ADAPTER LE DEBAT JUDICIAIRE A NOTRE TEMPS
3- Adapter le débat judiciaire à notre temps
3.1 S’APPUYER DAVANTAGE SUR LES NOUVELLES TECHNOLOGIES .1 REDUIRE LES DEPLACEMENTS
Embora os Ursos sejam amplamente conhecidos no universo queer, este fenômeno é pouco reconhecido fora da comunidade gay (HENNEN, 2008). A expressão Urso é utilizada para identificar homens homossexuais com características físicas e comportamentais bastante específicas.
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Bear culture is paradoxical. Anyone really brought up in the wild knows that it is not half as romantic as Bears images try to make it. It is an urban fantasy about what a world in the wild would look like… the artificiality of the so-called natural. I think that is why so many Bears are in love with cyberspace. The Bear idyll has always taken place in a cyberspace, which is nostalgia for something that never was (SURECHA, 2002, p. 40 apud HENNEN, 2008).
Sabe-se que tal prática se iniciou nos Estados Unidos e, de acordo com Marmolejo (2004) e Domingos (2010), não é possível precisar quando surgiu esta subcultura enquanto manifestação homossexual. No entanto, ao se reconstruir a história das comunidades homoafetivas norte americanas, é possível afirmar que existe uma ligação com o Clube de Motociclistas de Satyrs, em Los Angeles, Califórnia, em 1966.
Por volta dos anos 1960, nas cidades de Dallas e Miami, já havia o uso comum da expressão Urso e desta forma de auto identificação dos afiliados (MARMOLEJO, 2004). Consta também dos dados deste autor que, por volta do mesmo ano, já havia registro de um “Clube de Ursos” na cidade de Los Angeles. Foram necessárias menos de três décadas para que os Ursos pudessem se constituir como uma subjetividade a mais no universo homoafetivo (DOMINGOS, 2010).
Por volta dos anos 1980 e 1990 alguns homens utilizavam imagens de ursos estampadas em camisetas, ou ursos de pelúcia nos bolsos traseiros de suas calças, em especial nas cidades de São Francisco, Nova York e Toronto. Tal forma de utilizar estas imagens ou artefatos relacionava-se a uma resistência ao reducionismo de alguns atos sexuais representados nas cores de lenços utilizados nos bolsos traseiros das calças destes homens homossexuais (MARMOLEJO, 2004; HENNEN, 2008).
Em especial na cidade de Nova York, a prática do uso de lenços de diferentes cores nos bolsos traseiros de calças compridas estava relacionada a um código, no qual cada cor representava um gosto, interesse e prática sexual do usuário. Se o lenço estivesse no bolso esquerdo significava que o usuário possuía preferência pelo papel ativo, enquanto o direito relacionava-se à prática passiva na relação sexual. Marmolejo (2004) afirma que o ideário de Urso já existia antes mesmo do Stonewall, evento/batalha ocorrido em 1969, nos Estados Unidos, com a formação do Gay Liberation Front (GLF), que foi uma frente política Gay que se formou entre 1969 e 1971, prezando pela paz, equidade e justiça econômica. Stonewall tornou-se um marco em virtude da proibição e violência exercida pela polícia norte americana aos frequentadores do popular Bar Stonewall Inn. O GLF condenava a opressão exercida pela sociedade patriarcal e exigia que a hostilidade contra homossexuais fosse cessada.
A ideia de urso estava presente antes mesmo dos anos prévios ao Stonewall52; no entanto, a existência do evento contribuiu para que existisse um ânimo generalizado para a “saída do armário”, uma vez que existia o estímulo à “construção” de uma política de novas identidades homoafetivas.
O ano de 1986 tornou-se um marco, uma vez que já em 1987, como uma forma de propagar o movimento, já era possível que fossem encontrados anúncios eletrônicos sobre os ursos, festas privadas na Baía de São Francisco e a publicação de uma revista chamada ―Bear‖ na mesma cidade. Marmolejo (2004) afirma que não há certeza sobre a origem da subcultura em questão ter se dado em São Francisco ou Nova York.
Marmolejo (2004) afirma que o esforço ursino aparece como um dos sintomas da expansão da vida gay norte americana dos anos 1980. Após os anos de comoção em virtude da propagação da AIDS, em que os homossexuais masculinos foram os mais afetados, os Ursos ressurgem na cena pública com uma atitude de solidariedade ao universo homossexual e uma proposta ética que enfatiza, sobretudo, a auto estima entre os gays, em especial aqueles que foram diagnosticados soropositivos ainda nos anos setenta em virtude do abuso de álcool, drogas e práticas sexuais sem proteção.
Em sua introdução ao The Bear Cult, Lucie-Smith (1991, 7-8) explicita as conexões: “Na Africa, India e Ilhas do Pacífico uma certa quantidade de peso extra foi tradicionalmente vista como um sinal de poder e potência. Com o advent da AIDS, atitudes similares foram se popularizando em diferentes países. Na África, o termo popular para a doença é “magro”53 (HENNEN, 2008, p. 1587).
