cARTRTDGE TApE INsrÀLr/.TroN oF THE ExTENDED iRMx@ n opnrutrrc svsrum
STEP 3: Booting From The Start-up Syslem Boot Diskette
Para que o evento “Nova turma de graduação” seja compreendido, é preciso identificar os actantes (atores humanos e não humanos) em ação por meio de suas controvérsias, os relatos que proporcionam e seus rastros, o que significa um intenso processo de interação entre o
pesquisador e os atores (humanos e não humanos). Law (2002) sugere que o pesquisador deve partir de um quadro vazio, sem definições a priori, pois são os atores (redes) que devem construir as teorias e não o pesquisador. Isso não quer dizer que o pesquisador deve ser isento, ao contrário, a TAR não só não acredita na imparcialidade como trata da inadmissibilidade da neutralidade que deve ser não apenas desestimulada, mas desconsiderada, pois a participação dos pesquisadores destaca-se até mesmo a partir da escolha da controvérsia e do objeto, desta forma, o “olhar do analista age sobre a controvérsia, assim como o cientista age sobre o fenômeno observado” (LATOUR, 2012). A objetividade para Latour (2012), portanto, seria “o conjunto mais ou menos estável de olhares sobre um determinado objeto ou fato ‘social’”.
Como demonstra Venturini (2010), a TAR não restringe as perspectivas, não se deve limitar a observação a uma única teoria ou metodologia, o quadro vazio não significa a inadmissibilidade de perspectivas, mas como o foco deve ser na performance dos actantes, os pesquisadores devem procurar a multiplicidade para observar os atores de tantos pontos de vista quanto for possível, pois a TAR propõe “oferecer um panorama mais amplo ou mais claro sobre paisagens sociais”. Ao contrário às teorias tradicionais, a TAR “encoraja a promiscuidade teórica e metodológica”, pois deve-se multiplicar os pontos de observações, teorias e métodos em prol da objetividade, “quanto mais numerosas e parciais forem as perspectivas a partir das quais um fenômeno é considerado, mais objetiva e imparcial será sua observação”.
O método da TAR propõe conseguir as melhores descrições dos atores e suas ações a fim de se identificar as redes sociotécnicas em ação. Para Latour, deve-se “seguir os atores”, a partir do que dizem por meio de suas de suas descrições e de seus rastros e propõe uma metodologia bastante didática (VENTURINI, 2010), a Cartografia de Controvérsias (CC).
A Cartografia de Controvérsias foi elaborada por Bruno Latour para simplificar a compreensão da teoria e preparar os estudantes universitários para a investigação do debate sociotécnico da contemporaneidade (VENTURINI, 2010). A CC é uma versão didática da Teoria Ator-Rede. Muitas vezes a CC e a TAR se confundem, mas para Lemos (2013, p. 111), “se a Teoria Ator-Rede é uma teoria, a Cartografia de Controvérsias é sua metodologia”, revelando a intrínseca relação entre ambas.
A Cartografia de Controvérsias, devido ao seu alcance e o interesse despertado, extrapolou os objetivos iniciais como seu surgimento para fins didáticos, o método foi adaptado e desenvolvido em várias universidades na Europa e os EUA, tornando-se um método de pesquisa completo (VENTURINI, 2010). Devido ao grande volume de relatos e rastros que provoca, a fim de torná-la visualmente representativa, seus autores propuseram o uso de mapas
sobre os deslocamentos apontados pelos rastros a partir da identificação do que está em ação e dos agenciamentos oriundos das descrições dos actantes e que devem, portanto, ser representados nos diagramas que evidenciam as relações de força que compõem as redes sociotécnicas (LEMOS, 2013, p. 111):
A CC é um conjunto de técnicas para explorar e visualizar polêmicas, questões emergentes em determinados agrupamentos, o movimento, a circulação da ação a fluidez das mediações, revelando as diversas dimensões que compõem uma rede sociotécnica (LEMOS, 2013, p. 110)
Suas técnicas auxiliam no processo de identificação e registro das questões envolvidas na produção das questões de interesse (LATOUR, 2012). Embora as controvérsias possam ser rastreadas após cessarem, como fizeram Latour, Mackenzie, Callon e Hughes90, recomenda-se que a cartografia seja elaborada antes que as controvérsias se tornem caixas-pretas.
