CHAPITRE 3.1. LES MISSIONS D’APPUI DIRECT
3.1.2. APPUI A LA CONTRE – MOBILITE
Quanto aos ensaios de Roberto Pompeu de Toledo, em comparação aos de
Cláudio de Moura Castro, as relações semânticas são estabelecidas, muitas vezes,
sem que sejam empregados marcadores discursivos. Como foi possível verificar
através das cifras, o número de emprego de marcadores no conjunto de textos de
Pompeu de Toledo é bem menor que nos de Moura Castro. Diante disso,
perguntamo-nos quais recursos linguísticos, então, poderiam estar sendo usados
para estabelecer essas relações. E, principalmente, o que essa diferença entre os
conjuntos de ensaios revela sobre o ethos de cada locutor?
Desse modo, selecionamos sequências enunciativas que apresentassem,
implicitamente, também, alguns casos de relações de contra-argumentação, adição
e causalidade, tal como fizemos com os de Moura Castro, no intuito de compreender
como elas se constroem na dinâmica enunciativo-discursiva.
3.3.1 Análise de algumas ausências dos conectores
Tendo em vista que os conectores foram usados nos ensaios de Pompeu de
Toledo em maior quantidade que os demais marcadores, mas que, em
contrapartida, é uma cifra reduzida em relação a que se visualiza nos ensaios de
Moura Castro, optamos por analisar, aqui, sequências enunciativas nas quais
pudéssemos investigar não só quais outros recursos linguísticos são usados em vez
de conectores, como também o que essa materialidade revela sobre a tendência
enunciativa do locutor e sobre o seu ethos. Observemos, por exemplo, o seguinte
caso:
(20) A performance de Vanusa passa de computador a computador para fazer rir. Este artigo tem por objetivo defendê-la. Que atire a primeira pedra quem nunca confundiu os versos de ida ("Ouviram do Ipiranga" etc.) com os da volta ("Deitado eternamente em berço esplêndido"). Que só continue a ridicularizar a cantora quem nunca removeu os raios fúlgidos para o lugar do raio vívido, ou vice-versa.
Esse ensaio faz referência ao episódio em que uma cantora da jovem-guarda,
em apresentação recente (considerando a data em que foi publicado o ensaio),
provocou polêmica, principalmente na internet, ao cantar o Hino Nacional Brasileiro
de modo distinto ao que se encontra na letra original. Na primeira sequência
enunciativa que recortamos do ensaio de Pompeu, não há o emprego do conector
“mas”, embora exista aí uma contra-argumentação. O conector, então, estaria sendo
substituído pelo enunciado “Este artigo tem por objetivo defendê-la”. Levam a essa
conclusão, a presença da expressão “este artigo”, que se refere à própria
enunciação. Também há que se observar que esse enunciado curto refere-se à
própria enunciação, expressando, metadiscursivamente, o seu significado, contrário
ao do enunciado anterior. Assim, temos a seguinte possibilidade de representação
para o esquema polifônico (DUCROT, 1987) que se apresenta entre esses
enunciados:
O locutor assume o ponto de vista de E2, que, aparentemente, defende a
cantora, contrário ao que a criticou por sua atuação. Simulamos, por meio das linhas
pontilhadas no esquema, então, a presença de um conector contra-argumentativo
para que se entenda onde se dá a oposição de pontos de vista. A contra-
argumentação é indireta entre os implícitos de cada enunciado (GARCÍA, 2007).
Sendo assim, a relação, embora sem a presença do conector, é adversativa.
Existe, aí, na composição da contra-argumentação, uma intertextualidade
com a passagem bíblica que está em João 8:1-11. Nesse texto bíblico, uma mulher
abordada em adultério foi julgada ao apedrejamento por conta de seus pecados,
mas Jesus, ao ser interrogado sobre o que pensava disse que deveria atirar a
primeira pedra aquele que estivesse livre de pecados. A contra-argumentação se
E1 – A performance de Vanusa passa de computador a computador para fazer rir.
E2 – Que atire a primeira pedra quem nunca confundiu os versos de ida ("Ouviram do Ipiranga" etc.) com os da volta ("Deitado eternamente em berço esplêndido").
I1 – A performance da cantora Vanusa é ridícula.
I2 – A performance da cantora Vanusa não é ridícula.
fortalece pela presença dessa intertextualidade, usada como argumento por
ilustração (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005), reforçado pela expressão
“quem nunca”.
