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Dans le document Avis 51.158 du 30 juin 2015 (Page 31-37)

Dona Nicinha os santos festejados são Santo Antônio, São Cosme e Damião, São Roque, Santa

15 Depoimento colhido na Pitinga, Santo Amaro-Ba, em Janeiro de 2012.

16 Depoimento colhido em Pitangueiras, São Francisco do Conde-Ba, em Janeiro de 2012 17 Depoimento colhido na Pitinga, Santo Amaro-Ba, em Janeiro de 2012

Barbara e São Crispim. Esses nomes podem variar de acordo com a região, porém Santa Bárbara, São Cosme e Damião e Santo Antônio são recorrentes nos relatos.

Para Zeca Afonso antes da existência dos grupos, só existia samba chula se houvesse reza dos santos católicos populares como Santo Antônio, Santa Bárbara e São Cosme e Damião:

O samba só existia habitualmente por causa desses santos[…] o pessoal foi morrendo, dona Salu tinha devoção, morreu. Seu Jacinto morreu. Seu Estevão morreu. Seu João Francisco morreu. Era o pessoal que festejavam esses santos. Tinha devoção... No mês de Junho mesmo, tinha samba o mês todo. Porque reza Santo Antônio. Tinha casa que rezava com seis virgem. A minha rezava treze noite. Dona Salu rezava treze noite[…] trinta dias do mês de junho tinha samba. (informação verbal)18.

Quando perguntado se em alguma outra ocasião havia samba ele responde: “Não. Nem casamento, nem batizado. Só era reza” (informação verbal)19. O Sr. Zeca conta que foi por isso que

após ter prometido a seu avô que daria continuidade ao samba chula, ele foi aprender a fazer a reza dos santos para manter a tradição, pois as pessoas da região, que tradicionalmente rezavam em suas casas, estavam morrendo ou se mudando e ninguém as substituía:

Com esse transtorno o samba quase acabou. Eu não queria descumprir o compromisso que tinha feito com meu avô. Que é que eu faço? O pessoal morreu tudo. Primeiro as duas pessoas que cantavam a reza. Era um que chamava Américo e uma senhora que chamava Dona Miúda. Seu Américo entrou no conselho da Petrobras e foi embora pra Alagoinhas. E Dona miúda que morreu. O samba ficou sem eira nem beira.

Tinha um frade chamado Frei Humberto. Cheguei lá no dia de sexta-feira. Conversei com ele como to conversando com você. Contei tudo a ele. Ele me olhando. Ele disse “venha cá, você quer que eu faça o que?”. Eu quero que o senhor, se há possibilidade do senhor me ensinar a cantar reza na casa desse pessoal que tem devoção. “Ó que bonito, que lindo! Venha cá quatro terça-feira, duas horas da tarde. Que eu vou botar você professor de cantar reza.” Fiquei alegre só vendo... Quatro terça-feira seguidas eu fui. Aí na última terça-feira ele disse: “oi, você tá preparado pra cantar reza em qualquer parte do mundo” (informação verbal)20.

Em seguida ele cantou um Bendito a São Cosme e São Damião. Segundo o mestre, antes vinha o Pai Nosso, em seguida a Ave Maria, a Ladainha, depois o Salve à Rainha. Depois do Bendito seguia uma benção para entrar no samba: “Acabava reza, todo mundo com o instrumento na medida. Todo mundo tinha seu lugar certo, ai o couro comia. Quem bebia tome-lhe cachaça na barriga e tome-lhe samba. Era samba, não era brincadeira não” (informação verbal)21.

18 Depoimento colhido em Pitangueiras, São Francisco do Conde-Ba, em Janeiro de 2012. 19 Op. cit.

20 Op.cit.

Alumíno explica as ocasiões do samba: “Aí tem um caruru em tal lugar, nós vai. Ou senão a dona da casa já sabia que a gente tocava, aí já mandava convidar. A gente tocava sem precisar dinheiro, sem nada[…] pra se divertir mesmo” (informação verbal)22.

Babau, percussionista do grupo, afirma que o samba acontecia mesmo após as rezas dos santos nas casas das pessoas da região que eram devotas. Quando perguntado se acontecia em aniversários ele respondeu:

Era raro, só se fosse assim: aniversário de devoção. Vamos supor era época de São Cosme e aí era aniversário de qualquer um da gente ou então Santa Bárbara. Aí fosse fazer alguma coisa assim, um cuscuz ou um mingau, ou uma pipoca. Mas se fosse um aniversário comum mesmo (informação verbal)23.

Afirmou ainda, que o samba não acompanhava outras comemorações do gênero, inclusive porque muitas pessoas tinham preconceito contra o samba, assim como contra a capoeira e o candomblé.

Além das rezas que movimentava o samba local Dona Nicinha e João do Boi abordam outras manifestações culturais que havia em São Brás e região. Em uma das ocasiões perguntei sobre as comemorações que aconteciam por lá. Segundo eles, no passado, essas comemorações ocorriam quando o pessoal mais velho ou que se mudou realizava as rezas dos santos, o “lindro” amor e o bumba meu boi. Os entrevistados, resgataram, inclusive a Festa do Mentiroso, evento no qual ocorria um concurso para saber qual seria a pessoa que contava a mentira mais engenhosa. Muitas pessoas da região participavam da competição ludibriosa. João do Boi participava e até foi coroado em uma das edições. Pelo que pude perceber a mentira era contada em versos, como uma espécie de cordel. O festejo da mentira acabava em verdadeiro samba.

Para sorte desta pesquisa essa comemoração voltou a ser realizada durante a atividade de campo. A festa ocorreu durante dois dias, o primeiro dia dedicado ao concurso; o segundo dia, dedicado ao samba de roda e a encenação do Nego Fugido de Acupe, distrito de Santo Amaro. Esta última manifestação se configura como um teatro popular muito antigo que representa a batalha dos negros para conseguir a liberdade.

22 Depoimento colhido na Pitinga, Santo Amaro-Ba, em Janeiro de 2012. 23 Depoimento colhido em Pernambués, Salvador-Ba, em Outubro de 2013.

Figura 7: Ator do Nego Fugido.

Fonte: Captura Imprecisa (http://capturaimprecisadois.wordpress.com/page/10/)

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