no jornal humorístico Miau!
Leal da Câmara tinha-se deslocado por uns meses a Madrid, em 1916, para recolher depoimentos de personalidades madrilenas sobre a posição de Espanha em relação à guerra europeia para o jornal A Noite, um órgão de comunicação social do Rio de Janei- ro. Leal fica hospedado no Hotel Rhin na capital espanhola. Daí escreve três cartas, não datadas, a Aquilino Ribeiro.
Numa das cartas, Leal da Câmara é crítico em relação aos pen- samentos de Aquilino Ribeiro sobre os possíveis ganhos que Câ- mara terá usufruído no jornal Miau!. São palavras contundentes e magoadas. Leal refere:
Sinto que você não tenha podido enviar-me nada porque demonstra que anda atrapalhado o que é para lastimar numa pessôa como você que mere- cia não ter atrapalhações. Quanto ao que V. diz do meu (?) e das contas que bota aos meus ganhos, perdôe que lhe diga que V. para isso não serve. Até parece que você não recebeu, no decorrer da sua existência esse banho de vida que dá a noção relativa de cada coisa. Que um empregado do Grandella se julgue no dever de capitalizar francos, pesetas e reis porque me vê retra- tado em Madrid e dirigindo jornaes em Portugal, está certo, mas que V. o faça, querido Aquilino, sem que eu proteste, isso não. Para que V. veja com os seus cálculos de esbanjamentos são espatafurdios basta dizer-lhe que, do Miau – você recebeu 5.000 reis a mais do que eu recebi fazendo-o há não sei quanto tempo. Ainda não vi 5 reis dessa publicação e isto lhe dará uma pequena noção de quanto é difícil (…). 142
Leal da Câmara chama a atenção a Aquilino Ribeiro por este não enviar um artigo atempa- damente para publicação no Miau!. Não percebe porquê que o amigo, sendo a pessoa que é, “não
merecia ter atrapalhações”. Leal, parece, por vezes, não entender as demoras do envio dos artigos por Aquilino para o jornal, que se prendem, de certeza, com a sua vida de casado, com um filho pequeno, o professorado e a escrita. Ritmos de vida que conso- mem outros tempos no dia a dia. Leal não tem uma vida familiar, daí gerir a vida a seu belo prazer e ter dificuldade em entender a ocupação dos momentos diários do amigo.
Por outro lado, Aquilino, mais contido nos gastos, porque tem outras responsabilidades, não vê com bons olhos como Leal gas- ta o dinheiro que ganha. Leal da Câmara chega a ser mesmo mui- to contundente para com Aquilino Ribeiro, não lhe admitindo que ele pense, que, por ser diretor do jornal humorístico e estar em Madrid a trabalhar para o jornal A Noite, esteja folgado em dinheiro. Raciocínio que Leal admite a “um empregado do Gran- della”, mas não admite ao querido amigo Aquilino, que deverá saber relativizar as dificuldades em relação aos ganhos no meio jornalístico, porque ele conhece bem o difícil contexto da publi- cação. Câmara relembra a Aquilino que ele já tinha recebido um apreciável montante pelas colaborações no jornal, comparado com o trabalho de Leal da Câmara, que, até ao momento da carta que enviava, ainda não tinha recebido nenhum dinheiro e era di- retor. Aquilino Ribeiro que não julgue o amigo por assuntos que não sabe!
Como nota final da carta, Leal agradece a Aquilino a “démar- che” que fez junto da Atlantida, publicada entre Portugal e o Bra- sil (1915 a 1920), com o objetivo de uma aproximação recíproca entre os dois países irmãos, no período da 1.ª Guerra Mundial. Leal refere-se a pagamentos pela sua colaboração em desenhos, queixando-se do escasso dinheiro enviado “Recebi os magros capitães da Atlantida reduzidos a 30 pesetas”. A revista tinha a colaboração de vários intelectuais, como Aquilino Ribeiro, Teófilo Braga, Joaquim Manso, Jaime Cortesão, João de Barros (1881-1960), Almada Negreiros e Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), entre outros.
