Antes de aprofundar a discussão sobre o resíduo dos pisos e revestimentos, é necessário caracterizar os materiais alvo da discussão deste trabalho, afim de detalhar a composição do material, fatores dimensionais, tolerâncias, absorção de água, entre outros.
O piso cerâmico, assim como o revestimento cerâmico é uma placa extrudada ou prensada destinada ao revestimento de pisos. Fabricada com argila e outras matérias-primas inorgânicas, com a face exposta vidrada ou não e com determinadas
propriedades físicas e características próprias compatíveis com a finalidade. O porcelanato é o piso cerâmico não vidrado composto por pigmentos misturados à argila durante o processo de prensagem. Quando queimados os ladrilhos apresentam aspecto de pedra natural, em que camadas de pigmentação permeiam a base de argila. Possibilitam o acabamento polido (com brilho) e não polido (sem brilho). (Yazigi, 2011).
O autor ainda trata do dimensionamento, onde suas dimensões podem ser divididas em: nominal, referenciada aos pisos cerâmicos individuais e dadas em centímetros; a de fabricação, fixada pelo fabricante e em conformidade com a nominal. O fator da tolerância das dimensões reais é o valore externo a que podem chegar as dimensões das peças individuais, em relação às suas dimensões de fabricação.
Essencialmente os pisos e revestimentos fazem parte da fase de acabamento da obra. Para Nagalli (2014) a fase de acabamento é, em conjunto com a etapa construtiva de alvenarias, o grande vilão na geração de resíduos. Por outro lado, acaba sendo uma oportunidade de fomentar o desenvolvimento de padrões que possam contribuir com o planejamento e gerenciamento dos resíduos das obras, antes mesmo dela acontecer.
[...] ao investigar as publicações disponíveis na área, concluíram que a investigação sobre os resíduos de construção e demolição ainda não é sistemática e carece de aprofundamento e padronização. (YUAN; SHEN, 2011 apud NAGALLI, 2014, p. 6).
A perda inerente ao processo produtivo não deve ser encarada como natural. O grande desafio para a construção civil é uma melhoria e ampliação do ambiente construído com o emprego de um volume menor de recursos naturais, sendo o projeto uma das fases capazes de contribuir com otimização dos recursos empregados.
Os resíduos gerados, provenientes das perdas ocorridas durante o processo de construção ou de demolições, são responsáveis por aumentar ainda mais o impacto ambiental provocado por este setor. (SENAI; SEBRAE ; GTZ, [s.d.], p. 11).
Para as relações comerciais de venda de produtos utilizados no processo construtivo, estipular um percentual excedente e convencioná-lo ao pensamento de perda natural em função do desperdício em obra, pode ser lucrativo. No caso dos pisos e revestimentos aplica-se a compra um acréscimo de 10% podendo chegar a
15%7, prevendo o suposto desperdício. Ou seja, o percentual excedente é vantajoso,
pois continua sendo venda, movimentando o setor e os fornecedores.
A prática citada vai na direção oposta aos conceitos de sustentabilidade aplicados à construção civil. Fabricantes disponibilizam pessoal treinado e capacitado para especificação de seus produtos em suas lojas e pontos de venda, atendendo às necessidades dos clientes, mas sem considerar a racionalização geométrica e a eficiência no consumo do material como fator decisivo. As escolhas e especificações de produtos, muitas vezes, estão ligadas apenas aos valores estéticos pretendidos.
[...] o gerenciamento de resíduos deve atuar como um conjunto de ações operacionais que busca minimizar a geração de resíduos em um empreendimento ou atividade. Usualmente estruturado por meio de um programa ou plano, costuma abranger conteúdos relacionados a seu planejamento, delimitação e delegação de responsabilidades, práticas, procedimentos e recursos (materiais humanos, financeiros, temporais etc.), atividades de capacitação e treinamento, diagnóstico e/ou prognostico dos resíduos. (Nagalli, 2014, p. 09 e 10).
Há um outro fator que contribui para a escolha e especificação após a fase projetual de determinados elementos de obra. É a diversidade atual e a quantidade de lançamentos anuais de produtos de acabamentos disponíveis no mercado tanto no aspecto técnico quanto de design. Esta diversidade cria no mercado uma expectativa pelo novo. É também utilizado como argumento de venda adicional, sendo atribuído à padronagem estética, gerada pelos lotes produtivos, a necessidade de compra excedente. O mesmo material pode ter outra tonalidade, textura e pequena diferença dimensional, que podem ser percebidas na composição de um piso por exemplo.
Cabe reforçar que pode não ser vantajosa para a indústria a redução do consumo devido a utilização de um regramento mais criterioso no que diz respeito ao padrão dimensional, técnico e estético das peças de pisos e revestimentos. No universo da sustentabilidade, a prática comercial em função dos índices de resíduos comprovados dos produtos objeto desta pesquisa, interfere na necessidade de consumo dos pisos e revestimentos, sendo também um fator contrário da sustentabilidade econômica e social.
