Hoje é bastante comum, para quem visita Criciúma, encontrar nomes de ruas, praças e até estádios de futebol como homenagens a alguns empresários do setor carbonífero que representaram o papel de empreendedores no passado, e que
possibilitaram a perpetuação de alguns nomes na economia do sul do estado até os dias atuais.
Os sobrenomes Zanette, Beneton, Bortoluzzi, Freitas, Guglielmi, entre outros, são comuns entre a classe dominante criciumense. Os nomes Henrique Lage e João Zanette foram dados a algumas das principais ruas de Criciúma, e Heriberto Hulse foi contemplado com o nome do estádio de futebol onde o time da cidade se apresenta.
Heriberto Hulse foi presidente da Companhia Carbonífera São Marcos na década de 40, mesma época em que Francisco Meller e Ernesto Lacombe presidiram a mina João Pessoa. A década de 40 foi impar no tocante ao surgimento de novas empresas mineradoras, como observam Belolli, Quadros e Guidi (2002, p. 195):
Nesse processo de alterações nos contratos sociais das empresas, a Sociedade Carbonífera Próspera foi a que mais sofreu mudanças. Depois de passar por diversas mãos, finalmente firmou-se como grande empresa a partir de 1942. [...] Entre os fatores mais relevantes que deram origem ao nascimento de outras empresas de mineração de grande porte, destaca-se a cessão de áreas a terceiros por parte da Companhia Metropolitana, ocorrida no início dos anos 40. Nessa época além de entrar em operação a própria concessionária, agora transformada em Companhia Carbonífera, entraram também em atividade as Companhias Carboníferas Rio Maina, Catarinense e São Marcos, todas localizadas na mesma região. Ali, sob a liderança de João Zanette, Luiz Pirola, Luiz Barato, Dino Gorini e outros foram adquiridas novas áreas para um maior desenvolvimento da indústria carbonífera.
A década de 40 se destacou pelo surgimento de várias empresas de mineração no Sul de Santa Catarina, ampliando as relações deste local com o restante do país. Isso deu-se em resposta à necessidade nacional de aumentar sua oferta endógena de matéria-prima à indústria nascente. Como foi observado anteriormente, as restrições oriundas das duas grandes guerras, em especial a segunda, em consonância com o interesse do estado de projetar-se como nação menos dependente, propiciaram o surgimento e expansão de várias mineradoras no
sul de Santa Catarina, gerando a “economia do carvão” e alterando a composição do trabalho na região.
A década de 40 estava realmente aberta às fusões entre empresas, talvez como fruto do aumento da demanda por carvão e do incentivo governamental à indústria carbonífera. Foi neste período que os empresários Diomício Freitas e Santos Guglielmi iniciaram sua participação na mineração do carvão; primeiramente formaram a Carbonífera Caeté e logo após a Carbonífera Cocal.
A atuação empresarial de Freitas e Guglielmi não se limitou a esses empreendimentos, pois fundaram posteriormente a Carbonífera Criciúma e, assim, contribuíram para a formação de um forte grupo empresarial no setor carbonífero catarinense.
Verificando o período mais recente, nota-se que a indústria carbonífera na década de 80 era constituída por 11 empresas, todas de capital nacional, tendo uma composição de (73%) em capital privado e (23%) em capital estatal. Dessas empresas algumas datam sua fundação do início do século XX, como a Companhia Metropolitana e a Companhia Nacional de Mineração de Carvão do Barro Branco.
Entre o período de 1980 a 1993 entram em operação novas empresas, tendo como proprietários: família Catão e Campos; família Zanette e Santos; família Salvaro; Pacheco e Nunes.
Durante a década de 80, algumas mineradoras fecharam, sinal de que não eram todas as mineradoras que obtinham sucesso, ou por questão estratégica, respondendo aos sinais de que a indústria caminhava em direção à crise. Entre as empresas que fecharam, destacam-se a Carbonífera Palermo (1987) e a Indústria Carbonífera Rio Deserto, que operou entre 1983 e 1991.
Fidelis Barato Filho, que além de ser proprietário, na década de 90, da Carbonífera Catarinense, adquiriu a Cia. Nacional de Mineração Barro Branco e a Carbonífera Treviso S/A.
Conforme observa o próprio senhor Fidélis Barato Filho, em entrevista realizada no dia 05.05.95 no escritório da sua empresa, época em que este acumulava os cargos de presidente da SIECESC3 e do grupo Fidelis Barato:
Compramos porque precisávamos de novas jazidas para explorar e de equipamentos, e a Barro Branco tinha as jazidas e a Treviso, os equipamentos que queríamos. A Barro branco possui a maior jazida a céu aberto da região. (SANTOS, 1997, p. 64)
Comprova-se assim a necessidade constante de aumento da área explorada, fazendo com que aquisições ocorressem neste meio, principalmente na exploração a céu aberto4.
Um outro grupo que demonstra destaque na indústria carbonífera é o Zanette, conforme observa Santos (1997, p. 64):
Em sua trajetória, desde 1918, quando foi criada a CCU (Companhia Carbonífera Urussanga), a família Zanette vem investindo na abertura de novas empresas, todas, a princípio, para prestar serviço a mineradora. Assim foram criadas a Coque Rio Deserto, a Transportadora Rio Deserto, o Centro Industrial Rio Deserto, a Elétrica Magliole e a Metalúrgica Millano. Com a crise de 1985, estas empresas foram redimensionadas e passaram a prestar serviços a outras indústrias. Além disso, a mineradora passou a explorar outros minerais, tais como o Fonolito, em Correia Pinto (SC), rocha utilizada pelo setor de cerâmica e vidros. Passou a produzir também carvão utilizado no tratamento de água, com o qual o grupo detém 80% do mercado nacional, e a extrair o carvão Cardiff, utilizado em fundições, detendo 85% do mercado nacional, tendo como principais clientes a Tupi, Fiat e GM.
Foi comum, durante a trajetória da Indústria Carbonífera, que capitais se deslocassem para outras indústrias. Isso ocorreu também, devido ao momento de verticalização que as empresas passaram, adotando elas mesmas, a
3 Sindicato da Indústria da Extração de Carvão do Estado de Santa Catarina. 4 Quando o carvão está próximo à superfície.
responsabilidade sobre o transporte e outras atividades que hoje deixaram de ser executados, optando então, pela terceirização.
A diversificação produtiva da região mineira surge em grande parte como derivada da indústria carbonífera. Alguns dos empresários da indústria cerâmica e plástica tem vinculação histórica com a indústria carbonífera catarinense.
É importante relatar que foram muitos os empresários que participaram da Indústria Carbonífera, só os principais foram aqui assinalados. O Anexo 1 permite analisar a evolução da composição acionária das carboníferas de Santa Catarina.