Numa segunda carta, Leal da Câmara volta a criticar Aquili- no Ribeiro pelo seu silêncio e demora do envio das colaborações para o Miau!
Estou cansado com você (…) É a pedagogia do Lyceu Camões? Quero crer que será o contágio desse ram-ram em que você anda, – onde você deve continuar – pelas necessidades que me fazem aspirar a uma engenhoca se- melhante, mas, por Deus! – espero que você não perca a sua liberdade de espirito proporcionada ao que você vale e à estima que tenho por si. Porque diabo se põe você entrincheirado no seu silêncio e nem me escreve e nem
141. Carta de Leça da Palmeira, s./d., D11/1112.
142. Carta de Madrid, Hotel Rhin, rue Carrera de S. Jeronimo, 29, s/d., D11/1100.
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me envia a colaboração prometida e com a qual eu contava? Você atrapa- lhou-nos e causou um intercambio de telegramas que me obrigou a tornar- -me cronista do Miau – Madrid- quando eu contava viver na doçura destes Lembras d´estalo! (…). Saiba que lhe envio um não apoiado! De protesto. Você merecia a fogueira inquisitorial e algum que outro suplício chinez!.143
Sempre o mesmo Leal da Câmara. Crítico, mordaz e sem re- ceios em dizer o que pensa. Nunca pondo em causa a amizade com Aquilino Ribeiro, mesmo quando lhe mostra que não res- peita compromissos, como sejam os relativos à sua colaboração não atempada no Miau!., Câmara tem sempre boa disposição e tolerância para com o amigo que tanto estima.
Leal ironiza com o silêncio de Aquilino Ribeiro que se deverá ao trabalho que tem como professor no Liceu Camões, uma vida de “ram-ram”, sem grandes asas para que o espírito de liberdade do escritor se possa expandir como intelectual na capital. Apesar de Leal referir que o amigo deverá continuar neste “ram-ram” como professor, pois é um trabalho que Leal também aspira vir a ter “uma engenhoca semelhante” pela necessidade de um ordenado fixo para viver e também pelo interesse pela instrução e educa- ção. Leal da Câmara tinha sido professor de croquis na Academia Colarossi, em Montmartre. Num futuro próximo, ainda no Porto, em 1919, sem alternativas de projetos em Paris e em Lisboa, Leal da Câmara aceita o magistério de professor na Escola Industrial.
Leal da Câmara escreve sobre a maior abertura da sociedade madrilena ao mundo quotidiano do que a sociedade portugue- sa. Diz-se sentir bem em Espanha, considerando que a sociedade madrilena tem uma vida sedutora “porque é mais vida que a nos- sa pasmaceira nacional”. A capital do país vizinho tem uma outra vivência social e cultural que Leal não vê em Lisboa.
No final desta segunda carta de Madrid, Leal dá a notícia a Aqui- lino que “As suas cartas partiram. Pessôa amiga tratará dos seus assumptos de família, conto voltar 5ª feira”. Estas cartas seriam da esposa de Aquilino Ribeiro para seus familiares na Alemanha. Numa missiva, não datada, deste período em Madrid, Leal da Câ- mara conta ao amigo Aquilino por que mãos seriam enviadas as cartas de Grete Tiedemann:
As suas cartas podiam ir por intermédio da pessôa amiga que é um artista – desenhador que V. deve conhecer – Bartolozzi. É elle muito amigo de uma senhora Marguerette Welkers em situação idêntica às da sua senhora e que, por sua vez se ofe- receu a tudo quanto fosse necessário para facilitar que sua senhora corresponda com a sua família, mas, diz ella que o único critério é escrever múltiplas vezes – 20 ou 30 cartas.144
As comunicações entre os países da Europa em guerra são di- fíceis. E ainda mais difíceis entre países da Tríplice Entente e países da Tríplice Aliança. O artista italiano faria a ponte de pas- sagem das cartas de Itália (o país tinha aderido em 1915 à Tríplice Entente) para a Alemanha (Tríplice Aliança), através de alguém seu conhecido, que depois seriam enviadas, no interior da Ale- manha, por correio. Como em estado de guerra nada é garantido, a possibilidade das notícias de Grete chegarem à cidade alemã de Parchim será expedir um maior número de cartas. Alguma delas chegará ao seu destino.
