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A escrita como registro da prática e da vida torna-se importante para a compreensão das trajetórias e dilemas da sala de aula. Para Souza e Cordeiro (2010, p. 222), a reflexão dessa escrita possibilita ao sujeito em processo de formação “compreender as condições de produção e os sentidos de sua própria escrita, a qual revela relações com o trabalho e formas de compreender a escrita como prática de pesquisa e de formação”. Dessa forma, nessa narrativa o sujeito estabelece uma forma discursiva e organizacional de falar de si.

É nessa perspectiva que os diários de professores se tornam uma preciosa fonte de conhecimento e autoconhecimento, possibilitando a compreensão das práticas cotidianas e da relação que esse sujeito estabelece com o mundo, através da escrita (CUNHA, 2000). Em confluência com isso, Zabalza (1994, p.10), defende que “os diários são instrumentos adequados para veicular o pensamento dos professores”, podendo ser explorados como narrativa reflexiva, pois o fato de escrever sobre si, cotidianamente, auxilia o sujeito a aprender através da narração que acaba por constituir-se em processo reflexivo.

Holly (1992) refere-se aos estudos sobre escritas de diários de professores em que estes, passaram da escrita descritiva para observações reflexivas, como efeito dessa escrita. Escrever possibilita conservar pedaços da vida, da vida pessoal e profissional, da vida cotidiana, de momentos dessa vida que possibilitam á reflexão.

A narrativa (auto)biográfica no âmbito da escrita de si, permite ao sujeito em processo de formação, refletir sobre o seu cotidiano, possibilitando trazer a realidade da vida pessoal e profissional de forma a se tornar um ponto de partida para o conhecimento de si (ZIBETI, 2007). Para Souza (2006a, p.60).

A escrita da narrativa tem um efeito formador por si só. Isto porque coloca o ator num campo de reflexão, de tomada de consciência sobre sua existência, de sentidos estabelecidos à formação ao longo da vida, dos conhecimentos adquiridos e das análises e compreensões empreendidas sobre a vida, do ponto de vista psicológico, antropológico, sociológico e lingüístico que a escrita de si e sobre si exige.

Conforme o autor, a escrita de si possibilita reflexão, portanto, contribui com a formação. A reflexão sobre a vida e a prática docente, possibilita a mudança. Essa é uma experiência que cada pessoa vivencia de uma maneira diferente, mas o efeito é o mesmo – a formação.

Na seção abaixo, exponho como iniciei a escrita sobre a minha vida e experiência profissional e quais instrumentos utilizei para falar de mim. Ela será contada na intenção de expor minhas aprendizagens e mostrar uma aproximação anterior (mesmo antes de ter conhecimento) com as narrativas (auto) autobiográficas.

Dessa forma, a coleta de dados a partir dos diários deu-se desde o momento em que os participantes aceitaram contribuir com essa pesquisa. A cada um deles foi entregue um caderno para a escrita diária da história de vida-formação. O professor, por se sentir mais á vontade solicitou que este diário fosse digitado e enviado aos sábados, e assim aconteceu no ano de 2011. Já o diário da professora foi recolhido no mês de março do ano de 2012.

Assim, foi solicitado aos participantes desta pesquisa que escrevessem no diário: a rotina na escola, aspectos dos hábitos pessoais, aprendizagens, reflexões, sentimentos, fatos e o que mais lhes interessassem, pois os diários pertenciam a eles e eram livres para escrever o que achassem conveniente.

Os diários (auto)biográficos tratam de uma escrita sobre a vida, que possibilita ao sujeito que escreve compreender o processo de conhecimento e aprendizagem a que estão implicados nas suas experiências construídas ao longo da vida (SOUZA, 2006b). A escrita desses diários foi proposta aos professores durante o período de um ano, o que possibilitou demarcar aspectos outros, da vida, não definidos durante a troca das cartas. Ainda, foram propostos, com o intuito de analisar como ressignificavam suas histórias no processo de escrita e formação, por isso se tratar de um exercício de autoconhecimento. Essa narrativa marca de alguma maneira, o início da experiência docente; e pela escrita do diário possibilita a retomada da

história de vida e a reflexão sobre a prática e o processo de formação (HOLLY, 1992). Através do diário ainda se buscou conhecer a realidade pessoal e profissional desses professores, ilustrações de pensamentos, sentimentos e resistências, como viam o ensino e a prática pedagógica e o que eles selecionam para escrever.

Dessa forma, a partir da leitura da obra de Zabalza (1994), evidenciei o papel da escrita dos diários em três momentos: 1) quando pensamos sobre o que vamos escrever; 2) quando escrevemos, colocamos em prática os códigos gráficos; 3) quando lemos o que escrevemos. Há três momentos de reflexão aqui citados.

No dia em que foi convidada para participar da pesquisa, a professora de Macarani - Matilde36 - recebeu um caderno grande, de espiral que utilizou como diário durante todo o ano. Em visitas periodicamente, Matilde, apresentava-me o que já havia escrito. O colaborador de Maiquinique – Cientista37 - escrevia o diário com o

uso do computador e enviava para mim, sempre aos sábados, o que escrevera durante toda a semana. Dessa forma, o uso dos diários significou um instrumento de reflexão sobre a formação docente desses sujeitos.

Assim, o diário de Cientista, tem escritas do dia 16 de maio a 17 de julho de 2011, sem interrupções. A escrita mostra sequência e rotina. Nesse diário contém a escrita do cotidiano. Horário que acorda, o café com a esposa, o trabalho na oficina, o almoço, a volta para a oficina, a revisão do assunto da aula, a ida, a rotina da aula e a disciplina trabalhada. A escrita varia quando ele faz algo diferente, como ir à Igreja ou lanchar com a companheira. Existem poucas escritas sobre as aprendizagens, mas há pistas de aspectos formativos, uma escrita descritiva.

Matilde passou o ano de 2011 escrevendo o diário. Eu tinha acesso a esse diário sempre que nos encontrávamos. Mas o diário que me foi entregue não é o mesmo que acompanhava. Isso ocorreu devido a uma perda, revelada na última carta, onde a colaboradora conta que, devido a uma chuva, o diário foi destruído. O que não foi extinto foi “passado a limpo” em outro caderno. Por isso, no diário dessa colaboradora há escritas com interrupções, sem uma sequência. Os textos datam de 08 de abril a 17 de junho de 2011 (com interrupções).

Na primeira página do diário a colaboradora se apresenta, diz seu nome, fala sobre a existência de um companheiro, de um filho, bem como os nomes dos dois. Conta como foi receber o convite para participar dessa pesquisa. A escrita dela

36 Nome escolhido pela colaboradora da pesquisa. 37 Nome escolhido pelo colaborador da pesquisa.

revela sentimentos, sensações, intimidade, aflições, sonhos. O cotidiano é contado, mas não com tanta rigidez e sequência; ele está ali e, através da escrita, é possível localizá-lo. Há uma escrita muito pessoal, a família é sempre citada, fatos são contados. Da escola ela revela histórias sobre os alunos e as aulas. A escrita revela um processo formativo.

Esses fatores são importantes para essa pesquisa38 porque envolvem a escrita, como dados das experiências vividas e possibilidades de aprendizagens e o processo da escrita como formativa porque faz o sujeito se posicionar como autor, ator, escritor e leitor de sua história. Isso os coloca na posição também de responsáveis pela sua formação.