Poeta e historiador literário, Arturo Graf nasceu em Atenas, em 19 de janeiro de 1848. De família abastada, o pai, Adolfo Graf, era comerciante, e a mãe, Serafina Binni, de sensível cultura, dona de casa. Em 1851, transferiu-se para Trieste, na Itália, juntamente com a família, e logo para Braila, na Romênia. Na pequena cidade romena, onde permaneceria anos isolado, começou a se interessar por poesia e música, fazendo do lugar um ambiente propício à sua natureza, sempre propensa à reflexão e à melancolia. Em 1863, no entanto, decide retornar à Itália, dessa vez a Nápoles, à época grande centro de vida cultural e mundana, onde se inscreveria na Faculdade de Direito.
Na capital napolitana, além de conhecer uma vida dividida entre as esperanças e as ilusões próprias de um jovem estudante, entrou em contato com o agitado mundo intelectual da época, para ele até então desconhecido, momento em que passou a frequentar os ambientes literários e a escrever para periódicos como o “Nuova Antologia”, além de fundar, juntamente com outros literatos, o “Giornale storico della letteratura italiana”, editado até os dias atuais. Em 1870, após graduar-se em Direito, percebeu que a carreira forense nada tinha a ver com suas aspirações, e assim, ao não encontrar um trabalho adequado à sua formação, decidiu retornar, embora contrariamente, a Braila, e trabalhar no antigo comércio da família.
345 As referências sobre a vida e a obra de Arturo Graf foram obtidas a partir das seguintes
edições: GRAF, A. Medusa. A cura di Anna Dolfi. Modena: Mucchi, 1990, pp. XXIII-XXXI; JACOBBI, R. L’Italia simbolista. A cura di Beatrice Sica e introduzione di Anna Dolfi. Trento: La Finestra, 2003, pp. 54-58.
Em novembro de 1874, com a ajuda financeira do amigo Vittorio Mendl, seu primeiro editor, transferiu-se para Roma, inserindo-se novamente nos ambientes literários, e obtendo, em seguida, a livre docência em Literatura Italiana, com tese sobre Leopardi, e depois em Literaturas Neolatinas, o que lhe abriu as portas da universidade. No mesmo ano, foi chamado à Universidade de Turim para ensinar literatura neolatina e, no ano seguinte, literatura italiana, começando, assim, “la sua carriera di professore brillante ed appartato, suadente e solitario”346, em uma das cidades mais importantes da Itália recém- unificada. Após a entrada na universidade, deu início a um longo projeto de pesquisa acerca da história literária italiana, dedicando-se a uma série de estudos literários e dramáticos, além de escrever importantes ensaios sobre Foscolo, Dante e Leopardi, e inumeráveis pesquisas sobre lendas e mitos medievais.
Em 1880, após já ter lançado três livros de poesia, Poesie (1863), Versi (1874) e Poesie e Novelle (1876), publicou seu mais significativo livro intitulado Medusa, pelo editor Ermano Loescher, cuja obra, ao passo de uma década, seria reeditada três vezes. A obra situa-se em uma posição bastante singular no cenário literário da época, por apresentar uma esfera pouco explorada pela poesia naquele momento, isto é, a esfera do mistério, que ecoava, essencialmente, em dois elementos baudelairianos, de um lado, o inconnu (isto é, o desconhecido que oculta o novo, e impele o poeta em sua busca), e de outro, o spleen (que determina o estado de ânimo, e por consequência, de criação poética).
Por anteceder obras significativas do simbolismo que ainda seriam publicadas na França, e também pela complexidade metafórica de seus versos, que lhe consentiram dar forma a uma atmosfera obscura, própria de um “autêntico filho da Noite”347, e retomar um dos mitos mais emblemáticos da tradição literária, “in Medusa egli sembra operare secondo i modi della poetica dell’irrazionale”348, colocando-se, assim, frente a uma situação antes desconhecida, que abriria espaço para novas técnicas literárias e novas intuições para a poesia do Novecentos. Embora envolta em uma aura de mistério, a medusa de Graf é considerada, após os scapigliati, a primeira obra a se abrir às influências europeias349.
O aspecto que se ressalta em sua poesia é o duelo entre a vida e a morte, a primeira entendida como um mistério, a outra, como sentido
346 DOLFI, Anna. “Arturo Graf, spleen, lirismo e malinconia”. In. Medusa, op.cit., p. XXIV.
347
Segundo a leitura de Hélène Tuzet, em: Le cosmos et l’immagination. Paris: Corti, 1965.