Durante os anos 1980, os Ursos foram personagens importantes para o rompimento de uma imagem estereotipada sobre a homossexualidade masculina. Este movimento tornou-se relevante, sobretudo por fazer parte das lutas decorrentes do movimento de Stonewall. A importância dos Ursos é assinalada em virtude de uma
52 Já tratado no subtítulo 3.2. deste documento.
53In his introduction to The Bear Cult, Lucie-Smith (1991, 7-8) makes the connections explicit: ―In Africa, India and the Pacific Islands a certain amount of extra weight has traditionally been regarded as a sign of power and potency. With the advent of AIDS, similar attitudes may yet take root in the developed countries. In Africa itself, the colloquial name of the disease is ‗slim‘.‖ (HENNEN, 2008, p.
identificação masculina, associada à política identitária do movimento gay, bem como à defesa dos valores de equidade e de autodenominação.
Segundo Marmolejo (2004), três foram os processos que potencializaram o crescimento do movimento ursino ao nível mundial, em especial a partir do ano de 1987:
1) As festas começaram em grupos de amigos até se tornarem eventos internacionais amplamente frequentados, como tem sido a The International Bear Expo, em São Francisco, 2) O nascimento da Revista Bear e, sobretudo, 3) O desenrolar da internet que permitiu o surgimento de grupos de ursos em cinco continente54 (MARMOLEJO, 2004, p. 26).
Outro meio de comunicação que se destaca é a supracitada revista Bear, sucessora da revista Man2Man. Essa se iniciou sob o formato de fanzine, sendo de distribuição local, limitando-se à cidade de São Francisco, relegando-se a possuir fotos eróticas e anúncios ao estilo “classificados pessoais ou afetivos”.
Com a morte de Bart Thomas, seu fundador, a revista passou por um processo de reestruturação sob a direção de Richard Bulger, que enfatizava o estilo de vida ursino. Discutia temas como masculinidade sob o prisma de uma visão política de esquerda (e incluindo uma abordagem antropológica). Tais mudanças contribuíram para que a distribuição passasse a ser internacional, incluindo ao seu prestígio uma linha de vídeos, fotos e acessórios (MARMOLEJO, 2004).
Deve-se à popularização da internet a expansão do conhecimento acerca da subcultura ursina, em especial no Ocidente. Entre 1985 e 1988 o PC Bear‘a Lair e o
The Bearcave foram os chats mais visitados. Entre a lista de emails pode-se citar o Bear Mailing List BML, que em 1988, segundo Marmolejo (2004), já contava com
3000 membros de distintos países.
54 1) Las fiestas privadas que empezaron siendo entre um grupo de amigos hasta llegar a ser eventos internacionales ampliamente concurridos como há sido The International Bear Expo em San Francisco, 2) El nascimiento de La revista Bear y, sobre todo, 3) El desarrollo del internet que há permitido el surgimiento de grupos de osos em los cinco continentes (MARMOLEJO, 2004, p. 26).
O final dos anos oitenta apresentou um crescente comércio de empresários, bares e discotecas destinados a um público homoafetivo, em especial nas cidades de São Francisco e Nova York, em que a comunidade gay mostra-se mais expressiva. Houve também um aumento de grupos de solidariedade e de convivência das comunidades LGBTQ. Em 1989 houve a formação do primeiro grupo de Ursos, o
Bears Paws of Iowa, idealizado por Dave Annis e Larry Tooth-man. Em 1992 os
organizadores da Bear Expo falavam da existência de quatro grupos ursinos nos Estados Unidos. Em 1994 o número passaria a ser de 40 grupos. Em 1996, diz-se que existiam cerca de 137 (MARMOLEJO, 2004).
Os grupos de Ursos norte americanos seguiam os padrões de organização dos grupos de motociclistas gays, com uma agenda de eventos para encontros e convivência. Outros grupos expandiram suas ações, envolvendo-se com a promoção de atividades políticas e cívicas das comunidades homoafetivas locais.
Durante os primeiros anos da década de 1990, foram muitas as publicações que promoviam a disseminação de conteúdo erótico ursino como a Bulk Male, The Big
Ad, Husky, Daddy, Daddybear, GRUF. Na mesma época os primeiros corpos ursinos
passaram a ser ilustrados a partir de modelos masculinos nas revistas Advocate
Men, Hocho e In Touch. E, como concorrência à revista Bear, nasceu a American Bear. Marmolejo (2004) afirma que todas essas publicações contribuíram para a
consolidação do estereótipo ursino: homem barbudo, peludo e gordo.
Os anos noventa também se destacaram pelos concursos de beleza ursinos que, segundo Marmolejo (2004), foram uma ironia ao padrão estético e canônico do gay
Twink ou, como chamamos nesta tese, Barbie (aqueles com aparência jovial, corpo
atlético e magro, sem pelos ou marcas de expressão e de idade, contribuindo, assim, para a construção de uma imagem idealizada do Urso).
Tais concursos também foram relevantes para a edificação de um senso de comunidade (e identidade). Segundo o autor, a formação desses grupos contribuiu bastante para a geração de uma rede econômica de serviços e produtos destinados a este público. Além disso, viagens e excursões são organizadas e realizadas, favorecendo o aparecimento de uma ampla rede de turismo com hotéis, restaurantes, saunas, discotecas e bares preparados para recebê-los.