Ao sugerir que os pesquisadores devem seguir os rastros, Latour (2012) reforça os modelos etnográficos que influenciaram a TAR, como etnografia de Garfinkel, embora, o próprio Latour defenda que, por ser uma teoria relativista, não há uma metodologia específica para a TAR, mas sim várias, e cabe ao pesquisador identificar quais são os métodos mais adequados para seguir e exibir os atores e os agenciamentos identificados nas controvérsias. Latour ressalta que a Cartografia de Controvérsias não deve ser entendida pela rigidez característica das metodologias tradicionais, pois a CC “não é uma metodologia, mas sim um guia de viagem” (LATOUR, 2006), que permite ao pesquisador poder navegar pelos fluxos e pelos agenciamentos descrevendo os rastros.
Para Latour (2012), os pesquisadores devem “apenas observar as controvérsias e dizerem o que veem” (VENTURINI, 2010, p. 259). Conforme Venturini (2010, p. 259), esta afirmação evidencia dois problemas: o primeiro está quando o autor começa a frase com a afirmação “apenas”, que revela que a CC “não requer um método ou uma teoria específica, um ‘frame’ que balize a priori o olhar sobre os actantes”, o que remete à ideia de “flexibilidade metodológica”, vinda do empirismo e do pós-estruturalismo, e também à própria crítica que Latour (2012) faz da sociologia tradicional, que depende de seus “frames e estruturas rígidas”.
90 Latour, Mackenzie, Callon e Hughes, pesquisadores da TAR, utilizaram as técnicas da teoria e sua metodologia
para estudar polêmicas antigas para as descobertas científicas. Latour, a descoberta do processo de pausterização, pela atenuação da bactéria antraz por Pasteur ou pela descoberta dos peptídeos do cérebro por Guillemin; Mackenzie pesquisou o desenvolvimento do giroscópio dos míssies intercontinentais para a marinha dos Estados Unidos; Hughes descreveu o desenvolvimento do filamento da lâmpada incandescente por Thomas Edison; e Callon descreveu o surgimento os eletrodos das pilhas de combustível (LATOUR, 2013, p. 9).
O segundo problema surge em decorrência do primeiro, os pesquisadores não podem fingir serem imparciais, pois seguem alguma diretriz teórica ou metodológica, desta forma, colaboram para controvérsia que será estudada e em muitos casos eles serão também atores-redes.
Ao concentrar-se nas controvérsias, a TAR privilegia a busca pelos atores em ação, pois assim, revelam a mobilidade, a transitoriedade e a temporalidade das redes que possibilita serem os rastros identificados e seguidos. O social, portanto, deve ser considerado constituído a partir dos rastros, quando se evidencia a mediação (ação). Caso contrário, se há estabilização, não há ação nem controvérsia, portanto, existem apenas intermediários e caixas-pretas.
Venturini (2010, p. 801-802) apresenta três cuidados a serem tomados pelo cartógrafo durante o mapeamento de controvérsias: (a) adaptação: o pesquisador deve manter-se atento para que os atores-redes sejam ouvidos, serão eles a contarem as histórias e não o pesquisador; (b) redundância: a fim de superar as limitações sobre as versões de uma mesma história por parte dos atores, deve-se elaborar diferentes representações, com cada qual explorando aspectos específicos. A visão conjunta dos mapas superaria as visões parciais de forma a trazer toda a riqueza do debate. A repetição permite que cada representação contribua para a compreensão das demais; e (c) flexibilidade: as disputas coletivas só podem ser descritas por mapas que são flexíveis o suficiente para se ajustarem ao seu dinamismo, portanto, a rastreabilidade entre as diferentes translações surge dos mapas de representação para o fenômeno original e devem compô-lo novamente. Esse aspecto é relevante, pois ao cartografar faz-se a agregação de informações, entendida como poucos elementos representando muitos outros. Esse processo deve ser feito com cuidado, garantindo-se a reversibilidade do processo, evitando-se o descarte de algo importante.
Por fim, Venturini (2010) recomenda que o pesquisador deve “ouvir as vozes dos atores mais do que suas próprias presunções”, pois os atores são mais bem informados sobre o assunto, são eles que estão imersos nas controvérsias, e o pesquisador só colaborará com um ponto de vista externo, portanto, não se deve negligenciar o que os atores dizem.
