposa: “incluso el rostro anguloso y enérgico de mi mujer” (ZZ, p.9); não a nomeia, diferentemente do que havia feito com seu irmão: “Mi hermano Aristides tiene un sobre que contiene las reflexiones que explican porqué no podía liquidarme tal y cual día” (ZZ, p.7). Aparentemente é uma tolice que nos fixemos nesses detalhes. Porém, a nosso ver, cada elemento elucida, homeopaticamente, o autor, o narrador, a época, a obra, a cidade de Chimbote.

Compara homens a vermes quando enaltece demoradamente a presença de cascatas e, pela primeira vez, preocupa-se em sinalizar a língua da natureza (presença de água): quechua. Nesse momento, Arguedas aponta para um grave problema que há em seu entorno: governantes assassinos. As metáforas inundam a escritura, revelando-nos camadas do Peru, de Chimbote, da América, do mundo, de si próprio. A humanidade parece desapontá-lo tanto que somente animais relacionados à podridão, ao subsolo, podem ser comparados ao perfil humano, seja pela proximidade com elementos sujos, ou pela característica de viver sem luz, sem ar, aparentemente sem vida, como é o caso dos vermes. Tanto em seus diários, como na própria narrativa sobre Chimbote (veremos isso em profundidade nos capítulos 4 e 5), o ser humano é pintado de forma feia, grotesca, sem adereços que o façam aceitável. Mas, claro, em varios momentos, J.M.A. refere-se a alguém com emoção, como, por exemplo, numa carta

a amigos, em um de seus diários: “¡Querido hermano Pachequito, Teniente en Piñal del Rio y tú, Chiqui, de la Casa de las Américas!” (observe o adjetivo querido e a pontuação que foi empregada). A presença de cascatas faz-se muito forte na escritura deste diário, é um vocábulo recorrente: “Ni soporto vivir sin pelear, sin hacer algo para dar a los otros lo que uno aprendió a hacer y hacer algo para debilitar a los perversos egoístas que han convertido a millones de cristianos en condicionadas buyes de trabajo” (ZZ, p.9). Arguedas precisa de frescor, de algum elemento que lhe acalme as ansiedades, as decepções.

Novamente, uma pergunta paira em nosso texto: De que maneira a cidade de Chimbote se relaciona com seus diários, seu posicionamento frente ao ser humano, à natureza? Ora posiciona-se diante de problemas com uma impossibilidade de agir em prol de projetos, ora percebe que houve uma conversão do homem em coisa, uma coisificação do humano. Em determinado momento, seu olhar volta-se para Juan Rulfo e tudo o que ele conseguiu, de acordo com a perspectiva do eu discursivo, com sua obra prima Pedro Páramo, ainda que em momento algum seja a obra nomeada, somente sugerida. Claramente somos tragados pela narrativa de uma cidade morta, de seres que, como fantasmas, não se dão conta de que o limite entre a vida e a morte é extremamente tênue. O vocábulo morte não aparece, mas se insinua sorrateiramente.

Preocupa-se em exaltar a figura de um índio que havia conhecido em sua infância, referindo-se a ele com forte respeito: Don Felipe Mywa. Arguedas o percebia com grande admiração e honra por ter tido contato com ele; o concebia como sábio. Em suas palavras há a clara visão de que se via como um igual comparando-se ao índio ( de igual a igual, de hombre a hombre), não havendo diferenças de gênero, raça, poder, classe social, religião, econômicas, de nenhuma natureza. O autor dos diários se põe a discorrer sobre diferenças entre as pessoas, refletindo sobre o que aproxima e distancia o humano de seu igual:

me sentí igual a ese gran indio al que había mirado en la infancia como a un sabio (…) y me sentí pleno, contentísimo de que habláramos los dos como iguales. En

cambio, a don Alejo Carpentier lo veía como a muy “superior”, algo así como esos poblanos a mí, que me doctoreaba (ZZ, p.11)

