VII. PLAN DE GESTION ENVIRONNEMENTALE ET SOCIALE
7.8 BUDGET DU PGES
No item anterior, discutimos sobre as quatro principais concepções de língua existentes, analisando como esse objeto de estudo foi enfocado de forma diferente ao longo dos tempos. No item que estamos iniciando, vamos dar continuidade a essa retomada histórica, abordando de forma breve como cada uma dessas concepções também gerou formas particulares de conceber o texto. Nosso objetivo é, pois, resgatar o movimento contínuo do fazer científico, verificando como a noção de texto veiculada nos estudos foi aos poucos sendo reelaborada e expandida.
Em relação à primeira concepção de língua – língua como expressão do pensamento –, vemos que o texto era sinônimo de expressão linguística e correspondia a uma simples exteriorização ou tradução do pensamento do indivíduo por meio de um código de signos exteriores a ele. Como o enunciador expressa o que pensa, a organização textual é resultado de uma maneira particular de organizar suas ideias. Sendo assim, o texto nada tem a ver com o leitor ou com o ouvinte, apenas com o enunciador. Concluímos, pois, que os estudiosos ligados a essa linha teórica estavam mais preocupados em compreender os princípios que regem o pensamento linguístico do que em se debruçar sobre os textos que dele resultam.
Com relação à segunda concepção de língua – língua enquanto sistema –, defendida por Saussure (1977), vimos que os estudos sobre esse objeto de análise tinham como foco as unidades que compunham o sistema (a saber, os fonemas, os morfemas e as orações), bem como as regras que as regiam. O texto como um todo (isto é, a fala ou a parole) não era alvo das investigações, por ser considerado uma entidade de uso desse sistema e, como tal, individual e sempre diferente, por estar sujeito às intervenções do indivíduo que o produz. Dessa forma, seu estudo seria muito difícil, na medida em que a fala não se deixa classificar nem é portadora de uma unidade. Assim, só havia espaço para o sistema, que, por ser acabado, fechado e homogêneo, era perfeitamente passível de estudo; essas características, para Saussure, estavam longe de serem atribuídas ao texto. Marcuschi (2008) comenta essa posição estruturalista- saussuriana quando afirma que, “No geral, os estudos dessa linha não ultrapassam a unidade máxima da frase, nem se ocupam do uso da língua. Na maioria dos casos,
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trabalham-se aqui as unidades isoladamente, fora de qualquer contexto.” (p. 59-60). Podemos, então, concluir, tomando emprestadas as palavras de Kleiman (2002), que o texto para Saussure era apenas um conjunto de elementos gramaticais.
A terceira concepção de língua – língua como instrumento de comunicação –, difundida por Jakobson (1982), avançava em relação às concepções anteriores, pois aqui já se considerava a língua em uso e, portanto, o estudo e a análise de textos reais. Entretanto, pode-se dizer que ainda se tratava de uma visão simplista do processo interlocutivo. Segundo Kleiman (2002), para os adeptos dessa concepção, o texto era apenas um conjunto de palavras que deviam ter seus significados interpretados um a um e, ao final, somados para se chegar à mensagem pretendida. Complementando, a autora afirma ainda que o texto era visto como um simples depósito de mensagens e informações a serem transmitidas do emissor ao receptor. Resultado do processo comunicativo, o texto era um produto acabado, na medida em que o emissor construía sozinho um único sentido para ele; esse sentido, por sua vez, deveria ser apenas extraído pelo receptor, atividade esta que só dependia do domínio de um mesmo código linguístico por ambos os sujeitos envolvidos na comunicação para ser executada sem dificuldade e com êxito.
Como podemos perceber, o texto em si só foi alvo de estudos a partir da terceira concepção de língua. Mesmo assim, uma noção de texto como mensagem é muito reducionista e não contempla os muitos aspectos que envolvem esse objeto. Resultante de um olhar ampliado sobre o texto a fim de apreender melhor a sua complexidade, a quarta concepção de língua – língua como interação –, desenvolvida por Bakhtin (1997; 2002), aponta para um conceito que contempla pelo menos três dimensões: a semântica/conceitual, a formal/linguística e a pragmática. Para discutirmos sobre essa concepção de texto, traremos as reflexões feitas por Bronckart (1999), Marcuschi (2008), Costa Val (2006), Koch (2007) e Geraldi (1997).
Marcuschi (2008) nos lembra que a comunicação linguística não se dá por meio de unidades isoladas da língua, como os fonemas, os morfemas ou as palavras soltas, mas através de unidades maiores, que vão além da frase – os textos. É nesse sentido que Costa Val (2006) aponta o texto como a “unidade linguística comunicativa básica”.
A partir dessa afirmação, a autora nos mostra as três características fundamentais de todo texto, corroboradas pelos demais autores citados acima.
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A primeira delas diz respeito ao fato de ele constituir uma unidade semântica. Assim, para que uma manifestação linguística seja considerada um texto, ela precisa ser reconhecida pelos participantes da interação como um todo significativo. Pois, como salienta Bronckart (1999), “cada texto exibe um modo determinado de organização de seu conteúdo referencial.” (p. 71).
A segunda propriedade básica do texto é que ele é uma unidade formal ou material. Isso porque, para que um texto seja reconhecido como tal, seus constituintes linguísticos devem estar integrados e se apresentar como um todo coeso. É nesse sentido que Marcuschi (2008) aponta o texto como um tecido estruturado. Koch (1997) também chama atenção para a organização dos componentes linguísticos dentro do texto quando o define como uma “manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos co-enunciadores, durante a atividade verbal (....)” (p. 27). Bronckart (1999) é outro autor que corrobora essa ideia, na medida em que afirma: “cada texto é composto de frases articuladas umas às outras de acordo com as regras de composição mais ou menos estritas.” (p. 71).
A esse respeito, Geraldi (1997) comenta:
uma mera justaposição de sequências verbais escritas não chega a constituir um texto; quando o processo de construção de um texto aparentemente se faz pela justaposição de sequências verbais sem ligações entre si, no processo de compreensão de tais textos é preciso buscar nos espaços “em branco” as ligações possíveis (...) só buscamos preencher espaços em branco de sequências justapostas se supomos que elas se apresentam como partes de um todo. (p. 99). O autor chama atenção para o fato de que as sequências verbais dentro de um texto devem estar interligadas e não apenas justapostas. Salienta, porém, que, mesmo que essas ligações não se apresentem de forma explícita, elas podem ser recuperadas pelo leitor, que se encarrega de unir as sequências e construir uma unidade linguística para o texto.
O terceiro atributo de um texto caracteriza-o como uma unidade de linguagem em uso. Koch (2007) explica que os indivíduos lançam mão de diversos tipos de atividades para se comunicarem e que o texto é um dos instrumentos usados para esse fim: “[ele é] (...) parte de atividades mais globais de comunicação, que vão muito além do texto em si, já que este constitui apenas uma fase desse processo global.” (p. 26). Vemos, pois, que os textos se inserem no nosso cotidiano para viabilizar as mais
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diversas práticas sociais. Corroborando essa idéia, Marcuschi (2008) considera o texto um fenômeno linguístico de caráter enunciativo e não meramente formal, ao mesmo tempo em que prefere defini-lo como prática, evento ou atividade; segundo o autor, o texto não é um mero objeto ou artefato empírico. Koch (2007) salienta que, ao ser tomado como prática, o texto deixa de ser entendido como uma estrutura acabada (ou seja, um produto), e passa a ser abordado no seu processo de planejamento, construção e socialização.
Koch (2007) afirma ainda que os textos “são resultados da atividade verbal de indivíduos socialmente atuantes, na qual estes coordenam suas ações no intuito de alcançar um fim social, de conformidade com as condições sob as quais a atividade verbal se realiza.” (p. 26). Os textos são, portanto, frutos de uma construção partilhada entre aquele que fala/escreve e aquele que lê/ouve. Além disso, eles sempre cumprem determinadas funções discursivas nas situações sociocomunicativa que integram. Conforme essa visão, os fatores pragmáticos (ou seja, as peculiaridades de cada ato comunicativo, como o contexto sociocultural em que se insere o texto) assumem fundamental importância para a construção dos sentidos. É nesse sentido que Bronckart (1999) afirma que “cada texto está em relação de interdependência com as propriedades do contexto em que é produzido.” (p. 71).
