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Antes de definir com rigor aquela que irá ser a nossa base de intervenção, importa traduzir alguns pressupostos e condicionantes que fundamentam essa definição.
Do ponto de vista urbanístico pretende-se seguir uma conduta diferente da estratégia da Porto Vivo. Deu-nos a entender a reflexão anterior que a actuação que defende, quarteirão a quarteirão, vem contribuindo paulatinamente para a desaparição da cidade antiga, da sua morfologia e desenho originais; Além dos constrangimentos que implica este modelo de intervenção para o traçado urbano, podemos ainda assinalar, numa escala menor, a perda do sentido do lote, da casa e da sua tipologia original. Subentende-se nesta conduta que é suficiente a ―recuperação e preservação‖ da fachada para salvaguardar a simbologia daquelas habitações.
Além dos efeitos que tem esta estratégia no edificado, segundo observámos, pressupõem investimentos avultados, que acabam por condicionar inevitavelmente o acesso dos vários estratos sociais aos imóveis recuperados. A situação vê-se agravada com actual conjectura económica.
Por estas implicações consideramos preferível uma actuação que incide exclusivamente sobre o lote, e sobre a edificação que lhe corresponde; É uma estratégia que procura ser mais contida do ponto de vista do orçamento, e mais sensível à história da urbe antiga. Que não procura sobrepor-se-lhe.
Por sua vez, dentro do edifício, resumimos a intervenção a um só sobrado, e em particular a uma das frentes – o fogo. Em rigor, o seu perímetro é delimitado pelas paredes da caixa de escadas, da fachada – da rua ou tardoz – e pelas paredes de meação.
Partimos do pressuposto que o projecto de reabilitação deste fogo se pode repetir, com variações mínimas, na frente oposta e nos restantes pisos da construção.
Esta estratégia garante uma maior rentabilização e optimização do espaço da casa, permitindo, por outro lado, que a sua recuperação seja feita faseadamente, sem exigir um grande investimento inicial.
Para que seja exequível cumprir os objectivos que aqui apresentamos, procurar-se-á desenhar o protótipo de forma a que, recuperar uma célula do edifício não implique fazê-lo simultaneamente em todas as outras.
Importa assinalar que este tipo de apropriação não será uma novidade na casa burguesa do Porto. Na passagem do unifamiliar para o plurifamiliar já observámos uma operação semelhante, nomeadamente nos edifícios do antigo perímetro fortificado, de uma só frente, e escada transversal, encostada à parede oposta à fachada. Graças a esta posição do acesso, o espaço da habitação mantém-se contínuo e independente. A mesma autonomia não se consegue quando o fogo ocupa todo um piso de um edifício de duas frentes. Com este argumento também justificamos a nossa estratégia.
Por outro lado, o facto de não actuarmos sobre um caso concreto, mas num modelo abstracto, não nos permite ir muito além deste tipo de intervenção. A recuperação da fachada, os acessos, as paredes da edificação, a cave, o rés-do-chão ou a cobertura, são questões que não se enquadram no âmbito do exercício. Carecem de uma análise que não corresponde aos reais objectivos da prova.
De qualquer forma, partimos com a suposição de que intervimos em edifícios que apresentam, pelo menos, um estado de conservação médio. Caso contrário, não seria exequível pensar exclusivamente num modelo de actuação como aquele que propomos. Uma construção em mau estado, ou até em ruinas, implicam um outro tipo de análise, de princípios e de intervenção, que não se coadunam com a abordagem que aqui procuramos explorar.
Partindo desta consideração, não se criam grandes expectativas em relação às habitações localizadas dentro do antigo núcleo fortificado, em Miragaia e Santo Ildefonso, que enquadrámos no período compreendido entre o séc. XVII e meados do séc. XVIII. Por serem mais primitivas, e tendo sido alvo de constantes estratificações, pressupõem um elevado estado de degradação. Pelos mesmos motivos, nelas se torna mais difícil de encontrar espaços tipificados, tais como carece o exercício.
Por outro lado, como verificamos na análise destas tipologias e confirmamos na passagem do unifamiliar para o plurifamiliar, são construções que apresentam, na sua grande maioria, dimensões exíguas, com pouca iluminação e ventilação, e por isso também desajustadas da abordagem que se pretende.
Desta forma, concentramo-nos fundamentalmente nas edificações localizadas nas áreas de expansão da cidade, fora da muralha, durante e após a intervenção dos Almadas, e que estudamos no intervalo temporal que se estende desde os meados do séc. XVIII até às primeiras décadas do séc. XX.
No que diz respeito ao estado de conservação, por serem mais recentes, apresentam-se à partida menos degradadas e assim mais ajustadas aos nossos pressupostos.
Do mesmo modo, como também já verificámos na análise anterior, quando comparadas com os lotes do antigo núcleo amuralhado, apresentam dimensões mais generosas, a par de uma melhor ventilação e iluminação, permitindo assim condições de habitabilidade mais satisfatórias, e um maior espaço de manobra para a nossa intervenção.
Será então a partir da consideração destas habitações, que procuramos construir um modelo abstracto, uma casa tipo sobre a qual será aplicado o nosso protótipo. Organizamos esta construção em três momentos:
1) O enquadramento urbano. Importa precisar em concreto os limites da área onde nos propomos intervir, e dentro dela perceber em que zonas, e arruamentos poderão existir, com maior ou menor proeminência, o tipo de habitações sobre as quais pretendemos actuar.
2) O lote e a casa. Aqui procuramos definir a estrutura global das ditas habitações: por um lado acertar o dimensionamento do lote, a sua relação com o terreno e o arruamento; por outro, entrar na casa e estipular a sua organização interna, assim como o sistema construtivo, materiais e composição da fachada;
3) O fogo; Constituindo o objecto de estudo, interessa precisá-lo até ao detalhe construtivo. Partimos da suposição de que está vazio – sem quaisquer divisões interiores -, mas podemos acertar outras questões como os revestimentos das paredes, do pavimento, do tecto, os remates, as caixilharias exteriores e interiores;