4. Creating CHILD_SAs
4.7. Semantics of Complex Traffic Selector Payloads
As mudanças de ordem econômica na década de 1950 impulsionaram as atenções da cena política brasileira à região nordestina, palco das secas periódicas; apresentadas nos discursos regionalistas da elite local e sofrida pela população do semiárido. Exatamente no recorte temporal que compreende a gestão do governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, o semiárido é acometido por uma grande seca, demandando medidas enérgicas do governo federal para que se evitasse que levas e levas de sertanejos continuassem se retirando, como ocorreu em algumas capitais do nordeste no final do século XIX: Fortaleza configurou neste cenário, conforme relatos da literatura, Rodolfo Teófilo, Domingos Olímpio etc.
Também neste contexto histórico, agricultores da zona da mata pernambucana organizaram manifestações para chamar a atenção do governo, que ficaram conhecidas como as Ligas Camponesas, comandadas por Francisco Julião. Tais eventos deixavam em alerta os grandes proprietários do Nordeste.
Diante disso, ganha força nas iniciativas por parte da elite nordestina o discurso da necessidade de políticas próprias para o Nordeste. O pano de fundo para
ver e dizer o Nordeste centrava-se no sertão nordestino. “Como não há regionalismo sem substrato regional, a compreensão do primeiro supõe a necessidade de discutir e conceituar região, enquanto base territorial para a expressão política” (CASTRO, 1992, p. 29).
Quando há a mudança do centro econômico da zona da mata para o Sudeste, busca-se no sertão os problemas de ordem natural, social e econômica para fortalecer a ideia de Nordeste atrasado, que para Albuquerque Jr. (2011, p. 13):
Até meados da década de 1910, o Nordeste não existia. Ninguém pensava em Nordeste, os nordestinos não eram percebidos, nem criticados como gente de baixa estatura, diferente e mal adaptada. Aliás, não existiam. As elites não solicitavam, em nome dele, verba ao Governo federal para resolver o problema de falta de chuvas, da gente e do gado que morriam de fome de sede, como registra Graciliano ramos em Vidas Secas, livro que se tornou filme famoso. Ademais o problema mal era anunciado; era apenas vivido.
Se em 1910 não existia Nordeste, em décadas posteriores este aparece com “força total”. Os fenômenos de ordem natural desencadeiam uma movimentação social e estes eventos foram responsáveis pela elaboração, por parte do governo federal, da “Operação Nordeste” e, posteriormente, da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), ficando a cargo de Celso Furtado os planos de desenvolvimento do Nordeste, em que o sertão foi o grande trunfo para arregimentar tais políticas, pois, na visão de Albuquerque (2011, p.61):
Determinadas diferenciadoras dos diversos espaços são trazidas à luz, para dar materialidade a cada região. A escolha de elementos como o cangaço, o messianismo, o coronelismo, para temas definidores do Nordeste, se faz em meio a uma multiplicidade de outros fatos, que, no entanto, não são iluminados como matérias capazes de dar uma cara a região. A escolha, porém, não é aleatória. Ela é dirigida pelos interesses em jogo, tanto no interior da região que se forma, como na sua relação com outras regiões.
Nesta conjuntura, levantou-se a necessidade de um melhor conhecimento, com base científica, da região Nordeste. Lembremos que no Nordeste, “o maior entrave a ser superado era o atraso que se encontrava no sertão”. Dentro deste campo de debates, Josué de Castro se tornou um dos grandes interlocutores dos diagnósticos para os planos de desenvolvimento os quais tinham Celso Furtado à frente. Os estudos e diagnósticos levantados sobre o Nordeste evidenciam o sertão e
a necessidade de uma reforma agrária, industrialização emprego de mão de obra para a população deste local.
O sertão brasileiro e, principalmente, o nordestino, se apresenta como um lugar cheio de significações e visões que perpassam diversos campos do conhecimento, literatura, imprensa, ciência e senso comum. Tais significações estão ligadas diretamente aos grupos que tiveram interesse em valorizar ou desvalorizar seus aspectos geográficos, onde se desenvolveu uma economia essencialmente pastoril e que não atendia aos interesses externos.