Marcuschi (1983) sintetiza estas três propriedades básicas de todo texto quando afirma que a Linguística Textual:
Deve preservar a organização linear que é o tratamento estritamente linguístico abordado no aspecto da coesão e, por outro, deve considerar a organização reticulada ou tentacular, não linear, portanto, dos níveis de sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas. (p. 13).
De modo a ampliar e detalhar esses três aspectos, Costa Val (2006), Koch e Travaglia (1999) e Marcuschi (2008) nos apresentam os sete elementos sistematizados por Beaugrande e Dressler (1983; 1981; 1981, respectivamente) que fazem com que um texto seja reconhecido como tal. Esse conjunto de características, denominado de textualidade, contempla os três âmbitos inicialmente apontados: a) o aspecto semântico, que diz respeito à “coerência”; b) o aspecto formal, que inclui a coesão; c) o aspecto sociocomunicativo, no qual estão inseridas a intencionalidade, a aceitabilidade, a
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situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade. A seguir, vamos comentar cada um desses sete aspectos responsáveis pela textualidade de um texto.
Koch e Travaglia (1999) explicam que a coerência se estabelece na interação, na medida em que ela é o que faz com que um texto faça sentido para os interlocutores numa dada situação comunicativa. Dessa forma, ela tem a ver com a interpretabilidade e a inteligibilidade do texto. Koch (2007) explica melhor esse aspecto ao afirmar que
Um texto se constitui enquanto tal no momento em que os parceiros de uma atividade comunicativa global, diante de uma manifestação linguística, pela atuação conjunta de uma complexa rede de fatores de ordem situacional, cognitiva, sociocultural e interacional, são capazes de construir, para ela, determinado sentido. (p. 30).
Na medida em que for construído pelo menos um sentido adequado à situação, o texto lido ou ouvido será considerado coerente pelos interlocutores. A coerência assim estabelecida é que os leva a identificar um texto como texto.
Corroborando essa ideia, Costa Val (2006) afirma que o texto não significa apenas por si mesmo: seu sentido é construído não só pelo produtor, mas também pelo receptor, e depende de um compartilhamento de conhecimentos entre eles. Segundo a autora, um texto é aceito como coerente pelo indivíduo que o processa (seja através da leitura ou da escuta) quando os sentidos trazidos por ele são compatíveis com o seu conhecimento de mundo. O leitor ou ouvinte precisa, assim, possuir os conhecimentos necessários à interpretação do texto para poder concebê-lo como coerente.
Koch e Travaglia (1999) consideram ainda que a coerência é o estabelecimento de uma unidade de sentido para o texto. Nesse sentido, ela se caracteriza como global e hierarquizadora, na medida em que os sentidos que constituem o texto se subordinam ao sentido global e unitário. Afirmam ainda que a coerência é a continuidade de sentidos de um texto, resultado de conexões conceituais entre os seus elementos. Entretanto, como salientam esses autores, a coerência não tem nada a ver com a superfície linguística do texto: ela é “profunda, subjacente à superfície textual, não linear, não marcada explicitamente na estrutura de superfície.” (p. 12).
Podemos, então, concluir que a coerência de um texto é ao mesmo tempo interna e externa, semântica e pragmática. A coerência é interna ou semântica na medida em que decorre das relações estabelecidas entre os conceitos que constituem o texto. Da mesma forma, a coerência é externa ou pragmática porque depende de diferentes fatores
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socioculturais: ela é resultado de uma série de processos cognitivos empreendidos pelo usuário por meio dos quais ele estabelece uma compatibilidade entre o material conceitual e o seu conhecimento de mundo; a coerência externa também sofre influências de elementos interpessoais, como o relacionamento entre interlocutores, suas intenções comunicativas etc. “Enfim, cada texto apresenta mecanismos de textualização e mecanismos enunciativos destinados a lhe assegurar a coerência (...)” (BRONCKART, 1999, p. 71).
A coesão, por sua vez, é a forma como os conceitos e relações que não se manifestam claramente no texto são expressos na sua superfície. É nesse sentido que Costa Val (2006) afirma que a coesão é a “manifestação linguística da coerência” (p. 6). Ela é construída e explicitamente revelada por meio de mecanismos gramaticais e lexicais (marcas linguístico-formais).
