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CHAPITRE 1 REVUE DE LITTÉRATURE

1.3 Le traitement de revenu

1.3.1 Évolution de la dureté au cours du revenu

O presente capítulo tem como objetivo apresentar as análises do corpus realizadas a partir das teorias escolhidas para tal e já explicitadas nos capítulos anteriores. Como principais pontos: o ato de linguagem de Charaudeau (2008) e sua aplicação na tradução proposta por Corrêa (1991), o discurso das mídias (CHARAUDEAU, 2006) e o discurso relatado (CHARAUDEAU, 2006, 2008; MAINGUENEAU, 2008).

Na primeira seção encontra-se a questão central da pesquisa, aquela onde procuro verificar se há adequação discursiva do discurso direto, mais comum na mídia de língua francesa (LAROCHE-BOUVY, 1988) para o discurso indireto, mais comum na mídia do Brasil (ANGELIM, 1996 e CORD, 2006) na tradução do francês para o português de textos da versão online dos jornais Le Monde Diplomatique e Le Monde Diplomatique

Brasil.

A segunda seção é dedicada a uma outra questão que acabou se mostrando bastante pertinente no momento da análise. Nela tratarei da tradução dos verbos introdutórios do discurso citado. Isso se mostrou necessário quando verifiquei que muitas vezes o tradutor fazia uso de certos verbos que não tinham a mesma carga semântica e discursiva que os usados no texto em língua original.

4.1 A tradução do discurso relatado

A citação é um recurso muito usado no texto midiático como uma estratégia bastante forte. As questões de autenticidade, testemunho e veracidade dos fatos são alguns pontos que o discurso citado explora. Laroche-Bouvy (1988) afirma, inclusive, que a citação permite uma pontuação mais rica no texto com o uso de exclamações e interrogações, colocando uma personagem diretamente em cena.

Além disso, Maingueneau (1997) acredita que ao colocar as aspas, o jornalista está se protegendo antecipadamente de uma possível crítica do leitor, já que as aspas constituem um sinal que será decifrado por um destinatário como a marca da fala de outrem.

A forte presença e seu peso argumentativo mostram a importância do tratamento do discurso relatado no texto jornalístico, e também em sua tradução. Parti da hipótese de

que o tradutor faria uma adequação discursiva no momento da tradução da citação, já que no par linguístico francês-português há divergência entre a maneira mais usual de relatar o discurso do outro, conforme divulgado no estudo francês de Laroche-Bouvy (1988) e nos brasileiros de Angelim (1996) e Cord (2006).

Essa hipótese se desenvolveu, pois acredito que a grande ocorrência do discurso direto, menos usado na mídia brasileira, causaria estranhamento ao leitor do Brasil, que está mais habituado ao maior uso do discurso indireto, ou até mesmo o uso, de forma mais equilibrada, dos dois tipos de discurso em um mesmo texto.

Dentro das quinze reportagens selecionadas encontrei 229 citações nos textos do

Le Monde Diplomatique e 198 no Le Monde Diplomatique Brasil. Esse primeiro dado já

mostra que algumas citações foram excluídas na hora da tradução, fato coerente com a diagramação da versão brasileira que é ligeiramente diferente da francesa. Pude notar que todas as reportagens traduzidas tinham um menor número de páginas que as originais. Fato que é possível verificar pelo número total de palavras presentes nas reportagens: 40.750 palavras nos 15 textos em francês e 33.209 palavras nos 15 textos em português, o que mostra uma diminuição média de 17,09% palavras nos textos traduzidos. As tabelas (1), (2) e (3) a seguir mostram os dados citados:

Texto Língua Nº Palavras

Nº Citações

Porc. Nº Citações / Citações Total 1 Fr 2.522 11 5% 3 Fr 2.348 18 8% 5 Fr 3.594 9 4% 7 Fr 4.005 15 7% 9 Fr 2.792 23 10% 11 Fr 2.182 8 3% 13 Fr 2.487 25 11% 15 Fr 2.929 14 6% 17 Fr 3.038 15 7% 19 Fr 3.002 10 4% 21 Fr 1.964 24 10% 23 Fr 1.956 24 10% 25 Fr 3.571 15 7% 27 Fr 2.285 13 6% 29 Fr 2.075 5 2% Total 40.750 229

A tabela (1) mostra todas as reportagens retiradas do Le Monde Diplomatique, dando destaque para o número total de palavras e de citações. Fazendo assim, uma média entre o número de citações presentes em cada reportagem e o número de citações presente em todas as reportagens escritas em francês.

