Chapitre I : Du transistor au biocapteur à base de nanonets de silicium
I.2. L’industrie actuelle des semi-conducteurs
I.2.2. La loi de Moore : une ère révolue ?
I.2.2.4. Approche ‘’More Than Moore’’
Capítulo IV
Poderes e sapiência ... 237 Tsussin na roda de tatxik (bebida matis feita a partir de um cipó) .. 242 Como se toma Tatxik ... 242 Patamares onde circulam tsussin ... 246 Tsussin e nascimentos ... 250 Tsussin e morte ... 252
Tsussin e os cabelos dos vivos... 255 Circular pelos patamares, aprender com tsussin para ser pajé ... 256 Morte/nascimento dos pajés ... 258 Menino que perdeu-se no mato e virou pajé/xamã ... 258 Iva Rapa ―morreu‖ afogado ao cair na água ... 259 Chapu ―da Onça‖ ―morreu‖ atacado por uma onça ... 259 Tëpi Pajé ―morreu‖ picado por uma cobra ... 260 Mito 7 - Lua – flauta Kopinkatê... 261
Capítulo V
Xamanismo em alta no rio Ituí ... 263 Xó´xókakit – aquele que porta/tem/trabalha com muito xô ... 269 Darasibo Meneakibo ... 271 Aprendizes de pajé e os que ―já sabem‖... 272 Xó ... 276 Kampokan Tëktxinek - Aplicação do kampok ... 277 Animais portadores de xó ... 280 Manda-se cobra picar e onça atacar ... 282 Etnografia de cura/pajelança ... 288
Capítulo VI
Nukin txu, nukin bëribërikit Coisas, saberes ... 293
Construção do corpo das mulheres ... 294 Conhecimento relacionado a gênero e idade ... 294 Conhecimento encorporado ... 298 Morfologia e relações de dauës e nestê com o mundo... 298
Capítulo VII
Ikbo Matis: autoridade e circulação de conhecimentos... 303 Txawá ikbo na dança das queixadas ... 307 Ënawat capivara ikbo... 310 Ikbo de cantos e danças masculinos e femininos ... 311 Ensinar e narrar mitos ... 313 Ikbo de maloca, roça e varadouros/caminhos... 315 Conhecimentos e cabeças ... 316 Tsussin também é imagem, foto e filme ... 317
PARTE 3 Gringos ... 323
Capítulo VIII
Mídia, turismo e academia – consumidores culturais ... 325
Image/inando Ameríndios ... 325 A Tapuia de Eckhout e as composições do real ... 326 Ameríndias – vistas da Europa ... 334 Antropologia de Mutirão ... 342 Pensando com cineastas e artistas Warlpiri ... 351
Capítulo IX
Matis, seus gringos e Cabeças de Mariwin pelo mundo ... 357
Artesanato e criatividade para ganhar dinheiro ... 361 Círculo de cabeças de Mariwin ... 366 Espetaculares de difícil acesso ... 388
Capítulo X
Cultura material e valores de troca Matis ... 395
Roupas, motores de popa e imagens ... 395 Objetos industrializados e índios ... 404 Dinheiro e ensinamentos de Txema ... 415 Expedições de compra ... 419 Saias, cortes de cabelo, miçangas: moda interétnica ... 423 Gênero e ―matriz da cultura‖ ... 425 Tatxik, mulheres e mudanças ... 426 Capítulo XI
Nudez e roupas ... 435 Nukin txu, a chatíssima discussão de autenticidade e os pagamentos em campo/floresta ... 440 Istá, mundo inteiro, índio bëra kimon ... 446 Veja, mundo inteiro, índio bom, índio belo ... 446
Filmes assistidos na maloca da Beija-Flor ... 451 Media savvy ... 454 Economias do ar e identidades novas ... 457 Motores de popa e conclusões do capítulo ... 459 Min maxó tokanu kek - Tua cabeça. Trocarmos, quero ... 465
Mito 8 – Maxon Papi [filho da cabeça] 466
Capítulo XII
Uma pesquisa Matis: vida sexual dos não-índios ... 471
Vagina sovina ... 471 Antropologia nativa: sexo praticado pelos brancos ... 472 Sexualidade no campo ... 474 Filmes pornô na aldeia ... 476 É verdade que...? ... 477 Quem te abriu? ... 479 Como você não tem muitos filhos? ... 480 Parentesco Matis e aulas de biologia escolar ... 483 Txunu kuan – Vamos transar, vem ... 484 Vagina sovina – Kuë kurassek ... 488 Da economia de vaginas ... 493 Solucionando a sovinice ... 498
Conclusões ... 499
Introdução
Essa tese trata de um povo amazônico, suas economias da cultura, circulação de conhecimentos com o exterior e suas relações com os estrangeiros que têm diferentes matizes. Alguns desses estrangeiros são chamados nëix (animais ou caça); outros, tsussin (forças vitais, seres ou potências desencorporadas); outros ainda, nawa1 (estrangeiros, povos indígenas vizinhos, brasileiros ou gringos). Dentre esses últimos nawa, as relações econômicas se dão especialmente com turistas, documentaristas ou jornalistas e pesquisadores e há também relações econômicas estabelecidas com o Estado brasileiro, através de diversos benefícios sociais como aposentadorias e outros.
