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Avis de la CMF sur les demandes d’adhésion ou de modification de statut et débats

RAPPORT GÉNÉRAL DE LA CONFÉRENCE

RAPPORT GÉNÉRAL

2. Volet politique : Rapports au Sommet

2.1. Avis de la CMF sur les demandes d’adhésion ou de modification de statut et débats

Como já anunciado, o item lexical arrumar será analisado aqui levando-se em consideração o mecanismo gerativo de co-composicionalidade retrocaracterizado, uma vez que esse verbo pode ter os seus sentidos derivados de acordo com os diferentes sintagmas nominais que se combinam para completar-lhe o sentido.

Busca-se então demonstrar essas formas polissêmicas ao longo do artigo. Os exemplos advêm, majoritariamente, do corpus do Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba (VALPB), bem como de abonações sugeridas no dicionário Aulete on-line. A intenção é trabalhar com os dados sob o ponto de vista qualitativo. Entretanto, é proposta uma tabela para demonstração dos dados de ocorrência dos enunciados, sem recorrer a tratamento estátistico ou exames quantitativos complexos.

Seguindo a proposta de Moura e Pereira (2004) para o tratamento da polissemia lógica sugerido por Pustejovsky, os seguintes critérios foram examinados em relação ao verbo

arrumar:

a) número de argumentos;

b) tipo semântico do argumento complemento do verbo: objetos, lugares, eventos e pessoas; c) natureza sintática do verbo: transitividade e reflexividade;

d) tipo semântico do verbo: mudança de estado e ação.

Apresenta-se, em seguida, os tipos de argumento complementos encontrados no

corpus acompanhados das análises feitas.

2.1. Argumento complemento: lugar ou objeto

O verbo arrumar pode vir seguido de sintagma nominal (SN) no qual o complemento pode ser um lugar, um objeto ou pronome que lhe corresponda. Nesse caso é um verbo de ação-processo. Para Cunha e Araújo (2007), os verbos de ação-processo combinam características dos verbos de ação e de processo. São aqueles verbos que possuem, geralmente, dois argumentos: um SN sujeito animado, intencional, podendo ser ou não humano, que exerce a função de agente do processo verbal, e um SN objeto que sofre a ação descrita pelo verbo e é afetado ou criado por essa ação.

Em consulta a Ferreira (2008) e ao Aulete on-line, encontramos que o verbo arrumar tem como acepção básica “por em ordem, compor, organizar ou dispor os elementos de algo de modo conveniente ou no lugar apropriado”. Conforme veremos, a co-composicionalidade afeta e aciona os demais sentidos do arrumar resultantes das organizações argumentais. Desse modo, as estruturas de argumento possíveis são:

a) x arrumar objeto

(1) O que eu mais gosto de fazer? Arrumar minha casa, lahar minha roupa, num gosto muito de cozinhar não7.

(2) Arrumou parte da louça no armário da sala. (3) E8: Qual a brincadeira que você mais gostava?

I: Era dá banhe na minhas boneca e arrumar ela e deixa dois três dia assim arrumadinha.

(4) Você pode arrumar minha TV velha?

b) x arrumar objeto para evento

(5) Eu arrumei a mesa para o jantar.

Os exemplos (1), (2), (3) e (4) acima indicam que o verbo é de ação e sua natureza sintática é transitiva. Ao mesmo tempo, esses exemplos apontam que os SNs são afetados por essa ação e que denotam uma mudança de estado. Logo, é lícito afirmar que nos exemplos apresentados em (1) e (2) teremos como resultado que a casa e parte da louça estarão organizadas, em ordem.

Por outro lado, em (3), a mesma composição argumental denota “vestir, assear, aprontar”, tendo como estado resultativo o fato de que o agente deixava a boneca vestida e asseada (arrumadinha).

No exemplo (4), por seu turno, o sentido acionado é o de “consertar, reparar” um artefato; nesse caso, o aparelho eletrodoméstico. Em (5), a estrutura argumental denota o sentido de “preparar”, cujo resultado indica que a mesa está preparada para o evento refeição, conforme indicado pelo argumento adjunto (para o jantar). Acredita-se que há acionamento, portanto, de mudança de estado em cada exemplo dado em virtude da ação indicada pelo verbo arrumar.

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Com pequenas alterações, manteve-se a transcrição original do corpus do VALPB.

A partir dos exemplos mostrados, em que o argumento complemento do verbo

arrumar é um objeto, os vários sentidos que dele emergem - “vestir”, “assear”, “aprontar”,

“preparar”, “consertar”, “reparar” – acionam, na verdade, o seu sentido básico de “por em ordem”, “organizar”, “dispor os elementos de algo de modo conveniente ou no lugar apropriado”, por intermédio de uma relação polissêmica lógica entre esses sentidos.