Já a tabela (2), tem a mesma função que a (1), porém com as reportagens retiradas do Le Monde Diplomatique Brasil, onde podemos ver o número total de palavras e de citações, e a média entre as citações presentes em cada texto escrito em português com o número total de citações presentes em todos eles.

Texto Língua Nº Palavras

Nº Citações

Porc. Nº Citações / Citações Total 2 Pt 1.981 9 5% 4 Pt 1.976 16 8% 6 Pt 2.867 7 4% 8 Pt 2.877 15 8% 10 Pt 2.785 20 10% 12 Pt 2.071 6 3% 14 Pt 2.293 21 11% 16 Pt 2.171 11 6% 18 Pt 2.533 7 4% 20 Pt 2.273 10 5% 22 Pt 1.803 23 12% 24 Pt 1.857 20 10% 26 Pt 2.251 15 8% 28 Pt 1.750 13 7% 30 Pt 1.721 5 3% Total 33.209 198

Tabela 2: Número total de palavras e citações nos textos em português

Como já foi dito, as tabelas (1) e (2) mostram a diminuição da extensão dos textos em suas versões traduzidas, já que o total de palavras de todas as reportagens escritas em francês é de 40.750, e o total das escritas em português não passa de 33.209. Isso também acontece com o número total de citações nas reportagens de cada língua: no Le Monde

Diplomatique o total é de 229 citações, enquanto no Le Monde Diplomatique Brasil o

Das tabelas (1) e (2) não posso destacar nenhum comportamento global das traduções das reportagens, já que para alguns casos a porcentagem N Citações/ Citações

Total se manteve igual - (1-2), (3-4), (5-6), (9-10), (11-12), (13-14), (15-16), (23-24)-,

para outros houve um aumento na versão brasileira - (7-8), (19-20), (21-22), (25-26), (27- 28), (29-30) - e para apenas um - (17-18) - a porcentagem diminuiu na versão brasileira.

É importante ressaltar que, justamente por causa da diferença do número de citações presentes nos textos em francês e em português, a porcentagem não se mantém. Por isso, as reportagens traduzidas que possuem a mesma quantidade de citações das originais - (7-8), (17-18), (25-26), (27-28) e (29-30) – resultaram em uma porcentagem um pouco maior em português do que em francês na relação Nº Citações/ Citações Total, já que elas acabam tendo um maior peso em relação às outras que possuem um número menor de citações em relação ao texto original.

Textos Variação de Nº Palavras

Variação de Nº Citacoes 1 e 2 -21,5% -18,2% 3 e 4 -15,8% -11,1% 5 e 6 -20,2% -22,2% 7 e 8 -28,2% 0,0% 9 e 10 -0,3% -13,0% 11 e 12 -5,1% -25,0% 13 e 14 -7,8% -16,0% 15 e 16 -25,9% -21,4% 17 e 18 -16,6% -53,3% 19 e 20 -24,3% 0,0% 21 e 22 -8,2% -4,2% 23 e 24 -5,1% -16,7% 25 e 26 -37,0% 0,0% 27 e 28 -23,4% 0,0% 29 e 30 -17,1% 0,0% Média -17,09% -13,41%

Tabela 3: Variação do número de palavras e citações entre os textos das duas línguas

Esta ultima tabela (3) mostra que para todas as reportagens, a versão brasileira tem um numero menor de palavras, inclusive para aquelas que mantém o mesmo número de citações da versão francesa, o que comprova a diferença existente entre a diagramação da versão francesa e da versão brasileira do jornal em questão.

