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informação que não é entendida é a mesma coisa que não receber informação”, e ressalva que em alguns casos o processo é bem mais complexo, porque enseja frustrações no receptor e acusações de arrogância em relação ao emissor. Nas páginas seguintes do mesmo artigo, ele assinala que “o que nos interessa nesta análise é o contexto, e como este afeta a comunicação. O contexto afeta e define, de certa forma, os significados que vão ser atribuídos às informações, ou seja, como elas serão entendidas”. Durante a realização desta pesquisa, na observação e nos diálogos, houve uma conversa com um representante da sociedade civil, na qual o preconceito surpreende e a sabedoria popular se revela na capacidade de atingir o conteúdo essencial da informação, mesmo sem os meios formais.

Esse membro do Comitê é homem, de mais de 60 anos, e tem apenas o ensino fundamental, mas uma militância clara no movimento social:

O senhor compreende essas explicações acerca de “convergência intertropical e aquecimento nos oceanos?, perguntou-se.

Isso é muito fácil [...]. Deixa o trabalho dele com ele. O que a gente precisa saber aqui é o essencial. Prestar atenção na posição daquele tracinho. Quando ele desce pra dentro do mapa vai chover aqui pra nós. Se ele ficar no mar, a chuva se perde toda por lá. Esse quadro que ele está mostrando aí, tá ruim demais”, explicou o entrevistado.

De fato, os estudos meteorológicos são sintetizados em quadros, onde a zona de convergência intertropical se representa no traçado que resulta de cálculos e informações específicas, mas, na prática, o “essencial é o tracinho”.

A capacidade de observação e de compreensão de cada pessoa depende muito mais de seu interesse no conhecimento do que dos meios formais de o obter. O respeito ao direito de o representante ter acesso à informação, seja qual for a forma como esta se faça, é essencial e poder-se-ia dizer que é “o tracinho” da comunicação. O envolvimento do representante com o Comitê é que o leva aos exercícios de formular novas visões sobre a realidade, com supedâneo do universo de conhecimento.

“Adotando um caráter educativo, a comunicação deve gerar referências para a ação e para a mudança de atitudes e mentalidades nos indivíduos” [...] “o conhecimento será reaprendido e reelaborado, por meio dos próprios contextos da comunidade”, leciona Henriques (2002, p. 22), explicando a capacidade da comunicação dialógica para impulsionar mudanças, em um processo de mobilização, na reconstituição dos significados por parte de um determinado público. É possível dizer então que, mesmo quando a informação estiver eivada de complexidade, é essencial para democratizar o conhecimento o esforço de um emissor em criar condições para a percepção da mensagem.

Quando se caracteriza a incapacidade do emissor da mensagem para torná-la compreensível no universo do outro, cessa a interlocução e rompe-se o diálogo, permanecendo o monólogo infrutífero ou seletivamente dirigido a apenas alguns receptores, o que enseja frustração. Taddei reporta-se à possibilidade de frustação advinda de uma informação que não é compreendida, o que se propõe ser melhor que não se obtenha uma mensagem que não pode ser facilmente descodificável.

Tal frustação foi detectada durante a observação in loco empreendida durante o tempo de realização da pesquisa aqui exposta. Uma observação do mesmo senhor a quem já se fez referência ratifica as colocações de Taddei (2008, p. 78) em relação à incapacidade de transmissão do conhecimento como arrogância; o membro do Comitê diz que a maioria deles (especialistas) “fala pra gente entender”. “Mas, uma vez veio um técnico aqui que só devia falar mesmo na frente do espelho, porque só ele se entende”. Em virtude da observação surge a suspeita sobre até que ponto esta incapacidade de linguagem é real, ou proposital, pretendendo deixar os membros do Comitê, ou parte deles, sem acesso ao conhecimento ou àquela informação.

Esta incapacidade de transmitir uma informação acessível não é rara como se gostaria, principalmente no meio técnico. Marcio Semione chama a atenção para o fato de que a informação técnica nem sempre é qualificada:

Na verdade, a informação gerada pelos especialistas nem sempre é ela mesma uma informação qualificada, pois, muitas vezes, carece de uma tradução que permita a qualquer sujeito que não possua o mesmo domínio técnico e do jargão do especialista compreender a problematização referida àquela causa social e a metodologia de ação proposta”. (HENRIQUES, 2002, p. 10)

Informação é base para a ação. Só informar, porém, não basta, pois a informação precisa ser uma das vertentes da comunicação dialógica: aberta, multidirecional, participativa e democrática. A informação necessita ser compartilhada, estar acessível ao universo dos sujeitos envolvidos para que o exercício democrático e participativo aconteça nos grupos e nas comunidades. Os comitês de bacias não cumprem sua função se atuam como organismos legitimadores de uma democracia pseudoparticipativa. Um colegiado não deve apenas votar, mas, principalmente, ter meios para fazê-lo com correção e, mais do que isso, saber propor e interagir.

O papel de seus membros não é de “aprovadores” de políticas ou decisões, das quais o governo considere mais cômodo eximir-se, nem de ouvir referências dos especialistas e decidir entre uma ou outra hipótese exposta; devem sugerir, propor, ser coparticipantes em

uma política pública. Cabe-lhe aprender, compreender, contextualizar e partir para a ação. Não basta saber o que o tracinho aponta: é necessário ir além e propor formas de amenizar a falta e até o excesso das chuvas que ele prevê. Até aonde esta consciência foi despertada?