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CHAPTER II. GENERALITIES ON BIOMETRICS

II. H.4. Discussion on fusion strategies

II.I. C ONCLUDING SUMMARY

Seria perigoso afirmar que no período de aproximadamente mil anos que chamamos

2 O texto é de um anônimo, encontrado no século X por um tal Coislin e por isso chama-se Tractatus Coislinianus.

atualmente de Idade Média (talvez mais correto fosse chamar de Idades Médias, no plural) não tenha havido qualquer contribuição significativa para o desenvolvimento das teorias dramatúrgicas. Alguns autores que resenharam a evolução das teorias do drama, entre eles Lawson (1949) e Jean-Jacques Roubine (2003), simplesmente desconsideram as contribuições dos períodos romano e medieval, saltando da Grécia clássica para a Renascença, quando vai reaparecer no ocidente o texto da Poética e vão se retomar outras tradições clássicas que exercerão, a partir de então, grande influência sobre o teatro, na teoria e na prática. Roubine (2003, p. 21) chega a afirmar:

O modelo aristotélico não terá nenhuma influência sobre o teatro latino ou medieval. Os gramáticos e filósofos, que são praticamente os únicos leitores de Aristóteles, não mostraram na época nenhum interesse por seu pensamento estético.

Mas, apesar da carência de crítica teatral e de reflexão teórica, fez-se muito teatro, tanto em Roma como durante toda a Idade Média. O teatro foi usado tanto como entretenimento como também como forma de educação moral e sobretudo religiosa. O que deve surpreender o pesquisador é a inexistência de reflexão teórica mais profunda e continuada, nesse longo período. Vamos tentar, a seguir, situar de maneira geral as condicionantes históricas da vida intelectual da Idade Média e recolher o que ficou registrado como ocorrências importantes para a dramaturgia.

A Idade Média deve ser entendida como um período de aproximadamente mil anos demarcados, no início, pela decadência de Roma e no final pela tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos. Embora seja às vezes tratada por alguns pensadores como um período uniforme e de pouco interesse, em verdade a idade Média pode ser dividida em fases bastante distintas e deve-se considerar também as diferenças entre os processos históricos que se desenvolveram simultaneamente no lado oriental e no ocidental.

Quando Roma foi abalada pelas sucessivas invasões bárbaras, por rebeliões e crises políticas, e a economia entrou em declínio, no século IV, Constantino transferiu a capital de Roma para uma cidade nova fundada em Bizâncio, antiga colonia grega no extremo oriental do Império Romano. (BURNS, 1981) A nova capital ficou conhecida como Constantinopla. Estabeleceu-se aí o Império Romano do Oriente, que veio a ser conhecido, depois do século VI, como Império Bizantino, e duraria até a queda de Constantinopla, em 1453, conquistada pelos turcos otomanos.

Oriente. O grego era aceito como uma espécie de língua oficial e, em decorrência, foi grande a influência aí exercida pelas tradições culturais, filosóficas e científicas da Grécia clássica. Os escritos sobre a comédia e a tragédia do sábio bizantino João Tzetzes (1110-1180 d. C.) demostram o débito da cultura bizantina em relação às fontes gregas. Para Tzetzes, a tragédia se caracterizava por levar os espectadores à lamentação, pela dissolução da vida. E a comédia levava ao riso, tratando das coisas do cotidiano, alicerçando e robustecendo a vida. (CARLSON, 1997)

Enquanto isso, o Império Romano do Ocidente viveu uma espécie de volta para o campo. A ruína econômica e as invasões bárbaras fizeram com que as populações ameaçadas pela fome voltassem aos campos para buscar trabalho na agricultura. Desenvolveu-se o sistema feudal de produção e de apropriação da terra. O poder político fragmentou-se e o catolicismo se expandiu como religião predominante. Seguiu-se um período em que a atividade intelectual e artística era quase toda ligada à Igreja, sobretudo nos mosteiros que se multiplicaram por toda Europa Ocidental. A religião cristã passou a ser o principal tema da filosofia e da arte. A filosofia voltou-se para a teologia e passou a especular sobre a fé, sobre a divindade e suas figurações. A função da arte passou a ser a representação dos temas da fé e do divino, através das escrituras, dos evangelhos e dos princípios da moral cristã. Esse quadro perdurou por cerca de quatro séculos. Este foi também um período de intensas e violentas lutas políticas entre monarquias nascentes e as aristocracias feudais, e entre estas e os papas, que procuravam reunir autoridade espiritual e poder político, literalmente, sob um mesmo manto.