Compara a Juan Rulfo con Alejo Carpentier, pois acredita que se relacionam de forma distinta diante da inteligência: o primeiro desde o interior para o exterior, sentindo profundamente a essência das situações e o outro, em contrapartida, como um raio, de fora para dentro. Considera que Carpentier seja bem diferente dele e de Rulfo; mostra indignação com a postura européia de Alejo Carpentier, como alguém que vê sua cultura de maneira distanciada: “lo sentía como a un europeo muy ilustre que hablaba castellano (...) Olí en usted a quien considera nuestras cosas indígenas como excelente elemento o material de trabajo.” (ZZ, p.12). O autor de Los Zorros demonstra forte indignação em relação à capa de exibicionismo que alguns grupos e/ou autores exibem para adquirir reconhecimento, avanços econômicos, como, cita em seu diário, um ballet chileno. O termo “ballet” está claramente escrito em outra língua e sinaliza algo não pertencente à cultura do país. A essência, afirma, se perde “estas cosas que son fabricaciones de los gringos” para ganar plata” (ZZ, p.13). Há uma discrepância entre o que é feito pelo povo e o que tem por objetivo adornar, esquematizar. Há que ser um “espectáculo agradable y nacional!” (ZZ, p.13).

Afirma que alguns povos andinos peruanos ainda se mantenham isentos de influencias externas: “Pero lo intocado por la vanidad y el lucro está, como el sol, en algunas fiestas de los pueblos andinos del Perú” (ZZ, p.13).55 Afirma que não é “un sectario indígena”, por sua postura favorável ao mais voltado à essência do povo, sem afetações nem grandes representações.56 Não lhe parece correto, tal como, de acordo com sua visão, Cortázar

distanciar-se espacialmente de Argentina, de América, para olhar, desde outro mundo, a Europa, “mejor se entiende la esencia de lo nacional desde las altas esferas de lo

55 Recordo-me de indígenas das Islas Flutuantes de Puno (Lago Titicaca), quando, numa viagem recente que fiz

ao Peru, salientaram que havia habitantes de outras ilhas próximas que não admitiam aproximação semelhante com o estrangeiro, o visitante, o turista.

56 Sua postura nos remete à obra A utopia arcaica, em que Vargas Llosa, discute, dentre tantos tópicos, a

postura equivocada de Arguedas, segundo sua perspectiva, no tocante ao passado, ao quéchua, às tradições, aos indígenas.

supranacional” (ZZ, p.13). Acredita que por haver estado longo tempo, em sua infância, entre os índios, possa entender melhor a essência peruana. Em seu autodiscurso há a reflexão de que escritores são denominados autores profissionais, explica que tal termo refere-se aqueles que estão voltados para o dinheiro; exclui a si, a Juan Rulfo e a García Márquez. Escritor

provinciano seria a denominação que poderia classificá-los em oposição ao termo utilizado anteriormente. Identifica-se como escritor provinciano, para mais adiante incluir a todos, inclusive a Julio Cortázar.

Sua enfermidade lhe está possibilitando audácia ao expressar-se, além que seu habitual o faria agir. Vive a Literatura com ardor e paixão, afirma mesmo como uma necessidade “porque yo si no escribo y publico, me pego un tiro” (ZZ, p.14). Não há como suprir a necessidade de produzir. Tenta encontrar sentido de viver, em situações simples como um determinado povoado pequeno ou animais. Sua alma andina grita em cada linha de seus diários. A questão da memória se faz presente em seu autodiscurso com frequencia: “Yo recuerdo muchas cosas, pero dicen que más peligrosas son aquellas de las que no nos acordamos” (ZZ, p.16).

Um ambiente fúnebre, da morte, invade seu discurso, com a presença de uma flor, que remete juntamente a outros vocábulos a este campo semântico: a cor amarela, o termo veneno, cadáveres, crepúsculo, como o fim do dia, de seu ciclo, término de uma existência e, finalmente, o vocábulo cemitério, que será exaustivamente fixado em nosso trabalho, quando foquemos A Procissão dos Mortos, no capítulo 5, de nossa Dissertação.

Seu diário apresenta vários interlocutores, dentre eles Cortázar e Guimarães Rosa. Em alguns momentos, suas palavras não fluem sem que ele as traduza, como se seu interlocutor fosse um estrangeiro, aquele que desconhece determinado vocábulo. Exemplo disso ocorre quando se refere a um elemento vegetal, a savajina, o qual coloca entre aspas e logo adiante o explica em detalhes.