2.5.2. Os alemães em Espanha durante a 1.ª Guerra Mundial
No final do conteúdo de uma das cartas de Madrid, Leal faz refe- rência à propaganda da Alemanha dentro de Espanha e à presença alemã nos hotéis madrilenos. A Espanha do tempo do rei Afonso XIII (reinado entre 1886-1931) e do governo liberal conservador de Eduardo Dato (mandato de primeiro ministro entre 1913-1915) ti- nha declarado a neutralidade do país na Primeira Grande Guerra.
Espanha não tinha entrado na guerra ao lado de nenhuma das Alianças (Tríplice Entente e Tríplice Aliança), mas a sociedade espanhola divide-se entre grupos sociais mais conservadores, favoráveis à Aliança dos impérios centrais germanófilos, e os grupos sociais e políticos mais liberais, a favor dos Aliados, da França e da Inglaterra. A neutralidade do governo espanhol não impede que colabore com a Tríplice Aliança com a venda de man- timentos e minério aos alemães.
Leal da Câmara comunica a Aquilino Ribeiro que a esmagadora propaganda alemã, que se faz sentir em Madrid com a invasão dos alemães nos hotéis da capital e de outros lugares de diversão, está a cansar os espanhóis e a impeli-los a abraçarem a causa dos Aliados. Leal escreve que:
A Alemanha continua fazendo grande propaganda, mas há uma tendência para se estar cansado dos allemães e pela sua causa. Os torpedeamentos últimos (…) a propaganda, sem equilíbrio, que fazem os allemães e que são demasiados em Madrid. Nos hotéis, há três quartas partes de allemães, no theater (..) os sabonetes los Keyser”(…) há jornaes que pretendem tornar excelentes as relações hispano-germanicas (…) este exagero de propaganda saturou a Hespanha d´ahi a reação favorável aos aliados”. 145
Numa terceira missiva, Leal da Câmara solicita a Aquilino Ri- beiro para interferir junto da direção da revista Atlantida para 143. Carta de Madrid,
Hotel Rhin, rue Carrera de S. Jeronimo, 29, s/d., D11/1101. 144. idem
145. Carta de Madrid, Hotel Rhin, rue Carrera de S. Jeronimo, 29, s/d., D11/1100.
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que lhe enviem o dinheiro que lhe devem pelo trabalho de ilus- tração do cartaz para o Hotel Rihn. Na mesma carta, Leal indica a Aquilino uma via de comunicação para a sua esposa conseguir entrar em contacto com a sua família alemã. Já anteriormen- te, Aquilino deverá ter escrito a Câmara a falar de contactos de pessoas espanholas que conhecem alemães, perguntando sobre possibilidades de Grete saber notícias de seus familiares. Leal pa- rece, pelo conteúdo da missiva, que já tinha dado indicações sobre este assunto ao amigo, mas que ainda não tinha obtido resposta de Aquilino se de facto as tinha recebido. Leal da Câmara volta a repetir o que lhe tinha escrito (citação da nota 144), na carta en- viada antes (carta que não existe no espólio da correspondência), provavelmente com receio que se tivesse extraviado e recomenda novamente que se escreva muitas cartas porque só desta forma “Há probabilidades de que chegue uma. Por este processo conse- guiu ela [Marguerette Welkers] receber notícias (…)”.146