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13 Côte est de la Nouvelle-Calédonie, le 4 septembre

Dans le document Tranches de vies. Robert Marquis (Page 61-66)

Os missionários franciscanos atuaram na área do Rio Negro durante praticamente dez anos. Autores como Schaden (1983), Cézar de Carvalho (2006), Ribeiro (1983) e Curatola (1983) destacam que durante todo este período de experiência nas missões eles produziram poucos documentos relatando o trabalho que estavam desenvolvendo. Os únicos documentos produzidos foram alguns relatórios semestrais

enviados ao governo brasileiro pelo padre prefeito das missões franciscanas, Gesualdo Machetti.

De um modo geral, como destaca Curatola (1983), os missionários só mantiveram correspondência com seus superiores em Roma por motivos administrativos: ou para queixar-se uns dos outros e dos problemas relacionados à administração brasileira e ao trabalho missionário, ou para informar o número de batismos e casamentos realizado nas aldeias. Todavia, estes dados raramente traziam referências pormenorizadas sobre os grupos nativos, menos ainda sobre a prática e os métodos utilizados pelos missionários no desenvolvimento da catequese.

A Breve História das Missões Franciscanas de Coppi vem, assim, preencher esta lacuna histórico-etnográfica, oferecendo uma descrição detalhada das tentativas de evangelização dos índios como parte de um projeto maior de assimilação ao Estado-nação brasileiro.

É um documento sobre a visão de mundo de uma época, em que se coloca em primeiro plano uma série de métodos utilizados pelos missionários na tentativa de desagregação das crenças indígenas e consolidação do cristianismo. Como enfatiza Curatola (1983), é uma crônica do contato entre dois sistemas sociais e religiosos distintos, expressões de universos culturais completamente diversos, em que o sistema cultural europeu procurava se impor sobre o indígena, condenado a um processo de aculturação e marginalização na sociedade brasileira.

Ao mesmo tempo em que se caracteriza como um documento histórico, é um documento de contestação histórica, justamente pela sua base etnográfica. Apesar de ferramenta de produção do exotismo, possibilita uma nova reflexão sobre o modo como se configurou o trabalho missionário no Brasil.

Oficialmente, este trabalho tem sido apresentado na historiografia como um trabalho humanitário, em que os missionários estavam mais empenhados em ajudar os índios e salvá-los da escravidão, do que em colocá-los em novas situações de violência. De fato, os missionários estavam empenhados em impedir a escravidão indígena como ficou evidente na narrativa de Coppi, mas, em contrapartida, o empenho em trazê-los para o sistema de missões fez com que os missionários não medissem esforços para converter os índios ao cristianismo, e também discipliná-los para o trabalho e para a vida regrada. Como o próprio Coppi bem expressa em sua narrativa, isto implicava em uma imensa violência simbólica direcionada, primeiro, para deslegitimar a cultura indígena e, posteriormente, para desconstruí-la.

A crônica de Coppi, portanto, apresenta as contradições do trabalho missionário, além de trazer para a cena novos elementos de reflexão, que servem como crítica às fontes de história mais legítimas, digamos assim, como os livros e os catálogos museográficos.

Seguindo esta mesma linha de raciocínio, o diário possibilita que seja realizada uma nova reflexão sobre o modo como as coleções dos grandes museus foram adquiridas. Ou seja, a possibilidade de refletir como os objetos que integram as mais importantes coleções museais europeias chegaram até seus respectivos museus.

Deixe-me que explique melhor: de um lado temos o catálogo, documento museal oficial por excelência. Nele está registrado o inventário das peças. O catálogo é, portando, um livro texto em que, muitas vezes, estão ausentes os caminhos escusos que os objetos de coleções fizeram até chegar ao museu. Partindo deste princípio, a crônica de viagem de Coppi se contrapõe ao catálogo, permitindo que possamos refletir e visualizar, em grande medida, os caminhos percorridos pelos objetos até chegarem ao Museu Luigi Pigorini (este ponto da narrativa de Coppi será mais bem abordado no próximo capítulo).

É preciso destacar, por hora, que, mesmo não havendo a intenção de coletar os objetos da cultura material com intuito de ordená-los cientificamente, mas sim como estratégia de conversão dos indígenas ao cristianismo (e posteriormente como estratégia de coleta para o Museu Luigi Pigorini de Roma, como veremos mais adiante), os resultados não tornam a crônica de viagem de Illuminato Coppi menos valiosa para fins de documentação.

Mesmo havendo privilegiado o critério religioso, seu relato é um documento que permite recuperar o conhecimento antropológico, histórico e museográfico daqueles aspectos entre os quais a natureza particular das missões do Uaupés dificilmente poderia ser compreendida na atualidade.

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Por fim, para não perder o fio da meada da tese, o diário ainda se faz importante justamente por proporcionar perceber as relações de duplo vínculo nas quais Coppi estava imerso.

A primeira delas está no tipo de relação que havia entre o Estado brasileiro, os missionários franciscanos e os comerciantes. Como vimos, o Estado brasileiro estava emprenhado em consolidar suas fronteiras no Amazonas. Para isso era importante que se consolidasse uma economia

sólida na região. Os comerciantes ligados à borracha desempenhavam, assim, um papel central: desbravar a Selva Amazônica e estender ao máximo as fronteiras brasileiras, possibilitando ao Estado a criação de novas circunscrições administrativas, que garantissem a autonomia brasileira nas regiões fronteiriças da selva. Os comerciantes consolidariam, em certa medida, as fronteiras do país além de dinamizar a economia dentro da região. O Estado brasileiro estava, assim, vinculado aos comerciantes nesse projeto, digamos, de interiorização.

Ao mesmo tempo em que estava vinculado aos comerciantes para se consolidar no extremo Norte, o Estado também tinha no trabalho missionário um dos seus pilares de sustentação. Cabe lembrar que nesse momento os estados do Norte haviam passado por algumas contestações fruto de movimentos sociais, a cabanagem é o maior exemplo delas. Diante dos ânimos exaltados e das eventuais rebeliões que poderiam acontecer, o Estado vê no trabalho missionário uma forma de disciplinar as massas populares, especialmente os povos indígenas.

Desse modo, o Estado estava vinculado às vontades dos comerciantes na região, ao mesmo tempo em que estava vinculado ao trabalho missionário. Este duplo vínculo estatal terminou por inviabilizar o trabalho de Illuminato Coppi na Missão de São Francisco, pois na hora de escolher pela manutenção do sistema de missões ao mesmo tempo em que permitia as trocas e o trabalho indígena com os comerciantes, o Estado terminava ficando com a garantia de expansão territorial, oferecida pelos comerciantes.

O segundo duplo vínculo em que Coppi estava envolvido dizia respeito ao modo como ele investia sobre os índios na tentativa de salvá- los do estado de “selvageria” em que se encontravam. Isto é, ao mesmo tempo em que procurava salvar os índios da violência física imposta pelos comerciantes na região, ele estava empenhado em discipliná-los para o trabalho e para o catolicismo, o que acarretava em um outro tipo de violência, esta de cunho simbólico. Coppi estava vinculado à sua ideia de salvar os índios do mal apresentado pelos comerciantes, mas impunha uma grande violência simbólica aos Tariana de Ipanoré. Violência simbólica voltada para a desconstrução de seus ícones sagrado-religiosos e, ao fim, de sua própria cultura.

Dans le document Tranches de vies. Robert Marquis (Page 61-66)