348 ANCESCHI, op.cit., p. 60.
trágico que faz parte da existência. Por isso, a exigência por novas imagens, por uma nova mitologia, que o levaram a dramatizar os eventos humanos sobre o cenário macabro dos mitos antigos. Para Anceschi, essa postura irracional e intuitiva adotada por Graf, fez com que ele projetasse na poesia suas obsessões mais profundas, trazendo à luz as zonas mais recônditas e obscuras da psique, numa época ainda marcada fortemente pela realidade do verismo. Essa imersão, porém, ocorre laboriosamente através do olhar petrificante de sua medusa, que parece querer anular quem dela ousa se aproximar, pois através dela, Graf
dice, avvolge tutti i pensieri della poesia, e nascono “inni venenati”, il cui senso si svela in una tipica oscura simbologia negativa di “teschi”, di “tombe”, e “torva luna”... tra un gusto di torinese liberty e certi modi scapigliati.350
Essa simbologia obscura, por sua vez, refletia um sentimento de negação no que diz respeito à impossibilidade de resgate de uma época marcada por ideais positivistas, que já começava, política e civicamente, a ruir, e frente à qual a própria poesia, e nem mesmo a ciência, já não eram capazes de oferecer uma esperança. Era contra esta época qualificada como “racional” que Graf, no plano poético, se rebelava, e por isso sua predileção pelas atmosferas obscuras, especialmente sepulcrais e de desolação, que poderiam lher abrir as portas do inconsciente. Segundo Anna Dolfi, responsável por revitalizar a obra do autor na década de 1990 e republicar, após cem anos, sua iconográfica medusa, foi sobretudo o aspecto da obscuridade — recurso poético típico da escola simbolista — ao qual Graf se deteve com maior atenção, o que o levou a potencializar o uso dos instrumentos técnicos a fim de renovar sua própria poesia e proporcionar uma releitura, sempre em chave simbólica, dos antigos mitos. Por isso,
Delle tre componenti del simbolismo [...], l’oscurità, la suggestione, la musicalità, non è un caso – e nei nomi di Rimbaud, Mallarmé, Verlaine − che da Graf fosse avversata e tenacemente soprattutto la prima, quella che oltre i temi poteva potenziargli e mutargli, sul modello francese, l’uso degli strumenti tecnici e portarlo alla
riduzione della componente narrativa e all’analogia, e di lì all’invenzione di nuove e variate immagini oltre la rilettura in chiave simbolica delle immagini del passato.351
Como se percebe, seu simbolismo aponta, de um lado, para uma poesia tipicamente melancólica que reúne elementos do Romantismo da metade do século XIX, e por outro, deixa entrever vislumbres de uma sensibilidade pré-decadente, por antecipar temas próprios do Decadentismo italiano. O livro, assim, assume o significado de um mistério anterior no cenário literário nacional e mesmo europeu, e apresenta uma consistência, enquanto volume poético, só comparada às Fleurs du mal de Baudelaire, do qual parece resultar uma correspondência direta. “Infinito”, “Rimembranza”, “Angoscia”, “Mistero”, “Rovina”, “Corvo” são alguns dos títulos que partem de sua poesia e que obedecem à retomada de um imaginário poético bastante peculiar, em que se destaca o uso recorrente de analogias, a sugestão de novas e variadas imagens, os acentos de profunda e desesperada tristeza, a mitologia prevalentemente alusiva.
Em Graf, a analogia se transforma no instrumento de maior aquisição dos objetos, uma vez que possibilita dilatar os significados mais ocultos da palavra até alcançar relações imprevisíveis. A equivalência direta com o inconsciente, a atmosfera densa de imagens foscas e a melancolia pulsante, da qual o primeiro Graf se faz porta-voz, são observadas claramente em seu discurso poético. Incluído na antologia simbolista de Jacobbi, Graf é descrito pelo crítico como um caso literário difícil de ser “catalogado”, já que para compreendê-lo é preciso “trarci fuori dal gorgo delle nostre abitudini accademiche”352, a fim de entender suas predileções pelo obscuro e suas inclinações pelo inconsciente:
Greco e mitteleuropeo [...], il Graf interrogava fantasmi schellinghiani, ombre insorte dall’in- conscio secondo Hartmann, presagi “neri” di teosofia novecentesca [...]. Nel Graf... il mondo si sfalda da una parte di misticismo... che si porta dietro una storia affannosa e nobile d’in- terrogazioni a ciò che non risponde, al nulla della
351 DOLFI, op.cit., 1990, p. XIII.
presenza tentata senza gli strumenti essenziali della leggerezza e della gioia.353
Composta por mais de uma centena de poemas, os versos do volume, em sua maioria, exprimem uma vontade obscura do eu lírico em querer descer mais abaixo, força que o atrai, que o move, simbolicamente, aos mares sem horizontes nos quais se inclina o topos trágico de sua viagem354. Do conjunto da obra (isto é, da 1ª edição), os poemas “Mare interno” (Mar interior), “Il vascello fantasma” (O barco fantasma) e “Mistero” (Mistério), ilustram esse percurso. Imersos no complexo de motivos que caracterizam sua fase simbolista, podem ser considerados os mais emblemáticos do poeta, uma vez que reúnem, no conjunto, diversos elementos de seu imaginário poético, a saber: a melancolia e a angústia, a incerteza e o temor, e o mar como símbolo de abismo profundo e, portanto, reflexo da alma do poeta. Destes, o soneto “Mistero” (Mistério) será analisado com maior acuidade, pois, além de apontar para aspectos formais mais regulares, gira em torno de uma temática exclusivamente sombria, que, por sua vez, condensa o conteúdo das demais composições, de onde se pode extrair os primeiros indícios de sua iconografia simbólica.
No soneto “Mare interno” (Mar interior), o poeta apresenta as analogias entre o eu do poeta — sempre propenso a declinar — com o mar — considerado um abismo profundo. Embora se sinta espiritualmente soberbo, virtude que “rimanda a quella sublimità del sentire [...] alla quale solo si addice l’eccezionalità, anche della malinconia”355, sentimento comum entre os românticos, mesmo assim o poeta se inclina em sua direção, absorvendo, através de suas ondas salobres e de sua enorme vastidão, um sentimento de desolação, de “vuoto totale, a delineare la chiusura radicale al mondo esterno nel gouffre melanconico in cui si dibatte l’io poeta”356. A analogia entre o âmago do poeta, vasto e profundo como o mar, se dá através do uso de um vocabulário que não por acaso se liga estreitamente à metáfora do mar interior, isto é, do eu que submerge, que cai no abismo “profundo, oculto, perdido”, em meio a uma atmosfera de “terror”:
353 Idem, ibidem. 354 DOLFI, op.cit., 1990, p. XX. 355 Idem, p. 30. 356 Idem, ibidem.