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C μ definition

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Chapter V. Flow Control Applications

1.2. C μ definition

Cada vez mais, na cena contemporânea, artistas buscam espaços alternativos para desenvolverem experiências artísticas, sendo os lugares urbanos muito usuais e híbridos, que rompem com a busca de espaços expositivos tradicionais, museus e galerias de arte, o que vem proporcionar rupturas de “velhos” paradigmas relacionais entre a obra de arte, o artista e o público. Podemos citar o artista brasileiro Flávio de Carvalho (1899-1973) como um pioneiro no campo da performance e que utilizou o espaço urbano para o que chamava de “experiências” 23. Sobre as intenções do artista na performance “Experiência

número 2”, Zeca Ligiéro, sinaliza:

É possível que a experiência de Flávio de Carvalho tenha alimentado algum debate sobre atitudes seculares e os contextos religiosos, entretanto, mais do que isso, ela revelou como o povo brasileiro estava possuído por um fanatismo religioso que sobrepujava mesmo os direitos de liberdade e crença religiosa. Entretanto, as intenções de Flávio de Carvalho estavam muito mais relacionadas com as questões da eficácia da performance do que a de um possível engajamento ou protesto político. (Ligiéro, 2011, p. 36).

23 Referência ao artigo: “Flávio De Carvalho e a Rua: Experiência e Performance”. Artigo publicado

primeiramente n.a. Revista O percevejo, do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da União. Ano 7, n. 7,1999.

Fig. 32- Flávio de Carvalho. “Experiência n. 2”, 1931. Imagem: Danilo Matoso.

Cita ainda, nesta mesma página, trechos do livro escrito pelo próprio Flávio de Carvalho, cujo título é o mesmo da performance, no qual relata minuciosamente todas as etapas da sua ação performativa.

Tomei logo a resolução de passar em revista o cortejo, conservando o meu chapéu na cabeça e andando em direção oposta à que ele seguia para melhor observar o efeito do meu ato ímpio na fisionomia dos crentes. A minha altura, acima do normal, me tornava mais visível, destacando a minha arrogância, e facilitando a tarefa de chamar atenção (…). (Carvalho, citado por Ligiéro, 2011, p. 37).

A “armadura” para atingir os seus objetivos consistiu em manter-se com um boné na cabeça, na travessia da procissão de Corpus Christi, andando em sentido contrário numa avenida de São Paulo e enfrentando os fiéis com arrogância, provocando-os até à fúria.

A sequência das ações foi meticulosamente planejada, ele manteve-se sempre preocupado com o seu relacionamento espacial e a melhor visibilidade para a sua presença, de modo a causar o maior impacto possível.

Continua:

Abri os meus braços num gesto patriarcal e patético expliquei com doçura: “eu sou um contra mil...” a agitação imediatamente cresceu e todos pareciam discutir indecisos entre si. Repeti novamente o que queria dizer. O barulho da discussão aumentou o volume. Fiquei parado sem saber o que fazer, temendo me retirar bruscamente porque sem dúvida seria esmagado e estraçalhado (...). (Carvalho, citado por Ligiéro, 2011, p. 38).

De fato, no relato escrito por Flávio de Carvalho sobre a performance “Experiência número 2”, percebe-se uma sequência de tomadas de decisão que nos indicam processos de trabalhos de um artista num instante de criação. Foi necessário tomar decisões diante da imprevisibilidade da situação, manter-se em constante atenção ao tempo/espaço. “Sentir o pulso do ambiente”, como bem escreveu ele. As intenções da experiência que a performance pretende proporcionar em geral envolvem um público, junto do qual o artista traça objetivos que deseja alcançar.

Reescrevendo suas ações poderíamos criar um roteiro: 1 - ele observou o ambiente; 2 - teve a ideia de buscar o boné; 3 - estudou a reação das pessoas, nos gestos/ações; 4 - colocou-se num lugar estratégico e contrário, pelo que chamava muito a atenção; 5 - percebeu o pulsar do ambiente, ao entrar no meio da procissão, quis viver a emoção fisicamente, a “psicologia das multidões”; 6 - sentiu a força coletiva, chegando ao limite da tensão quando disse, em tom doce: “eu sou um contra mil”, provocando a revolta coletiva.

Neste sentido, ele vivenciou uma experiência no limite acerca do quotidiano, crentes em procissão, e experimento da obra, deixando-se levar às últimas consequências, embora a todo o instante estivesse em plena consciência de cada gesto/ação para o desenvolvimento do experimento.

Sobre os gestos/ações artísticos, escreveu Stéphane Malysse:

Os gestos artísticos são atos exemplares, micro-rituais que transformam uma atitude estética em obra gestual e concreta, e devemos também notar aqui a ambiguidade ligada à tradução dos gestos, sendo que um gesto realizado por um

artista dentro de um contexto cultural não terá necessariamente o mesmo sentido num outro contexto, criando assim um novo nível de interpretação da intenção do artista (Que pode ser até uma incompreensão). (Malysse, 2002, p.33, 34).

Partindo de um olhar multidisciplinar do artista em processos criativos, intenções, percursos, modo de compor as suas experiências e gestos/ações do quotidiano das mulheres lavadeiras da Afurada, é a nascente para o projeto a ser desenvolvido. Configura-se na possibilidade de, a partir dos gestos/ações quotidianos ao lavar roupas, bem como os elementos que compõem a prática, serem potencializados em “material” para elaboração de performances, convocando as mulheres lavadeiras a participarem na ação artística performance.

Percebe-se que o lugar por si só é dinâmico, carregado de sentidos, espaço identitário, híbrido, coletivo e social, onde coexistem camadas multifacetadas, com possibilidades para processos criativos diversificados, de modo que é por esta vertente que surgiu a ideia do projeto de pesquisa a ser desenvolvido junto à comunidade piscatória: o lugar, o espaço geográfico, a coletividade e a dinâmica do mesmo, foram pontos significativos para a escolha.

Fig. 33- Estendal e tanques da Afurada, 2016. Acervo particular.

Assim, com um olhar artístico e desejo de “reinvenção” de gestos/ações do quotidiano, o espaço/tanques da Afurada e entorno tornaram-se “lugares de possibilidades achadas”, lugares não comuns à prática de elaboração de obras artísticas, porém com potencialidades infinitas de experimentalismo para compor obras coletivas e artísticas, no caso na linguagem performativa.

Com esse desejo, surgiu o projeto prático a ser desenvolvido na comunidade, junto das mulheres lavadeiras da Afurada, convocando-as a produzir uma ação performática de característica social, com referências urbanas, comunitária, coletiva e com temática veiculada ao próprio ambiente que a inspirou: tanques, varais, gestos/ações do quotidiano, de modo a integrar os mecanismos de exploração da obra de arte, onde o processo se inicia pelo espaço e gestos/ações do quotidiano, específicos na atividade de lavar roupas. Neste sentido, o tema a ser desenvolvido na dissertação é: “Quando Gestos/ações quotidianos passam à Performance: mulheres da Afurada”.

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