Quando se faz referência ao sertão, logo se associa ao Nordeste, mesmo que tenhamos vários sertões pelo Brasil afora. Porém, enquanto noção de lugar geográfico, este vem acompanhado das ideias de diferenciação cultural e de distância. Apresentam-se recorrentemente junto à palavra sertão, dependendo dos interesses, imagens de distância, de terra ingrata e do homem sertanejo como sendo o outro de psicologia e hábitos distintos. Mesmo sabendo dos múltiplos significados do termo, este se associa às limitações produtivas por conta dos períodos de estiagem que ocorrem no semiárido, sendo o sertão nordestino o mais célebre dentre todos os sertões.
O sertão nordestino muitas vezes foi usado como vitrine para reforçar o discurso de Nordeste atrasado, que necessitava das benéficas ações políticas da união para o desenvolvimento da região. É com o sertão e suas limitações naturais que se fortalece o regionalismo nordestino. Maciel (2010, p.216) afirma que:
O sertão seco participa desse processo enquanto uma peça-chave da identidade cultural e do regionalismo nordestino. Hoje, além das dicotomias clássicas como litoral versus interior, trópico úmido e trópico semiárido, progresso e atraso, seca irrigação, a ideia de sertão, no caso semiárido, apresenta ao pesquisador a possibilidade de entrar em contato com sistemas de pensamento mais sutis, desdobramentos de novas geografias existenciais que participam da re-fundação simbólica da região – ainda que sem destaque comparável às clássicas evocações antitéticas referidas no início.
Foi na tragédia da seca que as paisagens do sertão nordestino surgiram no imaginário social como ricos impulsionadores de contos chocantes entre autores que pretendiam apresentar o mundo longínquo dos sertões aos olhos de uma sociedade que se modernizava.
A partir de arranjos de interdependências sociais que foram se estabelecendo entre técnica e arte no processo de industrialização do estoque simbólico nacionais, uma chave analítica é seguida no texto: a formação do significado do sertão e a galvanização de uma memória social ligada ao interior do Nordeste estiveram diretamente ligadas à expansão dos mercados culturais nos primeiros centros urbanos do país e assim permaneceram até hoje (ALVES, 2011).
As ideias sobre sertão estão no centro de uma prática retórica. A elite nordestina recheia seus discursos alicerçados nas limitações naturais e consequentemente na vulnerabilidade social, justificando ações federais no sentido de homogeneizar o espaço produtivo. Por outro lado, há as reações, inclusive de intelectuais, que buscam rebater as ideias de sertão-problema, justificando-se através da caracterização do sertão como refém de um sistema político coronelista, corrupto e provinciano. Castro (1992, p.37) nos informa que:
É possível perceber a região nordeste como espaço político administrativo que contém espaço de vivência (ou sub-regiões), sem que haja contradições entre essas escalas. Desse modo, o Nordeste da SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - embora considerado por muitos uma impostura, não é uma ficção, mas pelo contrário, é a institucionalização dos interesses comuns das lideranças desses espaços, já historicamente projetados através das imagens de Nordeste (mesmo quando se tratava das “Províncias do Norte”). O fato de esse Nordeste institucional ter se ampliado em relação ao real decorre mais do oportunismo de outras lideranças do que da sua artificialidade completa.
Nas mídias, tanto impressa como audiovisuais, costumou-se divulgar imagens em que os sertões nordestinos aparecem enquanto região da estiagem, da seca e da miséria. Os adjetivos utilizados são os mais diversos: “Seca do Nordeste”, “monturos humanos”, “infelizes” da grande seca de 1877; imagens que se fortaleceram com os “retirantes”, “flagelados” e principalmente a imagem da “caveira de boi” e da religiosidade do povo.
