Fez-se uso de dados secundários extraídos do sistema utilizado para regulação médica do SME. Dados secundários geralmente são obtidos sem tratamento analítico não se caracterizando como fonte documental (CAUCHICK MIGUEL, 2012).
A extração dos dados referentes ao ano de 2018 ocorreu entre os meses de fevereiro e março de 2019, na Coordenação Regional do SAMU Sudoeste do Paraná na cidade de Pato Branco/PR, sempre sob supervisão de profissional de tecnologia da informação do quadro do SME e foi fortemente prejudicada pela limitação da infraestrutura de tecnologia da informação e comunicação do SAMU Sudoeste do Paraná que utiliza diferentes sistemas para controle das suas operações, os quais não são integrados nem integráveis. Os dados extraídos do sistema e- SUS-SAMU, utilizado para regulação médica, geraram um conjunto de 51.120 registros.
Considerando o objetivo principal deste trabalho, de identificar o indicador TR e os fatores que o afetam, foram extraídas informações sobre local da ocorrência, idade, gênero, horário em que os chamados foram encaminhados para regulação médica, horário de mobilização da equipe para casos de despacho de ambulância, horário do despacho da ambulância e equipe, tipo de ambulância despachada, horário da saída da ambulância e da equipe da base, horário de chegada da ambulância e da equipe no local da ocorrência, situação que permitiu a criação da Base de Dados 1.
Entretanto, o SME adota um complexo processo paralelo para controle dos atendimentos às emergências que geram despachos de ambulâncias exigindo o preenchimento de formulário em papel denominado RAS no qual devem ser registradas informações sobre o atendimento a partir da saída do veículo de emergência da base descentralizada (exemplo: registros de datas e horários), informações na cena da emergência (exemplo: presença de equipes policiais ou do corpo de bombeiros, sintomas do paciente, sinais vitais, escala de trauma entre outros, transporte para unidade de saúde da grade de referência), registros esses não alimentados no sistema e-SUS-SAMU uma vez que as ambulâncias não possuem qualquer sistema computadorizado que permita conexão com o sistema de regulação médica.
Cada despacho de ambulância gera a obrigatoriedade do preenchimento do RAS que deve conter informações preliminares registradas no sistema e-SUS-SAMU, especialmente o número de identificação e o horário de abertura do chamado de emergência para nortear o trabalho das equipes nas ambulâncias e, consequentemente, ser complementado com registros manuscritos sobre detalhes observados na cena da emergência e entre a cena da emergência até o hospital de destino quando o atendimento assim exigir.
Quando as ambulâncias retornam às bases descentralizadas, as equipes retrabalham os formulários em papel, realimentando as informações originais manuscritas em um sistema alternativo baseado na solução Google Docs, um amplo formulário eletrônico idêntico ao RAS que possibilita armazenar eletronicamente os dados coletados para posteriores consultas e eventuais tratamentos estatísticos.Consequentemente, houve necessidade de extrair da solução
Google Docs os registros de todos os formulários RAS referentes ao período entre zero hora de
01 de janeiro de 2018 às 23h59min de 31 de dezembro de 2018, os quais geraram a Base de Dados 2.
Os registros da Base de Dados 1 foram vinculados aos os registros da Base de Dados 2 buscando-se os elementos comuns entre as duas bases de dados com a utilização de planilhas eletrônicas. Durante esta etapa, quando a Base de Dados 1 encontrava-se em fase de finalização, constatou-se ausência dos registros provenientes dos RAS referentes aos meses de novembro e dezembro de 2018, levando à necessidade da nova busca por esses dados junto ao SME, acarretando significativo atraso no trabalho de pesquisa. A partir do número sequencial atribuído a cada chamado telefônico registrado no sistema e-SUS-SAMU e da informação sobre dia, mês, ano e horário foi possível vincular, inicialmente, 96% dos registros da Base de Dados 2 aos registros da Base de Dados 1, o que permitiu a criação da Base de Dados 3 com 49.075 registros.
Todos os registros da Base de Dados 3 foram analisados individualmente constatando- se que registros feitos no sistema e-SUS-SAMU estavam vazios ou, em alguns casos, não continham todas as informações necessárias, evidenciando falhas ou negligências na alimentação dos dados no momento de abertura chamado de emergência na CRM e desse modo, ao final da verificação restaram 46.756 registros brutos na Base de Dados 3.
Foram excluídos 34.249 registros que depois de vinculados referiam-se a dados de atendimentos secundários prestados pelo MR (quando não há despacho de ambulância) e ainda dados de chamados fraudulentos ou enganos, dados de solicitações de informações, dados de despachos de ambulâncias para transferências ou transporte de pacientes entre hospitais, dados omissos, dados problemáticos em quaisquer campos necessários para o correto cálculo do TR (SCHULL et al., 2003; DO et al., 2013; NEHME; ANDREW; SMITH, 2016).
Assim, foram selecionados para tratamento estatístico, a partir da Base de Dados 3, os registros de despachos de ambulâncias para atendimentos a afogamentos, casos clínicos, obstétricos, pediátricos, psiquiátricos ou traumáticos classificados pelos MR em prioridade alta, moderada e baixa, resultando em 12.510 registros (AUSTIN; SCHULL, 2003; SCHULL et al., 2003; VANDEVENTER et al., 2011; DO et al., 2013; NEHME; ANDREW; SMITH, 2016).
De acordo com Nehme; Andrew e Smith (2016, p.2) “valores extremos ou negativos, definidos como TR < 0 minutos ou > 120 minutos, foram excluídos da análise”. Assim, casos com TR < 0 minutos ou > 120 minutos foram excluídos, totalizando 12.050 registros na Base de Dados 3, conforme evidenciado na Tabela 3.
Tabela 3 – Etapas da seleção de dados para tratamento estatístico
Etapa Nº de Casos
Dados brutos e-SUS-SAMU (Base de Dados 1) 51.120
(-) Perdas na concatenação dados e-SUS-SAMU aos dados RAS (Base de Dados 2) 4.364
(=) Dados vinculados (Base de Dados 3) 46.756
(-) Atendimentos secundários, enganos, fraudes, informações, dados perdidos etc. 32.097
(-) Transferências e transporte de pacientes, gravidade presumida = 4 ou ignorada 2.149
(=) Dados qualificados 12.510
(-) Casos com TR < 0 minutos ou > 120 minutos 460
TOTAL 12.050
Fonte: Autoria própria (2020)
O’Dwyer et al. (2017) esclarecem que a procura por tratamento de situações de baixa gravidade não relacionadas aos propósitos do SME é observada em nível internacional, com 40% dos chamados representando fraudes, 50% tratando-se de atendimentos secundários que requerem orientação e somente 10% dos chamados exigindo despacho de ambulância.
Os intervalos de tempo foram registrados em minutos em razão das limitações da tecnologia da informação e comunicação do SME. Apesar de atenderem chamados relacionados a diversos tipos de emergências, SME usam o TR de 8 minutos originalmente idealizado para otimizar a sobrevida de pacientes com parada cardíaca não traumática (PONS et al., 2005).
Para organização e análise dos dados foram utilizadas planilha eletrônica do Microsoft
Excel® 365 e os sistemas Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®) na versão 26 e