A diminuição varia de -0,3% para o par de textos (9-10) até -37,0% para o par de textos (25-26), mantendo uma média de -17,09%. A média de diminuição do numero de citações é de -13,41% como podemos constatar na terceira coluna da tabela3.

Com isso, para a análise da adequação discursiva utilizei somente as 198 citações comuns nos textos em português e em francês, já que meu objetivo é analisar a tradução das citações, o que torna irrelevante a análise das citações que estão presentes somente nas reportagens originais.

Dentre as 198 citações analisadas nas reportagens originais, 187 eram em discurso direto, ou seja, apresentaram marcas explícitas, como aspas e itálico, de que houve uma fala que está sendo relatada, e continuaram dessa maneira na tradução, como em (1) e (2):

(1) « Cette foi-ci, rappelle Jacqueline Klopp, il est temps de demander que justice soit faite. Il ne faut pas répéter les erreurs du passé. Autrement, nous contribuerions à obstruer encore un peu plus la fragile route de la démocratie au Kenya » (Le Monde Diplomatique, fevereiro 2008 – reportagem 1).

(2) “Desta vez”, lembra a senhora Klopp, “é hora de pedir que a justiça seja feita. Não se deve repetir os erros do passado. Caso contrário, contribuiremos para obstruir ainda mais a frágil estrada da democracia no Quênia” (Le Monde Diplomatique Brasil, fevereiro 2008 – reportagem 2).

Nas citações acima é possível verificar que a tradução não mudou absolutamente nada na maneira de relatar o dito de outrem, mantendo inclusive a fonte dessa citação no mesmo local que a reportagem original. Assim como a reportagem (1), a reportagem (2) apresenta, entre vírgulas e no início da frase, o aposto lembra a senhora Klopp, tradução de rappelle Jacqueline Klopp.

O mesmo ocorre em (3) e (4) onde o discurso direto foi mantido e a fonte do discurso relatado, commente Aude de Kerros e comenta Aude de Kerros, está no fim do relato nos dois textos:

3

Todos os dados numéricos foram obtidos através das ferramentas de contagem de palavras do Word e os gráficos e porcentagens feitos no Excel.

(3) « Il est ce pas-de-porte à payer pour entrer dans un circuit relationnel où l’on vous juge sur des critères de solvabilité – droit d’entrée spectaculaire aux échos médiatique particulièrement importants pour les nouveaux entrepreneurs des pays émergents », commente Aude de Kerros (Le Monde Diplomatique, agosto 2008 – reportagem 25).

(4) “Ela é o ingresso a ser pago para entrar em um circuito de relações em que a pessoa é julgada pelos critérios de solvabilidade. Isso é particularmente importante para os novos empresários dos países emergentes”, comenta Aude de Kerros (Le Monde Diplomatique Brasil, agosto 2008 – reportagem 26).

Uma modificação presente no corpus diz respeito à posição ocupada pela fonte da citação no corpo da mesma. Muitas vezes está presente no começo ou no meio do discurso relatado no texto em francês, e, na tradução, aparece no fim, como em (5) e (6):

(5) « Cette activité est directement profitable, explique M. Marc Riou, directeur général de Kelly Services. Elle représente peu en chiffre d’affaires, mais beaucoup en marge brute » (Le Monde Diplomatique, fevereiro 2008 – reportagem 3).

(6) “Essa atividade é diretamente vantajosa. Ela representa pouco no faturamento, mas muito em fluxo de caixa”, explica Marc Riou, diretor-geral da Kellyservices (Le Monde Diplomatique Brasil, fevereiro 2008 – reportagem 4).

Em (5) M. Marc Riou, directeur general de Kelly Services está no meio da citação, enquanto na reportagem traduzida (6) Marc Riou, diretor-geral da Kellyservices está no fim.

