Desgaste e recompensa, sofrimento e prazer, angústia e alívio são alguns paradoxos que nos acompanharam no árduo e gratificante percurso da pesquisa de campo.
Já imaginávamos, desde o início, que encontraríamos uma série de dificuldades, principalmente na localização dos sujeitos que se encaixassem no perfil delimitado para a pesquisa, mas acreditávamos que responsáveis por centros comunitários, associações de moradores, igrejas, etc., poderiam nos ajudar indicando pessoas para as entrevistas. Isso, entretanto, não ocorreu. O que acontecia é que obviamente havia muitos homens e mulheres na região, mas a grande mobilidade característica dos municípios abordados fazia com que se reduzisse, e muito, o número de possíveis sujeitos. Partimos, então, à procura de moradores com pouca escolaridade e nos deparamos com a seguinte realidade: aqueles que tinham pouco estudo eram migrantes que, sem condições de progresso em sua terra natal, buscavam na “cidade grande” a esperança de uma vida melhor; aqueles que sempre viveram na localidade invariavelmente tinham, ao menos, concluído o Ensino Médio. Recorremos, então, a amigos, parentes, alunos, meros conhecidos ou até desconhecidos, feirantes, comerciantes, policiais, enfim, todos aqueles que, de alguma forma nos púnhamos a conversar, a certo momento era sutilmente solicitado a colaborar.
A primeira reação dessas pessoas, invariavelmente, era acreditar que seria fácil, mas, num curto espaço de tempo, se davam conta de que a tarefa era um tanto quanto árdua.
Aos poucos, fomos encontrando os sujeitos, num processo desestimulante de vários fracassos antes de cada entrevista com sucesso. Isso fez com que o tempo previsto para dedicação à pesquisa de campo fosse ampliado consideravelmente.
Além disso, deparamo-nos com muitos percalços em nosso caminho, dos quais relatamos parte no presente trabalho. Restringimo-nos a arrolar algumas das dificuldades encontradas para a realização exclusivamente técnica da coleta de dados, tais como:
- A questão da mobilidade das pessoas, na região, foi nosso maior desafio. Em diversas ocasiões, passávamos horas abordando pessoas e recebendo respostas negativas sobre possíveis sujeitos, pois a grande maioria das pessoas que encontrávamos era de migrantes ou tinham passado muitos anos vivendo em outros locais. Entrevistar sujeitos com essas características, diante do tipo de pesquisa que nos propomos a fazer, faria com que os resultados não fossem fidedignos.
- As pessoas que viveram sempre ou por muito tempo nos pontos a serem pesquisados, ou não estavam na faixa etária que procurávamos, ou tinham o grau de escolaridade superior ao que precisávamos. A cidade de São Caetano do Sul, por exemplo, considerada pela ONU uma das primeiras em qualidade de vida, município que há anos investe muito na educação, possui um número reduzido de pessoas de baixa escolaridade.
- A Zona Rural de São Bernardo do Campo também nos proporcionou grandes dificuldades, pois quase toda a população do local é constituída de migrantes que se instalaram lá por falta de condições para residir na região urbana do município. Pouquíssimos são aqueles que vivem no local há muitos anos, principalmente na faixa etária de 50 e 65 anos de idade.
- Recebemos informação da existência de tribo indígena, o que nos fez procurar por uma em busca de sujeitos para entrevistas. Depois de quilômetros percorridos, chegamos à aldeia e descobrimos que o limite de município de São Bernardo do Campo era muito próximo da aldeia e que os índios moravam próximo à divisa, mas do lado do município de São Paulo. Mais uma vez, o tempo, que se tornava escasso, foi perdido.
- Grande parte dos entrevistados foram abordados nas ruas, pois procurávamos por sujeitos em feiras-livres, praças e parques, quadras poliesportivas. Falamos, dentre outros, com repositores e demais funcionários em comércios do município, falamos com flanelinhas, frentistas de postos de gasolina e porteiros (ou zeladores) de grandes condomínios. Chegamos, também, a bater de porta em porta, nas casas das pessoas em alguns pontos da pesquisa.