2.2. Argumento complemento: pessoa

Os argumentos podem vir na posição de complemento designando pessoas. Nesse caso, a ação verbal transitiva também designa “vestir, assear” como visto em (3), caracterizando uma ação com “mudança de estado”. Torna-se relevante destacar que o núcleo do SN vem geralmente anteposto por artigo definido para poder acionar o referido sentido, como observa-se em (6):

a) x arrumar pessoa

(6) Ela arrumou a criança e foi embora.

Arrumar + SN (art. definido + pessoa) = mudança de estado no verbo

No caso de (6) acima, há restrição quanto à interpretação do sentido do verbo arrumar. Nesse contexto semântico, somente é permitido entendê-lo como “vestir ou assear”, sendo vedado o acionamento de sua interpretação equivalente a “consertar, reparar”.

Por outro giro, a mesma estrutura argumental de pessoa ainda pode significar “obter, conseguir, arranjar, conquistar”, como nos exemplos apresentados abaixo:

(07) Porque hoje em dia não tem assim mais confiança de arrumar uma pessoa pra tomar conta dos filho da gente.

(08) Meu Deus, eu queria arrumar um homem pra vim morar comigo, porque eu sofro demais.

Arrumar + SN (art. indefinido + pessoa) = ação

Nos exemplos apresentados, percebe-se que a escolha do tipo de determinante (artigo definido ou indefinido) presente no SN do argumento complemento pessoa, juntamente com o contexto sintático-semântico dos sintagmas que se seguem, acionam diferentes designações do verbo arrumar, tais como “vestir”, “assear”, consoante demonstrado em (06), ou “conseguir”, “arranjar”, “conquistar”, conforme visto em (07) e (08).

Nos casos em que o argumento complemento é uma ocupação, ofício ou representação física de valor econômico, a estrutura argumental denota igualmente a obtenção e conquista de algo, como pode ser visto nos exemplos (09) e (10):

a) x arrumar ocupação / valor econômico

(09) Eu num tinha chance nenhuma de arrumar esse emprego. (10) Elas vende o corpo pra arrumar dinheiro.

Nesses enunciados, a transitividade do verbo vem acompanhada de um argumento complemento que aciona invariavelmente o sentido de “obter, conseguir ou conquistar”.

2.4. Argumento complemento: clítico –se

Resta dizer que há ainda a possibilidade do uso de arrumar como verbo pronominal. No corpus, encontram-se exemplos em que o sentido lexical de arrumar como verbo pronominal pode expressar “vestir-se, assear-se” ou até mesmo “dar-se bem” e “conseguir uma boa posição”, consoante apresentado em (11) e (12) abaixo:

a) x arrumar – se

(11) Ele se arrumou e saiu.

(12) Todos vai pra lá com uma intenção de fazer um pé-de-meia, se arrumar, de comprar uma casa boa na praia, uma fazenda, uma granja, carro novo, entendeu?

Em (11), o verbo pronominal denota que o agente é afetado por sua própria ação, o que equivale a interpretar esse enunciado como “ele se vestiu e saiu”.

No exemplo (12), o contexto sintático-semântico dos sintagmas seguintes - após o verbo arrumar (de comprar uma casa boa na praia, uma fazenda, uma granja, carro novo) - permite fazer uma desambiguação do sentido polissêmico de “se arrumar”, associando-o com a significação de “dar-se bem” e, ao mesmo tempo, excluindo a possibilidade de interpretação que foi em autorizada em (11).

Cambrussi (2009) lembra que o Léxico Gerativo não tem o propósito de explicar construções que possuem o clítico “se”, uma vez que essas são inexistentes na língua de seu teórico, o inglês. Nos casos dos exemplos acima, existentes no português brasileiro, há a exigência da presença do clítico para que o verbo arrumar acione os sentidos de “assear-se” (vestir-se), e “dar-se bem” (conseguir uma boa posição), respectivamente.

Por fim, esses sentidos polissêmicos parecem ser influenciados e acionados também pelo conhecimento enciclopédico e pela situação enunciativa, o que demonstra que não se

pode negligenciar o papel do conhecimento de mundo para a especificação do significado do item lexical.

2.5. Argumento complemento: evento

Em situações em que os argumentos em posição de complemento são eventos, o verbo

arrumar tem o sentido de “causar, provocar”, sendo considerada tradicionalmente uma

acepção mais popular do referido verbo. Desse modo, a estrutura argumental resultante é: a) x arrumar evento

(13) Os baderneiros arrumaram uma briga na saída da festa. (14) Você arrumou uma baita de uma confusão.

Os exemplos (13) e (14) restringem a intepretação do verbo arrumar com os sentidos de “organizar”, “assear” ou “consertar”, uma vez que os argumentos complementos são preenchidos pelos eventos “briga” e “confusão”, cujos conteúdos semânticos são contrários às ideias de organização, arranjo metódico, ordem, asseamento ou reparo.