O mesmo pode ser verificado em (7) e (8), onde, na reportagem em francês, a fonte da citação Luis, un Uruguayen está no meio e, na versão do texto em português,

Luis, um uruguaioaparece no fim da citação:

(7) « Quand je suis arrivé, en 1982, raconte Luis, un Uruguayen, j’ai naturellement commencé à écouter la radio et à regarder la télé en espagnol. Tous leurs programmes n’avaient qu’un seul sujet : Cuba. C’était une propagande incessante n’ayant rien à voir avec de l’information » (Le Monde Diplomatique, abril 2008 – reportagem 9).

(8) “Quando eu cheguei, em 1982, comecei naturalmente a ouvir o rádio e a assistir à TV em espanhol. Todos os programas tinham um único assunto: Cuba. Era o nosso pão de cada dia, uma propaganda incessante que não tinha nada a ver com informação”, conta Luis, um uruguaio (Le Monde Diplomatique Brasil, abril 2008 – reportagem 10).

Além disso, encontrei algumas ocorrências de modificações na ordem das citações, como em (9) e (10):

(9) M. Vincent Rocher en est revenu : « Neuf fois sur dix, ces organismes ne sont pas compétents, martèle-t-il, ils tirent leur méthodologie d’Internet et de livres vendus partout» Cet ancien directeur des ressources humaines voulait monter son entreprise. Or, en Point- Charentes, sans formation, pas de subvertion. « Ils nous faisaient faire des exercices théoriques plutôt que de passer au concert, comme nos études de marché», résume M. Rocher Bilan : « Ça ne m’a pas aidé, et mes collègues non plus. Je ne comprends pas que le cahier des charges des formations soit si mal contrôlé » (Le Monde Diplomatique, fevereiro 2008 – reportagem 3).

(10) Vincent Rocher vivenciou essa situação recentemente: antigo diretor em recursos humanos, ele queria montar seu próprio negócio, mas na região Poitou-Charentes (oeste da França), não é possível conseguir subvenção sem ter passado por uma formação ou acompanhamento. “Eles nos mandam fazer exercícios teóricos em vez de passar para algo concreto, como estudos de mercado”, resume Rocher. O balanço que ele faz é completamente negativo: “isso não me ajudou, nem aos meus colegas. Eu não compreendo por que o contrato de prestação deles é tão mal controlado. Nove em cada dez organismos desses não são competentes. Eles obtêm sua metodologia na internet e em livros que são vendidos em qualquer lugar” (Le Monde Diplomatique Brasil, fevereiro2008 – reportagem 4).

Esse exemplo mostra somente uma reestruturação no texto, as frases foram trocadas de lugar e duas citações se fundiram em uma só, o que fez com que a reportagem do Le Monde Diplomatique ficasse com uma citação a mais. Porém o tradutor manteve o discurso direto nas citações, como usado na reportagem original.

Todos esses exemplos, do (5) ao (10) mostram as mudanças que dizem respeito apenas ao local da fonte do relato e inversões de ordem de alguns discursos relatados. Porém, todos mantiveram o discurso direto, o que mostra que a preocupação do tradutor

não era em adequar o tipo de discurso relatado e sim em realizar outras adequações, que não estão entre meus objetivos traçados para esta pesquisa. Entre as citações de discurso direto há um caso importante, onde uma frase que estava presente na citação da reportagem em francês aparece como sendo do locutor-relator na tradução, como pode ser constatado em (11) e (12):

(11) En France, le PDG des publications Condé Nast, M. Xavier Romanet, déclare : « Que ce soit Vogue, Glamour ou AD, notre lectorat montre une réelle culture et appétences pour le luxe. Et ce n’est ni une question de revenues.(...) On peut désormais aimer le luxe quelle que soit son histoire familiale et culturelle. Ce qui explique la stratégie de développement des produits d’entrée de gamme des grandes marques » (Le Monde Diplomatique, maio 2008 – reportagem 17).