- Precisávamos de dois homens e duas mulheres, um de cada gênero em cada uma das duas faixas etárias para cada ponto. Tendo encontrado, via de regra, primeiro as mulheres da segunda faixa etária, com muita freqüência, tínhamos indicações de sujeitos com o perfil cuja meta já tínhamos atingido para os mesmos pontos. Como inicialmente nos pusemos a entrevistar todo e qualquer sujeito que se enquadrasse no perfil delimitado, em pouco tempo observamos que tínhamos, por exemplo, três mulheres de 50 a 65 anos de idade entrevistadas para um único ponto, e nenhum homem no mesmo lugar ou nenhuma mulher para outro ponto.
- Em diversas ocasiões, o barulho tornou-se nosso inimigo, atuando com forte ruído da comunicação durante a entrevista. Algumas gravações foram, inclusive, desprezadas porque se tornaram ininteligíveis. Concorríamos, constantemente, com barulhos de crianças, televisão, rádio, chuva, panelas, trem, pessoas conversando e até gritando na proximidade do local onde estávamos.
- Pelo menos em duas das entrevistas, encontramos circunstantes que respondiam, mesmo alertados que não deveriam fazê-lo, às perguntas no lugar do sujeito entrevistado. No primeiro caso a entrevista precisou ser inutilizada e, no segundo, gentilmente solicitamos ao sujeito que procurasse outro local para que pudéssemos fazer a entrevista sem intromissões.
- Também aconteceu de marcarmos entrevistas e nos deslocarmos para os locais e, ao chegarmos, descobrirmos que o endereço não existia e/ou que o número do telefone estava errado. Além disso, houve locais em que as ruas tinham nomes semelhantes e as indicações de caminho eram tão desencontradas que nos víamos perdida em um local desconhecido.
- Após agendarmos, por indicação de amigos, familiares, alunos ou colaboradores, um horário com sujeitos que afirmavam enquadrarem-se no
perfil procurado, deslocávamo-nos até o local, por vezes distante, e, ao chegarmos lá, percebíamos que as informações sobre o sujeito eram desencontradas. Tornava-se difícil dizer àquela pessoa que ela “não servia” porque estava fora da idade ou porque tinha vivido muito tempo em outro local, ou que tinha muito estudo. Normalmente, nessas ocasiões, percebíamos que a pessoa estava entusiasmada e realmente queria participar. Diante disso, fazíamos a entrevista, mesmo sabendo que ela não seria aproveitada para esta pesquisa, agradecíamos muito e íamos embora.
- Deparamo-nos com uma difícil situação diante de uma entrevista agendada no município de Diadema. Ao encontrarmos o sujeito a ser entrevistado, percebemos que não conseguiríamos entender absolutamente nada do que ele dizia. Aliás, nem o nome do rapaz sabemos até hoje. Ocorre que o rapaz tinha, além da timidez, lábios leporinos que nunca foram operados e que distorcia totalmente o som inviabilizando qualquer tentativa de realização lingüística. Também nos deparamos com um sujeito aparentemente com as características que procurávamos e, logo ao chegarmos, fomos informada de que o sujeito possuía distúrbios mentais graves e não sabia ao certo o que dizia. Nos dois casos, julgamos importante valorizar a vontade desses sujeitos de participar e aplicamos parte do questionário, para que eles não se sentissem desmerecidos.
- Para que pudéssemos efetivar as entrevistas, era necessário que fizéssemos longos percursos por estradas como Via Anchieta, Rodovia dos Imigrantes, Rodovia Índio Tibiriçá, que dão acesso a alguns dos municípios da região. Também percorremos estradas de terra e utilizamos balsa para chegarmos a locais de mais difícil acesso. Houve locais em que, para nossa surpresa, fomos, inclusive, tarifados por pedágios.
Cabe observar que as gravações das entrevistas foram feitas em aparelhos de Digital MP3 Player, com gravador digital de voz,da marca Sony e, depois salvas em forma de arquivos individuais em mídias inicialmente de CD e, depois, DVD.
É importantíssimo esclarecer que, mesmo diante desses obstáculos, a pesquisa de campo fez com que ficássemos com o coração cheio de esperança na humanidade. Fomos sempre muito bem recebida por aqueles que se propuseram a colaborar e
tivemos a constatação que um grande grupo de pessoas deixou seus afazeres por algum tempo e, até, tomaram atitudes impressionantes simplesmente para colaborar.