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Auberges de jeunesse

Dans le document TURQUIE 2018 (Page 31-34)

As postagens turísticas disponibilizadas na Fanpage da Prefeitura de Salvador são elementos fundamentais para a produção da memória turística do residente. Ao se apropriarem de signos das tradições e atividades cotidianas que fomentam a dinâmica do destino, tais estruturas estéticas assumem a capacidade de atrair a percepção dos soteropolitanos usuários da rede, convidando-lhes ao desenvolvimento de processos interativos. Estes ocorrem a partir do momento em que o conteúdo manifesto pela prefeitura provoca excitações mentais no residente. Esta ação do acoplamento estrutural turístico sobre o residente caracteriza a construção de um ato perceptivo61. Por ele, compreende-se que a percepção não resulta de um esforço mental do intérprete, mas representa o efeito produzido por elementos externos a ele, dotados de singularidades. As estruturas estéticas assumem a capacidade de ativar mecanismos mentais dos intérpretes, estimulando suas percepções. Estas geram interatividades que apontam para formulações cognitivas. Todo ato perceptivo é sempre primário, dotado de qualidades que representam ideias e ações por verossimilhança, produzindo, em seguida, percepções.

Trata-se de um estímulo que desperta atenções, edificando conexões mentais que apontam para construções secundárias (sínteses, indicativos, imediatismos) e terciárias (relações, representações, argumentos). Esta ordem de vinculações constitui as etapas de formação da memória. De acordo com Marcuse (2013), estas construções envolvem a topologia

61 De acordo com Freud (2003), o ato perceptivo, portanto, é uma ação externa à mente, a percepção é a ação interna. Para o psicanalista, a relação percepção-consciência constitui um sistema que fica na linha fronteiriça entre exterior e interior, de modo que os elementos externos à mente estimulam os elementos internos do aparelho psíquico.

tripartida do id, ego e superego62 e encontram expressões nos princípios freudianos63 do

aparelho metal: o princípio de prazer e o princípio de realidade.

A Figura 15 abaixo, ilustra o processo de produção de memórias turísticas a partir da comunicação na Fanpage da Prefeitura de Salvador. Como se nota, o ato perceptivo é sempre um primeiro gerado pela rede digital. São estímulos que despertam percepções, edificando relações mentais, que por sua vez vão gerar o ato interativo. Este é sempre um segundo, relacionando-se com experiências sociais e formulações cognitivas, que no âmbito da produção de memórias turísticas completam a etapa secundária e constituem a terciária (como está demostrado ao longo da tese).

62 Conforme Marcuse (2013) as principais camadas da estrutura mental são designadas como id, ego e superego. A fundamental mais antiga e maior é o id, o domínio do inconsciente, dos instintos primários. É isento das formas e princípios que constituem o individuo consciente e social. Sob a influência do mundo externo (o meio) uma parte do id, a que está equipada com os órgãos para a recepção e proteção contra os estímulos, desenvolve-se gradualmente até formar o ego. Este é o “mediador” entre o id e o mundo externo. No curso do desenvolvimento do ego, outa entidade mental surge: o superego. Tem origem na dependência da criança em relação aos pais. Tal influência converte-se no núcleo permanente do superego. Em seguida, uma série de influências sociais e culturais são admitidas pelo superego, até se solidificar no representante poderoso da moralidade estabelecida e daquilo “a que as pessoas chama, coisas ‘superiores’ da vida humana”.

63 Sob influência dos instintos de autopreservação do ego, o princípio do prazer é substituído, pelo princípio de realidade. Este último princípio não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer; não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer (Freud, 2003, p. 12).

Figura 15: Relação entre atos perceptivo e interativo na Fanpage da Prefeitura Municipal de Salvador

Ilustração produzida pela pesquisa

A percepção permite ao residente a construção de inferências sobre a cultura turística, que pode culminar no ato interativo, gerando o conteúdo manifesto pelo residente. Mas são inferências lógicas, pois são organizadas na mente a partir de elementos da memória devidamente organizados nos acoplamentos estruturais turísticos. “Contudo, embora sejam inferências lógicas, trata-se de julgamentos que se forçam sobre a nossa aceitação e reconhecimento por meio de processos mentais sobre os quais não temos o menor domínio consciente” (Santaella, 2012, p. 95).

Embora o processo perceptivo independa da vontade do intérprete, é ele o pontapé inicial para o desenvolvimento de raciocínios lógicos sobre a cultura turística, pois como explica Peirce (2005, p. 261), “não há absolutamente uma primeira cognição de um objeto, mas sim, que a cognição surge através de um processo contínuo”. Todo raciocínio é derivado de estímulos externos a ele, e desenvolve-se a partir de estruturações do pensamento. Por isso, “toda cognição é determinada logicamente por cognições anteriores” (Peirce, 2005, p. 261).