Além disso, o emprego da expressão “continue a ridicularizar” reforça a
contra-argumentação, já que “continuar” significa “levar adiante, não interromper (o
que se começou)” (HOUAISS, 2007) e que “ridicularizar” significa “pôr em ridículo”;
“escarnear”, “zombar”, “caçoar” (HOUAISS, 2007). Assim, uma pessoa não pode
“apedrejar” outra por um ato que já cometeu, não deve também, conforme o ponto
de vista assumido pelo locutor desse ensaio, “continuar ridicularizando” o outro por
um erro que também já cometeu.
No entanto, é preciso que se saliente que o ponto de vista de E2 não é
propriamente uma defesa à atuação da cantora. Ao contrário, identificam-se na
posição de E2, assumida por L, duas ironias que funcionam como duas críticas. A
primeira delas é ao rebuscamento sintático da letra do Hino Nacional, de influência
parnasiana. E a outra, mais severa, à educação cultural modesta da população
brasileira, a começar, muitas vezes, pela incompreensão da própria língua,
desconhecendo, por exemplo, os significados das palavras que compõem a letra do
Hino Nacional.
Sendo assim, nessa sequência, verificamos que a relação de contra-
argumentação também pode se estabelecer por meio de enunciados curtos e
justapostos, não fixada por um conector contra-argumentativo. Essa característica
tende a conferir ao locutor, uma imagem menos incisiva, quando da apresentação
do ponto de vista defendido.
Observemos outra sequência enunciativa em que se encontra uma possível
relação de contra-argumentação não marcada por conector contra-argumentativo
explícito:
(21) Onde a situação atinge proporção mais dramática é nas livrarias. Livraria é por excelência lugar que convida ao exame solitário das mesas e das prateleiras. É lugar para passar lentamente os olhos sobre as capas, apanhar e sentir nas mãos um ou outro volume, abrir um ou outro para testar um parágrafo. Um jornal certa vez avaliou como critério de qualidade das livrarias a rapidez com que o atendente se apresentava ao freguês. Clamoroso equívoco. Boa é a livraria em que o atendente só se apresenta quando o freguês o convoca. As melhores, sabiamente, dispensam o "posso ajudar". As
mais mal administradas, desconhecedoras da natureza de seu ramo de negócio, insistem nele.
(Roberto Pompeu de Toledo, 25/03/2009, Nº 31)
O tema desse ensaio são as expressões usadas por atendentes comerciais,
para se dirigirem ao cliente, como, por exemplo, “posso ajudar”, as quais, nesse
discurso, são demasiado inoportunas, na perspectiva do locutor do ensaio, quando
se trata de livrarias. Observemos o esquema polifônico que se pode construir para
esses enunciados:
Essa contra-argumentação é, também, indireta (entre os implícitos) (GARCÍA,
2007), gerando um efeito adversativo para essa relação entre argumentos. Na
sequência enunciativa 21, na ausência de um conector específico, como o que
simulamos entre linhas pontilhadas no esquema, o contra-argumento é introduzido
por um enunciado formado apenas por um adjetivo e um substantivo,
respectivamente.
Equívoco significa, entre outras coisas, o “que pode ter mais de um sentido,
de uma interpretação; que se pode tomar por outra coisa; ambíguo; que não se
percebe facilmente” (HOUAISS, 2007). Dessa forma, ao empregar esse vocábulo e
não outro como “erro” – “juízo ou julgamento em desacordo com a realidade
observada; engano” (HOUAISS, 2007) – favorece a impressão de uma imagem de
locutor mais ameno.
O substantivo “equívoco”, antecedido pelo adjetivo “clamoroso”, que significa
“de forma clara”, aponta para a refutação de um ponto de vista e como esse ponto
de vista é entendido pelo locutor. A opção pela apresentação do adjetivo antes do
E1 – Um jornal certa vez avaliou como critério de qualidade das livrarias a rapidez com que o atendente se apresentava ao freguês.
E2 – Clamoroso equívoco.
I1 – Rapidez no atendimento é um critério de avaliação positivo.
I2 – Rapidez no atendimento é um critério de avaliação negativo.
substantivo a que se refere aponta para a marca do locutor nesse enunciado, seu
posicionamento diante do tema que se discute. Além disso, a pontuação (como o
ponto final), provocando a ruptura da sequência, uma pausa, contribui para indicar,
nesse caso, a introdução do contra-argumento.