(12) Na França, o presidente-diretor geral das Publicações CondéNast, Xavier Romanet, declarou: “seja Vogue, Glamour ou AD, nosso leitor mostra uma cultura e um desejo de luxo reais. E não é nem uma questão de idade, nem de renda. Podemos, a partir de agora, amar o luxo qualquer que seja nossa história familiar e cultural”. Sem dúvida, isso explica a estratégia de desenvolvimento dos produtos das grandes marcas de luxo (Le Monde Diplomatique Brasil, maio 2008 – reportagem 18).

A frase Sem dúvida, isso explica a estratégia de desenvolvimento dos produtos

das grandes marcas de luxo presente no exemplo (12) está fora das aspas e não possui

qualquer marca de discurso relatado, por isso ela é tida como uma frase do locutor- relator, no caso o jornalista. Porém, no texto original (11) essa frase está dentro do discurso direto, portanto a fala de Xavier Romanet.

Nesse caso o tradutor fez uma modificação que compromete o texto, já que a frase que fazia parte de um discurso anterior, com seus objetivos particulares e a opinião da pessoa que a produz, passa a ser entendida como sendo de um outro interlocutor, ou seja, passa a ser uma interpretação dos fatos pelo jornalista.

Quanto ao discurso indireto, ou integrado para Charaudeau (2008), dentre as 198 citações, somente 10 usavam essa maneira de relatar, tanto na reportagem original quanto na tradução. Suas características são o relato em terceira pessoa e sob forma de oração subordinada substantiva objetiva direta.

Assim como nos casos do discurso direto, o tradutor não modificou a maneira de relatar o discurso citado, como pode ser verificado em (13) e (14), ambos em discurso indireto:

(13) (...) M. Xavier Bertrand, ministre du travail, des relations sociales et de la solidarité, prenait sa défense à la télévision, en affirmant que n’importe qui, à sa place, aurait réagi de la même façon (...) (Le Monde Diplomatique, abril 2008 – reportagem 11).

(14) Xavier Bertrand, o ministro do trabalho, das relações sociais e da solidariedade defendeu seu chefe na televisão. Declarou que qualquer um, no seu lugar, teria reagido da mesma maneira (Le Monde Diplomatique Brasil, abril 2008 – reportagem 12).

Nos exemplos acima, pode-se verificar que as duas citações são relatadas em discurso indireto e sem muitas modificações na tradução. Além disso, a fonte, M. Xavier

Bertrand, ministre du travail, des relations sociales et de la solidarité traduzida como Xavier Bertrand, o ministro do trabalho, das relações sociais e da solidariedade, foi

mantida no mesmo local.

O mesmo acontece em (15) e (16), duas citações em discurso indireto que continuaram com essa maneira de relatar no texto traduzido:

(15) Pour répondre aux critiques, le ministère de l’agriculture mexicain a rappelé que, entre 1994 et 2007, la production du maïs avait augmenté, passant de dix-huit millions deux cent mille tonnes à vingt-trois millions sept cent mille tonnes. (Le Monde Diplomatique, março 2008 – reportagem 5).

(16) Reagindo às críticas, o ministério da Agricultura mexicano forneceu outros dados. Lembrou que, entre 1994 e 2007, a produção aumentou, passando de 18,2 milhões de toneladas para 23,7 milhões de toneladas (...) (Le Monde Diplomatique Brasil, abril 2008 – reportagem 6).

A tradução feita entre (15) e (16) é literal, mantendo o discurso indireto e até mesmo o local da fonte do relato, pois tanto le ministère de l’agriculture mexicain quanto

Assim como no discurso direto, encontrei uma recorrência em que o tradutor acabou traduzindo o discurso relatado como se fosse a fala do jornalista em (17) e (18):

(17) Dans un rapport de l’Organisation des Nations unies pour l’alimentation et l’agriculture (FAO), publié en juin 2007, l’economiste Adam Prakash estime que le panier d’importations alimentaires coûtera en moyenne 90% de plus qu’en 2000 pour les pays les moins avancés. Quelques mois plus tard, le 9 novembre 2007, les experts de l’agence des Nations unies enfoncent le clou : dans une conférence de presse tenue à Dakar, M. Henri Josserand, chef du service mondial d’informations et d’alertes rapides à la FAO, considère qu’entre 2006 et 2007 la facture alimentaire a crû d’un tiers pour les pays africains, voire de 50% pour les plus dépendants (Le Monde Diplomatique, maio 2008 – reportagem 15).