A percepção do soteropolitano sobre o turismo local a partir da Fanpage da Prefeitura produz formulações qualitativas. São indicativos que apontam para o universo de informações contidas na mente interpretante, despertado por signos do acoplamento estrutural turístico. No ato perceptivo, este universo se manifesta de modo impulsivo ou inconscientemente64. Por isso, todo conteúdo gerado pelo residente é ambíguo e só permite formulações hipotéticas.

A hipótese pode ser definida como um argumento que se desenvolve a partir da suposição de que um caráter do qual se sabe que envolve necessariamente uma certa quantidade de outros caracteres, pode ser provavelmente predicado de qualquer objeto possuidor de todos os caracteres que se sabe envolvidos por esse caráter (Peirce, 2005, p. 264).

No conteúdo manifesto pelo residente, estão associações entre suas práticas cotidianas, suas subjetividades e o conteúdo gerado pela prefeitura. O soteropolitano constitui em sua mente ‘uma colcha de retalhos’, na qual cada retalho seria um componente da amplitude reticular do seu pensamento. Daí, a partir do conteúdo que ele manifesta na fanpage, é possível leva-lo ao desencadeamento de uma racionalidade sobre a cultura turística. Para tanto, é necessária uma estruturação lógica que permita o aprofundamento de seus conhecimentos, atitudes, relações sociais e perspectivas – um fio condutor para costurar a colcha de retalhos.

O conteúdo manifesto pelo soteropolitano na Fanpage da prefeitura, representa sínteses de suas relações com a cidade, com o turismo e com a gestão e apontam para suas memórias e conhecimentos. Na construção da memória turística, a percepção corresponde a uma primeira forma de organização do pensamento do seguidor da página (ainda que inconsciente). Ela surge como um insight, no momento em que o seguidor escolhe, em sua mente, elementos de autor- referência para manifestar elementos de heterroferência, estabelecendo uma interdependência entre ação e pensamento.

Com base em C. S. Peirce, Santaella (2004, p. 151) afirma que o pensamento é inseparável da percepção e da ação. Ora, quando nos referimos à ação no ciberespaço, estamos falando da interatividade que a hipermídia não apenas possibilita, mas exige do usuário. Para realizar seus objetivos, por exemplo, comunicar-se com outros usuários nas redes sociais, o usuário precisa fazer uso dos mecanismos da interatividade como aqueles que se realizam entre o usuário e o facebook, graças aos recursos que essa plataforma oferece (Mittermayer e Santaella, 2014, p. 93).

A percepção estrutura a interatividade do seguidor, gerando uma ‘resposta síntese’ ao estímulo provocado pela comunicação turística. No período de tempo em que o seguidor se

64 Em Freud (2003), entende-se que esses atos impulsivos regulam o princípio do prazer, pois eles expõem os conflitos pessoais e sociais entre as satisfações e angústias do cotidiano.

depara com a postagem, escolhe recursos e efetua a interatividade, está estruturando os elementos de sua memória para produzir o conteúdo manifesto. Como propõe Peirce (apud Santaella, 2012, p. 92), “nossos próprios perceptos são resultantes de elaboração cognitiva”.

Em tempos de convergência e de participação significativa, a interatividade do residente torna-se elemento central no processo de estudo da memória turística por meio da

fanpage. Ela permite a construção da memória digital, alimenta a produção discursiva na rede,

indica experiências e conceitos sobre o turismo, evidenciando a relação entre prazeres e angústias com a cultura turística. As ilustrações abaixo representam esse processo (Figuras de 16 a 35).

Figura 16: Salvador Meu Carnaval

A postagem sobre o pré-carnaval 2018 em Salvador faz parte da campanha turística praticada pela Prefeitura Municipal em sua Fanpage.

Figura 17: Usuário 01- Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré-carnaval 2018 de Salvador

Figura 18: Usuário 02 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 19: Usuário 03 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 20: Usuário 04 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 21: Usuário 05 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 22: Usuário 06 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da Prefeitura Municipal sobre o pré-carnaval 2018 de Salvador.

Figura 23: Usuário 07 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da Prefeitura Municipal sobre o pré-carnaval 2018 de Salvador.

Figura 24: Usuário 08 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da Prefeitura Municipal sobre o pré-carnaval 2018 de Salvador.

Figura 25: Usuário 09 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da Prefeitura Municipal sobre o pré-carnaval 2018 de Salvador.

Figura 26: Usuário 10 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 27: Usuário 11 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 28: Usuário 12 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 29: Usuário 13 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 30: Usuário 14 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 31: Usuário 15 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 32: Usuário 16 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 33: Usuário 17 – Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 34: Usuário 18 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

Figura 35: Usuário 19 - Salvador Meu Carnaval

Manifestação de usuário na postagem da PMS, intitulada Salvador Meu Carnaval, sobre o pré- carnaval 2018 de Salvador.