6.2.1. Em busca de boas descrições
A TAR busca criar as condições para que os atores contem suas histórias e, assim, permitir a construção dos relatos que evidenciarão os erros e acertos das inovações. O desafio para o pesquisador deve ser o de gerar boas descrições que possibilitarão aos pesquisadores construir bons relatos a partir das narrativas pelos atores. Por ser a TAR uma teoria completa,
o pesquisador deve buscar as explicações nos relatos dos autores e não procurar os saltos explicativos. Os bons relatos tornam desnecessária a tarefa do pesquisador de elaborar explicações que proporcionarão “saltos explicativos, ignorando as dobras que a descrição permite” (ROCHA, 2015, p. 118).
Entretanto, como ressalta Rocha (2015), o problema é que alguns pesquisadores que utilizam a TAR concentram-se nas descrições, mas elaboram as explicações a partir de outras teorias, o que acarreta em explicações fora do contexto, pois “o fenômeno não é dado de antemão” como fazem as teorias sociais tradicionais, “mas precisa ser seguido, rascunhado, (re)ordenado” (ROCHA, 2015, p. 118).
Bons relatos são aqueles que demonstram como o poder é construído e operado por meio das práticas sociais (ROCHA, 2015, p. 121), as descrições devem demonstrar “se realmente o poder e a dominação são explicados pela multiplicidade de objetos aos quais se atribui um papel capital e que são transportados por veículos empiricamente visíveis” (LATOUR, 2012, p. 123), pois as limitações em conseguir bons relatos resulta na crítica que a TAR recebe por supostamente não conseguir explicar “as relações de poder e sua distribuição desigual entre os actantes” (ROCHA, 2015, p. 118).
A questão não envolve em desconsiderar os estudos sobre emissão, sobre os meios, sobre a recepção ou sobre a cultura midiatizada (capítulo 4), o que a TAR considera é que os eventos são multicausais devido às redes sociotécnicas, portanto, não se deve explicá-los a
priori por meio de teorias que definem o ponto de partida e o ponto de chegada, a partir da
relação de causa e efeito. O desafio é, prioritariamente, conseguir boas descrições e evitar o salto explicativo que serve para “justificar a posição de analistas” (ROCHA, 2015, p. 118), o que resulta no trabalho do pesquisador “em desenvolver as redes, os modos como os atores engendram seus mundos sociais e menos na tentativa de pensar os fenômenos de modo prévio. O que ocorre com muitas pesquisas em comunicação” (ROCHA, 2015, p. 118).
Para registrar os rastros, Latour (2012) recomenda a adoção de quatro blocos de notas, ou fontes de registros, cada um com sua função:
(a) o primeiro destina-se ao log da pesquisa, quando se documentam compromissos, reações das pessoas ao estudo, surpresas em campo;
(b) o segundo faz a junção de informações em softwares ou cartões em ordem cronológica ou em categorias. Trata-se do registro efetivo daquilo que foi observado;
c) outro é reservado para redação livre, registrando ideias, parágrafos, metáforas e palavras em sentido figurado, sobre o entendimento dos dados obtidos, eliminando-se a separação de um momento para pesquisar e de reportar;
(d) o quarto para registro dos efeitos das anotações nos atores.
6.2.2. Seguindo os rastros
Se por um lado os humanos falam e podem contar as histórias sobre a ação que constitui o fenômeno enquanto a ação ocorre, os não humanos, até recentemente, não eram percebidos plenamente. Entretanto, as coisas mudaram com a ubiquidade das TIC, que, por sua própria concepção, devido à lógica das redes, proporcionam fluxos de dados, ou seja, deixam seus rastros nos dispositivos que compõem as TIC:
O rastro é uma marca produzida por dispositivos de percepção: sejam eles óticos, cognitivos, digitais. Rastros são produzidos, seja a partir de instrumentos de inscrição, seja a partir de teorias ou metodologias de escuta” (LEMOS, 2013, p. 119)
A perspectiva muda, os não humanos não apenas agem, como passam a contar histórias de forma inteligível aos humanos. Os rastros digitais tornam-se componentes importantes para se compreender as dinâmicas das associações nas redes sociotécnicas, assim como permitem mapear os agenciamentos nas TIC, por meio de técnicas que ajudam a compreender os fluxos de dados constituídos nas redes digitais, assim contribuem para conhecer os eventos sendo instituídos nos agenciamentos compostos pelos sistemas de informação e dispositivos conectados. Os dados são gerados pelos sistemas de informação, ambientes controlados, por meio de dados estruturados91, mas também com os dados não estruturados, como conversas
completas ou fragmentos, e até mesmo restos de informações que contribuem para o big data. É a lógica do big data (capítulo 3). Os computadores, os telefones celulares e smartphones, os datacenters, os softwares, os sistemas de informação, os serviços de internet e de telefonia móvel, o comércio eletrônico, as mídias sociais, os sites de relacionamento, os blogs, os buscadores, os canais de vídeo, serviços de e-mails, newsletters, chat, chatbots, atualmente, as tecnologias digitais ao gerarem dados, e esses dados compõem informações relevantes para constituir os rastros dos atores-redes, o que de certa forma, ajuda no conceito
91 Dados estruturados são aqueles dados capturados pelos sistemas de informação a partir dos critérios elaborados
por seus construtores. Em geral, são armazenados em bancos de dados para que sirvam de fácil consulta e permitam que os dados sejam utilizados ou reutilizados de acordo com o negócio.