Apresento nesse texto minha experiência de vida e pesquisa com os Matis, povo indígena da família lingüística Pano que vive no médio rio Ituí, no centro da Terra Indígena Vale do Javari, no estado do Amazonas. Os Matis estabeleceram contato de forma mais permanente com o mundo não-indígena e exterior à rede de parentesco e povos vizinhos entre os anos de 1976 e 1978, quando o governo brasileiro empreendeu uma ―frente de atração‖ e oficializou o contato através da presença da FUNAI (Fundação Nacional do Índio). O órgão indigenista contava com funcionários dos povos Marubo, Mayoruna/Matsés, Kanamari e Kulina-Pano, além de brasileiros não-índios. Antes de 1978, os Matis haviam tido apenas relações esporádicas com seringueiros, madeireiros ou caçadores e pescadores, além de índios de outros povos vizinhos.
Os homens e as mulheres que compartiram comigo suas memórias do tempo em que viviam entre parentes próximos, caçando, abrindo roça e cultivando com ferramentas feitas de madeira, dada à escassez de facas e machados de metal, são os mesmos homens e mulheres que observei em 2009 negociando performances de caçada de
1 Categoria Pano que, em uma tradução ligeira, pode ser entendida como ‗estrangeiro‘ (Calavia 2006a). Nawa é também um sufixo pluralizador utilizado para formar etnônimos de auto- denominação e de denominação de outros coletivos (animais/humanos), para artigo sobre o tema com foco na multiplicidades de etnônimos Matis, ver Arisi (2010); para interpretações de Erikson sobre os etnônimos e suas relações com o que ele chama de metades, ver Erikson (1996). O termo é debatido extensamente em diversos trabalhos por inúmeros Panólogos; para ler artigo fundador do debate, Keifenheim (1990).
macacos e festas de animais (nëix tanek) com estrangeiros da Coréia do Sul, dos Estados Unidos e da Alemanha. Em rápida velocidade, aceleradíssimos, em cerca de 30 anos, os Matis entraram na vorágine decorrente da profusão de transformações que contatos oficiais costumam detonar: doenças e mortes, acesso a medicamentos, alimentos diferentes, objetos industrializados em larga escala como facões, machados, panelas e aparatos industrializados como espingardas 16 mm, motores de popa e, mais recentemente, equipamentos e tecnologias digitais. Na sequência do ―contato oficial‖, o ―pessoal da filmagem‖ desembarcou na floresta e fez vários documentários sobre os Matis, esse povo ―recém contatado‖ e de aparência física exuberante, com tatuagens e diversos ornamentos faciais, caçadores de zarabatana. São um claro exemplo da afirmação de Conklin: ―the idea that Western notions of cultural identity privilege exotic body images as an index of authenticity‖ (Conklin 1997: 712).
Procuro mostrar como os Matis negociam com os estrangeiros festas, caçadas, trabalho na roça, poderes xamânicos, conhecimentos sobre plantas e animais, tecnologias, entre tantos outros aspectos do que a Antropologia constrói como cultura ou nomeia como cultura (Wagner 2010 [1975]; Carneiro da Cunha 2009). Acompanha também como os Matis transacionam objetos e bens, tais como braceletes, motores de popa, fogões, celulares, computadores, medicamentos e outros. Há diversos bens imateriais, melhor definidos como intangíveis, tais como poderes, prestígios, conhecimentos e técnicas que são também de grande interesse nessas economias. Culturas imateriais/intangíveis e materiais/tangíveis são inseparáveis, se em algum momento parecerem tratadas de forma separada será como procedimento heurístico2.
A tese trata de temas clássicos da etnologia amazônica como
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―Quando se fala em patrimônio material ou intangível, não se está referindo propriamente a meras abstrações, em contraposição a bens materiais, mesmo porque, para que haja qualquer tipo de comunicação, é imprescindìvel suporte fìsico. […] A distinção que cabe fazer, no caso dos bens culturais, é entre aqueles bens que, uma vez produzidos, passam a apresentar relativo grau de autonomia em relação a seu processo de produção, e aquelas manifestações que precisam ser constantemente atualizadas por meio da mobilização de suportes fìsicos […] o que depende da ação de sujeitos capazes de atuar segundo determinados códigos. Na verdade, mesmo nesses casos, a imaterialidade é relativa, e, nesse sentido, talvez a expressão patrimônio intangível seja mais apropriada, pois remete ao transitório, fugaz, que não se materializa em produtos duráveis. (Londres, 2001:191-192 APUD Coelho de Souza 2010a: 166). Quando penso em objeto, tenho como base os argumentos de Ingold ―the form of objects are not imposed from above but grow from the mutual involvement of people and materials in an environment. The surface of nature is thus an illusion: the blacksmith, carpenter or potter – just as much as the basket-maker – works from within the world, not upon it‖ (Ingold 2000: 347).