Diante disso, duas características nesses usos devem ser ressaltadas, tendo
em vista as consequências que delas resultam. A primeira delas diz respeito à
formação do adjetivo a partir do sufixo “-oso". De origem latina, -ósus,a,um, o sufixo
é “abundancial, intensificador” (HOUAISS, 2007). Com isso, emerge dessa formação
um efeito de intensidade na qualificação do substantivo “equívoco”. A segunda
refere-se à posição do adjetivo, antecedendo o substantivo. De acordo com a
gramática descritiva, a anteposição do adjetivo provoca um efeito de sentido de
“maior subjetividade” (MOURA NEVES, 2011, p. 201). Esse caso, portanto, com a
qualificação do substantivo e a anteposição do adjetivo, parece já apontar para uma
relação mais presente do locutor de se marcar na enunciação.
A partir disso, observemos de que outro recurso linguístico se utiliza o locutor
de um ensaio de Pompeu de Toledo para marcar a relação de adição de argumentos
que não por meio de conectores aditivos:
(22) Ressalve-se a presença, em seus namoros, de catolicíssimas particularidades. Damiana Morán Amarilla, que o auxiliava no trabalho pastoral, e que definiu a relação entre ambos como uma "explosão de sentimentos", deu ao filho (hoje com 1 ano e 4 meses) o nome de João Paulo – homenagem ao papa João Paulo II. Lugo merece outro crédito: eis, enfim, um escândalo sexual nas hostes católicas que não é de pedofilia!
(Roberto Pompeu de Toledo, 06/05/2009, Nº 34)
O ensaio do qual foi retirada a sequência 22 trata de três fatos polêmicos
relacionados
a
personalidades
amplamente
conhecidas.
Entre
essas
personalidades, está o ex-bispo e então presidente do Paraguai, Fernando Lugo, ao
qual se referem os enunciados da sequência 22. Lugo foi criticado por
envolvimentos sexuais, dos quais resultaram filhos, quando ainda era bispo da igreja
católica.
Para essa sequência enunciativa, podemos ter o seguinte esquema polifônico
(DUCROT, 1987):
O primeiro enunciado da sequência traz o substantivo “particularidade” –
“peculiaridade, singularidade” (HOUAISS, 2007) – no plural, que remete a
características próprias desse escândalo do qual Lugo foi protagonista. E não
podemos deixar de apontar a presença significativa do adjetivo “catolicíssimas”, que
antecede esse substantivo. Esse adjetivo se refere à igreja católica, explicitando que
as particularidades do caso que serão apresentadas têm uma referência específica.
E esse adjetivo encontra-se no grau superlativo absoluto sintético (ROCHA LIMA,
1982), apontando que as particularidades não são só católicas, são muito católicas.
Assim, no segundo enunciado, a expressão “nome de João Paulo” é apresentada
como sendo uma das particularidades relacionadas a Lugo, visto que João Paulo é o
nome de um dos papas da igreja católica, líder maior dessa comunidade religiosa.
Em seguida, com o auxílio do pronome “outro”, mais uma particularidade é
apontada no terceiro enunciado, referenciada por meio do substantivo “crédito” –
“confiança, crença alimentada pelas qualidades de uma pessoa ou coisa”
(HOUAISS, 2007). Sendo assim, entre segundo e o terceiro enunciado há uma
relação de adição de argumentos que não está marcada por um conector aditivo,
mas que é identificada quando analisamos outros elementos, como a seleção
lexical, desses enunciados justapostos.
Outra questão que pode ser observada nessa sequência é que
aparentemente, o ponto de vista assumido pelo locutor é em favor de Lugo. O
pronome “outro” também caracteriza a primeira particularidade como um “crédito”. E
“crédito” é, originalmente, como mostra a definição do dicionário Houaiss (2007),
uma acepção positiva. Entretanto, nessa sequência enunciativa, ao estarem ligadas
as particularidades à expressão “escândalo sexual”, elas têm seus significados
descaracterizados e invertidos, criando um efeito de sentido de ironia nessa
argumentação.
Na ironia, como fenômeno polifônico (DUCROT, 1987), o locutor apresenta
um ponto de vista que vai de encontro àquele que assume, o de que esse fato é um
E1 – Damiana Morán Amarilla, que o auxiliava no trabalho pastoral, e que definiu a relação entre ambos como uma "explosão de sentimentos", deu ao filho (hoje com 1 ano e 4 meses) o nome de João Paulo – homenagem ao papa João Paulo II.
E2 – Lugo merece outro crédito: eis, enfim, um escândalo sexual nas hostes católicas que não é de pedofilia!