(18) Em um relatório publicado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), em junho de 2007, o economista Adam Praskash estimava que as importações alimentares vão custar 90% a mais que em 2000 para as nações menos avançadas. Apenas entre 2006 e 2007, a “conta alimentar” cresceu um terço na África e até 50% nos países mais dependentes (Le Monde Diplomatique Brasil, maio 2008 – reportagem 16).

Os exemplos (17) e (18), assim como os exemplos (11) e (12), mostram uma apropriação do discurso relatado na versão traduzida da reportagem. Em francês a frase:

M. Henri Josserand, chef du service mondial d’informations et d’alertes rapides à la FAO, considère qu’entre 2006 et 2007 la facture alimentaire a crû d’un tiers pour les pays africains, voire de 50% pour les plus dépendants está em discurso indireto, o que

deixa claro que a fala é do M. Henri Josserand, informação que também está explícita no relato.

Porém, em português a frase: Apenas entre 2006 e 2007, a “conta alimentar”

cresceu um terço na África e até 50% nos países mais dependentes não está reproduzida

em nenhuma das maneiras de relatar o discurso do outro, o único detalhe é o discurso evocado, “conta alimentar”, que protege o locutor-relator e destaca a expressão pouco usual. Fora isso, nada marca a fala do outro, o que leva o leitor a acreditar que é uma fala do jornalista.

Em relação ao discurso indireto livre, ou narrativizado para Charaudeau (2008), só foi encontrada uma ocorrência no total das quinze reportagens que, assim como nas

outras maneiras de relatar, foi mantida como tal na tradução. Como podemos ver em (19) e (20):

(19) M. Neil A. Boyer, représentant des Etats-Unis auprès de l’OMS, menace de suspendre le soutien financier de son gouvernement si les conclusions du rapport sont officiellement adoptées (Le Monde Diplomatique, maio 2008 – reportagem 19).

(20) Boyer ameaçou suspender o apoio financeiro de seu governo ao projeto caso as conclusões apresentadas fossem oficialmente adotadas por aquela Assembléia (Le Monde Diplomatique Brasil, abril 2008 – reportagem 20).

Essa maneira de relatar o discurso é muito pouco usada na mídia impressa francesa e brasileira. O exemplo acima mostra que, provavelmente, houve a fala de alguém, porém ela foi totalmente integrada no discurso segundo. Isso porque a forma verbal em francês menace e em português ameaçou representam a fala que aconteceu anteriormente e que foi proferida por Boyer, porém não há marcas de discurso direto – aspas, travessão ou itálico – nem de discurso indireto - oração subordinada substantiva objetiva direta. O discurso relatado perdeu suas marcas próprias e foi integrado ao discurso segundo, o que caracteriza o discurso indireto livre (MAINGUENEAU, 2008) ou narrativizado (CHARAUDEAU, 2008).

Após a análise dos exemplos, foi possível confirmar a tendência ao uso do discurso direto na língua francesa, defendido por Laroche-Bouvy (1988), já que 94,44% do discurso relatado presente nas reportagens eram em discurso direto, enquanto somente 5,05% estavam em discurso indireto e 0,51% em discurso indireto livre (Cf. tabela (4) e a figura (1) a seguir). Total Citações 198 100% Discurso Direto 187 94,44% Discurso Indireto 10 5,05% Discurso Ind Livre 1 0,51%

Discurso Indireto Discurso Ind Livre Discurso Direto

Figura 1: Gráfico demonstrativo do uso de cada tipo de discurso

Porém o ponto que chamou atenção foi o fato de os tradutores nunca modificarem a maneira de relatar, indo completamente contra minha hipótese inicial. Como a maneira de relatar de todas as reportagens originais, em língua francesa, foram mantidas da mesma forma na tradução para a língua portuguesa, percebi que para os tradutores essa

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