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Em plena época de Ditadura militar no Brasil, desconhecemos outros políticos de igrejas pentecostais que aliaram o rádio e seu poder de

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comunicação para eleger seus pastores-candidatos. Manoel de Mello foi pioneiro nesta área, um caso atípico entre os pentecostais na década de 60 e 70. Seu exemplo seria seguido somente a partir da década de 80 quando outras igrejas pentecostais descobriram a política como ferramenta útil para os seus interesses. Sobre a aversão pentecostal à política, vale a pena relembrar os textos de Beatriz Muniz de Souza (CESAR, 1968), sobre o qual escreveu Leonildo Campos (2005:170):

El paradigma predominante em aquel momento garantizaba que el continente latinoamericano vivia uma situación colonial de La que saldria solamente por medio de uma revolución socialista. La cuestión sería analizar qué papel le cabría al protestantismo y, por extensión, al pentecostalismo em tal proceso revolucionário ‘inevitable’. A partir de ese presupuesto, se resaltaba La despreocupación de los pentecostales com La lucha política em el país.

Comentando acerca do distanciamento entre o poder político e os pentecostais, Saulo Baptista (2007:184) afirma que na maior igreja pentecostal do Brasil esta atitude foi reforçada, em maio de 1981, por intermédio do jornal Mensageiro da Paz, órgão de comunicação oficial das Assembléias de Deus, que anunciou ser vedado aos ministros do evangelho candidatar-se a cargos políticos, salvo se pedissem licença de seus cargos e atividades pastorais. Entretanto esta mentalidade e posição acerca da política viriam a se reverter entre os pentecostais com o início da redemocratização do país em meados dos anos 80, iniciando uma nova fase na história dos evangélicos na política brasileira.

Começava a despontar no país, em 1982, Iris Rezende, membro da Igreja Cristã Evangélica, que foi eleito governador de Goiás pelo voto popular, tornando-se o primeiro evangélico a ser eleito no poder executivo por voto direto. Posteriormente, Iris Rezende se tornaria ministro da Agricultura no governo Sarney. Ainda no ano de 1982, dois pentecostais foram eleitos deputados federais, Mário de Oliveira, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular em Minas Gerais, e José Fernandes, membro da Assembléia de Deus no Amazonas. Conforme indica Paul Freston (1993:210), a Assembléia de Deus neste período modificou seu pensamento em relação à política e

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realizou um encontro em 1985, em Anápolis, no qual Iris Rezende foi convidado para despertar a consciência dos irmãos e convencê-los a participarem do processo político nacional. No mandato do Congresso Constituinte em 1987, os evangélicos elegeram trinta e três deputados federais, sendo que treze deles eram membros da Assembléia de Deus, cuja representação deu um salto gigante se comparado ao mandato anterior no qual havia apenas um deputado federal ligado à denominação. Antônio Flávio Pierucci (1996:168) registra o tamanho da bancada evangélica em comparação com alguns partidos e sua visibilidade na mídia.

O número exato é 33. Número que fez deles, como ressaltou a revista Veja, a quarta maior bancada do Congresso Constituinte, atrás apenas do PMDB, do PFL e do PDS. Sua presença numericamente expressiva, na esfera pública política num momento decisivo da vida nacional alterava assim, antes de mais nada, seu modo de comparecimento na esfera pública midiática

O poder legislativo passou a ser alvo das igrejas evangélicas. Os “representantes de Deus” em Brasília teriam a tarefa de assegurar a liberdade religiosa e buscar alguns favores para suas igrejas como doação de terrenos (fato comum no legislativo municipal), isenção de impostos e principalmente concessões de canais de rádio e TV para a divulgação do evangelho. No Congresso Constituinte, podemos averiguar uma estratificação política que ficou conhecida como “bancada evangélica”. Essa presença expressiva fez com que os parlamentares evangélicos mudassem seu discurso para poder participar destes “benefícios”, não importando com qual tendência política fariam parceria. Freston (1993:180) assinala um fator muito interessante sobre muitos dos eleitos: “Quase metade dos parlamentares protestantes pós 1987 são candidatos oficiais de igrejas pentecostais”. Assim, com o apoio oficial das igrejas, o candidato tinha maiores chances de se eleger, pois o voto do fiel pentecostal segue o que Baptista (2007:27) chama de “voto de cabresto”, um sinal do autoritarismo exercido no pentecostalismo pelos pastores sobre “seu rebanho”, que impunham o voto nos candidatos escolhidos por eles em detrimento da liberdade de consciência. O mecanismo dessa imposição por parte dos pastores ia desde a coação psicológica até atos de “profecia” e

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“revelações” vindas de Deus, que apontavam o candidato como “escolhido dos céus” para ocupar o cargo, sendo que ao fiel cabia apenas realizar a vontade de Deus, votando no nome indicado.