“escândalo”. Aqui, cada particularidade, a “homenagem” a um papa por meio do
nome “João Paulo” e o crédito, enfatizam, na realidade, cada abuso e falta de ética
de Lugo diante da igreja em que ele era representante/liderança, a igreja católica.
É possível perceber que a presença de conectores no ensaio, enquanto
discurso de mídia impressa, organiza os enunciados de acordo com a orientação
argumentativa de cada um. Nesse sentido, apresentamos uma sequência
enunciativa que pode exemplificar o modo como nos ensaios de Pompeu de Toledo
aparece a relação de causalidade na argumentação sem o emprego do conector de
causalidade, como aparecia nos textos de Moura Castro.
(23) [1] O atual sistema de eleição de deputado é tão incompreensível, para a grande maioria do eleitorado, quanto, para um americano, a lei do impedimento no futebol. [2] O eleitor vota num candidato mas seu voto vai, em primeiro lugar, para o cesto partidário. [3] O fato de votar num candidato lhe dá a impressão de que a eleição é majoritária, quer dizer, o candidato que tem mais votos leva. [4] Engano. [5] Sendo a eleição proporcional, antes é preciso levar em conta a proporção de votos obtida pelo partido. [6] Há candidatos bem votados que não serão eleitos porque o partido como um todo teve votos insuficientes e, inversamente, candidatos pouco votados que obterão a vaga porque beneficiados por uma votação expressiva do partido. [7] Se não se compreende o método, poucas razões existem para amá-lo e defendê-lo. [8] Pior para a democracia. [9] A eleição por lista fechada tem a vantagem de clarear as coisas. [10] O eleitor sabe que está votando no partido e pronto.
(Roberto Pompeu de Toledo, 20/05/2009, Nº 35)
O ensaio aborda o sistema eleitoral chamado, no Congresso Nacional, de
“lista fechada”. O locutor assume o ponto de vista favorável a essa nova forma de
votação, isto é, por meio de uma lista de opções de votos que contempla partidos
políticos e não a explicitação dos candidatos de cada partido. Na época de
publicação do ensaio, a chamada “lista fechada” estava em processo de votação na
Câmara dos Deputados.
Para iniciar a argumentação, são apresentados vários argumentos que levam
à conclusão de que o método em vigor não é claro o suficiente para a população, o
que pode ser inferido a partir do verbo “compreender” no enunciado de número 7.
Em seguida, no enunciado 9, há uma relação de causalidade, em relação aos
enunciados anteriores, que não está marcada por um conector específico.
Poderíamos representar a relação de causalidade que se estabelece entre esses
enunciados, apontando um possível marcador que correspondesse a essa relação,
por meio do seguinte esquema polifônico (DUCROT, 1987):
O verbo “clarear”, significando “tornar(-se) inteligível; aclarar(-se), esclarecer(-
se)” (HOUAISS, 2007), provoca um efeito de consequência quando da “eleição por
lista fechada”. Além disso, corrobora essa inferência a associação da expressão
“lista fechada” com a palavra “vantagem”, que significa, entre outras acepções,
“posição ou condição de superioridade ou adiantamento de algo ou alguém com
relação a outro(s) ou a si mesmo em momento anterior” (HOUAISS, 2007).
Soma-se a esses elementos a presença do verbo “saber” – “conhecer, ser ou
estar informado; ter conhecimento de” (HOUAISS, 2007) – no enunciado seguinte,
marcando a causa para uma defesa da “lista fechada”. Ora, se os eleitores do Brasil
comumente reclamam as ações obscuras na política brasileira, então, uma opção
que venha clarear as obscuridades e trazer conhecimento, é mesmo algo a ser
defendido. Assim, é possível perceber, no enunciado 9, o posicionamento assumido
pelo locutor.
Nesse sentido, o estabelecimento da relação de causalidade, na sequência
enunciativa 23, embora sem a presença do conector, se dá em nível lexical nesses
enunciados justapostos. Isso já começa a demonstrar uma forma menos marcada de
apresentação de um ponto de vista.
A partir de agora, vamos buscar possíveis efeitos de sentido que emergem do
emprego de marcadores conversacionais nos ensaios do colunista em questão, visto
que essa foi a única classe em que o número de empregos foi maior nos ensaios de
Pompeu de Toledo do que nos de Moura Castro.
3.2.2 Análise de alguns representantes dos marcadores conversacionais
Nos ensaios de Pompeu de Toledo, foram empregados 13 marcadores
conversacionais, correspondendo a duas ocorrências de um marcador de
E1 – A eleição por lista fechada tem a vantagem de clarear as coisas.