7 Informações quanto ao percentual de compra excedente de pisos e revestimentos, conforme conhecimento prático do pesquisador. 10% para paginação de piso ortogonal e 15% para paginação diagonal.
Especificamente, na indústria de pisos e revestimentos, evidencia-se uma ausência de normatização e padronização quanto ao dimensionamento das peças, que disponibilizam 741 itens8 entre os dois fabricantes escolhidos para a presente
pesquisa. Essa diversidade, aliada à constante inovação e lançamento de produtos no mercado, vícios nos processos de compras nas construtoras, dificultam a especificação prévia pelos arquitetos e engenheiros com critérios de racionalização geométrica e modular, contribuindo para o aumento do desperdício e resíduo destes materiais.
Portanto, existe a necessidade de mudança imediata no pensamento empregado na cadeia da construção civil. Projetar e planejar conforme informações previamente determinadas, faria com que o projetista tivesse a possibilidade de diminuir ou extinguir o resíduo gerado pelo processo produtivo essencialmente artesanal.
É importante pensar o material que será especificado, não somente na questão da aplicabilidade de modo genérico, mas nos diversos fatores que podem influenciar nos fatores de sustentabilidade da edificação. Esses fatores podem ser: procurar saber se o produto possui na sua fabricação algum elemento nocivo à saúde; se é possível ser reciclado; se durante a aplicação gera resíduo, entre outros. Conhecer antes de especificar e/ou projetar é fundamental para o equilíbrio ambiental entre projeto, execução e demolição.
No projeto de edificações, a especificação de materiais está entre as tarefas mais frequentes dos estudantes que estão se tornando profissionais. Ela também é uma das bases de conhecimento e treinamento dos arquitetos de edificações sustentáveis. Isso acontece porque a especificação de materiais representa a espinha dorsal da edificação sustentável, ou seja, trata-se de uma metáfora para a área como um todo e, portanto, contém uma ideia básica – o pensamento no ciclo de vida. (Keeler & Burke, 2010, p. 183).
O especificador deve certificar-se que a indústria realmente atende aos fatores ambientais no processo produtivo e no próprio produto, que o material cumpre o que é anunciado, evitando ser iludido pelos esforços de marketing em camuflar as implicações ambientais negativas de um material por meio da supervalorização de atributos ambientais irrisórios.
Tratando o resíduo e o impacto ambiental, para Yazigi (2011), o desperdício pode ser conceituado como qualquer atividade que consome recursos e não agrega valor ao cliente. Perda pode ser considerada qualquer influência que reflita no uso de mão de obra, materiais e equipamentos em quantidades superiores àquelas necessárias à produção da edificação. O desperdício em obras tem as mais variadas origens, como:
Falhas na empresa construtora:
• falhas de gestão e organização (projetos não-otimizados, inadequação entre o projeto e o empreendimento; falhas de suprimento de materiais e mão de obra e outras);
• falhas humanas;
• deficiência nos controles. Falhas no processo de produção:
• perda de materiais (excesso de argamassa de assentamento e revestimento; desequilíbrio nas dosagens de argamassa e de concreto; roubos e danos; inadequação de estocagem e outras);
• problemas da qualidade (com consequentes reparos e retrabalho); • baixo índice de produtividade (mão de obra de baixa qualificação; falta
de racionalização da produção – equipamentos, métodos e processos produtivos inadequados);
• falta de gerenciamento da produção.
Yazigi (2011) afirma, ainda, que existe uma grande variação no índice de perdas de um mesmo insumo em diferentes canteiros de obras e que grande parte das perdas é evitável mesmo sem a alteração substancial do processo construtivo. Dentre os pisos e revestimentos a incidência de perda pode ser atribuída a fragilidade do material, excesso de corte nas peças para a à execução da obra.
Tabela 1 – Identificação dos possíveis desperdícios
Fonte: Yazigi (2011, p. 103), modificado pelo autor (2017).
Para Souza (2005), fundamentado em alguns estudos nacionais sobre as perdas relacionadas a pisos e revestimentos cerâmicos, quando analisadas em conjunto com todo o resíduo gerado pelas obras datadas do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, as perdas relacionadas a pisos e revestimentos cerâmicos tem variação média entre 9% a 16% do resíduo total. Já no cenário internacional, este resíduo não passava de 6% por volta de 1980.
As perdas ocasionadas pelo recorte excessivo de peças cerâmicas para pisos e revestimentos é considerada perda no processamento em si e tem origem na natureza das atividades do processo ou na execução inadequada dos mesmos. Essas perdas são decorrentes: da falta de procedimentos padronizados; ineficiências nos métodos de trabalho; da falta de treinamento da mão de obra; deficiências no detalhamento, construção e aplicabilidade dos projetos.
Etapa Construtiva % custo Possibilidade de desperdício
Justificativa das etapas de desperdícios pequenos ou inexistentes
1 Serviços Preliminares 0,59 Pequena Trata-se de Serviços de instalação de canteiro e ligações provisórias. Obedecem ao projeto de canteiro
2 Infra e Supraestrutura 31,16 Sim
3 Vedação 3,1 Sim
4 Esquadrias de Maderia e Metálicas 13,36 Pequena Adquire-se exatamente o que será aplicado 5 Instalações Elétricas e Hidráulicas 17,25 Pequena Adquirem-se e aplicam-se de acordo com o projeto
6 Forros 0,16 Sim
7 Impermeabilização 1,21 Pequena Aplica-se de acordo com o projeto 8 Revestimentos de Tetos e Paredes 10,69 Sim
9 Pisos Internos 4,48 Sim
10 Vidros 3,34 Pequena Aplica-se de acordo com os vãos
11 Pintura 3,57 Pequena Aplica-se de acordo com a especificação, nas paredes e tetos acabados
12 Serviços Complementares 3,83 Não há Trata-se de serviços de arremate, limpeza etc. (como o próprio nome diz, são complementos)
13 Elevadores 7,26 Não há Adquirem-se exatamente de acordo com o especificado no projeto
Figura 2: Anúncio de venda de resíduo cerâmico Fonte: B2blue (2014).
A Figura 02 demonstra o volume de pisos e revestimentos cerâmicos, resíduo da construção sendo ofertado para consumo. Pode ser reaproveitado em outras edificações. Porém, para o mercado consumidor essa possibilidade é reduzida, uma vez que os consumidores buscam produtos novos. Nem todo o resíduo é descarte ou poluidor. Se ainda for tratado na fase projetual, será previamente reduzido ou eliminado, não se tornando um potencial problema ambiental.
É necessário conscientizar de que o desperdício na construção civil, seja por exigências dos clientes, seja por planejamento inadequado, resulta em prejuízo para toda a sociedade. (SENAI; SEBRAE; GTZ, [s.d.]).
O dimensionamento do espaço construído, racionalizando o uso do produto de piso e revestimento padronizados pelo critério da modulação, torna-se indispensável para a sustentabilidade no ambiente construído.
3.4 INDUSTRIALIZAÇÃO, UM FATOR DE RACIONALIZAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Este trecho não tem o intuito de discutir os métodos e processos construtivos empregados na construção civil industrializada, mas fortalecer o raciocínio industrial de otimização e racionalização da matéria-prima, como premissa projetual para redução dos resíduos da construção civil e principalmente do objeto deste trabalho.
Ao tratar do assunto, logo surgem referências históricas que marcaram o processo. O fordismo é um exemplo, que se destaca pela inovação no processo de fabricação, por meio do sistema de linha de produção, otimizando os custos pela eficiência produtiva. Advindo deste referencial histórico para o processo industrial, a capacidade das indústrias em produzir mais e com maior eficiência, acarretam, consequentemente, numa necessidade maior de matéria-prima alimentando as linhas de produção.
A fábrica da Ford, em River Rouge, era o paradigma do fluxo de produção em uma escala massiva: enormes quantidades de ferro, carvão, areia e outras matérias-primas entravam por um lado da instalação e, uma vez dentro, eram transformadas em novos carros. As indústrias engordavam à medida que transformavam recursos em produtos. (MCDONOUHT; BRAUNGART, 2013, p. 31 e 32).
Mcdonouht e Braungart (2013) afirmam que a capacidade da indústria em aumentar a produção aumenta também o consumo de recursos naturais. Industriais, arquitetos, engenheiros e designers do passado não pretendiam causar efeitos devastadores. Aqueles que hoje perpetuam esses paradigmas não pretendem prejudicar o mundo. O resíduo, a poluição os produtos brutos e outros efeitos negativos que são descritos, não são resultado de corporações que fazem algo normalmente errado.
Portanto, quanto maior a capacidade produtiva, maior será consumo da matéria prima e consequentemente maior será o resíduo. Porém ao aproximar este contexto da maior eficiência, da indústria ao processo construtivo brasileiro que é consideravelmente artesanal, os princípios da industrialização trariam benefícios às obras, no que diz respeito a diminuição do consumo e do resíduo.
O setor assume hoje seu papel de indústria competitiva que registra os maiores índices de capacidade de emprego. Porém, ao contrário das outras indústrias de transformação, a construção civil possui peculiaridades que, ao mesmo tempo em que
dificultam o emprego de metodologias de trabalho eficientes, estimulam a busca por soluções mais econômicas e rápidas. Alie-se a isto a necessidade do setor de adequar-se às novas tendências industriais no que diz respeito a capacidade de reduzir ao mínimo o consumo dos recursos naturais e os resíduos gerados. (SENAI; SEBRAE; GTZ, [s.d.]).
