4. SYSTEM INSTALLATION & TESTING
4.1. B UILDING A B EOWULF
Concretizar peças com a influência do acaso premeditado revelou assim uma complexidade sem igual. Tal como é referido (no fim do capitulo 2.1) por Gehard Richter, nunca é um acaso cego, sendo sempre planeado e ao mesmo tempo surpreendente.
A pesquisa inicial em aguarela25 focou-se nos diferentes tipos de papéis
e suas gramagens, juntamente com as possíveis combinações de tinta de modo a compreender qual o processo e matéria mais adequados para a realização dos trabalhos26 , sendo selecionado o papel Canson Edition de 320g com 100x70cm.
No que diz respeito às tintas, Winsor e Newton Cotman, Rembrandt e Van Gogh, foram as escolhidas.
25. É importante referir, a aguare- la surgiu aqui como um meio para atingir um fim, ou seja, em 2013, no decorrer do projeto Pure Print, surgi- ram várias desmonstrações de proces- sos artísticos, tendo havido um que marcou o projeto nos anos seguintes. A demostração de aquatipia da artista Ana Margarida Rocha (1990–) (Ro- cha, 2014) abriu portas a um mundo até então desconhecido. A ideia da tinta se moldar à superfície da água e com uma folha de aguarela se poder reter esse momento, tornou-se, in- conscientemente, uma importante referência para o início do presente projeto de investigação. Com o decor- rer do estudo o processo revelou la- cunas, nomeadamente pela incontro- labilidade da movimentação da tinta. Numa tentativa de contrapor esta pragmática característica inerente à aquatipia, optou-se por inverter a or- dem natural deste processo, o qual es- sencialmente consiste num recipiente com água, depósito de tinta e poste- riormente, nele mergulhar a folha de aguarela e aguardar o desenvolvimen- to da ação de forma livre e sem mais relevante contribuição humana. 26. Inicialmente optou-se pelo for- mato 50x70cm para estudar a cor e o primeiro papel utilizado foi o Fabriano Disegno, recorrendo-se a diferentes gramagens para avaliar os resultados. Graças a estes testes, pôde compreender-se que o papel não era o mais adequado, pois não reagia bem com o excesso de água. Experimen- tou-se de seguida o Fabriano Aquare- la de 220g e a gama Canson Montval
O processo teve inicio por embeber uma folha de aguarela em água, e depois fazer o depósito de tinta. Colocou-se uma placa de PVC lisa como base de suporte horizontal para a folha, criando, portanto, uma superfície plástica impermeável, garantindo que a água podia fluir, sem ser por esta absorvida, sen- do então aplicada tinta que se dissolvia sobre a mesma. A reação da tinta com a água criava padrões que iam sendo direcionados pelo meio ambiente, mas também permitia uma intervenção humana, de formas que o método original não possibilitava27.
Os resultados obtidos foram depósitos de tinta que marcavam a pas- sagem da mesma, bem como o impacto da sua secagem (fig.12), podendo contemplar-se o acaso e o erro, resultantes de uma tentativa de controlar as condições climatéricas. Tal como refere Peter Doig (Mays & Klein, 2014), referi- do no capítulo 2.1, não é o tempo que leva a executar a obra que está aqui em causa, mas antes o tempo que o artista leva a aceitá-la. É essencial compreender que o acaso é um agente de grande importância na obra, mas este é premedita- do e encenado numa tentativa de atingir, tal como refere Michaux, no início do Capítulo II, o movimento, uma memória que esteja presente na obra pela pas- sagem da tinta, relatando em si uma passagem do tempo, transferindo-lhe uma emoção, como que um registo da sua existência.
Em 2015, foram feitos vários estudos que marcavam a passagem do tempo28. Numa primeira abordagem soprou-se curcuma para uma folha cuja
a superfície havia sido coberta com cola branca, por forma a que esta, atuando como pigmento, permanecesse na folha colado, desenvolvendo assim uma ação do corpo no suporte do desenho. Importante realçar os agentes que entraram aqui em diálogo, o sopro, replicando o vento e assim, direcionando o pigmento, e a cola, fixando o mesmo à folha. No que respeita ao processo de colagem, este produziu resultados muito curiosos pois, ao passo que acelerou a estabilização do pigmento na obra, a duração da secagem completa da mesma deu-se duran- te cerca de duas semanas, como se de uma ação em câmara-lenta se tratasse.
de 300g, de grãos fino e médio, as quais, apesar de bastante diferentes, revelaram uma performance muito consistente, possibilitando trabalhos muito interessantes graças às fibras do próprio papel . Já o papel Fabria- no Accademia de 120g e 200g de grão médio, conferiu aos trabalhos uma aparência de filtro, não deixando a tinta fluir, ficando ao invés em de- pósitos deixados pelos grãos da folha e não em mancha.
27. A aquatipia é uma técnica que com uma bacia de água é despejada tinta de óleo, mantendo-se o óleo à sua superfície. Ao colocar uma folha seca sobre esta a tinta fica na folha, gravando assim o desenho de tinta que está na sua superfície. Assim foi possível pela existência da placa im- permeável por baixo da folha, man- tendo o excesso de água e tornando possível a exploração e o controle da duração de toda a dinâmica gerada. Compreendeu-se rapidamente que o processo de secagem da folha teria de ser lento, tendo de ser controlado com mais ou menos água, de acordo com a época do ano em que a ação se desen- rolava, uma vez que estes trabalhos seriam sempre realizados no exterior. 28. Na unidade curricular de Proces- sos Retóricos e Performativos.
Em oposição por isso à instabilidade e tendência a descontrole do processo de aquatipia, o qual, apesar disso, obtinha uma secagem completa, tipicamente em algumas horas. Adicionalmente, no que respeita à evolução cromática, na aquatipia, a coloração e a mancha é praticamente imediata, permanecendo idêntica logo que o excesso de água é removido, ao passo que, a cola branca, enquanto líquida é branca, ficando transparente quando totalmente seca. Esta propriedade fez com que apenas no final do processo de secagem, existisse uma acentuação do tom do pigmento e uma ampliação da “imagem” do movimen- to criado pela ação desenvolvida, portanto, novamente num comportamento oposto ao processo de aquatipia.