Apesar de a coesão ser primordialmente de ordem sintática e gramatical, concordamos com Halliday e Hasan (1976, apud KOCH e TRAVAGLIA, 1999) quando eles afirmam que ela é também de ordem semântica, pois é responsável pela relação entre pelo menos dois elementos do texto, os quais dependem um do outro para serem compreendidos e fazerem sentido. A coesão é, pois, a ligação entre os elementos superficiais do texto, ou seja, o modo como frases e/ou partes do texto estão relacionadas. De caráter linear (uma vez que se manifesta na organização sequencial do texto), a coesão é responsável pela unidade formal do texto.
Embora alguns autores apresentem a coesão e a coerência como conceitos opostos e distintos (KOCH e TRAVAGLIA, 1999), a separação entre eles não é tão nítida como se pensa. Esses dois elementos são responsáveis pela interrelação semântica entre os elementos que compõem o texto, processo denominado por Costa Val (2006) de “conectividade textual”: enquanto a coerência constrói o nexo entre os conceitos, a coesão o faz entre os elementos linguísticos. A autora salienta ainda que o nexo é primordial para que uma sequência de frases seja considerada um texto, embora não seja necessário ele vir explícito na superfície textual.
Além disso, de acordo com Koch e Travaglia (1999), é consenso entre os autores a ideia de que a coesão contribui muito para o estabelecimento da coerência, mas não a garante, sendo necessário recorrer a elementos externos ao texto (os conhecimentos de mundo compartilhados entre os interlocutores, a situação comunicativa etc.). A respeito
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disso, Costa Val (2006) explica que os mecanismos coesivos são inegavelmente úteis para a eficiência do texto. Isso porque,
Além de tornar a superfície textual estável e econômica, na medida em que fornecem possibilidades variadas de se promover a continuidade e a progressão do texto, também permitem a explicitação de relações que, implícitas, poderiam ser de difícil interpretação. (p. 8-9).
Costa Val mostra que o nexo é facilmente recuperável pelo leitor/ouvinte em muitas situações, mesmo não vindo expresso. Entretanto, em outras ocorrências, se a relação semântica desejada pelo autor não estiver expressa no texto, o leitor ouvinte pode lhe conferir um sentido distinto. Assim, como ressalta Charolles (1987, apud KOCH e TRAVAGLIA, 1999), a relativa determinação semântica das marcas linguísticas de coesão faz com que o papel do leitor/ouvinte como intérprete de seus sentidos seja muitas vezes decisivo.
Dessa forma, tomando as palavras de Bernárdez (1982, apud KOCH e TRAVAGLIA, 1999), podemos concluir que, metodologicamente, é importante separarmos os conceitos de coesão e coerência, mas sem esquecer que eles são dois aspectos interligados. Além disso, é importante salientar que ambos são igualmente importantes para a constituição do texto, não sendo um mais relevante que o outro. Basta lembrarmos que, para Bronckart (1999), a coesão e a coerência são os principais elementos constituintes no texto, como fica nítido na concepção de texto por ele explicitada: “a noção de texto designa toda unidade de produção de linguagem que veicula uma mensagem linguisticamente organizada e que tende a produzir um efeito de coerência sobre o destinatário.” (p. 71 – grifo do autor).
Além da coerência e da coesão, Beaugrande e Dressler (1983, apud COSTA VAL, 2006; 1981, apud KOCH e TRAVAGLIA, 1999) apontam ainda a intencionalidade e a aceitabilidade como elementos responsáveis pela textualidade. Para que uma manifestação linguística constitua um texto, é necessário: a) de um lado, que o escritor/falante se esforce para produzir um texto coerente e coeso, que satisfaça as suas intenções comunicativas (intencionalidade); b) de outro, que o leitor/ouvinte se esforce para aceitar a ocorrência linguística lida/ouvida como um texto coerente e coeso, que tenha utilidade e relevância para a situação comunicativa vivenciada (aceitabilidade). Koch e Travaglia (1999), remetendo a autores como Charolles (1987), Grosz (1981) e Brown e Yule (1983), afirmam que, seguindo esses dois princípios, os interlocutores
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mantêm sempre uma atitude cooperativa entre si, agindo como se todo texto fosse coerente.
Grice (1975, 1978, apud COSTA VAL, 2006) traçou “máximas conversacionais”, ou seja, estratégias que os produtores de texto põem em prática para obter a aceitabilidade do seu interlocutor. Dentre elas estão a cooperação (preocupação do produtor em atender aos interesses do leitor/ouvinte), a qualidade (autenticidade), a quantidade (informatividade), a pertinência/relevância, além de precisão, clareza, ordenação e concisão das informações.
Entretanto, é comum os produtores, intencionalmente deixarem de cumprir alguma dessas máximas. Se essa intenção for percebida pelo leitor/ouvinte, ela passa a assumir uma determinada função e acarretará um efeito de sentido importante para a situação comunicativa. Isso porque, ainda segundo Grice (1975, 1978, apud COSTA VAL, 2006), o indivíduo que processa o texto prefere acreditar que o não cumprimento de alguma das máximas conversacionais seja intencional, em lugar de aceitar que o produtor produziu um texto incoerente. Charolles (1978, apud COSTA VAL, 2006) corrobora essa ideia ao afirmar que o leitor/ouvinte sempre dá um crédito de coerência ao texto, supondo que este seja coerente, esforçando-se para construir essa coerência e colocando-se totalmente a serviço da compreensão; para tanto, usa uma série de estratégias, como o preenchimento de lacunas e a elaboração de deduções com base em seus conhecimentos de mundo. Ao mesmo tempo, o produtor do texto sabe dessa tolerância existente por parte do leitor/ouvinte e, ao elaborar seu texto, o faz contando com ela. Costa Val (2006) salienta, porém, que essa tolerância varia muito de acordo com o nível de conhecimento sobre o assunto por parte do recebedor e da formalidade da situação. Acrescentamos também que ela deve variar em decorrência do gênero textual em jogo.
Koch e Travaglia (1999) dizem ainda que esses dois princípios podem ser tomados em sentido restrito e em sentido amplo. O sentido restrito é o mais comumente abordado pelos autores e diz respeito aos aspectos até o momento discutidos. Já em sentido amplo, a intencionalidade se refere a todas as formas por meio das quais os locutores/escritores utilizam os textos para pôr em prática suas intenções comunicativas. Da mesma forma, para a aceitabilidade o sentido amplo diz respeito à disposição por parte do destinatário de aceitar o discurso emitido pelo produtor e compartilhar do seu propósito comunicativo.
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A informatividade, por sua vez, indica em que medida as informações presentes em um texto são esperadas/previsíveis/conhecidas (ou não) pelo indivíduo que irá interpretá-lo. Assim, quanto mais previsível o texto for para o leitor/ouvinte, menos informativo ele será; da mesma forma, quanto menos previsível, mais informativo.
Costa Val (2006) argumenta que um texto que possua menos informações conhecidas e por isso tenha um grau maior de informatividade se mostra mais interessante e envolvente para o leitor, ainda que seu processamento ofereça mais trabalho. Entretanto, se toda a informação de um texto for inesperada, exigirá do interlocutor um esforço muito grande para compreendê-lo, o que pode fazer com que ele rejeite o texto por interpretá-lo como incoerente. Nesse sentido, a autora julga que os textos devem ter um nível de informatividade médio: deve-se trazer elementos já conhecidos, que permitam o processamento imediato, mas também inserir elementos novos, que dependam de um processamento mais trabalhoso e que tragam a novidade para o texto. Vemos, pois, como concluem Koch e Travaglia (1999), que a informatividade pode facilitar ou dificultar a coerência de um texto.
Costa Val (2006) complementa a discussão dizendo que, para um texto possuir um bom nível de informatividade, ele precisa também atingir a suficiência de dados: ou seja, faz-se necessário explicitar os dados imprescindíveis, que não possam ser interpretados apenas pelo leitor/ouvinte.
Já a intertextualidade diz respeito às diversas formas por meio das quais um texto depende do conhecimento prévio, por parte dos interlocutores, de outros textos já existentes. Dionísio (2006) salienta que, ao lermos ou escrevermos, sempre fazemos referência ao conteúdo, ao estilo ou à forma composicional de outros textos para atingirmos determinados objetivos. Assim, podemos concluir que a intertextualidade se apresenta como uma propriedade constitutiva de todo e qualquer texto. Para ratificar essa ideia, basta relembrarmos da discussão trazida por Bakhtin (1997) e exposta no item anterior – segundo esse autor, todas as palavras e expressões emitidas por nós já