Todos procuram dinheiro fora das letras: ele, como etnólogo, Guimarães Rosa, como médico, Rulfo, como funcionário. Afirma que o amor, o prazer e a necessidade (que não a econômica) os unem. Não aceita prazos fixos, como afirma que o fazia, por exemplo, Carlos Fuentes.

A maneira como seu discurso se encaminha dá a entender que sejam delírios, consequência do veneno que afirma estar em seu corpo (ficção e realidade se confundem), evidenciando-se por uma não-compreensão dos próprios atos (afirma não saber o motivo de invocar a João, levantando hipóteses para tal atitude), apontando para um claro desequilíbrio decorrente de seu mal físico. Mais uma vez o desequilíbrio se mostra já que sua escrita mistura tempos, sem que assim o perceba. Explico: mistura o dia 18 com o 17 (sua escrita do dia 18 está inserida ao que parece como 17). Está perdendo seus parâmetros. Inesperadamente, parece responder a um questionamento de seu interlocutor João: “No, João: no vi nada cuando Fidela me tocó el vientre y sus dedos.” (ZZ, p.22).

Tudo que estivemos refletindo até agora nos encaminha para a questão do Autodiscurso, no tocante aos diários de Los Zorros. O eu do autodiscurso se perde e outro emerge, o qual se define por suas poucas ações: “La patrona de a casa en que yo servía le obsequió.” (ZZ, p. 21). “yo les escuchaba desde la gran batea de amasar pan que me servía de cama”; “yo era el becerro de la señora, tan sucio como la mestiza, y era blanco”.

Em seu segundo diário, Arguedas expressa uma dor relacionada ao passado no tocante aos Andes, a um momento marcado de sangue, em seus abismos. Utiliza o termo indo-

hispánico. Tal palavra refere-se à união entre as culturas indígena e hispânica. Fala de um momento anterior à chegada dos espanhóis, em que os homens haviam surgido de um mundo antigo peruano, e ao referir-se à contribuição de quem chegou depois, utiliza o termo

demonio. Relacionado a este substantivo, além de haver surgido, cresceu, ou seja, encontrou uma situação favorável para seu florescimento (mais adiante é substituído por diablos). Surge

a noção de bárbaro, no sentido de animalesco, bruto, selvagem: “arrancándose las tripas del uno y el otro.”(ZZ, p.79).

A utilização do verbo na primeira pessoa do plural o localiza em concordância a um grupo. Arguedas une divagações ao romance, quando afirma que neste está refletido o embate entre as duas forças: do peruano e do estrangeiro, do invasor. Demonstra contentamento ao dizer que tal luta, na narrativa, tem como vitorioso o grupo relacionado aos índios, à terra, à Pachamama, acreditando ser também sua vitória: “ Allí, en esa novela, vence el yawar mayu andino y vence bien. Es mi propia victoria”. (ZZ, p.79) Naquele momento específico, fevereiro de 1969, acreditava ser um vencedor a partir da vitória que sentia ocorrer em sua narrativa; seus personagens lhe trazem uma vitória que não consegue com sua própria vida. Percebe-se a presença do mito entremeado à realidade do povo.

Seus diários remetem a um espaço e tempo que comportam divergências, antíteses, contrários. Falará de sua estranheza no tocante às transformações experimentadas pela humanidade na década de 60. Diz desconhecer o que ocorre no âmago de Chimbote e no mundo. Declara ter ódios, ilusiones, impotência e um vazio. Suas emoções misturam-se às dos indígenas, de Chimbote, do mundo. Soma-se aos índios (serranos): “Creo tener, como todos los serranos encarnizados...” (ZZ, p.80). Sua inquietude em relação às cidades se evidencia: “Yo siempre he vivido feliz, extrañadísimo y asustado en las ciudades” (ZZ, p.80). Constantemente há um saudosismo, uma carência, um vazio no tocante às questões naturais que são raridade em cidades grandes, como, por exemplo, quando cita a cidade de Nova Iorque. Tem-se a nítida impressão de que sente um profundo desejo de resgatar o que viveu na

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