do big data não apenas como uma nova fonte de informação, mas como um “ecossistema informacional” de interesse estratégico para organizações como fonte de informação que permitem rastrear as controvérsias e especial a fim de “dar voz” aos não humanos.
6.2.3. Identificando os atores
O ponto de partida é identificar os actantes (atores humanos e não humanos em ação), um “nó” da rede, um ator que possibilite o começo do seguimento das tramas das redes, a traçar as associações que compõem o evento. Como a TAR não é arbitrária, pode ser um humano ou um não humano, desde que tenha figuração92 e, portanto, componha o evento “Nova turma de graduação”. Este é um dos motivos pelo qual os atores humanos ou não humanos não devem ser definidos a priori, mesmo que se conheça de antemão os públicos de interesse93.
Figura 10: Exemplo de mapeamento dos atores que atuam para que o evento “Nova turma de graduação” ocorra.
Elaborado pelo autor.
Mais que uma imagem estática, uma imagem congelada que representa uma determinada ação em um momento específico, a Figura 10 remete aos arranjos provisórios que em determinado momento, representam as redes que podem atuar em determinada ação, mas que podem não ser mobilizadas para a próxima ação, pois os atores mudam a cada ação e os agenciamentos refletem esta mudança. Estas associações formam redes que muitas vezes não são compreendidas pelo conjunto de elementos heterogêneos, mas são que percebidas pela sua
92 Figuração é uma expressão do teatro utilizada por Latour (2012; LEMOS, 2013) para designar o papel de um
ator no evento, embora ele possa ser tanto um mediador quanto um intermediário (ver capítulo 2).
93 A fim de se evitar a expressão público-alvo corriqueira nas práticas da comunicação e do marketing e nas
organizações, herdeira da tradição positivista-funcionalista, públicos de interesse será utilizado, pois interesse demonstra um sentido mais amplo, visto não determinar a priori interesse a intencionalidade de um lado ou do outro.
simplificação, para a TAR, são as “pontualizações”, ou seja, a redução da rede a um ator pontual (LAW, 2002), que será percebida como um ator único, daí a dificuldade de se constar que os eventos são multicausais, pois quando o candidato prospect (expressão amplamente utilizada no marketing educacional), por exemplo, se depara com um anúncio da IES, ele não perceberá as redes sociotécnicas que produziram este componente da rede.
A questão é explicada pelo princípio monadológico, que, segundo os autores, deve ter surgido com Pitágoras, mas seu conceito foi desenvolvido por Leibniz e, posteriormente, contextualizado por Gabriel Tarde, em quem Latour (2012, p.34-36; 347) buscou para aplicá- lo à TAR. Nele, deve-se considerar não existir a distinção de macro e micro, o macro não abrange o micro, mas que o micro é composto por uma “proliferação de entidades incomensuráveis”, uma mistura de micro e macro, as mônadas, que se manifestarão nos actantes e nas redes sociotécnicas únicas. Esta abordagem ajuda a destrinchar algumas questões, por exemplo, por que a crise econômica afeta alguns e outros não, o que indicaria que os eventos, sendo multicausais, teriam como um dos fatores a crise econômica que se tornaria um actante a afastar um ator candidato da inscrição para o vestibular.