E2 – O eleitor sabe que está votando
no partido e pronto. POIS
modalidade deôntica – “O.k.” – e 12 ocorrências de enfocadores de alteridade –
“não”, “sim” e “por favor”. Sendo assim, optamos por apresentar algumas sequências
enunciativas que exemplificam a presença dos marcadores conversacionais nesse
conjunto de ensaios. Observemos as primeiras sequências, com os únicos dois
casos de emprego de “O.k.”:
(24) Eles acomodam-se mal, apertados uns contra os outros como num trem de subúrbio às 6 da tarde, e não é de espantar que, quando não estão em conflito consigo mesmos, como ocorreu nas guerras civis de El Salvador e Nicarágua, enfrentam-se uns aos outros, como na Guerra do Futebol, entre o mesmo El Salvador e nossa espantosa Honduras, iniciada no estádio em que se enfrentavam, em 1969, as seleções dos dois países.
O.k., reconheçamos que, caso não houvesse a América Central, não haveria conflitos que até possuem seu lado recreativo, infelizmente ensombrecido pela triste circunstância de também levarem à morte e à devastação, como a Guerra do Futebol.
(Roberto Pompeu de Toledo, 15/07/2009, Nº 39)
Nas gramáticas normativa e descritiva, não há menção ao marcador “O.k.”. Já
no dicionário de língua portuguesa (HOUAISS, 2007), o elemento aparece como
uma palavra de língua inglesa, sendo advérbio quando “expressa aprovação,
assentimento, concordância; sim, certamente” e adjetivo quando significa “bom,
justo, apropriado”.
Nesse ensaio, inicia-se uma discussão política a partir do questionamento
sobre a existência de países de pequena extensão territorial, como os da América
Central. Na sequência 24, é possível identificar que “O.k.” une o enunciado que
introduz não só com o anterior, como a todos os que constituem o parágrafo que o
antecede. E, entre esses dois enunciados, temos o seguinte esquema polifônico
(DUCROT, 1987):
Devido à associação com o verbo “reconhecer” no modo imperativo, essa
relação possui um valor apelativo (GARCÍA, 2007). Como o verbo está na primeira
pessoa do plural, verificamos a inclusão, nesse apelo, do interlocutor. Dirigindo-se
ao interlocutor, numa co-enunciação, o locutor introduz uma conclusão à sequência
argumentativa, mediante não só a um apelo como também à aceitação de
determinado ponto de vista contido no enunciado que o marcador introduz, favorável
à existência desses países. Com isso, surge um efeito de aproximação ao
interlocutor ao passo que emprega um marcador conversacional aliado a um verbo
na primeira pessoa do plural. E, aproximando-se do interlocutor, a tendência de uma
imagem menos “fechada”, isto é, menos metódica do locutor, em comparação ao
locutor dos ensaios de Moura Castro, é apresentada.
Passemos à sequência seguinte.
(25) Morte ideal, hoje, é a morte repentina, sem dor, sem remédios e sem UTI. De preferência, tão repentina que poupe até da consciência de que se está morrendo. Os santos morriam tão conscientes da morte que até podiam saudar sua chegada. Antes deles, Sócrates morreu despedindo-se dos amigos e filosofando sobre a morte. Para os gregos, era a morte ideal. Em nosso tempo, um valor altamente apreciado é a morte que nos poupe da angústia, ou do susto, ou do pânico, de saber que se está morrendo. É uma espécie de ludíbrio que aplicamos na morte. O.k., você chegou.
(Roberto Pompeu de Toledo, 07/10/2009, Nº 45)
O ensaio do qual foi extraída a sequência 25 tematiza a morte. Numa
argumentação em defesa de que a melhor morte é a de forma consciente, o
E1 – Eles acomodam-se mal,
apertados uns contra os outros como num trem de subúrbio às 6 da tarde, e não é de espantar que, quando não estão em conflito consigo mesmos, como ocorreu nas guerras civis de El Salvador e Nicarágua, enfrentam-se uns aos outros, como na Guerra do Futebol, entre o mesmo El Salvador e nossa espantosa Honduras, iniciada no estádio em que se enfrentavam, em 1969, as seleções dos dois países.
E2 – Reconheçamos que, caso não houvesse a América Central, não haveria conflitos que até possuem seu
lado recreativo, infelizmente
ensombrecido pela triste circunstância de também levarem à morte e à devastação, como a Guerra do Futebol.