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– Appliquer un pesticide

Dans le document Code de gestion des pesticides (Page 27-34)

Tudo está sujeito à mudança? Ou há algo que se mantém absolutamente imutável, sendo imune ao tempo? Essa é uma indagação dos primórdios da filosofia ocidental e que, de alguma maneira, ainda continua em aberto.

Tal questionamento, igualmente, interessa ao nosso estudo, pois, se tudo muda com a passagem do tempo, a temporalidade é de fundamental relevância para as demandas processuais. Acrescente-se que, em relação a algumas delas – por sua natureza e por outros fatores - tal importância se mostra mais patente.

Com Heráclito, em torno do ano 500 a.C., e Parmênides, aproximadamente no ano 450 a.C., o debate foi inaugurado, permanecendo aceso por toda a história ocidental, chegando aos dias hodiernos como um assunto atual e provocador. As reflexões dos dois filósofos pré-socráticos, as quais não receberam registros escritos dos próprios autores, passaram a ser referenciais para os esforços que se seguiram. Seus pensamentos foram citados por outros sábios, em grande parte nas obras de Platão e Aristóteles, e assim se eternizaram no mundo do conhecimento.255

RUSSELL256 refere-se a Heráclito como precursor dos estudos e reflexões sobre o tempo, para quem tudo o que existe se acha num estado de fluência

255

Ver relato de Bertrand Russell, em sua obra clássica História da filosofia ocidental, Trad. Brenno Silveira, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1957, p. 53.

256

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental. Trad. Brenno Silveira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, p. 48, 52-53.

permanente. Nada, no mundo, é estático e alheio a mudanças. Nada nem ninguém se sobrepõe ao tempo ou aos seus efeitos. Nem o Sol de todos os dias é o mesmo Sol, “pois o Sol é novo a cada dia”, sendo, a cada dia, um novo Sol. E, cita Platão, para quem nada é, pois tudo se está fazendo, e Aristóteles, segundo o qual nada é constante. Com isso, demonstra uma linha de pensamento da filosofia grega - jônica e ateniense - no sentido de que o mundo e tudo nele se apresentam num estágio permanente de mudanças, numa dinâmica que se sujeita necessariamente aos efeitos do tempo.

Ocorre que a concepção de fluência geral do tempo causa a sensação de insegurança e coloca o homem diante de um cenário de inquietação e, conseqüentemente, de busca de refúgio ou abrigo contra a instabilidade contínua. É sabido que o ser humano, por mais que detenha o conhecimento e a razão, é frágil e nada pode fazer diante de alguns eventos da natureza, que lhe são enigmáticos e muito presentes, a exemplo do inescapável fim da própria vida, que é o maior dos dramas que afligem o homem.

A incapacidade diante de uma projeção desconhecida ou em face de um risco conhecido deixa o ser racional em sensação de fragilidade, e logo é despertado nele um impulso natural em busca de refúgio e patrocínio contra a incerteza e a iminência de perigo.

Os esforços pela conquista de estabilidade e segurança são aptidões inatas ao ser humano. Os direitos fundamentais, aí incluído o direito de proteção jurídico-jurisdicional dos direitos básicos mediante um processo que dure o tempo devido, são bons exemplos decorrentes de lutas por um lugar seguro.

A doutrina do fluxo perpétuo, em que tudo está sujeito aos efeitos modificadores da temporalidade, é algo doloroso. O homem, com seu conhecimento

e com sua capacidade de decifrar os mais inacessíveis segredos, mostra-se incapaz de penetrar profundamente nos mistérios do tempo, pouco podendo fazer para refutá-lo. Mas, isso não impediu as tentativas várias de resistência diante da idéia de fluência geral, com a procura de algo que não se submetesse ao império e à força incontrolável da passagem desse fenômeno.

A busca pela permanência diante do curso temporal começa, em termos de filosofia do Ocidente, com Parmênides, em torno de 450 a.C., o qual se colocou no extremo oposto da teoria de Heráclito, replicando-a severamente. O filósofo de Eléia acreditava na imutabilidade geral e afirmava categoricamente que nada mudava.

Tal levante radical contra a concepção de fluência geral evoluiu para a compreensão intermediária de que em tudo há uma substância e que esse substrato não está sujeito aos efeitos modificativos e implacáveis do tempo. O próprio Heráclito, para quem tudo está em estado corrente, já admitia alguma coisa duradoura, como o fogo central, o fogo do qual o mundo foi criado, que nunca se extingue.257

A crença na existência de uma essência permanente e imodificável levou o homem a acreditar na indestrutibilidade do átomo, de forma que toda mudança física importaria em nova disposição dos elementos persistentes e duradouros. Essa certeza restou abalada depois da descoberta da radioatividade, quando a física comprovou que até mesmo os átomos são passíveis de desintegração. Mas, os estudos evoluíram, e assim foram descobertas unidades ainda menores que os átomos, chamadas de elétrons e prótons, das quais os átomos são compostos. No

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RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental. Trad. Brenno Silveira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, p. 54-56, 61.

início, a certeza da inalterabilidade das partículas microscópicas, mas depois se soube que esses elementos são passíveis de explosão e destruição.

ADEODATO,258 em estudos baseados na filosofia de Nicolai Hartmann e na linha da reflexão platônica, pontua que uma das características que distinguem o

ser real do ser ideal é a temporalidade e que esta – a temporalidade - apresenta três

fatores: (1) a processualidade, segundo a qual “[...] tudo o que é real flui, ou seja, é mutável”, de maneira que todo “ente real está sujeito a um processo de modificação em interação com outros entes reais também inseridos na temporalidade”; (2) a

identidade, que significa o atributo de, no contexto de mudanças, expressar

permanência dentro do processo, o que implica alterações em ritmos mais lentos; e 3) a limitação, importando que o ser real é finito no tempo.

Tem-se, então, que o ente ideal, que consiste no mundo inteligível de Platão, resiste ao império do tempo, é duradouro e infinito; enquanto que o ser real, consistente no mundo sensível do pensador ateniense, é finito, sempre sujeito a mudanças impostas pela passagem do fenômeno temporal. No entanto, pelo atributo

da identidade, a essência do ser real sofre transformações em ritmo mais lento,

mantendo, no processo de modificação, os extratos substanciais por tempo maior. As partes e os interesses envolvidos em qualquer lide processual são pertencentes ao mundo real e sensível. Todavia, as pessoas que participam, direta ou indiretamente, de uma lide, assim como as coisas que formam o objeto da causa em discussão, estão sujeitas à força modificadora e implacável que decorre da passagem do tempo. Há, porém, um substrato que, em função do emblema da identidade, muda em velocidade menor.

258

ADEODATO, João Maurício. Filosofia do direito: uma crítica à verdade na ética e na ciência. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 116-117.

O tempo e sua extensão são, de fato, fatores naturais de grande relevância na condução dos mecanismos de proteção de direitos, capazes de fazer desaparecer as partes do processo e as coisas que formam o objeto da causa, ou, no mínimo, de provocar alterações muito significativas, passíveis de atingir duramente a legitimidade, o caráter satisfatório e pacificador das decisões e até a utilidade das mesmas.

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