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0.4 Surfaces de dilatation

0.4.3 Aspects dynamiques

A seguir, será abordada cada uma dessas representações mais recorrentes, analisando-se o imaginário que se constrói sobre o feminino no universo das gangues. As mulheres pertencentes às gangues são categorizadas a partir dos seus comportamentos. Essas representações têm consequências no âmbito das gangues, sendo que alguns comportamentos são valorizados, pois corrobo- ram as expectativas dos membros do grupo; por outro lado, outros compor- tamentos reproduzem preconceitos e são estigmatizados. Esta estigmatização

20 Vem em cima: vai para a briga. 21 Oxê: expressão de indignação.

22 Fazer casinha: atrair alguém para emboscada, geralmente por meio da sedução. É uma prer-

pode ser reforçada pela predominância do universo masculino, que impõe valores que muitas vezes implicam desvalorização das mulheres. É evidente que estas relações também permeiam as relações entre as mulheres, propi- ciando um ambiente competitivo, que pode implicar que as próprias mulhe- res reforcem a estigmatização de outros membros do grupo.

Nesta pesquisa as representações mais recorrentes foram: 1. Donas de rocha ou cabulosas: destemidas, confiáveis, leais; 2. Armadoras de casinha: reali- zadoras de emboscada, por meio da sedução de inimigo; 3. Bandas ou fran- guitas: mulheres que ficam e/ou fazem sexo com muitos homens diferentes; 4. Cabritas: traidoras; 5. Pé de pano: ficar com o homem de outra.

1. As donas de rocha ou cabulosas se caracterizam por qualidades que as possibilitam obter reconhecimento (respeito e admiração) frente aos inte- grantes da gangue: primordialmente a coragem e a audácia, que são requi- sitos para habilidade e disposição para brigar. Estas características as dis- tanciam do estereótipo da mulher frágil, reforçado e estigmatizado pelos membros masculinos das gangues. Mostrar-se destemida seja por meio da briga, seja por comportamentos apresentados diante do grupo, é uma forma de garantir o seu espaço de respeito, tanto com os homens quanto com as mulheres pertencentes às gangues. Ser marrenta, ter atitude, ter ousadia nas atividades de risco da gangue, apresentar-se como destemida são caracterís- ticas que devem fazer parte do cotidiano de uma jovem que é considerada “dona de rocha” e consequentemente seus comportamentos continuam a ser valorizados pelo grupo.

Geralmente a menina que tem características esperadas das donas da rocha torna-se líder feminina, pois se envolve nas atividades da gangue, como sair de madrugada e ter disponibilidade de participar de atividades mais arrisca- das, que podem implicar uma transgressão da lei, como roubar.

Algumas enfatizam também a questão da independência feminina frente aos homens, recusando o papel de submissão e obediência, seja dentro da gan- gue, seja fora dela.

Ocupar o lugar de dona de rocha implica por um lado viver as vantagens desta posição, mas por outro enfrentar por vezes a resistência dos membros do sexo masculino, ter que provar constantemente as características esperadas pelos outros membros do grupo. Estar disponível para as atividades do grupo (frevos23 e pichações) significa que ela deve administrar as atividades dentro e fora da gangue. Apesar destas questões, o reconhecimento, a autonomia, o respeito e a fama incentivam a permanência destas meninas nas gangues.

2. Armadoras de casinha são meninas pertencentes a uma gangue que cola- boram com a mesma efetivando emboscadas contra os inimigos da gangue. Durante as guerras, elas cumprem um papel primordial na concretização de armadilhas que podem implicar a derrota do inimigo. Desta forma, a arma- dora de casinha está associada no imaginário dos gangueiros com uma dupla representação: por um lado, ela faz parte de uma estratégia importante nos momentos de guerra, como um recurso de todo o grupo; por outro lado, pode representar a traição dos próprios companheiros de grupo. Neste sen- tido, alguns gangueiros afirmam ter receio das casinhas pelas consequências que podem advir de suas atitudes.

Nos discursos de alguns componentes das gangues, as características intrín- secas e exclusivas das mulheres consistem em participar nestas armadilhas. Apresentam a sedução e o forte apelo sexual como as principais caracterís- ticas da armadora de casinha para enganar o homem. Nesses discursos, o feminino está intrinsecamente associado à figura da traiçoeira, tão temida por todos os integrantes das gangues. Algumas mulheres integrantes das gangues não aceitam o lugar de armadora de casinha; todavia, este é um estereótipo que tende a ser atribuído à maioria das mulheres.

3. Bandas ou franguitas são as mulheres menosprezadas pelo discurso do gangueiro, pois são estigmatizadas por ter uma vida sexual ativa e ter vários parceiros. A atuação sexual da mulher aparece como uma atitude reprová- vel e pode desgastar a imagem perante os outros componentes do grupo. É recorrente os homens denominarem suas companheiras de gangues como banda24, vagabunda, cachorra ou bagaceira, atitude que muitas vezes é apro- vada pelas mulheres da gangue. Nesta perspectiva, o comportamento espe- rado do homem e da mulher pertencentes as gangues é díspar: enquanto do homem se espera a publicitação e vanglorização das suas conquistas amoro- sas, da mulher qualquer manifestação sexual é depreciada, reproduzindo a lógica machista da sociedade em que estão imersos.

4. Cabritas ou traidoras são as meninas que traem a gangue com uma gan- gue inimiga. Nesta categorização, tal como das armadoras de casinha, a figura feminina aparece como tendo a característica da falsidade intrínseca da constituição feminina. Desta forma, no imaginário dos homens e de algu- mas mulheres pertencentes às gangues, a traição perpassa o comportamento feminino, podendo ser utilizada a favor do grupo, como com as armadoras de casinhas, ou fazendo armadilhas para os membros do próprio grupo (isto

é, cabritar). Em algumas gangues estas atitudes são punidas com bastante rigor. Se para os homens o medo é de ser traído, para as mulheres o receio é de ser difamada e sofrer suas consequências. Para as mulheres das gangues, é necessário um imenso cuidado para que o estigma não recaia nelas, por isso utilizam estratégias como a aproximação da imagem social da dona de rocha. 5. Pé de pano: as meninas caracterizadas como pé de pano são aquelas que traem as outras mulheres “roubando o seu namorado”. A questão da falsi- dade permeia também esta caracterização, responsabilizando o feminino por esta atitude. “Essa recorrência é, sem dúvida, indício de que a questão das rivalidades, das guerras e da lealdade são pontos que perpassam a socializa- ção como um todo, adquirindo grande relevância a temática da ‘confiança’” (Abramovay et al., 2010: 269).

Para os membros femininos das gangues, o fato de uma menina estar envol- vida com um homem, de estar namorando é valorizado e reconhecido pelos homens das gangues. A competição entre as mulheres perpassa vários dis- cursos. É recorrente a percepção de que o desrespeito ao espaço de uma mulher é consequência da ação de outra mulher, a pé de pano, cuja amizade não é verdadeira.

Nos casos em que ocorre a traição entre as mulheres, é o segmento “F” quem vai deliberar sobre os procedimentos, sendo que a humilhação e o constrangimento públicos são questões pautadas por esta deliberação. Considerando que a construção da masculinidade se concretiza em relações de gênero específicas, buscou-se explorar o lugar das meninas nas gangues, suas atividades e como elas são representadas por homens e mulheres. A proposta a seguir é examinar as estratégias femininas para sobreviver em um ambiente perpassado pelo ethos masculino.