Portanto, uma ação é um evento único, decorrente do agenciamento sociotécnico composto pelos actantes que se mobilizam para realizá-lo, mas que não pode ser replicada exatamente da mesma forma no momento seguinte. Por exemplo, um aluno que mora do lado da IES está em condições bem diferentes daquele que mora num bairro distante ou mora em outra cidade. As redes às quais o primeiro faz parte serão distintas das redes do segundo aluno, provavelmente devido ao esforço para se abordar um e outro, mesmo que se constatem várias similaridades entre eles, o esforço comunicacional deverá ser maior. Por outro lado, os atores não humanos contribuem que a IES alcance ambos, e estas variam devido aos recursos sociotécnicos a serem disponibilizados para a tarefa. Entretanto, o esforço só poderá ser medido a partir dos relatos dos atores, não a priori, pois eles podem ser influenciados de diversas maneiras pelas ações da IES.
A Figura 10 é um exemplo dos atores que podem compor o evento “nova turma de graduação”. É importante ressaltar que o gráfico é apenas um esboço sobre quais atores podem ser identificados pela cartografia. Embora seja imprescindível conhecer todos os atores humanos em não humanos que compõem um fenômeno, a ênfase, segundo Latour (2012), deve ser nos agenciamentos sociotécnicos, por isso, Law (2002) prefere ver as organizações pelo verbo, pela ação, pelo movimento, pois não há ação sem a que seja a manifestação de uma rede sociotécnica heterogênea, isto é, por serem transitórias, os elementos mudam à medida em que
a ação é realizada. Por isso, defende Venturini (2010), são necessárias múltiplas perspectivas e pontos de vista, em outras palavras, este gráfico é resultado de um ator, o pesquisador deverá seguir todos os atores identificados em busca das descrições sobre a constituição do evento.
6.2.4. Os não humanos em evidência
Os agenciamentos sociotécnicos remetem à questão da simetria entre os componentes humanos e não humanos percebidos na ação, constatados, portanto, nas ações da campanha do vestibular. Não significa que o foco deve ser somente nos componentes não humanos, o que remeteria ao determinismo tecnológico, conforme abordado nos capítulos 2 e 3, mas quando se dá a devida relevância aos não humanos, por meio da simetria, com os humanos, a percepção sobre a importância dos não humanos altera definitivamente a noção do agenciamento (LATOUR, 2012). Para a TAR, os não humanos não devem mais ser entendidos como fetiches ou como artefatos subordinados. Se, por um lado os humanos fazem os não humanos fazerem coisas, o contrário também deve ser considerado, os não humanos fazem os humanos fazerem coisas (LEMOS, 2013). Por exemplo, o computador, o telefone celular, condiciona o humano a fazer coisas. O candidato, ao ver o anúncio no seu perfil em uma mídia social, é estimulado a agir.
Assim os não humanos não “determinam” a ação, ao menos por enquanto, o que em parte é verdadeiro devido aos algoritmos inteligentes que estão constituindo certas tecnologias digitais e, consequentemente, em alguns casos, estimulando os humanos e outros não humanos a agirem. O que a TAR quer denunciar é que “nenhuma ciência do social pode existir se a questão de o quê e quem participa da ação não for logo de início plenamente explorada” (LATOUR, 2012, p. 109).
Para se compreender a relevância dos não humanos nos fenômenos a serem estudados, deve-se imaginar como seria a comunicação sem os computadores, os softwares, as redes digitais, os anúncios patrocinados e os conteúdos orgânicos, sem a automação de marketing, as inscrições on-line, entre outras redes.
Assim, um computador novo com processadores e memórias de última geração e configurações avançadas produzidos pelo que há de mais avançado da indústria da computação, juntamente com softwares apropriados, com os melhores recursos de edição de imagens, capaz de produzir imagem ou tratar fotos aplicando determinados filtros, elaborar composições de imagens, ou realizar tratamento de uma imagem etc., com melhores condições, associado ao
humano capacitado para a tarefa, permitirá que sejam realizados trabalhos bem feitos com os melhores recursos disponíveis. O agenciamento desta associação comporá imagens adequadas para serem utilizadas na campanha. Evidentemente, se um dos componentes não for adequado, o computador, o software ou o profissional, o resultado poderá ser outro.
Os atores não humanos que compõem as redes sociotécnicas do “evento” seriam, por exemplo: os computadores e softwares utilizados pelas equipes; os serviços externos de marketing digital como sistemas ou serviços de envio de e-mail marketing, serviços de envios de SMS, serviços ou sistemas de montagem de newsletter, plataformas de gestão de conteúdo,