Os relatos são fortalecidos com as imagens fotográficas e cinematográficas, pois, “o fato para se consagrar e passar a existir como um evento, não necessita apenas da notícia comentada, ou seja, descrita e relatada. Precisa antes de tudo, ser
apresentado com uma fotografia, que vem acompanhada de uma legenda explicativa” (ALVES, 2011, p. 48).
As representações dos espaços sertanejos sempre foram ricas de imagens e discursos que enfatizam de forma maniqueísta este lugar.
A extensa zona semiárida do nordeste do Brasil é marcada secularmente pelo discurso trágico e onipresente das secas, bem como pela sua mais perfeita antítese, a homilia do moderno paradigma hidráulico, onde a irrigação, as barragens e as transposições de bacias hidrográficas ocupam lugar de destaque (MACIEL, 2010, p. 213).
Todos os problemas estão associados, na maioria das vezes, a causas “naturais”: a pobreza e a pouca espessura dos solos, os rios intermitentes e a má distribuição de chuvas. Buscam-se justificativas na ausência, no sertão, do principal produto da agricultura nordestina, a cana de açúcar, pelo padrão de vida economicamente diferenciado. Concordamos com Paiva (2011, p.15) quando afirma que
A trama de interdependência das agências humanas e institucionais, posta na contrapartida das discursividades que construíram um perfil da cultura brasileira, decidiu algo como posições da fala aptas ao exercício do monopólio do sentido legítimo a cerca do povo e da nação, monopólio estendido por uma coalisão de posição de produtores, críticos e intermediários culturais que estabeleceu vínculos seletivos com facções de poderes políticos e econômicos.
Veiculam-se através da imprensa, da literatura e dos discursos políticos, visões representativas do sertão como lugar do coronel, do voto de cabresto, do messianismo e do cangaço. Mas será que estas visões tem significação para o “sertanejo”?
Quando se toma o Nordeste como tema de trabalho, seja acadêmico, seja artístico, este não é um objeto neutro. Ele traz em si imagem e enunciados que foram fruto de várias estratégias de poder que se cruzaram; de várias convenções que estão dadas, de uma ordenação consagrada historicamente (ALBUQUERQUE JR., 2011, p.217)
Devemos lembrar que sertão tem papel de destaque neste “Nordeste inventado”. Quando falamos em mutabilidade nos referimos também na capacidade de interação entre as culturas, que acabam por influenciar umas às outras. Neste
caso, não escapamos à modernidade que bate à nossa porta e “uma das características das sociedades modernas é, por tanto, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente. Está é a principal distinção entre sociedades “tradicionais” e as “modernas”” (HALL, 2011, p. 15).
Na atualidade, a noção de sertão deve ultrapassar a ideia de lugar com características próprias e invioláveis. Temos que levar em consideração a conjuntura do mundo, as rápidas interações entre os mais diversos pontos do Brasil e, consequentemente, do planeta. Neste sentido, torna-se uma noção prenhe de contradições e ambivalências onde as dimensões política, social e cultural econômica se reúnem num todo, num significado, numa noção. Para Maciel (2010, p.214):
A própria abundância e complexidade das denominações e qualificações do sertão semiárido é sintomática de que este é um campo rico em diferentes representações sociais, donde a suposta naturalização do termo não enfraquece o debate, constituindo-se, antes, em mais um dos seus problemas. Este espaço tem constituído o locus de interações frequentes entre arte e ciência, sedimentando um tema recorrente do pensamento nacional em busca da nossa alma coletiva. Ao atrair o olhar e a reflexão acadêmica com surpreendente continuidade, o semiárido evidencia a potência narrativa de suas especificidades naturais e humanas no trabalho de compreensão do Brasil.
O sertão, para além dos conceitos, torna-se um lugar fluido, maleável, moldável, conforme o ângulo, a posição intelectual que se toma diante dele. Torna-se um lugar ao mesmo tempo imaginário e concreto, que tem um pouco da noção de
lugar de memória de Nora: “Fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade,
e recolhido sobre seu nome. Mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações.