Chapitre 5 : Dispositif de mise en œuvre et de suivi-évaluation de la Stratégie
5.1. Cadre de mise en œuvre du DSPD .................................................. Error! Bookmark not defined
Pese embora a relevância da família enquanto instância socializadora da criança e do adolescente, a socialização não constitui um monopólio da instância familiar, que se confronta com a concorrência de outros agentes (Lahire, 2003). Imerso numa heterogeneidade de experiências socializadoras, o “ator uno” cede lugar ao “ator plural”, “(…) produto sempre matizado dessa heterogeneidade dos pontos de vista, das memórias, dos tipos de experiência (…)” (p.40) – nem sempre, aliás, em sintonia com o legado do universo familiar. A escola, mas sobretudo os amigos e, hoje mais do que nunca, os mass media constituem agentes socializadores de tão inegável relevo no quadro da socialização juvenil que as famílias não podem deixar de os levar em linha de conta, integrando-os nas suas práticas educativas e “usando-os” como aliados do projeto educativo dos seus filhos. Ora, são
precisamente as famílias dos estratos sócio-culturais privilegiados que não só se mostram mais abertas à intromissão de outros agentes educativos na missão socializadora, mas também revelam maior propensão e maior aptidão para “tirar partido” educativo de tais influências externas (Kellerhals e Montandon, 1991). Mais recetivas do que as classes desfavorecidas à missão formativa da escola, mais disponíveis à presença de amigos e colegas dos filhos e ao acompanhamento “crítico” do visionamento televisivo, as classes dominantes tendem, assim, a assumir uma posição de cooperação com os restantes agentes de socialização.
Os mass media constituem, hoje, uma realidade incontornável na vida de crianças e adolescentes que, como lembra Pinto (1999), nasceram e foram criados num contexto sócio- cultural marcado por um “ecossistema comunicacional e informativo” (p.11). O debate em torno da relação crianças/mass media polariza-se entre os que diabolizam os meios de comunicação social – acusando-os de vitimizarem seres indefesos e manipuláveis – e os que sobrevalorizam a sua dimensão formativa, identificando neles “(…) agentes que constroem, enunciam e representam mitos, ideias, projetos, ideologias, valores, num registo que seduz e cativa, que enreda e envolve” (p.26). Numa era caracterizada pela acessibilidade dos recursos tecnológicos e de conhecimento, a televisão e a internet ocupam, naturalmente, um lugar central no quotidiano destes “filhos dos media” (Pinto, 1999, p.11). O visionamento televisivo é, aliás, identificado por Pereira (2005) não só como a atividade de lazer doméstico a que as famílias, regularmente, consagram mais tempo, mas também como a mais generalizada – conclusão retirada a partir de uma investigação sobre a população portuense que vem de encontro à ideia de “colonização” televisiva dos tempos livres referenciada por Conde (1998).
Não obstante a globalização das novas tecnologias, persistem as desigualdades sociais em termos não só de acesso, mas também de “apreensão” da informação. Por um lado, a clivagem social no que diz respeito à posse de bens de equipamento como a tv-cabo, o computador pessoal ou o acesso à internet instaura e reforça o diferencial de acessibilidade ao universo informativo e ao saber (Pereira, 2005). Por outro lado, beneficiando de disposições e de competências que lhes permitem proceder a uma “alfabetização mediática” (Pinto, 1999, p.30) dos seus descendentes, as famílias da classe dominante estão mais capacitadas do que as famílias das classes populares para se “apropriarem” das vantagens
capitalizarem em proveito do percurso académico e social dos filhos. Daí que a modalidade de controlo “orientado”, caracterizada por uma maior implicação parental, inclusivamente na escolha, no aconselhamento e também no acompanhamento crítico dos programas visionados ou dos sites consultados, seja mais frequente nas classes sociais mais capitalizadas do que nos estratos populares, cuja intervenção se caracteriza, preferencialmente, pelo controlo estrito do visionamento televisivo (Kellerhals e Montandon, 1991).
De importância fulcral na vida dos jovens são também as redes amicais que representam, enquanto espaço de comunhão de valores e de partilha de experiências, o locus de socialização endogeracional por excelência. Ocupando o “(…) epicentro na organização da vida social juvenil” (Conde, 1990, p.689), os amigos dos filhos tornam-se uma realidade incontornável para a parentalidade que se vê, assim, confrontada com a quase inevitabilidade de os aceitar como parte integrante da existência dos filhos. Esta abertura ao grupo de pares é, aliás, confirmada por uma grande maioria dos jovens portugueses que afirmam que os pais gostam dos seus amigos (Menezes, 1990). A investigação levada a cabo por Kellerhals e Montandon (1991) dá-nos também conta de que os pais se mostram atentos aos amigos dos filhos, cuja influência admitem, em cerca de metade dos casos, poder ser boa ou má em função da personalidade dos descendentes. O controlo da identidade desses amigos e a vigilância sobre os locais por eles frequentados e sobre a duração dos encontros integram as preocupações parentais. Quanto aos contactos extraescolares – receção dos amigos dos filhos em casa, autorização aos filhos para visitas a casas de amigos –, eles parecem menos estimulados pela parentalidade suíça do que pela portuguesa. Com efeito, enquanto apenas metade dos pais inquiridos por Kellerhals e Montandon (1991) fomenta este tipo de convivência, um expressivo número de famílias portuguesas afirma abrir o espaço doméstico ao grupo de pares dos filhos (Menezes, 1990). São, no entanto, as famílias de estatuto sócio- cultural mais elevado que se mostram mais recetivas a este tipo de contactos – conclusão partilhada tanto pelos investigadores suíços como nacionais. A explicação poderá residir no facto de as famílias com mais capitais culturais estarem mais conscientes do impacto positivo do relacionamento amical para o crescimento saudável dos jovens – nomeadamente no que diz respeito ao desenvolvimento de aspetos como o autoconceito positivo ou o adequado comportamento e aproveitamento escolar (Sprinthall e Collins, 1994), preditores de “(…) um ajustamento bem sucedido na vida adulta” (p.400) que estes pais, tanto ou mais do que os das classes populares, almejam para os filhos. A existência de condições materiais e logísticas
poderá explicar, igualmente, a recetividade destas famílias ao acolhimento dos amigos dos filhos (Pais, 1996).
A “abertura” das classes dominantes às redes de relações amicais dos filhos é igualmente sinalizada por Vieira (2003b), que refere a convivialidade entre pares na infância e juventude como uma prática não apenas corrente, mas ainda incentivada pela parentalidade como forma, nomeadamente, de alargar e reforçar a teia de relações sociais. Tendo consciência do “(…) capital que representa uma rede social bem constituída e bem mantida” (Pinçon e Pinçon- Charlot, 2007, p. 83), a burguesia tende a alimentar relações que possam vir a ser úteis aos filhos, assegurando que as práticas convivialistas se façam “entre iguais”, numa lógica de fechamento e de seletividade social também identificada pela socióloga portuguesa. A abertura do espaço doméstico aos amigos dos filhos surge, nesse sentido, como uma estratégia – racionalmente acionada – de controlo sobre as amizades (Pais, 1996) criadas no exterior dos redutos de sociabilidade familiares. Só depois de sujeitos ao “crivo” de uma observação in loco e de uma inquirição “em diferido” sobre as suas origens, os amigos “outsiders” veem, ou não, franqueadas as portas do bastião familiar.
A família não pode, no entanto, permanecer impermeável à influência de outros agentes socializadores. Perdidas as condições para garantir, sozinha, a socialização dos seus descendentes e incapaz de preservar o caráter de “ilha socializadora”, ela vê-se forçada a estabelecer, como vimos, um conjunto de pontes com outras instâncias educativas que consolidarão, desta forma, o entrecruzamento de socializações.