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Application aux équations diérentielles spatialisées

Approche multi-paradigmes

2.4 Application aux équations diérentielles spatialisées

Segundo Bromley & Thomas (1993a), nos anos 1980, o setor da venda a retalho alimentar sofreu um forte processo de concentração de capital, resultado da ascensão de um pequeno número de empresas cujos níveis de lucro, de emprego, de quota de mercado e de influência política começaram a rivalizar com outros setores da economia (Wrigley & Lowe, 2002; Pacione, 2005). Por exemplo, entre 1982 e 1990, a quota de mercado dos 5 principais grupos retalhistas alimentares subiu de 25 para 61% no Reino Unido. Em Portugal, entre 1991 e 1994, segundo Teixeira (1996), os 5 principais grupos elevaram a quota de mercado de 30 para 41%. Em 2007, esses grupos representavam 64% da quota de mercado de distribuição alimentar (APED, 2009), valor que ascendeu, em 2017, a 80% (Informa D&B, 2018).

O progressivo crescimento das grandes cadeias de distribuição e o respetivo nível de concentração do capital decorre, segundo Burt & Dawson (1994) e Wrigley & Lowe (2002), de fusões e aquisições ou por crescimento orgânico, ancorado no desenvolvimento de programas expansionistas de novos pontos de venda, possibilitando, através dessas estratégias, aumentar a quota de mercado nacional e até internacional (Tabela 3.1). Cachinho (1994) afirma que, no caso da cidade de Lisboa, embora ainda predomine a endémica pequena empresa familiar (Barata-Salgueiro, 1996; Barata-Salgueiro et al., 2002; Fernandes et al., 2000; Rousseau, 2008), a participação de grandes empresas no retalho alimentar é crescente, não só através de associações ou fusões, como também através do pontecial oferecido pelas operações em regime de franchising.

As transformações na estrutura organizacional do retalho decorrem, em primeiro lugar, da revolução comercial protagonizada pelo livre-serviço (Barata-Salgueiro, 1989, 1996; Gardner & Sheppard, 1989; Mérenne-Schoumaker, 1983) e consequentes economias de escala, que possibilitaram o crescimento em área dos pontos de venda e que colocaram em causa a sustentabilidade dos comerciantes independentes devido ao aumento do número de grandes

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superfícies alimentares (Bromley & Thomas, 1993a; Rousseau, 2008; Öner & Larsson, 2014; Wrigley & Lowe, 2002), o que possibilitou, além do aumento da escala das operações, reduzir os custos com o pessoal e reorientar as estratégias de marketing (Barata-Salgueiro, 1989; Rousseau, 2008).

Tabela 3.1: estratégias espaciais das grandes cadeias de distribuição alimentar

Pr o d u to s Mercados Existentes Novos Existentes

• Domínio do mercado de produtos • Aumento da quota de mercado

• Expansão geográfica nacional

• Expansão interna e diversificação da loja Novos

• Introdução ou desenvolvimento da gama de produtos ou serviços

• Entrada em novos mercados de produtos ou serviços

Fonte: adaptado de Burt & Dawson (1994)

Este processo de concentração do capital não está desconectado da progressiva flexibilização do aparelho regulatório do Estado, uma vez que as empresas em ascensão alteraram as relações entre os distribuidores e os produtores. Estas novas relações entre produtores e distribuidores potenciaram o processo de concentração do capital num pequeno número de empresas, sendo a introdução das marcas de distribuidor um exemplo disso. Por isso, como argumentam Barata-Salgueiro (1989) e Cachinho (2005), o rendimento das superfícies alimentares não se baseia apenas no lucro obtido com a atividade comercial, mas também na atividade financeira associada, o que implica, por exemplo, exigir produtos de maior qualidade e com melhor design e ainda extensos prazos de pagamento aos produtores, exclusivamente subcontratados para produzirem as marcas de distribuidor, introduzidas no mercado português em 1984. Tal relação conduziu ao declínio de múltiplas marcas de produtor, consolidando a quota de mercado das marcas de distribuidor e a sua reputação, além de fidelizar os clientes (Gardner & Sheppard, 1989; Rousseau, 2008; Wrigley & Lowe, 2002). Estas novas relações eliminaram, em alguns casos, a complexidade dos circuitos de distribuição (Rousseau, 2008) e possibilitaram que os distribuidores tivessem um papel fundamental na ligação entre produção e consumo, limitando a ação do setor grossista e dos próprios produtores, uma vez que são os distribuidores que controlam o acesso a partir do qual os produtos chegam às prateleiras das superfícies alimentares. Assim, como realçam Dawson (1995) e Rousseau (2008), o distribuidor é, a partir dos anos 1970, o rei dos circuitos de distribuição, cabendo-lhe a ele negociar com os produtores os desejos dos consumidores.

Além da crescente concentração e internacionalização do capital retalhista, as novas técnicas de logística e de distribuição são outra tendência pesada das transformações na organização e distribuição retalhista (Burt & Dawson, 1994). A gestão logística melhorou significativamente desde

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o fornecedor, através do back-office, passando pelo momento de inventariação dos produtos, até chegar ao consumidor, através do front-office (Teixeira, 1996).

No início dos anos 1970, os retalhistas recebiam os produtos diretamente dos produtores. Visando potenciar a disponibilidade de stock e aumentar o controlo sobre os produtos, os retalhistas começaram a centralizar, nos anos 1980, os procedimentos logísticos através de grandes armazéns de distribuição regional. Havendo uma permanente ligação entre o produtor e o retalhista, através da monitorização dos indicadores de procura e de oferta, a gestão dos stocks é facilitada, permitindo o planeamento da produção e da distribuição no sistema just-in-time (Barata-Salgueiro, 1996) com três benefícios de flexibilização da atividade retalhista. Segundo Wrigley & Lowe (2002), o primeiro benefício prende-se com a gestão dos níveis de stock nas lojas; o segundo envolve a melhoria da qualidade dos produtos; e, finalmente, verificam-se aumentos na produtividade, uma vez que existe uma redução no tempo entre produção, entrega e compra. Além desta transformação, a leitura ótica, a etiquetagem dos produtos, as compras através de cartões magnetizados e, principalmente, a primeira grande revolução no setor retalhista protagonizada pelo livre-serviço constituem transformações importantes no sistema logístico e de vendas (Barata-Salgueiro, 1996). Também a consolidação do comércio eletrónico, no final dos anos 1990, possibilitou que as grandes cadeias se tenham movido para esses canais eletrónicos, apesar de Fernie (1995) ter classificado de prematuro o desaparecimento da dimensão física dos pontos de venda, pois considerava o e-comércio um complemento aos negócios físicos existentes. Outros anteciparam a reduzida necessidade de se deslocar à loja devido ao crescimento das entregas ao domicílio (Wrigley & Lowe, 2002).

Perante estas transformações na estrutura organizacional do setor retalhista, a mudança no tipo de estabelecimentos e as mudanças dos seus padrões de localização são uma consequência natural das operações retalhistas. A crescente concentração da quota de mercado resultou no aumento da importância das grandes superfícies e da diversificação dos formatos de lojas, tendo impactado ainda na reorganização das estruturas locativas dos estabelecimentos alimentares (Barata- Salgueiro et al., 2002; Cachinho, 1994), que abordaremos mais adiante.