economias de pessoas (corpos e grupos), com foco em circulação de conhecimentos e saberes (negociações, transmissões, aquisições ou roubos de mitos, cantos, cuidados xamânicos, ervas, banhos e outros remédios medicinais, performances, construção de corpos, tecnologias de caça, línguas estrangeiras). Trato de economias, portanto, em uma compreensão generosa, qualquer definição clássica etimológica de ‗economia‘ como cuidado, manejo ou organização da casa (do grego ‗oikos‘ e ‗nomia‘) deve ser alargada aqui. Para pensar, a la matis, casa como maloca, maloca vivida como corpo, corpo que também pode ser um cosmos, uma ‗malocosmos‘, como escreve Cesarino (2011), seguindo Montagner (1996). A ―malocorpo‖ sobre a qual me detenho no início do capítulo I. Proponho pensarmos em economias ―cosmolizadas‖ no lugar de globalizada.
Escrevo a partir de etnografia das relações estabelecidas por diversas pessoas desse povo indígena e por mim com estrangeiros que habitam patamares e lugares exteriores a suas aldeias, sejam eles animais, tsussin (seres ou potências desencorporadas) ou gringos. Em algumas ocasiões, esses estrangeiros também visitam ou passeiam nas comunidades matis. Procuro acompanhar como esses índios amazônicos estão vivendo e produzindo transformações em suas economias da cultura e como se dão as circulações e transações de poderes, bens, objetos, tecnologias e conhecimentos.
No começo dos anos 1980, a antropóloga brasileira Delvair Montagner apresentou os Matis ao universo acadêmico, publicando seus primeiros dados etnográficos em uma edição organizada pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI 1981) e em documentos para demarcar a TI Vale do Javari (FUNAI 1998). Depois, o antropólogo francês Philippe Erikson desenvolveu seu trabalho de campo e publicou a primeira tese dedicada aos Matis (1996); a partir de seus muitos artigos, os Matis passaram a ser também uma referência na academia, especialmente para Panólogos e Amazonistas. Os Matis são constantemente referidos no pequeno círculo acadêmico, em citações dos trabalhos publicados por Montagner (CEDI 1981; FUNAI 1998) e Erikson (op.cit.).
Em cerca de 30 anos, os Matis saíram de sua vida em isolamento na floresta e se tornaram famosos no global mundo do showbiz que apresenta a Amazônia como espetáculo em televisões e na internet. Atualmente, suas imagens compõem o imaginário de diversos turistas que atuam como ―caçadores de exotismo‖ atiçados por tantos documentários, imagens fotográficas, reportagens e livros feitos a seu respeito, além do farto material disponível na internet. Os homens e
mulheres que me contaram suas narrativas de como a vida era antes do contato com o governo brasileiro e sobre como foi caminhar ao encontro dos brancos e ver de perto por primeira vez a um cachorro3 são os mesmos que negociam com turistas, pesquisadores e demais consumidores culturais o que nos mostram e o que preferem esconder. São os mesmos homens e mulheres que, com total domínio de performance e entrosamento com os movimentos de cameramen, exibem sua forma de viver frente a filmadoras de equipes de tevê, da Coréia do Sul ou dos Estados Unidos, para citar dois países, cujas equipes estiveram filmando com os Matis em 2009, duas experiências etnográficas por mim compartilhadas e apresentadas em mais detalhe ao longo dessa tese. Para entendermos em um rápido exemplo a rapidez dessas transformações, basta escrever que o primeiro Matis a ir para uma cidade foi Binan Tuku, também o primeiro a, ainda jovem, aprender português e a língua marubo. Hoje, é um dos principais responsáveis por estabelecer e manter relações com guias turísticos peruanos e colombianos, turistas alemães e gerentes de hotéis de selva e urbanos.
Se os primeiros documentaristas entraram na vida dos Matis logo após o contato estabelecido pelo governo, no final dos anos 70, os Matis entraram com força no universo de tecnologias de informação e comunicação apenas a partir de 2005. Em 2011, alguns jovens utilizam telefones celulares, laptops (ou lepitopis, como escreve Luis Fernando Verissimo), câmeras digitais, possuem e-mails próprios, três deles possuem perfis em redes virtuais como o Orkut. Os turistas também chegaram com mais assiduidade a contratar os Matis apenas após 2005.
Esta tese trata portanto de diversos aspectos relacionados às economias da cultura Matis que se dão, como mostrarei ao longo dos capítulos, com diversos outros a quem os Matis chamam de nëix (animais/caça), tsussin (potências/seres desencorporados) e nawa (estrangeiros, entre eles, brasileiros e ―gringos‖, documentaristas, turistas e pesquisadores).
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Minha dissertação de mestrado trata das narrativas de contato dos Matis com o governo brasileiro, ocorrido em 1976 e 1978, e das narrativas Matis sobre o contato oficial do governo com um pequeno grupo de indígenas Korubo, no qual os Matis trabalharam ativamente como tradutores intérpretes e, até hoje, como principais intermediários entre brasileiros e Korubo (Arisi 2007; Arisi 2010).
Foto 1: Binan Chapu Chunu (esq.) e Txami mostram uma caneca