A postagem Salvador Meu Carnaval foi publicada no dia 12 de janeiro de 2018, às 17h44. Na semana de monitoramento, de 13 a 20 do mesmo mês, foram identificadas mais de 1,2 mil curtidas (incluindo manifestações de emoticons), 273 compartilhamentos, 509 comentários manifestos por turistas e residentes. Os primeiros geralmente reproduzem a segunda realidade difundida pela publicação oficial. Nos comentários dos soteropolitanos, estão indicativos de suas relações com a cultura turística e representações do movimento de experimentações e fricções sociais.

Nos conteúdos manifestos pelos residentes, estão angústias e prazeres da dinâmica de um centro receptivo que mantém o imaginário de cidade da festa, da alegria e de um povo hospitaleiro, feliz e malemolente, mas que, por suas dimensões geográficas, políticas, econômicas e sociais, apresenta a complexidade das grandes cidades do país e do mundo. “Os prazeres da vida civilizada, e Freud insiste nisso, vêm num pacote fechado com os sofrimentos, a satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião” (Bauman, 1998, p. 8).

O usuário 18 (Figura 34) faz uma crítica ao Carnaval, sinalizando diferenças socioeconômicas: “a elite em cima do trio e nos camarotes, e os plebeus e ignorantes se acabando correndo atrás do trio, se digladiando e gastando o que não têm, depois querem se queixar da opressão governamental”, já o usuário 19 (Figura 35) mostra sua contemplação pela folia, evocando outro usuário: “[...], dá pra curtir muito, viu”.

Outros sinalizam preocupações com tradições da festa, como diz o usuário 13 (Figura 29): “não deixem o Carnaval do Campo Grande/Avenida”, e o usuário 14 (Figura 30) grita: “essa onda de trio independente com dinheiro público está acabando com os blocos, consequentemente com nossa música, nosso axé music. Estão acabando com nosso Carnaval”.

Na Figura 28, o usuário 12 propõe uma sugestão: “Já pensaram em desconto no IPTU dos moradores do circuito que têm suas rotinas alteradas por conta do Carnaval? Pelo menos uma semana fora de casa. Isso gera um custo alto, além do transtorno do trânsito em todo o período pré e pós-festa”.

Estas contextualizações sobre o maior produto turístico da cidade, conforme disse o secretário de Cultura e Turismo65, sinaliza que o turismo exerce papel singular na vida do soteropolitano. Há a sacralização de experiências sociais, com todas as complexidades que dinamizam os diversos setores da cidade. Por isso, a demanda dos soteropolitanos por adequações da festa ao cotidiano. O que ilustra a manifestação do usuário 01 (Figura 17):

Opa! Que maravilha! Tá todo mundo bem empregado em Salvador, bons salários, todos os hospitais e Upas funcionando com o melhor atendimento possível, escolas e creches não faltam, assim como comida na mesa de toda a população, agora podemos pagar os melhores artistas, fazer festa, assim dona Maria e seu José podem pagar um bom dinheirinho para botar aquele isopor com cerveja (mas só aquela patrocinadora) e tirar um trocado. Viva o carnaval! Viva a prefeitura! Viva o povo brasileiro que sempre faz as melhores escolhas, claro, pular carnaval, e vamos esquecer que os políticos aumentaram o salário do povo em 1,81%, porém o deles em 25%, coisa pouca, o povo não precisa do capricho de comer bem, muito menos comprar remédio, todo muito saudáveis, aliás, lazer o governo dá de graça, né? Carnaval.

O usuário enfatiza diversas questões do cotidiano e recorre ao passado, associando-o ao presente, na sua argumentação. Ele cria uma problemática em torno do produto turístico, estabelecendo relações com saúde, educação, moradia, trabalho. Evoca a história do povo brasileiro e relações políticas para descrever o cotidiano e suas perspectivas de futuro. Sua percepção aponta para uma vontade em encontrar um ponto de equilíbrio entre prazeres e angústias, como se estivesse em busca de uma estabilidade completa, de uma constância, que lhe assegure uma vida plena.

De acordo com o princípio do prazer (Freud, 2003), essa busca por estabilidade consiste na sobreposição da consciência de realidade ao prazer. Por isso, as fronteiras culturais geradas pelos acoplamentos estruturais turísticos permitem aos soteropolitanos refletirem sobre diferentes realidades sociais, gerando movimentos críticos diversos que apontam para diferentes memórias sobre a cultura turística da capital baiana. Ao associarem problemáticas

65 Em entrevista para esta pesquisa, o então secretário de Cultura e Turismo de Salvador, confirmou que o Carnaval é o “ponto alto do turismo soteropolitano e se confunde com a própria cultura da cidade”. Trata-se da maior festa popular do planeta, de acordo com o Quines Book. Nos últimos anos, a festa tem reunido cerca de 500 atrações e dois milhões de pessoas por dia, durante sete dias.

locais às comunicações turísticas, os soteropolitanos expõem as instabilidades e complexidades da cultura e constroem novas realidades turísticas.