Em junho de 1987, realizou-se no Clube do Congresso, a festa de relançamento da Confederação Evangélica do Brasil, rebatizada de Confederação Evangélica Brasileira (CEB), que havia paralisado suas atividades na época do militarismo. Presidida pelo deputado pentecostal Gidel Dantas, do PMDB do Ceará, a Confederação Evangélica Brasileira foi transformada num instrumento da ala conservadora evangélica para canalizar recursos federais. Antonio Flávio Pierucci (1996:189) destaca que em novembro de 1987, o Ministério do Planejamento liberou Cz$ 8,5 milhões para a aquisição da sede provisória num edifício em Brasília. Em 12 de novembro de 1987, três dias antes da votação sobre a ampliação do mandato do presidente Sarney, todos os deputados evangélicos receberam um comunicado da liberação de Cz$ 110 milhões para a CEB, dinheiro este que saiu da Legião Brasileira de Assistência, a fundo perdido, a título de ajudar pessoas carentes. A emenda do deputado assembleiano Matheus Iensen, que fixava em cinco anos o mandato do presidente José Sarney, foi aprovada por 317 votos sendo que 24 deputados evangélicos votaram a favor. O Governo, grato ao deputado Iensen pela ajuda, retribuiu-lhe com uma concessão para instalar em Curitiba a Rádio Novas de Paz, terceira propriedade da família Iensen na área de comunicação.

No mandato do presidente José Sarney, o Estado liberava concessões de meios de comunicação a quem lhe aprouvesse, sem a devida prestação de contas à sociedade. Segundo Deus (2005:40), o governo do presidente Sarney foi marcado por um volumoso número de concessões de emissoras de rádio, muitas delas transferidas para políticos ligados a igrejas. “Entre 1985 – 1989, período de discussões constitucionais, o governo José Sarney concedeu 632 canais FM e 314 AMs.”. O maior período foi entre novembro de 1987 e setembro de 1988, no qual em média 32 canais de FM foram distribuídos por mês. Alexandre Brasil Fonseca (2003:218), afirma que “a relação entre o poder público e os meios de comunicação é notória” e que tem um poder tremendo

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quando bem usada. Os evangélicos souberam usar os meios de comunicação e não perderam a oportunidade de através do fisiologismo no governo Sarney de ganharem suas concessões. Conforme registrou a revista Kerigma (edição 11. Ano 1988) em matéria intitulada “A Gota d`água”, não apenas Matheus Iensen conseguiu sua fatia na distribuição, como outros deputados evangélicos também receberam concessões.

O deputado Mateus Iensen não foi o único que obteve de rádios ou TVs. O deputado Fausto Rocha (PFL-SP) como ele disse: ‘realizou o sonho de uma vida’ ao receber um canal de televisão em Bauru, interior de São Paulo. O deputado João de Deus (PTB-RS), com dois pedidos de concessão de rádio, foi agraciado com um; o deputado Arolde de Oliveira(PFL-RJ) obteve uma rádio destinada a uma fundação evangélica em Santo Antonio do Descoberto em Goiás, o deputado Mario de Oliveira (PMDB-MG), foi beneficiado com duas rádios em Ipatinga, no vale do aço mineiro.

Outro deputado que ganhou concessão nesta distribuição no governo Sarney foi Salatiel Carvalho, da Assembléia de Deus de Pernambuco. Seu descabimento em relação às negociatas com o poder ficou evidente quando afirmou que: “Se o presidente quisesse cem anos para trocar cem rádios, eu trocava mesmo. Se fosse para divulgar o evangelho, eu trocava” (Freston, 1993:201). Salatiel soube conservar seu poder midiático e político na região, pois ocupou a cadeira de deputado federal por cinco mandatos consecutivos, (1987 até 2006). Nas duas últimas eleições, 2006 e 2010, candidatou-se, mas não conseguiu se eleger.

No Congresso Constituinte, os evangélicos obtiveram concessões de no mínimo sete emissoras de rádio e duas de TV. Suas justificativas foram de que acompanharam os demais parlamentares não-evangélicos na distribuição das concessões. A adaptação à cultura política do fisiologismo de favores e compensações chocou-se com o discurso pregado pelos evangélicos, como ressalta Freston (1993: 241) citando uma frase de um dos deputados evangélicos argumentando sobre o tema:

Mas como disse Daso Coimbra, “mais ou menos cem deputados tiveram estações de rádio, e se sete evangélicos receberam, isto não

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é nada dentro do universo”. Ou seja, os evangélicos estão bem adaptados à cultura política e não são vilões; como também não são o “sal da terra” de que fala sua própria retórica.

O crescimento do interesse dos evangélicos pelo poder político entrelaçado com os meios de comunicação também se estendeu a outras igrejas, como é o caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Segundo Campos (2005:169; 2010:65), seu primeiro deputado federal foi o bispo Roberto Augusto Lopes, eleito em 1986 e participante do Congresso Constituinte. Saulo Baptista (2007:19) apontou o aumento progressivo da IURD no Congresso Nacional que em 1990 elegeu três candidatos, em 1994 o número dobrou para seis, em 1998 chegaram a 16 representantes e em 2002 conseguiram eleger 17 deputados. Em 2006 e 2010 elegeram respectivamente 6 e 7 deputados.

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