Se o Oriente foi predominantemente grego, o Ocidente era latino. Datam dos séculos II e III os tratados morais de Tertuliano e São Cipriano, que eram pouco mais que repetições de Aristóteles e Horácio. Elius Donatus, que foi professor de São Jerônimo, cresceu em meados do quarto século. Suas obras mais conhecidas são tratados de gramática e retórica. Seus

Comentaries e o fragmento De comedia et tragedia foram incluídos nas primeiras edições

impressas das obras de Terêncio. Ele cita Horácio, o que indica a fonte de suas ideias. A influência de seu trabalho repercutiu desde a idade média até o século XVII quando a Poética de Aristóteles já era conhecida e aceita na Europa civilizada. Considerado o último dos romanos, foi o último dos latinos a produzir uma teoria sobre o drama. Ele estabelece a conexão histórica entre Horácio e Dante. Para ele “Comedy is a story treating of various habits and customs of public and private affairs, from which one may learn what is of use in life, on the one hand, and what must be avoided, on the other.”3 (CLARK, 1918, p. 42)

Dante (séc. XIII) teria usado Horácio como origem de suas definições de comédia e tragédia contidas na Epístola a Can Grande em que se encontram traços de uma reflexão poética. Ele repete a ideia de que “[...] a comédia lida com cidadãos comuns é escrita em estilo humilde, começa mal e acaba bem. A tragédia fala de reis e príncipes, é escrita em estilo elevado, começa bem e acaba mal”. (CARLSON, 1997, p. 33)

Assim ele justifica o título de A divina comédia. Por que ela começa no Inferno e termina no Paraíso. A concisão, o tom de autoridade e a ligação com os clássicos que o antecederam servem para ilustrar o que era o pensamento erudito medieval e seu alcance em relação à teoria dramatúrgica. (CLARK, 1918, p. 47)

O predomínio da Igreja instituiu a desconfiança geral em relação à arte pagã. Tertuliano e Santo Agostinho preocupavam-se com as origens e os temas pagãos dos dramas clássicos, mas tudo indica que os padres, de maneira geral, enxergavam o drama como um instrumento de persuasão e de instrução. Na parte final da Idade Média surgiu uma poderosa tradição dramática no seio da Igreja, apesar das desconfianças. A freira Hrotsvitha (935-973) escreveu comédias cristãs se propondo a anular os efeitos criminosos induzidos pela leitura de Terêncio, celebrando a castidade das virgens cristãs. (CARLSON, 1997, p. 33) Continuava a prevalecer o objetivo de instruir ao divertir.

Somente na parte final da Idade Média, entre os séculos VIII e X, as coisas começaram a mudar. Houve um reflorescimento da poesia e da literatura. Marvin Carlson relata o evento das primeiras traduções latinas dos textos de Aristóteles que tinham sido anteriormente vertidos para o árabe. Na área da dramaturgia, o mais importante foi uma versão abreviada da

Poética, por Averróis (1126-1198), traduzida para o latim por Hermannus Alemannus. Os dois

enxergaram, equivocadamente, o fator moral como base do pensamento dramatúrgico de Aristóteles, entendendo o objetivo da representação como “[...] nada mais que o encorajamento do que é correto e a rejeição do que é vil”. (CARLSON, 1997, p. 31)

Averróis teria passado longe de compreender o que fossem drama e representação. Ao que tudo indica, ele imaginava a representação não como encenação, mas como uma mera leitura recitativa. Duas décadas depois de Averróis, foi feita outra tradução, mais precisa, da

Poética, por Guilherme de Moerbeke, mas que só viria a ser editada muitos séculos depois.

Supõe-se que o Século XIII não estava preparado para Aristóteles.

Barret H. Clark (1918, p. 41) usa palavras semelhantes: “The absence of any body of dramatic work, and the unsettled conditions of Europe between the disintegration of the Roman Empire and the earliest dawn of the Renaissence, easely account for the dearth of que é útil e o que deve ser evitado.” (Tradução nossa)

dramatic criticism during de Dark Ages”.4

Deste modo, pouco há que se possa considerar como influência de um pensamento dramatúrgico teórico medieval que possa vir a influir diretamente nas dramaturgias do cinema e do audiovisual contemporâneo.