Afinal, “ao lado de uma grande história organizacional, emerge um vasto contingente de histórias de pessoas não consideradas como protagonistas da história” (Nassar, 2016, p. 93). Os soteropolitanos seguidores da página transbordam os limites impostos pela organização e associam intrinsicamente à construção idílica, problemáticas referentes a trabalho, saúde, educação, alimentação, economia, política, manipulação das massas e preocupações com tradições carnavalescas locais.

Estas múltiplas percepções constituem uma memória digital dotada de complexidades e ambivalências, representando experiências e conceitos do residente sobre as práticas turísticas realizadas em Salvador. Ao ter caráter representativo, a memória digital é constituída por documentos dotados de significações sobre aspectos da memória turística. Com base em Le Goff (1994), as figuras de 16 a 35 são documentos porque armazenam informações, permitem demarcações, memorizações e registros de conteúdos referentes a um contexto espaço- temporal. São, portanto, fontes para análises das memórias sociais.

Tais formulações discursivas apontam para a multiplicidade de sentidos da cultura turística contida nos documentos que constituem a memória digital. Como observa Foucault (2014, p. 8), os documentos são matérias vivas que definem “no próprio tecido documental, unidades, conjuntos, séries”. Os conteúdos manifestos pelos usuários denunciam formas e consciências de como a cultura turística de Salvador está na mente dos interlocutores e indicam a relevância da festa carnavalesca para o soteropolitano e sua relação com a dinâmica da cidade. Também oferece uma explicação sobre os motivos pelos quais a campanha turística da Prefeitura de Salvador sempre traz elementos como música, dança, alegria e permissividade, entre outros aspectos vinculados à festa carnavalesca, associando-a à memória local.

Esta relação entre festa e memória é estabelecida por Le Goff (1994) na análise sobre comemorações de eventos históricos como o fim da Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, ou a Revolução Francesa. Como observa o historiador, a laicização das festas e do calendário facilita a proliferação de celebrações e, por elas, a alimentação da memória, visto que em cada evento66 estão contidos signos de representações da cultura.

66 Embora Lohmann e Panosso Neto (2012), observem que no Brasil os estudos sobre eventos encontram-se em fase de amadurecimento, por outro lado apresentam contextualizações a partir de estudos de David Getz, o que possibilita classificar os eventos do calendário turístico divulgado pela Prefeitura de Salvador. Assim, há eventos locais, atraindo número reduzido de turistas, a exemplo da festa de Santa Barbara, Nossa Senhora da Conceição, e do Festival da Cidade; regionais, atraindo uma demanda média (Festa do Senhor do Bonfim, Iemanjá); e distintivos (Festival da Virada, os ensaios de verão e o Carnaval). A capital baiana também já foi sede de mega eventos ocasionais, como jogos da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016). Portanto, a maioria dos

A comemoração apropria-se de novos instrumentos de suporte: moedas, medalhas, selos de correio multiplicam-se. A partir de meados do século XIX, aproximadamente, uma nova vaga estatuária, uma nova civilização da inscrição (monumentos, placas de paredes, placas comemorativas nas casas de mortos ilustres) submerge às nações europeias. Grande domínio em que a política, a sensibilidade e o folclore se misturam e que espera os seus historiadores. [...] O desenvolvimento do turismo dá um impulso notável ao comércio de souvenir (Le Goff, 1994, p. 464).

O calendário de eventos instituído pela Prefeitura de Salvador está diretamente ligado a comemorações e ao comércio de souvenires e serviços turísticos. As principais datas festivas e, por consequência, turísticas, têm início em quatro de dezembro, quando se comemora, a Festa de Santa Bárbara, que na interface com as religiões de matriz africana, corresponde à Iansã, a orixá dos ventos e trovões; segue em oito de dezembro (Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade, que na interface religiosa, corresponde a Oxum, a orixá das águas doces); em seguida são realizados eventos de Natal e Réveillon, que desde o ano de 2013, foi transformado em Festival Virada Salvador.

Após a comemoração pela chegada do novo ano, têm inícios os ensaios preparatórios para o Carnaval dos tradicionais blocos afros (Ilê Ayê, Olodum, Cortejo Afro, Muzenza, Malê de Balê), e de artistas do axé music, como os grupos Harmonia do Samba, Timbalada, É o Tchan, o Baile da Santinha, Bailinho de Quinta. Em janeiro, celebra-se o Senhor do Bonfim

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