Enquanto os países desenvolvidos trabalham essencialmente com o processo industrializado na construção civil, os países em desenvolvimento ainda caminham lentamente nesta direção e na implementação de tecnologias que visem a otimização dos recursos naturais e humano.
O processo de produção de uma edificação não está baseado somente na montagem dos elementos e na concepção da arquitetura diversificada, mas em uma série de fatores econômicos, logísticos, organizacionais e culturais; considerando-se esses aspectos, observa-se que a industrialização gradativamente vem sendo introduzida no Brasil. Observa-se, contudo, que ainda se tem um caminho a percorrer, no que se refere às questões de modulação, ou seja, somente após a sua efetiva introdução, a industrialização da construção poderá́ exercer melhor o seu papel. (ABDI, 2015, p. 37).
Um outro fator de extrema importância no processo industrial é a tecnologia da informação que, empregada nos processos industriais tem transformado a economia em todos os níveis. Aliando-se a engenharia e a tecnologia, existe a tendência de se reduzir o consumo da matéria-prima e da força muscular.
A racionalização da construção tem como objetivo a otimização do processo de construção (aumento de produtividade, rentabilidade e qualidade) por meio da aplicação de tecnologia e alguns princípios da economia. Visa melhorar principalmente o equilíbrio entre o homem e a máquina, o fluxo de materiais e produtos, o fluxo de informações e a organização do processo de produção. (SENAI, SEBRAE, & GTZ, [s.d.], p. 41). “É necessário aplicar os princípios de racionalização construtiva, considerando a coordenação modular do projeto e a padronização de componentes e elementos ou sistemas construtivos”. (ABDI, 2015, p. 38).
Para que este processo possa acontecer não é necessário um grande investimento financeiro para a implantação de novas técnicas construtivas ou equipamentos nos canteiros de obras. Pequenas mudanças no processo projetual, inserindo novos conceitos e tecnologias, podem mudar a rotina de trabalho dos operários melhorando o processo construtivo, gerando economia de materiais e tempo e consequentemente os resíduos. Pode também fazer parte do processo de obra,
onde as adaptações ao planejamento podem otimizar o uso do material e o tempo de execução das tarefas. Porém, de certa forma, este pensamento é contrário ao procedimento industrial, que não abre margem para as adaptações no processo em execução, sendo o planejamento prévio o momento de esgotar as possibilidades e erros que possam existir na efetivação da ação.
O sistema construtivo mais usual na construção civil brasileira condiciona a execução dos serviços por meio de processo artesanal, de baixa produtividade, alto índice de desperdício e baixo desempenho ambiental. Nesse sistema, se a mão de obra for especializada e de qualidade, poderá diminuir o resíduo, mas, mesmo assim, não será como nos sistemas industrializados no que diz respeito a eficiência produtiva. A construção industrializada possibilita a transformação do canteiro de obras em uma linha de montagem, possibilitando um tempo de execução menor, evitando desperdício de material na obra e atendendo melhor a alguns requisitos de sustentabilidade na construção civil. Além disso, em geral, o rigor nos processos industriais tende a entregar produtos de que passam por exigentes controles de qualidade e com padronização, devido à tecnologia avançada em que os elementos construtivos são produzidos.
Dessa forma, pode-se considerar que o uso de sistemas construtivos industrializados permite produzir em maior quantidade, com melhor qualidade, melhor controle e em um tempo menor comparativamente a outros tipos de sistemas construtivos. (ABDI, 2015).
Aumentar a lucratividade pelo menor desperdício, trabalhando com maior eficiência é necessário, quando se almeja a melhoria da qualidade do processo e consequentemente do produto. Essa busca pelos princípios da industrialização empregados na construção civil traz ainda mais benefícios, já que a racionalização da matéria prima e da mão de obra é essencial para a melhoria do consumo de materiais e a otimização da produção.
Devemos considerar que o projeto é desenvolvido pela interação entre as várias especialidades de projeto e que mesmo o processo de produção do empreendimento é resultado da participação de diversos outros agentes; dessa forma, a qualidade do projeto e do empreendimento envolve não apenas a gestão dos processos em cada empresa, mas, também, a articulação entre os processos dessas empresas. (Melhado, 2005, p. 18).
Tratar a processo de assentamento de pisos e revestimentos sob a ótica da industrialização e racionalização, faz refletir sobre o processo projetual empregado na maioria das obras, onde os acabamentos não fazem parte do planejamento inicial. Sendo assim, os processos das empresas construtoras precisam ser revistos, para que o resíduo gerado seja menor e o lucro maior.