Afinal, em todos os exemplos considerados, o tipo semântico do complemento e da estrutura argumental podem influenciar na interpretação específica do verbo arrumar, como já foi observado também com outros verbos em outros estudos semânticos (cf. MOURA e PEREIRA, 2004).

A partir de cada “arranjo” do verbo arrumar com os seus complementos argumentos identificados no corpus, é possível explicitar quais sentidos foram acionados, o número de ocorrências e a porcentagem correspondente, em relação aos enunciados encontrados. É o que demonstra a tabela 01 abaixo:

Tabela 01 – Sentidos do verbo arrumar Sentidos de arrumar + argumentos

complementos

Número de Ocorrências %

01. X arrumar objeto

a. Organizar, por em ordem 04 18

b. Assear, vestir 01 05 c. Consertar 01 05 d. Preparar 01 05 02. X arrumar pessoa a. Assear, vestir 01 05 b. Obter 04 18

03. X arrumar ocupação / valor econômico

a. Obter, conseguir 05 24

04. X arrumar – se

a. Assear, vestir 01 05

05. X arrumar evento

a. Provocar 02 10

TOTAL 21 100

O maior número de ocorrências do verbo arrumar foi registrado para o sentido de “obter, conseguir”, nos casos em que o argumento complemento é uma ocupação ou valor econômico (x arrumar ocupação / valor econômico). Nesses casos, foram registradas cinco ocorrências equivalentes a 24% do total de enunciados investigados. Por outro lado, os dados indicam a presença do verbo arrumar com a significação de “organizar”, “por em ordem”, nas circunstâncias em que o argumento complemento é um objeto (x arrumar objeto), representando quatro ocorrências no corpus. Isso equivale ao mesmo número de exemplos com o sentido de “obter”, dentro do arranjo x arrumar pessoa, de um total de 21 enunciados, o que equivale a 18%, cada um. Para o sentido de arrumar equivalente a “provocar”, nos casos em que o argumento complemento é um evento, foram registradas duas ocorrências no

corpus, correspondente a 10% do total de enunciados.

Os sentidos de “assear, vestir”, “consertar” e “preparar” nas ocorrências em que o argumento complemento é um objeto, bem como “assear, vestir” em que o argumento complemento é pessoa, e “assear, vestir-se”, “dar-se bem”, nas ocorrências do verbo arrumar com o clítico -se, houve apenas uma ocorrência para cada enunciado, o que equivaleu a 5% do total de enunciados encontrados nos dados.

Enfim, o que percebe-se é que o argumento complemento é capaz de acionar vários sentidos por co-composicionalidade dentro dos contextos sintático-semânticos identificados no quadro 01. No entanto, é possível defender que a polissemia lógica do verbo arrumar decorre do sentido básico comum de por em ordem, organizar, dispor os elementos de algo de modo conveniente ou em lugar apropriado.

Considerações Conclusivas

A análise do verbo arrumar sob uma perspectiva do Léxico Gerativo, ancorada nos pressupostos teóricos da Semântica Lexical, permite fazer algumas inferências conclusivas. Passemos a expô-las.

Conforme apresentado, o Léxico Gerativo defende que os complementos podem transmitir informação que atuam sobre o verbo, o que possibilita a denotação de sentidos, resultante da interação entre o núcleo verbal e seu complemento, por intermédio do

mecanismo gerativo de co-composicionalidade. Consequentemente, certos verbos podem designar, além de seus sentidos básicos, sentidos derivados de regras gerativas em combinação com seus argumentos complementos. Arrumar é um desses verbos que, conforme demonstrado, além de seu sentido básico de por em ordem, organizar, dispor os elementos de algo de modo conveniente ou no lugar apropriado, pode igualmente acionar outros sentidos, tais como: vestir(-se), assear, obter, conseguir, arranjar, dar-se bem e provocar.

Constatou-se, desse modo, que o verbo arrumar é bastante produtivo em significações, de acordo com o argumento complemento utilizado. Entretanto, sentidos tais como “pentear”, “cuidar”, “tratar”, acionados em composições como arrumar os cabelos; “ocupar-se”, tal qual em arrumar o que fazer; “contrair”, como em arrumei uma gripe e, enfim, na expressão idiomática “arrumar sarna para se coçar”, significando arranjar problema para si próprio, não apareceram em nosso corpus.

Embora não tenha sido o objeto de estudo deste artigo, não se negam, conforme já referido, as possíveis influências dessas construções associadas a variações dialetais do português brasileiro, tampouco dos aspectos relacionados ao conhecimento enciclopédico dos falantes.

Por fim, verificou-se que o verbo arrumar e seus argumentos complementos possuem sentidos que se ligam, relacionando-se entre si, constituindo um caso específico de indeterminação semântica que o Léxico Gerativo definiu como polissemia lógica.

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A ESCRITA DE ANA CRISTINA CESAR: UMA POÉTICA